terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Lembranças de Infância em Bucos, (anos cinquenta).

Lembranças de Infância em Bucos Os Contadores de Histórias, o Jogo da Malha, o Jogo das Cartas e o Jogo do Pau. Quando penso na minha infância, vejo Bucos como uma aldeia cheia de vozes, risos e passos que ecoavam entre tascas, levadas e eiras. Era um lugar onde cada esquina parecia guardar um segredo, e cada casa sabia uma história. Os melhores contadores de histórias da minha meninice reuniam-se, quase sempre, na tasca ou adega do Sr. Jeremias. Lá, brilhavam três figuras que pareciam feitos de palavras: o José Leites, que desenhava histórias no ar com gestos largos; o José Fontes, com aquele jeito pausado que segurava a atenção de todos; e o Rodrigues, que fazia rir até quem chegava cansado do campo. Quando eles se juntavam, a tasca ficava pequena, e a noite parecia nunca querer acabar. Na Tasca do Sr. Orides, porém, o maior contador de histórias era o meu pai, Custódio Braz. Ele não contava apenas duas ou três histórias — ele criava momentos. E, como homem generoso que era, pagava uma rodada de vinho para todos, porque história boa, dizia ele, só se saboreia em conjunto. A tasca enchia-se sempre por dois motivos: para ouvir um conto e para beber um copo. E eu, pequeno, acompanhava-o nessas idas, absorvendo tudo, como quem recolhe sementes para guardar para a vida inteira. No exterior da tasca do Sr. Jeremias havia sempre movimento. Ali jogava-se à malha ou patela, um jogo que misturava destreza e camaradagem. Naquela altura, os melhores jogadores eram o José Portela, o Artur do Maria Teresa e o José Custódio do Lomba. A rapaziada, sentada no bordo da levada de água, assistia às jogadas com seriedade de quem vê campeões. Enquanto a malha voava, os jovens escutavam as narrativas do José Leites ou do José Fontes — como se o jogo e as histórias fizessem parte da mesma tradição. Já na tasca do Sr. Orides o jogo dominante era outro: as cartas. Ali, quem sobressaía era o Taneca, sobretudo no jogo do truque, aquele truque falado, cheio de piscadelas, subentendidos e pequenos blefes. No jogo da sueca, que exigia silêncio e concentração, destacavam-se o Taneca e também o Joaquim da Caseira, que mais tarde seguiu para Maceira do Liz. Outra lembrança viva daqueles tempos era o jogo do pau. Aos domingos de manhã, era tradição ver o Mestre — o Sr. Ernesto dos Santos — ensinar a arte com elegância e precisão. Havia ali um respeito profundo, quase cerimonial, como se cada movimento guardasse a memória de muitos antes de nós. São estas as imagens que guardo de Bucos: as vozes que narravam, as mesas de jogo, a poeira da malha a levantar-se, o murmúrio da água na levada, o cheiro a vinho novo e o brilho nos olhos de quem sabia transformar o quotidiano em histórias que o tempo nunca conseguiu apagar. Porque crescer em Bucos foi isto: viver num lugar onde as histórias uniam as pessoas — e onde a infância, entre palavras e risos, ganhava raízes para toda a vida.

Sem comentários:

Enviar um comentário