quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Introdução A Casa de Sanoane de Cima

Este livro nasce da vontade de identificar, enquadrar e dar sentido à Casa de Sanoane de Cima, não apenas como construção física, mas como lugar de memória, de pertença e de continuidade. Antes de qualquer descrição técnica ou histórica, importa reconhecê-la como um espaço vivido, atravessado por gerações, onde o tempo deixou marcas visíveis e invisíveis. Ao longo das páginas seguintes, o livro apresenta a identificação da casa e do seu enquadramento geográfico, inserindo-a na paisagem natural que a envolve e lhe dá carácter. O território, o relevo, os caminhos, a relação com o meio rural e com a envolvente humana são elementos essenciais para compreender a sua implantação e o modo como dialoga com o lugar. Segue-se o enquadramento paisagístico e patrimonial, onde a casa é observada como parte integrante de um conjunto mais amplo, refletindo modos de construir, de habitar e de organizar o espaço próprios de uma determinada época e comunidade. A Casa de Sanoane de Cima é aqui entendida como património, não apenas pelo que conserva materialmente, mas pelo que representa culturalmente. O livro aborda ainda o seu valor simbólico, social e histórico. Símbolo de enraizamento familiar, a casa foi palco de trabalho, de convivência, de celebrações e de silêncios. A sua história confunde-se com a história de quem a habitou, refletindo transformações sociais, económicas e culturais ao longo do tempo. Do ponto de vista arquitetónico, são analisadas as suas características construtivas, os materiais, as soluções formais e funcionais, procurando compreender a lógica que presidiu à sua edificação e às adaptações que foi sofrendo, sem perder a identidade original. Por fim, nas considerações gerais, este livro propõe uma leitura integrada da Casa de Sanoane de Cima, valorizando-a como herança coletiva e como referência de memória. Mais do que um registo do passado, pretende-se afirmar a casa como um elemento vivo, capaz de continuar a contar histórias e de inspirar novas formas de relação com o património e com o território.

Introdução 2

A Casa de Sanoane de Cima ergue-se no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos, como um marco silencioso da história rural e humana desta terra. Construída em pedra, moldada pelo tempo e pelas mãos de gerações sucessivas, não é apenas um edifício: é memória viva, testemunho de modos de vida, de trabalho árduo, de relações familiares profundas e de uma ligação íntima à terra. Ao longo dos séculos, esta casa foi abrigo, centro de atividade agrícola, espaço de encontro e de transmissão de saberes. As suas dependências — a eira, a adega, o lagar, o forno de lenha, os alpendres e arrecadações — refletem uma economia de subsistência equilibrada, onde cada espaço tinha uma função precisa e um significado próprio. Aqui se produziram alimentos, se guardaram colheitas, se celebraram ciclos da natureza e se construíram histórias partilhadas. A Casa de Sanoane de Cima foi também ponto de referência social. Por ela passaram e nela viveram diversas famílias, cujos nomes, gestos e memórias permanecem inscritos nas paredes, nos objetos preservados e nas narrativas transmitidas de geração em geração. Cada pedra, cada viga e cada utensílio guardam marcas de um tempo em que o quotidiano se organizava ao ritmo das estações e da comunidade. Este livro nasce do desejo de preservar e dignificar esse legado. Não pretende apenas relatar factos ou datas, mas sobretudo contar a história de uma casa enquanto organismo vivo, inseparável das pessoas que a habitaram e do território que a envolve. Ao abrir estas páginas, o leitor é convidado a entrar na Casa de Sanoane de Cima, a escutar as suas vozes e a reconhecer nela um património que é familiar, local e, ao mesmo tempo, coletivo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O que pensar, o que fazer?

A idade vai avançando, silenciosa e persistente. As alterações fisiológicas do corpo começam a aparecer uma a uma, como sinais que já não pedem licença. O domínio corporal diminui, o equilíbrio falha em alguns momentos, a memória esquece nomes, datas, pequenos gestos que antes vinham sozinhos. Surge uma espécie de neblina visual, a cabeça parece mais pesada, as forças enfraquecem. Tudo isso vai crescendo com a idade, somando dificuldades ao dia a dia. Diante disso, o que pensar? Talvez aceitar sem resignação cega, reconhecer sem medo. O corpo muda, mas a pessoa não se reduz a ele. O envelhecimento não é apenas perda; é também adaptação, aprendizagem de novos ritmos, revisão de prioridades. E o que fazer? Cuidar mais do que controlar. Respeitar os limites sem desistir do movimento. Estimular a memória, mesmo quando ela falha. Manter rotinas simples, atenção ao corpo, à alimentação, ao descanso. Pedir ajuda quando necessário — isso não é fraqueza, é inteligência prática.Sobretudo, é preciso cultivar a lucidez emocional: não se medir apenas pelo que já não se consegue fazer, mas pelo que ainda se sente, se compreende, se transmite. A idade traz dificuldades, sim, mas também traz uma visão mais larga da vida, um saber que não se aprende nos livros. Envelhecer é aprender a caminhar com mais cuidado, mas com mais consciência. É perder alguma força nos músculos e ganhar densidade no olhar. É aceitar o tempo no corpo, sem deixar que ele roube o sentido da própria existência.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Enquadramento Paisagistico, O Cruzeiro e a Igreja

O CRUZEIRO .Nos terrenos anexos à Casa encontra-se implantado o cruzeiro, elemento simbólico de grande relevância religiosa e cultural, que reforça o papel histórico da propriedade como lugar de referência e centralidade no contexto local. Este marco sacro, integrado no domínio da Casa, estabelece uma ligação direta entre o espaço privado, a devoção popular e a vivência coletiva da aldeia A IGREJA PAOQUIAL .A igreja paroquial, situada nas proximidades e claramente visível a partir da Casa de Sanoane de Cima, assume-se como um elemento dominante na paisagem e um importante ponto de orientação visual e espiritual. A sua presença próxima reforça a relação histórica entre a habitação, o núcleo religioso e a organização social da comunidade ntegra igualmente este enquadramento uma fonte de água proveniente da montanha, que desde tempos antigos matava a sede à população e agora serve de ponto de apoio aos caminheiros dos percursos tradicionais. Este elemento natural, associado aos caminhos ancestrais, evoca valores de hospitalidade, partilha e sobrevivência no meio rural .Destaca-se ainda a figueira centenária, árvore de grande porte e valor simbólico, que constitui um marco vivo da paisagem e da memória coletiva. À sua sombra terão ocorrido encontros, pausas e momentos de convívio, fazendo desta árvore um elemento identitário e afetivo do lugar, testemunha silenciosa da passagem do tempo e das gerações. A presença da capela mortuária, integrada no tecido paisagístico envolvente, acrescenta uma dimensão de recolhimento e memória, refletindo os rituais comunitários associados ao ciclo da vida e da morte.

A Casa, as Famílias e o Tempo da Casa de Sanoane de Cima

A história familiar revela um percurso de casamentos e uniões que transcende o tempo, desde 1677 até 2013, com a presença de nomes e datas que marcam a evolução de uma família. 1677 Família Delgado/Francisca Casamento de Simão Delgado C/ Margarida Francisca da Casa de Sanhoane. 1710 Família Delgado/Oliveira Casamento de António Delgado com Ilena Oliveira da Casa do Ruival 1747 Família Delgado/Domingues Casamento de João Delgado com Ana Domingues S/ data Família Henriques/Delgado Casamento de Catarina Delgado com Manuel Henriques" S/ data Família Henriques/Alvarez Casamento de Domingos Henriques com Maria Alvarez da Freguesia de Salto 1812 Família Henriques/Gomes Casamento de José Henriques com Maria Gomes da Casa da Pereira 1844 Família Basto/Fernandes Casamento de António Henriques Basto com Luiza Fernandes da Casa de Cortezelas. 1900 Família Henriques Basto/Vieira Casamento de José Henriques Basto com Maria Vieira da Casa de José. 2013 Família Henriques Braz/Gonçalves Casamento de Manuel de Oliveira Henriques Braz com Maria Luisa Gonçalves Lopes In"memórias religiosas"

Valor Patrimonial Simbólico, Identitário e Construtivo

Para além da sua relevância histórica e genealógica, a Casa de Sanoane de Cima possui um valor patrimonial simbólico e identitário, representando um testemunho material da cultura rural tradicional de Bucos e da região envolvente. A casa afirma-se como lugar de pertença, memória e continuidade, onde sucessivas gerações construíram não apenas um edifício, mas um modo de vida profundamente enraizado no território.O valor identitário do conjunto manifesta-se na utilização exclusiva de materiais locais e técnicas construtivas tradicionais. A edificação é maioritariamente construída em alvenaria de pedra azul e amarela da região, cuja extração e aplicação refletem um conhecimento empírico transmitido ao longo do tempo. Estas pedras, abundantes no território, conferem à casa uma forte integração cromática e material na paisagem rural circundante, reforçando a sua autenticidade vernacular. A madeira desempenha igualmente um papel estrutural e simbólico fundamental. O uso predominante de castanho nas estruturas interiores e elementos construtivos traduz a durabilidade e a resistência associadas às construções tradicionais. As traves em eucalipto e carvalho, empregues em pavimentos e coberturas, revelam uma adaptação pragmática aos recursos disponíveis, aliando funcionalidade, economia local e saber construtivo tradicional. A cobertura em telha cerâmica completa o conjunto, garantindo proteção climática e continuidade formal com a arquitetura rural da região.Do ponto de vista patrimonial, a organização funcional da casa constitui um dos seus aspetos mais relevantes. O conjunto preserva uma clara leitura da estrutura doméstica e agrícola tradicional, onde cada espaço responde a uma função específica no quotidiano rural. A eira, a adega, o alpendre, o canastro e o tanque de água formam um sistema articulado de apoio às atividades agrícolas, desde a secagem e armazenamento dos cereais até à transformação e conservação dos produtos da terra. No interior, a organização espacial reflete a lógica funcional antiga, com a distinção entre áreas de trabalho, armazenamento e habitação. A antiga sala, associada ao armazém das culturas da casa, evidencia a centralidade do espaço produtivo na vida familiar. A cozinha, espaço nuclear da vida doméstica, encontra-se claramente separada do hall e da zona dos quartos, garantindo privacidade e organização funcional. Esta separação entre espaços comuns e área íntima revela uma conceção espacial amadurecida, adaptada às necessidades de uma família rural numerosa e às dinâmicas do trabalho agrícola. Este equilíbrio entre forma, função e materialidade confere à Casa de Sanoane de Cima um valor patrimonial excecional enquanto exemplo de património rural vernacular preservado. A casa não é apenas um objeto arquitetónico, mas um símbolo da permanência das práticas, dos saberes e da identidade rural de Bucos, constituindo um testemunho vivo da relação histórica entre o homem, a terra e a construção do espaço habitado.

Epílogo Casa de Sanoane de Cima – Ecomuseu Familiar

A Casa de Sanoane de Cima não é apenas um edifício antigo preservado no tempo. É um lugar de memória viva, onde as paredes de pedra guardam histórias, gestos e silêncios acumulados ao longo de gerações. Cada espaço — da casa à eira, do lagar ao canastro, do tanque de água aos caminhos antigos — testemunha modos de viver profundamente enraizados no território e na relação respeitosa entre o homem e a natureza. Enquanto ecomuseu familiar, Sanoane de Cima afirma-se como um espaço de continuidade, onde o passado não é cristalizado, mas compreendido, valorizado e transmitido. Aqui, a herança material cruza-se com o património imaterial: os saberes agrícolas, as práticas comunitárias, a oralidade, as memórias de trabalho e de festa, de escassez e de partilha. Tudo isso constrói uma identidade que permanece viva porque é cuidada e reinterpretada pelas gerações atuais. Este projeto nasce da vontade de preservar sem musealizar em excesso, de mostrar sem desvirtuar, de abrir portas sem perder autenticidade. A casa continua a ser casa; o lugar continua a ser vivido. O ecomuseu não se impõe ao território — emerge dele, respeitando a sua escala, o seu ritmo e o seu silêncio. O epílogo de Sanoane de Cima é, na verdade, um recomeço. Um compromisso com a memória, com a paisagem e com o futuro. Um convite à escuta atenta do lugar, à valorização do património rural e à compreensão de que a história não reside apenas nos grandes monumentos, mas também nas casas simples, nos gestos repetidos e na relação íntima entre pessoas e terra. Assim, a Casa de Sanoane de Cima permanece — não como relíquia, mas como testemunho vivo de um modo de habitar, de cuidar e de pertencer.