sexta-feira, 31 de julho de 2026

A Igreja de São João Batista de Bucos: Das Origens de Sanhoane à Igreja Paroquial

A Igreja de São João Batista de Bucos constitui o mais importante monumento religioso da freguesia e um dos seus maiores símbolos de identidade. A sua história acompanha a evolução da comunidade ao longo de vários séculos, encontrando-se intimamente ligada ao lugar de Sanoane, à antiga Casa de Sanoane e ao desenvolvimento da própria paróquia. A origem do topónimo Sanoane O lugar atualmente conhecido por Sanoane, Rechã de Sanoane, apresenta uma designação muito antiga. Nos documentos dos séculos XVII e XVIII encontram-se formas como Sanhoane, São Joane, San Joane ou Sanhoane de Riba, expressões que derivam do português medieval "San Joane", isto é, São João. A evolução linguística ao longo dos séculos levou à simplificação fonética da palavra, passando de San Joane para Sanhoane e, posteriormente, para Sanoane, forma que se fixou na tradição local.Esta evolução toponímica constitui um forte indício da antiga ligação do lugar ao culto de São João Batista, muito anterior à igreja paroquial atualmente existente. A Capela de Sanoane e a Casa de Sanoane A tradição histórica de Bucos refere que o primeiro centro religioso da povoação foi uma pequena capela situada junto da antiga Casa de Sanoane, uma das mais antigas casas rústicas, agrícolas da freguesia. A Casa de Sanoane, documentada desde o século XVII e referida nas Memórias Paroquiais como Sanhuane e Casa de Sanhoane de Riba, constituiu durante séculos um importante núcleo agrícola e senhorial da freguesia. A proximidade entre a casa e a capela fez daquele lugar o centro da vida religiosa dos habitantes de Bucos. Antes da criação de uma igreja paroquial com maiores dimensões, o sacerdote deslocava-se de São Nicolau de Basto para celebrar missa na pequena capela, respondendo às necessidades espirituais da população dispersa pela Serra da Cabreira. Embora esta tradição seja transmitida pela memória local, ela enquadra-se na organização paroquial existente até ao século XVIII. As Memórias Paroquiais de 1758 Um dos documentos mais importantes para conhecer a história da freguesia são as Memórias Paroquiais de 1758, elaboradas pelo vigário António Alves Teixeira.O documento identifica Bucos como freguesia de São João Batista, então anexa à matriz de São Nicolau de Basto, descrevendo os lugares da freguesia, os rios, as pontes, os moinhos, a agricultura, os caminhos e a organização religiosa. As Memórias demonstram que, em meados do século XVIII, São João Batista já era o orago da freguesia, confirmando a continuidade de uma devoção muito anterior e a consolidação da comunidade paroquial. Constituem igualmente uma fonte essencial para compreender o contexto em que ocorreu a ampliação da antiga capela para igreja paroquial. Da pequena capela à igreja atual Tudo indica que a primitiva capela de Sanoane se revelou insuficiente à medida que a população aumentava. Entre finais do século XVIII e o início do século XIX terá sido executada a principal campanha de ampliação do edifício religioso. Em vez de demolir totalmente a antiga capela, optou-se por integrá-la na nova construção, acrescentando:a nave principal;a capela-mor;a sacristia;novos altares;o adro envolvente;a torre sineira e outros elementos arquitetónicos posteriormente melhorados. Ao longo dos séculos XIX e XX sucederam-se diversas campanhas de conservação, reparação da cobertura, beneficiação do interior, renovação dos retábulos, pinturas, pavimentos e espaços envolventes, permitindo preservar o templo até aos nossos dias. Parte desta cronologia resulta da tradição local e de documentação paroquial, sendo desejável aprofundá-la através dos livros das Memórias da igreja e dos arquivos da Arquidiocese de Braga. Cronologia resumida Antes do século XVI Existência de uma pequena capela dedicada a São João junto da Casa de Sanoane (tradição local). 1634 Início dos livros paroquiais de batismos de Bucos, demonstrando uma organização paroquial consolidada. 1677 Referência documental ao lugar e à Casa de Sanhoane de Riba, uma das mais antigas da freguesia. 1758 As Memórias Paroquiais descrevem a freguesia de São João Batista de Bucos e confirmam a importância da igreja e da comunidade paroquial. Finais do século XVIII, Grande ampliação da antiga capela, dando origem à igreja paroquial. Séculos XIX (1877) e XX Obras sucessivas de conservação, enriquecimento artístico, manutenção dos retábulos, cobertura, adro e demais dependências. Século XXI Continuação das obras de preservação do património religioso e valorização histórica da Igreja de São João Batista como símbolo da identidade de Bucos. A Igreja de São João Batista permanece, assim, profundamente ligada à história da Casa de Sanoane e da própria freguesia. A evolução do topónimo San Joane – Sanhoane – Sanoane testemunha uma continuidade histórica rara, preservando na própria designação do lugar a memória do santo padroeiro que, durante séculos, orientou a vida religiosa e comunitária dos habitantes de Bucos.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A Voz da Cabreira e a Migração das Andorinhas

Na manhã de 28 de julho, pelas sete horas, a Casa de Sanoane de Cima, em Bucos, despertou com um dos mais belos espetáculos que a natureza oferece. De forma silenciosa, mas perfeitamente organizada, dezenas de andorinhas começaram a reunir-se nos fios da eletricidade e do telefone que rodeiam a casa. Pareciam conversar entre si, trocando os últimos sinais antes da grande partida. Durante alguns minutos permaneceram alinhadas, lado a lado, voltadas em diferentes direções, como se aguardassem um sinal invisível. Depois levantavam voo em pequenos grupos, descrevendo círculos sobre os campos e regressando novamente aos fios. Era um verdadeiro ensaio para uma das mais extraordinárias viagens do mundo animal. Todos os anos, quando o verão começa a aproximar-se do fim, as andorinhas deixam a Serra da Cabreira e iniciam uma longa migração rumo ao sul, atravessando a Península Ibérica, o Mediterrâneo até chegarem à África, onde encontrarão alimento durante o inverno europeu. Algumas percorrem mais de 5 000 quilómetros, regressando, na primavera seguinte, precisamente aos mesmos lugares onde nasceram ou fizeram o seu ninho. Durante séculos, esta capacidade intrigou agricultores, pastores e estudiosos. Como conseguem encontrar o caminho sem mapas nem bússolas? A ciência tem vindo a desvendar parte deste mistério. As andorinhas orientam-se pela posição do Sol durante o dia e das estrelas durante a noite. Conseguem também detetar o campo magnético da Terra, funcionando como se possuíssem uma bússola natural. Além disso, utilizam referências da paisagem, rios, montanhas e até memórias adquiridas nas viagens anteriores. Mas o principal motivo da partida é simples e essencial: a sobrevivência. As andorinhas alimentam-se quase exclusivamente de insetos capturados em voo. Com a aproximação do outono, a temperatura desce e os insetos tornam-se escassos. Permanecer na Europa significaria enfrentar a fome. A migração permite-lhes encontrar alimento abundante em regiões mais quentes, regressando apenas quando a primavera volta a cobrir a Cabreira de flores e de vida. Na Casa de Sanoane de Cima de Bucos, este encontro anual das andorinhas representa muito mais do que um fenómeno natural. É um sinal da passagem do tempo, da fidelidade da natureza aos seus ciclos e da ligação profunda entre a vida selvagem e a paisagem rural. Tal como os nossos antepassados observavam os céus para compreender as estações, também hoje podemos parar por alguns minutos para contemplar este espetáculo e reconhecer que ainda existem maravilhas que unem o mistério e a ciência. Quando, naquela manhã de julho, as últimas andorinhas levantaram voo sobre os telhados de granito de Sanoane, ficou no ar a certeza de que voltarão. Porque, para elas, a Rechã de Sanoane de Cima e a Serra da Cabreira não são apenas um lugar de passagem: são um ponto de partida, um porto de abrigo e um destino gravado na memória da natureza.Manuel Braz

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Mensagem de Boas-Vindas ao Reverendo Padre Rui Filipe Araújo

Reverendo Padre Rui Filipe Araújo, É com profunda alegria, esperança e espírito de comunhão que lhe dirijo, em meu nome pessoal e de muitos paroquianos de São João Batista de Bucos — praticantes e não praticantes — as mais sinceras boas-vindas por ocasião da sua nomeação como nosso novo pároco. Recebemo-lo de coração aberto, conscientes da nobre missão que a Igreja lhe confiou e agradecidos pela sua disponibilidade para caminhar connosco. A sua chegada assinala o início de uma nova etapa na vida da nossa paróquia, que desejamos seja marcada pela proximidade, pela fraternidade, pelo diálogo e pelo fortalecimento da fé. Nesta terra da Serra da Cabreira, onde a história e a tradição cristã se entrelaçam há séculos, encontrará também a Casa de Sanoane de Cima, uma das mais antigas casas da freguesia, guardiã de memórias familiares e comunitárias desde o século XVII, fiel ao espírito de hospitalidade que sempre caracterizou esta casa ao longo de gerações, encontrará nela disponibilidade para o acolher, atenção às suas preocupações, cortesia no trato e sincera vontade de colaborar em tudo o que possa contribuir para o bem da nossa comunidade paroquial. Sob a proteção de São João, padroeiro da Casa e da Paróquia, desejamos que encontre em Bucos não apenas o lugar onde exercerá o seu ministério sacerdotal, mas também uma família que o estima, o acompanha e caminha consigo na construção de uma Igreja cada vez mais próxima, fraterna e viva. Estamos certos de que encontrará em Bucos um povo simples, hospitaleiro e solidário, disposto a colaborar consigo na missão de anunciar o Evangelho, cuidar dos mais frágeis, aproximar os que se encontram mais afastados da vida da Igreja e fortalecer os laços que unem toda a comunidade. Dirigimos igualmente uma palavra de boas-vindas ao Reverendo Padre Diogo António Antunes, que o acompanhará como coadjutor. Desejamos que ambos encontrem entre nós um ambiente de amizade, respeito, confiança e colaboração, para que juntos possamos continuar a construir uma paróquia viva, participativa e fiel aos ensinamentos de Cristo. Que São João Batista, nosso padroeiro, interceda pelo seu ministério sacerdotal e que Deus lhe conceda saúde, sabedoria, serenidade e alegria para conduzir a Paróquia de Bucos pelos caminhos da fé, da esperança e da caridade. Seja muito bem-vindo à Paróquia de São João Batista de Bucos. As portas da nossa igreja, da nossa comunidade e também da Casa de Sanoane de Cima estarão sempre abertas para o acolher, porque acreditamos que uma paróquia se constrói na proximidade, na amizade e na partilha entre pastor e povo. Conte com a nossa estima, a nossa oração e a nossa inteira disponibilidade para caminhar consigo. Manuel de Oliveira Henriques Braz Casa de Sanoane de Cima Em comunhão com muitos paroquianos de São João Batista de Bucos, praticantes e não praticantes.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Exmo. Senhor Comandante do Posto Territorial da Guarda Nacional Republicana de Cabeceiras de Basto Assunto: Participação de suspeita de tentativa de incêndio junto da Casa de Sanoane de Cima Eu, Manuel de Oliveira Henriques Braz, residente na Casa de Sanoane de Cima, Rua da Igreja nº 37, freguesia de Bucos, concelho de Cabeceiras de Basto, venho, por este meio, apresentar participação relativamente a factos que me levam a suspeitar da ocorrência de uma tentativa de incêndio junto da minha habitação. Em data recente, probabilidade m~es de Abril, ao proceder à observação do espaço envolvente da casa, constatei diversos vestígios compatíveis com a ação do fogo, nomeadamente: Pedras com sinais evidentes de terem sido expostas a elevadas temperaturas, apresentando coloração enegrecida; Telhas da cobertura com marcas de escurecimento provocado pelo calor; Persistente cheiro a fumo e a queimado na terra da zona afetada; Vegetação que apresenta sinais de ter sido queimada, encontrando-se atualmente em fase de regeneração, com novos rebentos. Estes indícios suscitam fundadas preocupações quanto à possibilidade de ter ocorrido uma tentativa de incêndio junto da Casa de Sanoane de Cima, colocando em risco a habitação, o património existente e a segurança das pessoas. Face ao exposto, solicito a V. Ex.ª que esta participação seja registada e que, dentro das competências dessa Guarda Nacional Republicana, sejam realizadas as diligências consideradas adequadas para averiguar os factos, identificar eventuais responsáveis, caso existam, e reforçar a vigilância da zona, por forma a prevenir novas ocorrências. Manifesto inteira disponibilidade para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais e acompanhar os militares dessa Guarda ao local, caso tal seja considerado necessário. Pede deferimento. Bucos, 3 de julho de 2026 O Participante, Manuel de Oliveira Henriques Braz
A Casa de Sanoane de Cima sofreu uma tentativa de incêndio. A Casa de Sanoane de Cima apresenta indícios que permitem admitir a ocorrência de uma tentativa de incêndio fogo posto nas suas imediações. Esta conclusão resulta da observação de diversos vestígios compatíveis com a ação do fogo. No local foram identificadas pedras e terra enegrecidas, telhas marcadas pelo fumo e pela ação das chamas, bem como um persistente cheiro a queimado impregnado na terra. A vegetação existente na zona apresenta sinais evidentes de ter sido consumida pelo fogo, encontrando-se atualmente em fase de rebentação e regeneração, o que demonstra que o incêndio ocorreu algum tempo antes da presente observação, probabilidade mês de Abril. Estes vestígios revelam que houve combustão junto da habitação, situação que suscita preocupação quanto à segurança da Casa de Sanoane de Cima, do seu património histórico e de todos os que nela habitam ou a visitam. Perante estes factos, considera-se importante que a situação seja devidamente comunicada às autoridades competentes, para que possam averiguar as circunstâncias da ocorrência e adotar as medidas necessárias à proteção da habitação e da área envolvente, colocação de câmaras de vigilancia exterior com visao noturna, alimentação solar, prevenindo a repetição de acontecimentos desta natureza.

sábado, 27 de junho de 2026

A Voz da Serra da Cabreira e os Moinhos de Bucos

Um património vivo entre a água, a memória e a natureza Na vertente da Serra da Cabreira, a freguesia de Bucos guarda um dos mais ricos conjuntos de património hidráulico do concelho de Cabeceiras de Basto. Ao longo do Rio Peio e seus afluentes que descem da serra, dezenas de moinhos de água testemunham séculos de trabalho, engenho e cooperação comunitária. A água que outrora fazia girar as mós continua hoje a contar histórias, tornando-se a verdadeira "voz" da serra. Este património representa muito mais do que antigas construções rurais. É um legado de conhecimento, de identidade agrícola e de convivência entre o homem e a natureza, constituindo uma oportunidade única para valorizar o território através do turismo sustentável e da preservação da memória coletiva. A ÁGUA E SUA FORÇA Na Serra da Cabreira, a água sempre foi a grande força motriz da vida rural. Descendo das nascentes e percorrendo o Rio Peio e os seus inúmeros ribeiros, alimentava campos, regava lameiros e fazia mover os moinhos que garantiam a farinha para o sustento das famílias. Em Bucos, a natureza ofereceu as condições ideais para o desenvolvimento de um dos mais engenhosos sistemas de moagem tradicional: os moinhos de cale. Este tipo de moinho distingue-se pela sua extraordinária eficiência hidráulica. Aproveitando os fortes desníveis do terreno, a água era conduzida por levadas cuidadosamente construídas em pedra até atingir com grande velocidade o rodízio colocado sob o moinho. A força gerada por este jato de água fazia girar o rodízio e, através do veio, transmitia o movimento à mó superior. Era um sistema simples, robusto e extremamente eficaz, capaz de assegurar uma moagem contínua mesmo durante os períodos em que os ribeiros apresentavam caudais reduzidos. Cada gota de água era aproveitada com inteligência, demonstrando o profundo conhecimento que os antigos construtores possuíam da hidráulica e do comportamento das águas da serra. Os moinhos de cale representam um notável exemplo de engenharia popular. Construídos apenas com pedra, madeira, sem recurso a tecnologia moderna, conseguiram durante séculos transformar a energia natural da água em força mecânica, contribuindo decisivamente para a economia agrícola de Bucos. Ainda hoje, ao percorrer os antigos caminhos junto ao Rio Peio e aos seus afluentes, é possível observar cales de pedra que permanecem de pé, silenciosos mas imponentes. São testemunhos da sabedoria das gerações passadas e lembram-nos que a verdadeira riqueza da Serra da Cabreira sempre nasceu da perfeita harmonia entre o homem e a natureza. A água continua a correr pelas levadas, como corria há centenas de anos. E sempre que o seu murmúrio ecoa entre os vales de Bucos, parece recordar o tempo em que fazia girar as mós, alimentava as famílias e dava voz aos moinhos da Serra da Cabreira. DO CEREAL AO PÃO Durante séculos, o milho foi o principal sustento das famílias de Bucos e de toda a Serra da Cabreira. O seu cultivo marcava o ritmo das estações e envolvia toda a comunidade, desde a preparação da terra até à saída da broa quente do forno. Era um ciclo de trabalho, entreajuda e tradição que unia gerações e fazia da agricultura o centro da vida quotidiana. Na primavera preparavam-se os campos, adubava-se a terra e lançava-se a semente. Durante o verão, as searas cresciam ao ritmo do sol e da água conduzida pelas levadas. Chegado o outono, realizavam-se as desfolhadas, momentos de trabalho coletivo acompanhados de cantigas, convívio e alegria, onde vizinhos e familiares colaboravam na colheita das espigas. Depois de seco, o milho era cuidadosamente armazenado nos espigueiros de pedra e madeira, protegendo o grão da humidade e dos roedores. Quando chegava o momento de fazer farinha, cada família levava o seu cereal ao moinho. As mós, movidas pela força constante da água, transformavam lentamente o grão numa farinha fina e aromática, preservando todas as suas qualidades nutritivas. O moinho era muito mais do que um local de moagem. Era um espaço de encontro e de convivência, onde se esperava pela vez, se trocavam notícias, se partilhavam experiências e se fortaleciam os laços da comunidade. Enquanto a mó girava sem descanso, escutavam-se histórias antigas, conselhos agrícolas e memórias transmitidas de geração em geração. Da farinha nascia a broa de milho, alimento essencial da mesa serrana. Amassada com saber e paciência, cozida nos tradicionais fornos a lenha e repartida por toda a família, a broa acompanhava as refeições diárias, simbolizando o fruto do trabalho da terra e da dedicação de quem a cultivava. O seu aroma quente espalhava-se pelas aldeias, anunciando um alimento simples, mas profundamente ligado à identidade de Bucos. Hoje, embora muitos campos já não produzam como antigamente e vários moinhos permaneçam em silêncio, o ciclo do cereal ao pão continua vivo na memória das pessoas e nas tradições que resistem ao tempo. Preservar este legado é manter viva a cultura agrícola da Serra da Cabreira, homenageando o esforço das gerações que fizeram da água, da terra e do milho a base da sua sobrevivência e da sua identidade. A ENGENHARIA DOS ANTIGOS Muito antes da existência de máquinas modernas e de estudos de engenharia hidráulica, os habitantes da Serra da Cabreira aprenderam a observar a natureza e a aproveitar, com inteligência e respeito, a força da água. Dessa sabedoria nasceu uma extraordinária rede de levadas, açudes, canais e regos de pedra que conduzia as águas do Rio Peio e dos seus afluentes, ribeiros, até aos moinhos de Bucos. Construídas quase exclusivamente com granito da região e recorrendo a técnicas transmitidas de geração em geração, as levadas percorriam encostas, atravessavam lameiros e contornavam afloramentos rochosos, mantendo um declive cuidadosamente calculado. A inclinação era essencial para que a água corresse na velocidade desejada. O equilíbrio era alcançado pela experiência acumulada ao longo de muitos anos de observação e trabalho. Em determinados pontos dos ribeiros eram construídos pequenos açudes que desviavam parte do caudal para as levadas, sem impedir o curso natural da água. Esta seguia depois por canais estreitos até alimentar os moinhos de cale, onde a energia hidráulica era transformada na força necessária para fazer girar as mós. Depois de cumprir a sua função, a água regressava novamente ao ribeiro ou era aproveitada na rega dos campos, num admirável exemplo de utilização sustentável dos recursos naturais. A distribuição da água obedecia igualmente a regras comunitárias rigorosas. Cada proprietário ou utilizador possuía tempos de utilização previamente estabelecidos, conhecidos e respeitados por todos. Em épocas de menor caudal, a solidariedade e o sentido de justiça eram essenciais para garantir que nenhum moinho ou terreno agrícola ficasse privado da água indispensável ao seu funcionamento. Este sistema de partilha constituiu um dos mais notáveis exemplos de organização comunitária da vida rural. A manutenção das levadas era também uma responsabilidade coletiva. Todos participavam na limpeza dos canais, na reparação dos muros de pedra e na remoção de troncos, folhas e sedimentos que pudessem impedir o livre curso da água. Era um trabalho duro, mas entendido como um dever para com a comunidade e para com as gerações futuras. Hoje, muitas destas levadas permanecem visíveis na paisagem de Bucos, silenciosas mas resistentes ao passar do tempo. Representam um património de enorme valor histórico, técnico e cultural, testemunhando o engenho dos nossos antepassados, que souberam transformar a água da Serra da Cabreira numa fonte de vida, de alimento e de desenvolvimento. Preservá-las é honrar uma verdadeira obra de engenharia popular, construída sem máquinas sofisticadas, mas com inteligência, experiência e um profundo respeito pela natureza.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

A Voz da Serra da Cabreira e a Igreja de São João Batista de Bucos

A Serra da Cabreira tem uma voz antiga. É uma voz que atravessa montes, vales e gerações, levando consigo a memória dos lugares onde a fé, a história e a vida caminham de mãos dadas. Entre esses lugares ergue-se, com dignidade e serenidade, a Igreja de São João Batista de Bucos. Conta a tradição que, muito antes da igreja que hoje conhecemos, existia ali uma pequena capela da Casa de Sanoane. Simples e acolhedora, reunia os habitantes da freguesia para a oração, para os sacramentos e para os momentos mais importantes da vida comunitária, quando a freguesia pertencia à pastoral da Igreja de S Nicolau. O tempo passou, a população cresceu e a antiga capela deu lugar a um templo mais amplo e mais digno. No ano de 1877, a nova Igreja de São João Batista assumiu o seu lugar como centro espiritual da comunidade, tornando-se um símbolo da fé e da união do povo de Bucos. Ao entrar pela porta principal, o olhar é naturalmente conduzido para o altar-mor, dedicado ao padroeiro, São João Batista. É ali que a igreja encontra o seu coração, recordando aquele que preparou os caminhos para Cristo e cuja vida continua a inspirar gerações de fiéis.Nos altares laterais encontra-se igualmente uma profunda expressão da devoção popular. Um deles é dedicado a Nossa Senhora do Rosário, cuja proteção tantas famílias invocaram ao longo dos séculos. Outro honra o Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor infinito e da misericórdia divina. O terceiro é consagrado a Nossa Senhora da Soledade, também conhecida por Nossa Senhora da Defesa, invocada como mãe protetora e consoladora do povo de Bucos. Ao lado da igreja ergue-se a torre sineira, preservando a sua traça original. Os seus sinos marcaram o ritmo da vida da freguesia: anunciaram festas, chamaram para a oração, celebraram casamentos, choraram despedidas e acompanharam cada geração que nasceu e viveu sob o olhar da Serra da Cabreira. A antiga escadaria da torre, percorrida ao longo de tantos anos, continua a testemunhar a dedicação daqueles que fizeram ecoar a voz dos sinos por todo o vale. Em redor da igreja estende-se o adro, que durante muito tempo foi o primitivo cemitério da freguesia. A terra que rodeia o templo guarda o repouso de inúmeras gerações de habitantes de Bucos. Cada sepultura representa uma história, uma família, uma vida de trabalho, de fé e de esperança.Entre esses túmulos destaca-se um de especial significado para a história local: o jazigo da Casa de Sanoane de Cima. Foi mandado construir por Manuel Joaquim Henriques Basto para receber os restos mortais de seu pai, José Henriques Basto, perpetuando a memória de uma família profundamente ligada à terra, à freguesia e à sua igreja. Esse monumento funerário permanece como sinal de respeito pelos antepassados e como testemunho da ligação entre a Casa de Sanoane de Cima e a comunidade de Bucos. Junto ao templo encontra-se também a Casa do Senhor, edifício que ao longo dos anos tem servido de apoio à vida paroquial. Ali realizam-se encontros de catequese, reuniões e diversas atividades que fortalecem os laços entre as famílias e mantêm viva a missão evangelizadora da paróquia. Quando o vento da Serra da Cabreira passa pela torre dos sinos e percorre o adro silencioso, parece despertar as memórias guardadas nas pedras centenárias da igreja. É como se cada sino, cada altar, cada túmulo e cada parede contassem uma parte da história de Bucos.Porque a Igreja de São João Batista não é apenas um edifício de pedra. É um livro vivo da comunidade. Nela ficaram gravados os batismos, os casamentos, as despedidas, as festas, as procissões e as orações de incontáveis gerações. Ao longo dos séculos XX e das primeiras décadas do século XXI, a vida religiosa da freguesia de Bucos ficou marcada pelo ministério dedicado de três sacerdotes que acompanharam gerações de paroquianos, celebrando os momentos mais importantes da vida da comunidade e preservando a identidade cristã da paróquia. O primeiro desses sacerdotes foi o Padre Adão de Moura, natural da freguesia de Atei, no concelho de Mondim de Basto. Chegou a Bucos por volta de 1908, assumindo a orientação espiritual da paróquia numa época de profundas transformações sociais e políticas em Portugal. Durante mais de seis décadas exerceu o seu ministério com dedicação, tornando-se uma figura profundamente respeitada e acarinhada pela população. Permaneceu ao serviço da freguesia até ao seu falecimento, em 1969, deixando uma marca indelével na história religiosa de Bucos. Após a morte do Padre Adão de Moura, a assistência pastoral foi assegurada pelo Padre Evaristo, reverendo da freguesia de São Nicolau, concelho de Cabeceiras de Basto. Embora por um período relativamente curto, garantiu a continuidade da vida paroquial, acompanhando a comunidade entre 1969 e agosto de 1973, numa fase de transição para um novo pároco. Em agosto de 1973, foi nomeado pároco de Bucos o Padre Avelino Vilela, natural de Gontim, Concalho de Fafe, iniciando um dos mais longos ministérios sacerdotais da história do concelho. Desde então, tem dedicado a sua vida ao serviço da comunidade, acompanhando sucessivas gerações de habitantes de Bucos na celebração dos sacramentos, na catequese, nas festas religiosas e na vivência da fé cristã. Ao longo de mais de cinco décadas de presença contínua na paróquia, o Padre Avelino Vilela tornou-se uma referência humana, espiritual e pastoral para toda a freguesia. Em julho de 2026, contabilizam-se cerca de 53 anos de ministério paroquial em Bucos, testemunhando uma extraordinária estabilidade pastoral. A sua presença constante permitiu acompanhar a evolução da freguesia, mantendo viva a tradição religiosa e fortalecendo os laços entre a Igreja e a comunidade. Assim, a história pastoral de Bucos ao longo de mais de um século pode ser compreendida através do serviço destes três sacerdotes: o longo e dedicado ministério do Padre Adão de Moura, a continuidade assegurada pelo Padre Evaristo durante o período de transição e a notável permanência do Padre Avelino Vilela, que continua, em julho de 2026, a exercer o seu ministério ao serviço da freguesia de São João Batista de Bucos. E a voz da Serra continua a repetir, suavemente, que enquanto houver quem preserve esta herança e conte a sua história, a Igreja de São João Batista de Bucos continuará a ser muito mais do que um monumento: será a alma de um povo, guardando o passado, iluminando o presente e transmitindo esperança às gerações futuras. PS: Novo Pároco para a Paróquia de São João Batista de Bucos Hoje, domingo, 19 de julho de 2026, através de comunicado oficial do Arcebispado de Braga, foi tornado público que o Padre Rui Filipe Araújo foi nomeado novo pároco da Paróquia de São João Batista de Bucos, tendo como seu coadjutor o Padre Diogo António Antunes. A comunidade paroquial acolhe esta nomeação com espírito de fé, comunhão e esperança, desejando aos dois sacerdotes as maiores bênçãos no exercício da missão pastoral que brevemente irão assumir entre nós. Que São João Batista, padroeiro da nossa paróquia, os inspire e fortaleça no serviço ao povo de Deus, promovendo uma Igreja próxima, fraterna e missionária. Esta nomeação marca igualmente o termo da missão pastoral do Padre Avelino Vilela à frente da nossa comunidade, ficando agora libertado das responsabilidades de pároco de Bucos para prosseguir o ministério sacerdotal noutras funções que lhe venham a ser confiadas pela Arquidiocese. A comunidade de Bucos manifesta ao Padre Avelino um profundo reconhecimento pela dedicação, disponibilidade e serviço prestados ao longo dos anos em que acompanhou espiritualmente os seus paroquianos, presidindo à celebração dos sacramentos, animando a vida pastoral e partilhando os momentos mais significativos da vida da freguesia. O seu contributo permanecerá na memória da comunidade, que lhe deseja saúde, serenidade e abundantes graças de Deus para a continuação da sua missão sacerdotal. À medida que se aproxima a tomada de posse dos novos responsáveis pastorais, a Paróquia de São João Batista de Bucos prepara-se para os receber com alegria, colaboração e espírito de unidade, confiando que esta nova etapa será vivida sob o amparo de Deus e a proteção do seu padroeiro.