sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
A Casa, o Lugar e o Tempo
Antes de ser paredes de pedra, a Casa de Sanoane de Cima foi lugar. Lugar escolhido, habitado e cuidado por gerações que souberam ler a paisagem, respeitar o ritmo da terra e inscrever a sua vida no tempo longo do mundo rural.
Ergue-se no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos, numa posição elevada, de onde o olhar alcança campos, caminhos e a cadência serena da vida agrícola.
Não é uma casa isolada: é parte viva de um território, de uma comunidade e de uma memória coletiva.
A sua construção em pedra, sólida e funcional, reflete um modo de viver assente na permanência. Cada muro foi levantado com o esforço de mãos calejadas; cada espaço pensado para responder às necessidades do quotidiano rural.
Aqui, habitar nunca foi apenas morar — foi trabalhar, partilhar, resistir e transmitir.
A casa cresceu com o tempo, agregando dependências agrícolas, adaptando-se às estações, às famílias e às transformações inevitáveis da vida.
A Casa de Sanoane de Cima organizou-se em torno do essencial: a terra, o pão, o vinho e a comunidade.
A eira, aberta ao céu, era espaço de trabalho e encontro; a adega guardava o fruto da vinha e da partilha;
o alpendre protegia do sol e da chuva;
o canastro assegurava o sustento do ano;
o forno de lenha reunia vozes, gestos e rituais que iam muito além da cozedura do pão.
Cada dependência tinha uma função prática, mas também um valor simbólico, inscrito na memória de quem ali viveu.
Ao longo do tempo, muitas famílias passaram por esta casa. Algumas deixaram nomes gravados em documentos, outras permaneceram apenas na lembrança oral, transmitida de pais para filhos. Todas, porém, contribuíram para a construção de uma identidade comum, feita de trabalho árduo, solidariedade e pertença.
A Casa de Sanoane de Cima foi abrigo, escola de vida e ponto de referência numa aldeia onde as relações humanas eram tão importantes quanto a produção da terra.Este livro nasce da vontade de preservar essa herança. Não pretende apenas descrever uma casa antiga, mas dar voz às suas paredes, aos seus espaços e às pessoas que lhes deram sentido.
É um gesto de reconhecimento para com os antepassados e, simultaneamente, um compromisso com o futuro: o de manter viva a memória de um modo de viver que moldou Bucos e que continua a ecoar, silenciosamente, na pedra da Casa de Sanoane de Cima.Aqui começa a sua história — não como passado fechado, mas como memória viva, em permanente diálogo com o presente.
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