domingo, 14 de dezembro de 2025

O Menino António e a Figueira da Casa de Sanoane de Cima

Na Casa de Sanoane de Cima, onde os muros de pedra guardavam histórias antigas e o sol se demorava a brincar com as sombras, vivia uma figueira grande e generosa. O seu tronco era grosso, retorcido pelo tempo, e as folhas largas pareciam mãos verdes sempre abertas. Ali passava muitos dias o menino António, curioso e alegre, que gostava de ouvir os sons da aldeia: o cantar dos pássaros, o correr da água na ribeira e o vento a dançar nas folhas da figueira. Certa manhã de verão, António aproximou-se da árvore e falou-lhe em segredo: — Bom dia, minha figueira. Será que hoje tens histórias para me contar? A figueira abanou suavemente os ramos, como se respondesse. António sentou-se à sua sombra fresca, sentindo o cheiro doce dos figos maduros. Cada figo parecia guardar um pequeno tesouro de sol. Quando colhia um figo, António lembrava-se de dividir com quem passava: um para o vizinho cansado, outro para a criança que vinha do caminho, outro ainda para a mãe, que sorria ao ver o filho tão generoso. A figueira parecia ficar mais feliz a cada gesto de partilha. Num dia de muito calor, um rebanho passou pela estrada e os animais pararam à sombra da figueira. António levou água fresca e ficou ali, protegido, como se a árvore fosse uma mãe grande a cuidar de todos. Diziam os mais velhos que a figueira da Casa de Sanoane de Cima dava os figos mais doces porque sabia ouvir as crianças. E António acreditava nisso, pois sempre que estava triste, bastava encostar-se ao tronco e sentir o coração ficar leve. Assim, o menino António cresceu, mas nunca esqueceu a figueira. E a figueira, paciente e sábia, continuou ali, ensinando a quem passava que a verdadeira riqueza nasce da sombra partilhada, do fruto dividido e do amor pela terra. E ainda hoje, quem passa pela Casa de Sanoane de Cima diz que a figueira sorri quando uma criança se senta a brincar debaixo dos seus ramos.

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