sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Ideia de Ecomuseu
A ideia de um ecomuseu familiar nasce da consciência de que a vida moderna é cada vez mais internacional, dinâmica e aberta ao mundo.
Hoje, as pessoas viajam, estudam fora, participam em intercâmbios, conhecem novas culturas, sabores e saberes.
A sociedade deixou de se limitar ao espaço local — mas isso não significa que deva perder as suas raízes.Pelo contrário: quanto mais o mundo se alarga, mais importante se torna preservar a identidade. Um ecomuseu familiar é exatamente isso — um espaço vivo onde a memória, a tradição e a experiência pessoal se encontram.
Na Casa de Sanoane de Cima, esse espírito ganhou forma concreta. Foram reunidos objetos agrícolas que contam a história do trabalho da terra; utensílios de cozinha que recordam os sabores antigos; manteve-se o forno tradicional,o canastro, o lagar e a adega como testemunhos de uma economia familiar autossuficiente. Preservaram-se tapetes, mobiliário antigo e medalhas participativas que assinalam presenças em eventos e momentos marcantes.Ao mesmo tempo, criou-se uma coleção singular de canecas trazidas de locais diversos por onde a família passou — cada uma símbolo de uma viagem, de um encontro, de uma aprendizagem.
Assim, o local dialoga com o global. A tradição conversa com o mundo.
Um ecomuseu familiar não é apenas um conjunto de objetos; é um projeto de identidade. É a prova de que a memória não precisa de tinta nem de papel para existir — vive nos objetos, nas paredes, nos gestos e nas histórias partilhadas.
Num tempo de mobilidade e mudança constante, cada casa pode ser um pequeno centro de cultura, um guardião da herança, um ponto de encontro entre passado e futuro.Porque preservar não é ficar parado — é saber de onde se vem para caminhar com mais consciência para onde se vai.
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Índice - Casa de Sanoane de Cima
Prefácio
Introdução
Enquadramento geográfico territorial
Enquadramento paisagistico
Enquadramento Social
Enquadramento Histórico e Social
Leitura Patrimonial e Valor Patrimonial Simbólico e Construtivo
Leitura arquitetónica da Casa de Sanoane de Cima
Conclusão
Epílogo,
Notas Finais
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Descrição articulada do Retrato-Escultura de Manuel Braz - Livro de Memórias
A escultura-retrato de Manuel Braz apresenta-se como um objeto de arte autónomo, de presença solene e intencionalmente intemporal.
Executada integralmente em ouro polido, a figura afasta-se da representação naturalista para assumir uma linguagem escultórica depurada, onde a identidade não é literal, mas sugerida pela estrutura do rosto, pela proporção dos planos e pela geometria essencial da silhueta.
Os traços faciais surgem em baixo-relevo e facetação, como se a memória tivesse sido cristalizada em matéria nobre: o olhar insinuado por planos oblíquos, o sorriso contido gravado na superfície metálica, a cabeça como volume firme e sereno.
As incrustações de diamantes, pérolas e pedras coloridas pontuam a superfície não como ornamento excessivo, mas como marcas de valor, experiência e continuidade — cada brilho funcionando como metáfora de episódios vividos, relações construídas e heranças transmitidas.
As gravações e filigranas que percorrem o busto evocam saberes artesanais antigos, aproximando a escultura de uma lógica de objeto patrimonial, quase ritual. Não se trata de um corpo vivo, mas de uma presença simbólica: um retrato que existe entre a pessoa e a memória, entre o indivíduo e o lugar que o moldou.
Nesse sentido, a escultura estabelece um diálogo profundo com a Casa de Sanoane de Cima. Tal como a casa, Manuel Braz é aqui representado como estrutura, não como episódio passageiro.
Ambos partilham a mesma ideia de permanência: a casa como corpo construído ao longo do tempo, o retrato como corpo transformado em matéria durável.
As filigranas do ouro ecoam as marcas deixadas nas paredes, nos pátios e nos caminhos antigos; as pedras incrustadas refletem a densidade simbólica de um lugar habitado por gerações.
A escultura pode ser lida, assim, como uma extensão humana da Casa de Sanoane de Cima — não um simples retrato individual, mas a personificação de uma ligação contínua entre pessoa, território e memória.
Tal como a casa, o retrato não pertence apenas ao presente: existe para ser visto, interpretado e reconhecido no futuro, como testemunho de pertença, identidade e continuidade.
Retrato de Manuel Braz
Este retrato guarda mais do que a imagem de um homem num momento da sua vida. Guarda um modo de estar no mundo que encontra eco na Casa de Sanoane de Cima — a mesma contenção, a mesma sobriedade, a mesma permanência discreta.
Tal como a casa, também este rosto se apresenta sem excessos. O olhar firme, a postura medida e o fato cuidadosamente composto revelam uma relação profunda com o tempo e com a responsabilidade. Não há aqui gesto supérfluo: há presença. Uma presença que se construiu entre paredes conhecidas, ritmos agrícolas, estações repetidas e uma vida feita de continuidade.
A Casa de Sanoane de Cima não era apenas o lugar onde se habitava; era o espaço onde se aprendia a resistir, a cuidar e a permanecer. Este homem pertence a esse universo. A sua imagem parece trazer consigo os mesmos valores que moldaram a casa: solidez, discrição e sentido de pertença.
As marcas que hoje atravessam a fotografia — riscos, dobras, sinais de uso — são semelhantes às que o tempo deixou na casa. Não são feridas, mas testemunhos. Confirmam que tanto a imagem como a arquitetura foram vividas, atravessadas por gerações, tocadas pelo quotidiano.
Integrar este retrato neste livro é reconhecer que a história da Casa de Sanoane de Cima não se escreve apenas através de paredes, pátios ou terrenos, mas também nos rostos que lhe deram vida. A casa permanece porque foi habitada. E este rosto permanece porque pertence à Casa.
Prefácio do livro
Este livro nasce da vontade de reconhecer e dar sentido à Casa de Sanoane de Cima, entendida não apenas como uma construção, mas como um lugar de memória, de pertença e de continuidade.Antes de qualquer abordagem técnica ou histórica, impõe-se vê-la como um espaço vivido, marcado pela passagem do tempo e pela presença de sucessivas gerações. Entre paredes de pedra e caminhos antigos, a casa guarda histórias, gestos quotidianos, silêncios e afetos que lhe conferem significado e identidade.Ao longo destas páginas, a Casa de Sanoane de Cima é situada no seu contexto geográfico, paisagístico e humano, revelando a profunda relação entre o edificado, o território e a comunidade que o moldou. A paisagem, os percursos, o meio rural e as formas de habitar ajudam a compreender não só a implantação da casa, mas também a sua permanência no tempo.A casa é aqui observada como património vivo: material na sua forma, cultural no seu valor simbólico, social e histórico. A sua história confunde-se com a história de quem a habitou, refletindo modos de vida, transformações e continuidades que ultrapassam a dimensão individual.Este livro propõe, assim, uma leitura integrada da Casa de Sanoane de Cima, valorizando-a como herança coletiva e como referência de memória. Mais do que um olhar sobre o passado, é um convite a reconhecer a casa como elemento vivo, capaz de continuar a contar histórias e de inspirar novas formas de relação com o património e com o território.
Casa de Sanoane de Cima, Paisagem Rural
A Casa de Sanoane de Cima insere-se numa paisagem rural de forte matriz agrícola. A construção em pedra, de carácter utilitário, revela a arquitetura tradicional do meio rural, associada à economia de subsistência.
Destaca-se o canastro/espigueiro, elevado do solo, testemunho da antiga conservação de cereais e do saber construtivo local.
O enquadramento natural é marcado por oliveiras centenárias, árvores de grande valor simbólico, produtivo e paisagístico, que atestam a continuidade da ocupação humana e agrícola ao longo de gerações.
A presença de ovinos em pastoreio reforça a ligação viva entre o edificado, a terra e as práticas tradicionais ainda ativas.
O conjunto — casa rural, estruturas agrícolas, árvores antigas e uso do solo — constitui uma leitura clara da paisagem cultural, onde natureza e ação humana se articulam de forma equilibrada, transmitindo memória, identidade e permanência no tempo.
Casa de Sanoane de Cima, a Eira
A composição arquitetónica organiza-se em torno de um pátio central lajeado em pedra, elemento estruturante da casa rural tradicional, que funciona simultaneamente como espaço de circulação, trabalho e convivência. Este vazio central articula os diferentes corpos edificados, reforçando a unidade do conjunto e a sua relação com o exterior.As construções apresentam paredes portantes em granito aparente, de aparelhamento irregular, testemunhando técnicas construtivas vernaculares e uma forte adequação aos recursos locais. A espessura dos muros confere inércia térmica, robustez estrutural e uma expressão de permanência, características próprias da arquitetura rural do Norte de Portugal.Os telhados de duas águas, cobertos por telha cerâmica tradicional, garantem uma leitura volumétrica simples e funcional, adaptada às condições climáticas. A presença de pilares em pedra no alpendre reforça o carácter utilitário do espaço coberto, originalmente associado a tarefas agrícolas, abrigo de animais ou armazenamento.Observa-se uma intervenção contemporânea de adaptação, visível nas amplas superfícies envidraçadas e na ligação entre corpos edificados. Esta solução introduz luz natural e transparência, estabelecendo um diálogo entre o antigo e o novo, sem romper com a escala nem com a materialidade dominante. O vidro assume aqui um papel de mediação, permitindo a leitura contínua do pátio e da paisagem envolvente.O conjunto revela, assim, uma arquitetura evolutiva, resultado de sucessivas fases de construção e adaptação, onde a função original rural se transforma progressivamente em espaço de habitação e fruição. O pátio mantém-se como núcleo simbólico e funcional, preservando a memória do lugar e assegurando a continuidade entre passado e presente
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