sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
A Eira de Pedra e o Alpendre: Ritmo das Estações e Trabalho da Colheita
A eira de pedra e o alpendre constituem dois espaços centrais na vida agrícola da Casa de Sanoane de Cima. Mais do que estruturas funcionais, eram lugares onde o tempo se media pelas estações e onde o trabalho coletivo dava forma ao quotidiano rural. Construída em lajes de pedra, a eira ocupava um ponto aberto e bem exposto, pensado para receber o sol e o vento, elementos essenciais ao processo de secagem e malha dos cereais.Era na eira que o ciclo agrícola atingia um dos seus momentos mais intensos. Depois da ceifa e do transporte das medas, iniciava-se o trabalho de malhar o milho, o centeio e os feijões. O som ritmado dos manguals a bater no chão de pedra marcava os dias de trabalho, repetindo gestos aprendidos desde cedo, passados de pais para filhos. Cada colheita tinha o seu tempo próprio, respeitando o calendário natural e as condições do clima.O milho, base da alimentação, exigia longas jornadas de trabalho. Depois de seco, era malhado para libertar o grão, que mais tarde seria guardado no canastro. O centeio, cereal antigo e resistente, seguia um processo semelhante, sendo fundamental para a produção do pão. Os feijões, colhidos e secos, eram igualmente malhados na eira, completando um sistema agrícola de subsistência onde nada se desperdiçava.O alpendre, contíguo à eira, funcionava como espaço de apoio e transição. Protegia do sol intenso do verão e das primeiras chuvas do outono, permitindo que o trabalho continuasse mesmo quando o tempo mudava. Era ali que se guardavam ferramentas, se faziam pausas breves e se trocavam palavras durante o labor. O alpendre criava um abrigo simples, mas essencial, onde o esforço físico encontrava momentos de descanso e convívio.As estações do ano determinavam o ritmo da eira. O verão era tempo de maior atividade, de dias longos e intensos, enquanto o outono trazia a conclusão das colheitas e a preparação para o inverno. A eira transformava-se então num espaço mais silencioso, aguardando o regresso do ciclo agrícola. Ainda assim, permanecia como referência constante, visível e presente no conjunto da casa.Na eira e no alpendre cruzavam-se gerações. Crianças aprendiam observando, adultos trabalhavam em conjunto, e os mais velhos orientavam e transmitiam saberes. O trabalho não era apenas esforço físico; era também aprendizagem, partilha e pertença. Cada colheita reforçava laços familiares e comunitários, consolidando uma cultura de entreajuda profundamente enraizada.Hoje, a eira de pedra e o alpendre permanecem como testemunhos materiais de um modo de viver organizado em torno da terra e das estações. As marcas do uso, gastas pelo tempo e pelo trabalho, contam uma história silenciosa, onde o ritmo do ano agrícola continua inscrito na pedra e na memória da Casa de Sanoane de Cima.
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