segunda-feira, 13 de julho de 2026
Exmo. Senhor Comandante do Posto Territorial da Guarda Nacional Republicana de Cabeceiras de Basto
Assunto: Participação de suspeita de tentativa de incêndio junto da Casa de Sanoane de Cima
Eu, Manuel de Oliveira Henriques Braz, residente na Casa de Sanoane de Cima, Rua da Igreja nº 37, freguesia de Bucos, concelho de Cabeceiras de Basto, venho, por este meio, apresentar participação relativamente a factos que me levam a suspeitar da ocorrência de uma tentativa de incêndio junto da minha habitação.
Em data recente, probabilidade m~es de Abril, ao proceder à observação do espaço envolvente da casa, constatei diversos vestígios compatíveis com a ação do fogo, nomeadamente:
Pedras com sinais evidentes de terem sido expostas a elevadas temperaturas, apresentando coloração enegrecida;
Telhas da cobertura com marcas de escurecimento provocado pelo calor;
Persistente cheiro a fumo e a queimado na terra da zona afetada;
Vegetação que apresenta sinais de ter sido queimada, encontrando-se atualmente em fase de regeneração, com novos rebentos.
Estes indícios suscitam fundadas preocupações quanto à possibilidade de ter ocorrido uma tentativa de incêndio junto da Casa de Sanoane de Cima, colocando em risco a habitação, o património existente e a segurança das pessoas.
Face ao exposto, solicito a V. Ex.ª que esta participação seja registada e que, dentro das competências dessa Guarda Nacional Republicana, sejam realizadas as diligências consideradas adequadas para averiguar os factos, identificar eventuais responsáveis, caso existam, e reforçar a vigilância da zona, por forma a prevenir novas ocorrências.
Manifesto inteira disponibilidade para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais e acompanhar os militares dessa Guarda ao local, caso tal seja considerado necessário.
Pede deferimento.
Bucos, 3 de julho de 2026
O Participante,
Manuel de Oliveira Henriques Braz
A Casa de Sanoane de Cima sofreu uma tentativa de incêndio
A Casa de Sanoane de Cima apresenta indícios que permitem admitir a ocorrência de uma tentativa de incêndio fogo posto nas suas imediações. Esta conclusão resulta da observação de diversos vestígios compatíveis com a ação do fogo.
No local foram identificadas pedras enegrecidas, telhas marcadas pelo fumo e pela ação das chamas, bem como um persistente cheiro a queimado impregnado na terra. A vegetação existente na zona apresenta sinais evidentes de ter sido consumida pelo fogo, encontrando-se atualmente em fase de rebentação e regeneração, o que demonstra que o incêndio ocorreu algum tempo antes da presente observação, probabilidade mês de Abril.
Estes vestígios revelam que houve combustão junto da habitação, situação que suscita preocupação quanto à segurança da Casa de Sanoane de Cima, do seu património histórico e de todos os que nela habitam ou a visitam.
Perante estes factos, considera-se importante que a situação seja devidamente comunicada às autoridades competentes, para que possam averiguar as circunstâncias da ocorrência e adotar as medidas necessárias à proteção da habitação e da área envolvente, prevenindo a repetição de acontecimentos desta natureza.
sábado, 27 de junho de 2026
A Voz da Serra da Cabreira e os Moinhos de Bucos
Um património vivo entre a água, a memória e a natureza
Na vertente da Serra da Cabreira, a freguesia de Bucos guarda um dos mais ricos conjuntos de património hidráulico do concelho de Cabeceiras de Basto. Ao longo do Rio Peio e seus afluentes que descem da serra, dezenas de moinhos de água testemunham séculos de trabalho, engenho e cooperação comunitária. A água que outrora fazia girar as mós continua hoje a contar histórias, tornando-se a verdadeira "voz" da serra.
Este património representa muito mais do que antigas construções rurais. É um legado de conhecimento, de identidade agrícola e de convivência entre o homem e a natureza, constituindo uma oportunidade única para valorizar o território através do turismo sustentável e da preservação da memória coletiva.
A ÁGUA E SUA FORÇA
Na Serra da Cabreira, a água sempre foi a grande força motriz da vida rural. Descendo das nascentes e percorrendo o Rio Peio e os seus inúmeros ribeiros, alimentava campos, regava lameiros e fazia mover os moinhos que garantiam a farinha para o sustento das famílias. Em Bucos, a natureza ofereceu as condições ideais para o desenvolvimento de um dos mais engenhosos sistemas de moagem tradicional: os moinhos de cale.
Este tipo de moinho distingue-se pela sua extraordinária eficiência hidráulica. Aproveitando os fortes desníveis do terreno, a água era conduzida por levadas cuidadosamente construídas em pedra até atingir com grande velocidade o rodízio colocado sob o moinho.
A força gerada por este jato de água fazia girar o rodízio e, através do veio, transmitia o movimento à mó superior. Era um sistema simples, robusto e extremamente eficaz, capaz de assegurar uma moagem contínua mesmo durante os períodos em que os ribeiros apresentavam caudais reduzidos. Cada gota de água era aproveitada com inteligência, demonstrando o profundo conhecimento que os antigos construtores possuíam da hidráulica e do comportamento das águas da serra.
Os moinhos de cale representam um notável exemplo de engenharia popular. Construídos apenas com pedra, madeira, sem recurso a tecnologia moderna, conseguiram durante séculos transformar a energia natural da água em força mecânica, contribuindo decisivamente para a economia agrícola de Bucos.
Ainda hoje, ao percorrer os antigos caminhos junto ao Rio Peio e aos seus afluentes, é possível observar cales de pedra que permanecem de pé, silenciosos mas imponentes. São testemunhos da sabedoria das gerações passadas e lembram-nos que a verdadeira riqueza da Serra da Cabreira sempre nasceu da perfeita harmonia entre o homem e a natureza.
A água continua a correr pelas levadas, como corria há centenas de anos. E sempre que o seu murmúrio ecoa entre os vales de Bucos, parece recordar o tempo em que fazia girar as mós, alimentava as famílias e dava voz aos moinhos da Serra da Cabreira.
DO CEREAL AO PÃO
Durante séculos, o milho foi o principal sustento das famílias de Bucos e de toda a Serra da Cabreira. O seu cultivo marcava o ritmo das estações e envolvia toda a comunidade, desde a preparação da terra até à saída da broa quente do forno. Era um ciclo de trabalho, entreajuda e tradição que unia gerações e fazia da agricultura o centro da vida quotidiana.
Na primavera preparavam-se os campos, adubava-se a terra e lançava-se a semente. Durante o verão, as searas cresciam ao ritmo do sol e da água conduzida pelas levadas. Chegado o outono, realizavam-se as desfolhadas, momentos de trabalho coletivo acompanhados de cantigas, convívio e alegria, onde vizinhos e familiares colaboravam na colheita das espigas.
Depois de seco, o milho era cuidadosamente armazenado nos espigueiros de pedra e madeira, protegendo o grão da humidade e dos roedores. Quando chegava o momento de fazer farinha, cada família levava o seu cereal ao moinho. As mós, movidas pela força constante da água, transformavam lentamente o grão numa farinha fina e aromática, preservando todas as suas qualidades nutritivas.
O moinho era muito mais do que um local de moagem. Era um espaço de encontro e de convivência, onde se esperava pela vez, se trocavam notícias, se partilhavam experiências e se fortaleciam os laços da comunidade. Enquanto a mó girava sem descanso, escutavam-se histórias antigas, conselhos agrícolas e memórias transmitidas de geração em geração.
Da farinha nascia a broa de milho, alimento essencial da mesa serrana. Amassada com saber e paciência, cozida nos tradicionais fornos a lenha e repartida por toda a família, a broa acompanhava as refeições diárias, simbolizando o fruto do trabalho da terra e da dedicação de quem a cultivava. O seu aroma quente espalhava-se pelas aldeias, anunciando um alimento simples, mas profundamente ligado à identidade de Bucos.
Hoje, embora muitos campos já não produzam como antigamente e vários moinhos permaneçam em silêncio, o ciclo do cereal ao pão continua vivo na memória das pessoas e nas tradições que resistem ao tempo. Preservar este legado é manter viva a cultura agrícola da Serra da Cabreira, homenageando o esforço das gerações que fizeram da água, da terra e do milho a base da sua sobrevivência e da sua identidade.
A ENGENHARIA DOS ANTIGOS
Muito antes da existência de máquinas modernas e de estudos de engenharia hidráulica, os habitantes da Serra da Cabreira aprenderam a observar a natureza e a aproveitar, com inteligência e respeito, a força da água. Dessa sabedoria nasceu uma extraordinária rede de levadas, açudes, canais e regos de pedra que conduzia as águas do Rio Peio e dos seus afluentes, ribeiros, até aos moinhos de Bucos.
Construídas quase exclusivamente com granito da região e recorrendo a técnicas transmitidas de geração em geração, as levadas percorriam encostas, atravessavam lameiros e contornavam afloramentos rochosos, mantendo um declive cuidadosamente calculado. A inclinação era essencial para que a água corresse na velocidade desejada. O equilíbrio era alcançado pela experiência acumulada ao longo de muitos anos de observação e trabalho.
Em determinados pontos dos ribeiros eram construídos pequenos açudes que desviavam parte do caudal para as levadas, sem impedir o curso natural da água. Esta seguia depois por canais estreitos até alimentar os moinhos de cale, onde a energia hidráulica era transformada na força necessária para fazer girar as mós. Depois de cumprir a sua função, a água regressava novamente ao ribeiro ou era aproveitada na rega dos campos, num admirável exemplo de utilização sustentável dos recursos naturais.
A distribuição da água obedecia igualmente a regras comunitárias rigorosas. Cada proprietário ou utilizador possuía tempos de utilização previamente estabelecidos, conhecidos e respeitados por todos. Em épocas de menor caudal, a solidariedade e o sentido de justiça eram essenciais para garantir que nenhum moinho ou terreno agrícola ficasse privado da água indispensável ao seu funcionamento. Este sistema de partilha constituiu um dos mais notáveis exemplos de organização comunitária da vida rural.
A manutenção das levadas era também uma responsabilidade coletiva. Todos participavam na limpeza dos canais, na reparação dos muros de pedra e na remoção de troncos, folhas e sedimentos que pudessem impedir o livre curso da água. Era um trabalho duro, mas entendido como um dever para com a comunidade e para com as gerações futuras.
Hoje, muitas destas levadas permanecem visíveis na paisagem de Bucos, silenciosas mas resistentes ao passar do tempo. Representam um património de enorme valor histórico, técnico e cultural, testemunhando o engenho dos nossos antepassados, que souberam transformar a água da Serra da Cabreira numa fonte de vida, de alimento e de desenvolvimento. Preservá-las é honrar uma verdadeira obra de engenharia popular, construída sem máquinas sofisticadas, mas com inteligência, experiência e um profundo respeito pela natureza.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
A Voz da Serra da Cabreira e a Igreja de São João Batista de Bucos
A Serra da Cabreira tem uma voz antiga. É uma voz que atravessa montes, vales e gerações, levando consigo a memória dos lugares onde a fé, a história e a vida caminham de mãos dadas. Entre esses lugares ergue-se, com dignidade e serenidade, a Igreja de São João Batista de Bucos.Conta a tradição que, muito antes da igreja que hoje conhecemos, existia ali uma pequena capela da Casa de Sanoane. Simples e acolhedora, reunia os habitantes da freguesia para a oração, para os sacramentos e para os momentos mais importantes da vida comunitária, quando a freguesia pertencia à Igreja de S Nicolau.O tempo passou, a população cresceu e a antiga capela deu lugar a um templo mais amplo e mais digno. No ano de 1775, a nova Igreja de São João Batista assumiu o seu lugar como centro espiritual da comunidade, tornando-se um símbolo da fé e da união do povo de Bucos.Ao entrar pela porta principal, o olhar é naturalmente conduzido para o altar-mor, dedicado ao padroeiro, São João Batista. É ali que a igreja encontra o seu coração, recordando aquele que preparou os caminhos para Cristo e cuja vida continua a inspirar gerações de fiéis.Nos altares laterais encontra-se igualmente uma profunda expressão da devoção popular. Um deles é dedicado a Nossa Senhora do Rosário, cuja proteção tantas famílias invocaram ao longo dos séculos. Outro honra o Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor infinito e da misericórdia divina. O terceiro é consagrado a Nossa Senhora da Soledade, também conhecida por Nossa Senhora da Defesa, invocada como mãe protetora e consoladora do povo de Bucos.Ao lado da igreja ergue-se a torre sineira, preservando a sua traça original. Os seus sinos marcaram o ritmo da vida da freguesia: anunciaram festas, chamaram para a oração, celebraram casamentos, choraram despedidas e acompanharam cada geração que nasceu e viveu sob o olhar da Serra da Cabreira. A antiga escadaria da torre, percorrida ao longo de tantos anos, continua a testemunhar a dedicação daqueles que fizeram ecoar a voz dos sinos por todo o vale.Em redor da igreja estende-se o adro, que durante muito tempo foi o primitivo cemitério da freguesia. A terra que rodeia o templo guarda o repouso de inúmeras gerações de habitantes de Bucos. Cada sepultura representa uma história, uma família, uma vida de trabalho, de fé e de esperança.Entre esses túmulos destaca-se um de especial significado para a história local: o jazigo da Casa de Sanoane de Cima. Foi mandado construir por Manuel Joaquim Henriques Basto para receber os restos mortais de seu pai, José Henriques Basto, perpetuando a memória de uma família profundamente ligada à terra, à freguesia e à sua igreja. Esse monumento funerário permanece como sinal de respeito pelos antepassados e como testemunho da ligação entre a Casa de Sanoane de Cima e a comunidade de Bucos.Junto ao templo encontra-se também a Casa do Senhor, edifício que ao longo dos anos tem servido de apoio à vida paroquial. Ali realizam-se encontros de catequese, reuniões, ações de formação e diversas atividades que fortalecem os laços entre as famílias e mantêm viva a missão evangelizadora da paróquia.Quando o vento da Serra da Cabreira passa pela torre dos sinos e percorre o adro silencioso, parece despertar as memórias guardadas nas pedras centenárias da igreja. É como se cada sino, cada altar, cada túmulo e cada parede contassem uma parte da história de Bucos.Porque a Igreja de São João Batista não é apenas um edifício de pedra. É um livro vivo da comunidade. Nela ficaram gravados os batismos, os casamentos, as despedidas, as festas, as procissões e as orações de incontáveis gerações.E a voz da Serra continua a repetir, suavemente, que enquanto houver quem preserve esta herança e conte a sua história, a Igreja de São João Batista de Bucos continuará a ser muito mais do que um monumento: será a alma de um povo, guardando o passado, iluminando o presente e transmitindo esperança às gerações futuras.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
A Voz da Serra da Cabreira e A Casa de Sanoane de Cima de Bucos
Na Serra da Cabreira, onde a terra,
Na Serra da Cabreira, onde a terra se abre em rechãs e o tempo caminha devagar, ergue-se a Casa de Sanoane de Cima. Feita de pedra antiga e mãos trabalhadoras, esta casa não foi apenas construída: foi vivida.Ao longo de gerações, acolheu famílias, guardou memórias e testemunhou os ciclos da natureza e da vida humana. As suas paredes ouviram risos de crianças, conversas à lareira nas noites frias de inverno e o labor diário de homens e mulheres que encontraram na terra o sustento e a dignidade. Cada pedra parece guardar uma história, cada recanto conserva a marca daqueles que por ali passaram.Em redor da casa, a paisagem da Cabreira estende-se serena. Os campos cultivados, as árvores que oferecem sombra e fruto, os caminhos antigos percorridos por pessoas e animais compõem um cenário onde a tradição continua presente. As andorinhas regressam na primavera para refazer os seus ninhos, os melros cantam ao amanhecer e a vida renova-se em cada estação.A Casa de Sanoane de Cima é mais do que uma habitação. É um símbolo de permanência, de pertença e de respeito pelas raízes. Representa a ligação profunda entre a família e a terra, entre o passado que honra os antepassados e o futuro que se deseja transmitir aos que virão.Ali, na quietude da serra, onde o vento percorre os montes e o horizonte se perde entre vales e florestas, a Casa de Sanoane de Cima continua de pé, firme e acolhedora, como um testemunho vivo da história, da memória e da alma da Serra da Cabreira.
À sua frente, na rechã, está o cruzeiro de Sanoane,
À sua frente, na ampla rechã de Sanoane, ergue-se o antigo cruzeiro, testemunha silenciosa do passar das gerações. Há muitos anos que ali permanece, firme contra os ventos da serra e as intempéries do tempo, abençoando os caminhos que cruzam a montanha e guardando todos aqueles que chegam e partem da Casa de Sanoane de Cima.Ao seu redor, a vida segue o ritmo das estações. O sol nasce por detrás dos montes, ilumina a pedra do cruzeiro e espalha a sua luz sobre os campos, as árvores e as casas. À tardinha, quando o silêncio regressa à rechã, parece que o velho monumento continua vigilante, como um guardião da memória e das tradições da terra.Conta a sabedoria popular que, quando a neblina desce suavemente da Serra da Cabreira e cobre os caminhos de um manto branco, o cruzeiro é o primeiro a acordar e o último a adormecer. Surge envolto no nevoeiro, sereno e majestoso, como uma sentinela entre o céu e a terra. Para muitos, não é apenas uma cruz de pedra, mas um símbolo de fé, proteção e pertença, lembrando que cada passo dado por aqueles caminhos faz parte de uma história antiga que continua a ser escrita.Assim, entre a Casa de Sanoane de Cima, a figueira que oferece sombra e o cruzeiro que guarda a rechã, permanece vivo um lugar onde a natureza, a memória e a espiritualidade caminham lado a lado, preservando a alma de Sanoane para as gerações futuras.
Poucos passos abaixo da casa corre a fonte de água
Poucos passos abaixo da Casa de Sanoane de Cima corre, serena e constante, a fonte de água cristalina. Nascida no coração da Serra da Cabreira, a sua água pura percorre os caminhos da terra como um fio de vida que nunca se interrompe.Durante gerações, esta fonte foi companheira de quem aqui viveu. Matou a sede dos lavradores após longas jornadas, lavou rostos marcados pelo trabalho e trouxe frescura aos dias quentes de verão. À sua volta ouviram-se conversas, risos de crianças, histórias de família e os silêncios tranquilos das tardes da serra.A água desliza sem pressa entre as pedras antigas, refletindo o céu, as árvores e as memórias do lugar. Diz-se que a fonte conhece todos os segredos de Sanoane, pois escutou as alegrias e as tristezas de muitas gerações. E talvez seja verdade, porque a água nunca esquece. Leva consigo as lembranças do passado, mas regressa sempre, limpa e renovada, como se quisesse recordar a todos que a vida continua a correr, tal como ela, entre a serra, a casa e o tempo.
Ao lado da casa cresce a figueira centenária,
Ao lado da Casa de Sanoane de Cima cresce a velha figueira centenária, guardiã silenciosa de memórias e testemunha fiel da passagem do tempo. A sua copa larga estende-se sobre a rechã como um abraço generoso, oferecendo sombra fresca nos dias quentes de verão e abrigo a pássaros que ali encontram descanso.Durante décadas, viu crianças correr e brincar à sua volta, ouviu conversas partilhadas ao cair da tarde e acompanhou encontros de família que se repetiram geração após geração. Sob os seus ramos contaram-se histórias, trocaram-se conselhos e viveram-se momentos simples que ficaram gravados na memória da casa.Todos os anos, com a paciência que só a natureza conhece, a figueira oferece os seus frutos doces a quem sabe esperar pelo tempo certo. Os figos amadurecem devagar, alimentados pelo sol da serra e pela força das suas raízes profundas.E são precisamente essas raízes que parecem unir a casa à terra. Enterradas fundo no solo de Sanoane, entrelaçam-se com a história da família, como laços invisíveis que ligam passado, presente e futuro. A figueira não é apenas uma árvore; é parte da alma do lugar, um símbolo de permanência, de abundância e da ligação eterna entre a Casa de Sanoane de Cima e a terra que a sustenta.
A Casa de Sanoane de Cima escuta tudo,
A Casa de Sanoane de Cima escuta tudo. Escuta o vento que desce da Serra da Cabreira e se demora pelos muros de pedra, o murmúrio constante da fonte que corre cristalina, o silêncio sereno do cruzeiro que vela a rechã e o suave sussurrar da figueira centenária quando as suas folhas dançam ao sabor da brisa.Não fala, porque as casas antigas conhecem a linguagem do silêncio. Mas guarda. Guarda as vozes de quem ali nasceu, os passos de quem partiu e regressou, os trabalhos de cada estação e os encontros que deram vida aos seus compartimentos e à sua eira.Nas suas paredes vivem memórias que o tempo não conseguiu apagar. Cada pedra conserva uma história, cada janela recorda um olhar lançado sobre a serra, cada porta conhece as alegrias e as dificuldades de muitas gerações. A casa viu crianças tornarem-se adultos, ouviu risos recentes misturarem-se com ecos antigos e acolheu a passagem tranquila dos anos.E assim permanece, firme e serena, como um livro aberto escrito pela vida. Porque na Casa de Sanoane de Cima o tempo não se perdeu. Ficou guardado entre as pedras, na sombra da figueira, junto da fonte e sob a proteção do cruzeiro, esperando que alguém o escute para voltar a contar a sua história.
E assim permanece, simples e inteira,
E assim permanece a Casa de Sanoane de Cima, simples e inteira, enraizada na terra que a viu nascer. Não precisa de grandezas para afirmar a sua presença, pois a sua riqueza vive na harmonia entre a natureza, a memória e o tempo.Ali, a serra entra pela porta como uma visita de todos os dias, trazendo o perfume dos eucaliptos, o canto das aves e a frescura das manhãs. A água da fonte corre pela memória das gerações, levando consigo histórias antigas que continuam vivas em cada pedra e em cada recanto da casa.A figueira centenária estende os seus ramos sobre a rechã, oferecendo sombra, abrigo e frutos, como quem cuida dos seus. Sob a sua copa repousam lembranças de encontros, conversas e momentos que fizeram da casa um verdadeiro lar.Em baixo, o cruzeiro permanece vigilante. Silencioso e firme, acompanha as estações, guarda os caminhos e vela pelo futuro daqueles que ali vivem e daqueles que um dia regressarão. É presença de fé, de proteção e de continuidade.E assim, entre a serra, a fonte, a figueira e o cruzeiro, a Casa de Sanoane de Cima continua a cumprir o seu destino: guardar a vida, acolher a memória e permanecer como um lugar onde o passado e o futuro se encontram em paz.
domingo, 21 de junho de 2026
O Cruzeiro da Rechã
Naquela linda Rechã,
serena e encantada,
um cruzeiro se implantou,
de pedra levantada.
Guardião de memórias,
de fé e tradição,
ergue-se para os céus,
firme no coração.
Ao seu lado, a figueira,
antiga companheira,
abre os ramos ao vento,
sombra acolhedora e verdadeira.
Testemunha dos tempos,
as gentes e do labor,
das colheitas abundantes
e dos dias de amor.
Ali perto repousa
a Casa de Sanoane de Cima,
orgulho de uma família
que o tempo não dizima.
Entre muros e caminhos,
histórias soube guardar,
como um livro aberto
que nunca deixa de contar.
O cruzeiro e a figueira,
unidos na paisagem,
compõem da Rechã a
mais bela imagem.
E a Casa de Sanoane,
com sua nobre presença,
mantém viva a memória,
a esperança e a crença.
Quem passa por aquele lugar de rara beleza,
sente a paz que brota da natureza.
E leva consigo, no coração e na lembrança,
a Rechã, o Cruzeiro, a Figueira e Sanoane em aliança.
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Casa de Sanoane de Cima - Vivências em 2025
No ano de 2025, a Casa de Sanoane de Cima, situada na rechã da Portela, é habitada por Manuel de Oliveira Henriques Braz e Maria Luísa Gonçalves Lopes.
A vida quotidiana da casa é partilhada com diversos animais que ali encontraram abrigo. No quintal são cuidados dois casais de galinhas de cor castanha e uma gata, que ali encontrou refúgio. Nas paredes da habitação, um casal de andorinhas construiu o seu ninho e criou a sua família. Também dois casais de pequenos pássaros fizeram ninho na casa, bem como um casal de melros, contribuindo para a riqueza da vida natural que rodeia a propriedade.Durante o dia e a noite, é igualmente frequente a presença de um pedreiro e de uma lavandisca solitários, que permanecem nas imediações da casa.
Esta é a vivência diária observada em 2025.Comparando com o ano de 2014, nota-se a ausência do casal de sardões que então habitava a propriedade, tendo o seu esconderijo na eira, do ouriço-cacheiro que habitava debaixo das escadas. Verifica-se também uma diminuição do número de casais de pássaros que escolhem a casa para nidificar.Apesar destas alterações na fauna local, o número de visitas à casa mantém-se.
Durante o presente ano, a Casa de Sanone de Cima recebeu a visita de Rodrigo Lopes, proveniente de Lençóis, Bahia, Brasil, bem como de Fernando Guedes e Cláudia Oliveira, da Penha, Rio de Janeiro, Brasil. Naturalmente, a casa continua também a receber filhos, familiares e amigos residentes em Portugal.
Entre as mudanças mais significativas ocorridas nos últimos anos, destaca-se a construção de um quarto completo e independente, destinado ao acolhimento de visitantes, melhorando as condições de estadia para familiares e amigos que visitam a Casa de Sanoane de Cima.
Assim, a casa mantém a sua tradição de acolhimento, convivência familiar e respeito pela natureza, preservando uma ligação contínua entre as gerações que por ela passaram e aqueles que a visitam.
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