sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A Adega: os Pipos, o Lagar e a Lagareta da Casa de Sanoane de Cima

A adega da Casa de Sanoane de Cima sempre foi um espaço de trabalho, guarda e celebração. Inserida no conjunto rural da casa, cumpria uma função essencial no ciclo agrícola: transformar a uva em vinho e conservar esse produto ao longo do ano. Mais do que um compartimento funcional, a adega era um lugar carregado de significado, onde o tempo era medido em colheitas e o vinho acompanhava a vida quotidiana, os rituais e os encontros.No centro da adega encontravam-se os pipos de madeira, de diferentes dimensões, alinhados ao longo das paredes ou dispostos segundo a necessidade da produção. Cada pipo tinha a sua história, o seu uso e, muitas vezes, o seu nome. Eram cuidados com atenção, lavados, reparados e vigiados, pois neles repousava o resultado de um ano inteiro de trabalho na vinha. O vinho ali guardado destinava-se sobretudo ao consumo da família, mas também à partilha com vizinhos, às festas e às ocasiões marcantes da vida.O lagar, espaço de transformação por excelência, ganhava vida no tempo das vindimas. Construído em pedra, sólido e funcional, recebia as uvas recém-colhidas, que eram pisadas segundo práticas antigas, transmitidas de geração em geração. O mosto escorria lentamente, seguindo o seu caminho natural, enquanto o ambiente da adega se enchia de aromas intensos e de um silêncio atento, interrompido apenas pelas vozes e pelo trabalho coordenado.Associada ao lagar, a lagareta cumpria uma função complementar, permitindo um aproveitamento mais cuidado do mosto e das massas da uva. Era um espaço menor, mas igualmente importante, onde se completava o processo de extração e se garantia que nada se perdia. A presença da lagareta revela o cuidado e a racionalidade com que a produção era conduzida, mesmo em contexto de pequena escala familiar.A adega não era apenas lugar de trabalho sazonal. Ao longo do ano, era visitada para provar o vinho, vigiar a fermentação, trasfegar e garantir a sua boa conservação. Era também um espaço de convívio, onde se contavam histórias, se comentavam as colheitas e se reforçavam laços. A adega guardava segredos, saberes e gestos repetidos, inscritos nas paredes e no cheiro persistente da madeira e do vinho.Hoje, a adega da Casa de Sanoane de Cima mantém a sua centralidade, embora com funções transformadas. Os antigos pipos convivem com uma coleção cuidada de garrafões e de garrafas, testemunhando a continuidade da relação com o vinho e a memória do seu uso. Cada objeto preservado representa não apenas um utensílio, mas um fragmento de história, um elo entre o passado produtivo e o presente de salvaguarda patrimonial.A adega permanece, assim, como um espaço de memória viva. Mesmo quando o vinho já não é produzido como outrora, o lagar, a lagareta, os pipos, os garrafões e as garrafas continuam a contar a história de uma casa onde o vinho foi, durante gerações, símbolo de trabalho, partilha e identidade rural.

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