terça-feira, 12 de maio de 2026
Memórias de um Professor
As memórias de um professor são feitas de rostos, palavras e caminhos cruzados ao longo da vida. Mas as memórias de um professor da Educação de Adultos e do Ensino de Português no estrangeiro possuem um significado ainda mais profundo, porque nelas vivem histórias de superação, esperança e preservação da identidade cultural longe da terra natal.
Ensinar adultos é muito mais do que transmitir conhecimentos. É compreender vidas marcadas pelo trabalho, pela emigração e pelos desafios do quotidiano. Muitos alunos chegam à sala de aula depois de longas jornadas laborais, trazendo consigo sonhos adiados, vontade de aprender e o desejo de conquistar novas oportunidades.
Cada aula transforma-se, assim, num espaço de partilha humana, onde o saber se cruza com a experiência de vida.No ensino de Português no estrangeiro, a missão do professor ganha igualmente um valor cultural e afetivo. A língua portuguesa torna-se ponte entre gerações, elo de ligação às origens e símbolo de pertença.
Ensinar a língua materna aos filhos e netos de emigrantes é ajudar a manter viva a memória de um povo, das suas tradições, da sua história e dos seus valores.Ao longo dos anos, ficam gravados momentos inesquecíveis: o aluno adulto que aprende finalmente a escrever o seu nome com orgulho; a criança emigrante que descobre a beleza da língua dos pais; as festas culturais, os encontros comunitários e as emoções partilhadas em cada conquista alcançada.
Ser professor nestas circunstâncias exige dedicação, paciência e sensibilidade humana. Exige também a capacidade de motivar, de ouvir e de compreender diferentes realidades sociais e culturais. Contudo, é precisamente nessa diversidade que nasce a riqueza desta missão educativa.Com o passar do tempo, as salas de aula tornam-se verdadeiros espaços de memória.
Cada aluno deixa uma marca, cada história ensina uma lição e cada palavra transmitida permanece como parte de um legado silencioso, mas profundamente humano.Estas memórias representam, acima de tudo, a história de uma vida dedicada ao ensino, à valorização das pessoas e à preservação da língua portuguesa além-fronteiras — uma missão nobre que une conhecimento, cultura e sentimento.
Memórias de um Oficial Militar
As memórias de um oficial militar não se escrevem apenas com datas, postos ou medalhas. Escrevem-se, sobretudo, com vivências, sacrifícios, companheirismo e um profundo sentido de dever ao serviço da Pátria.
Cada etapa percorrida ao longo da carreira representa uma escola de vida, marcada pela disciplina, pela coragem e pela capacidade de enfrentar desafios em tempos de paz e de incerteza.Ser oficial militar é assumir responsabilidades que vão muito além da hierarquia. É aprender a liderar homens, a tomar decisões em momentos difíceis e a manter a serenidade perante as adversidades.
Ao longo dos anos, permanecem na memória os exercícios, as longas jornadas de serviço, as missões cumpridas e, acima de tudo, os rostos daqueles que partilharam o mesmo ideal de honra e compromisso.A vida militar molda o carácter. Ensina o valor da palavra dada, o respeito pelos outros e o espírito de missão. Entre quartéis, formaturas e deslocações, criam-se amizades para toda a vida e acumulam-se histórias que jamais se apagam.
Cada recordação transporta consigo emoções únicas: o orgulho do uniforme vestido com dignidade, a saudade da família nos períodos de ausência e a satisfação íntima de servir uma causa maior.Com o passar do tempo, as memórias ganham ainda mais significado. O que outrora parecia rotina transforma-se em património humano e histórico.
Os ensinamentos recebidos e transmitidos às novas gerações tornam-se um legado de valores, perseverança e dedicação.Estas memórias representam, assim, um testemunho de vida — a história de um homem que, através da carreira militar, aprendeu a servir, a liderar e a enfrentar o mundo com honra, coragem e sentido de responsabilidade.
Memórias de um Embaixador
Ser Embaixador de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012, na cidade de Neuchâtel, representou muito mais do que um título simbólico. Foi uma missão de coração, de identidade e de orgulho pelas raízes portuguesas e vimaranenses além-fronteiras.O ano de 2012 ficará para sempre gravado na memória coletiva de Portugal e, em particular, de Guimarães, berço da nação portuguesa, que assumiu perante a Europa o papel de Capital Europeia da Cultura. Esse acontecimento levou a cultura portuguesa a ultrapassar limites geográficos, aproximando povos, comunidades emigrantes e diferentes gerações.Na Suíça, especialmente em Neuchâtel, onde vive uma significativa comunidade portuguesa, o papel de embaixador tornou-se uma ponte entre a terra de origem e o país de acolhimento. Através de encontros culturais, convívios, apresentações e momentos de partilha, promoveu-se a história, a tradição, a música, o folclore, a gastronomia e os valores humanos que caracterizam o povo português.Cada iniciativa realizada despertava emoções especiais entre os emigrantes. Muitos reviviam recordações da infância, das aldeias, das festas populares e das tradições deixadas para trás quando partiram em busca de uma vida melhor. Guimarães 2012 serviu, assim, como reencontro com a identidade e como motivo de orgulho nacional.Ser embaixador foi também testemunhar a força da cultura como elemento de união. Portugueses, suíços e cidadãos de outras nacionalidades participaram em atividades que mostraram a riqueza cultural de Portugal, reforçando laços de amizade e respeito entre comunidades.As memórias desses momentos permanecem vivas: os rostos emocionados, os aplausos sinceros, os encontros marcados pela fraternidade e o sentimento profundo de representar Guimarães e Portugal em terras suíças. Foi uma experiência de enorme dignidade, responsabilidade e gratidão.Hoje, ao recordar esse percurso, permanece a certeza de que a cultura aproxima pessoas, preserva identidades e deixa marcas eternas na memória de quem viveu intensamente esse tempo único da história de Guimarães e da comunidade portuguesa em Neuchâtel.
Memórias de um Vereador
Recordar os anos de serviço como Vereador Municipal da Câmara de Cabeceiras de Basto é reviver um tempo de dedicação, responsabilidade e profundo compromisso com a terra e com as suas gentes. Foram anos marcados pelo trabalho constante, pela proximidade às populações e pela vontade sincera de contribuir para o desenvolvimento do concelho.
Ser Vereador Municipal não significava apenas ocupar um cargo público. Significava ouvir os problemas das aldeias, acompanhar as necessidades das famílias, lutar por melhores estradas, abastecimento de água, saneamento, escolas, cultura e condições de vida mais dignas para todos. Cada reunião, cada visita às freguesias e cada decisão tomada traziam consigo o peso da responsabilidade, mas também a satisfação do dever cumprido.
Cabeceiras de Basto sempre foi uma terra de gente trabalhadora, honesta e resiliente. Foi com esse espírito que muitos projetos ganharam forma, graças ao esforço conjunto entre autarcas, funcionários municipais e população. As dificuldades existiam, como em qualquer época, mas a união e a vontade de servir permitiam ultrapassar obstáculos e construir caminhos de progresso.
Ao longo desse percurso ficaram memórias de amizade, respeito e convivência humana. Ficaram os encontros institucionais, as festas populares, as inaugurações, os debates e as decisões importantes para o futuro do concelho. Ficou, sobretudo, o orgulho de ter servido Cabeceiras de Basto com dedicação e sentido de missão.
Hoje, ao olhar para trás, permanecem as recordações de uma etapa marcante da vida pública e pessoal — uma experiência enriquecedora, feita de desafios, aprendizagens e serviço à comunidade. Porque servir a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto foi, acima de tudo, servir a sua gente e honrar a identidade de uma terra com história, tradição e futuro
Memórias de um Conselheiro Social
Entre rostos marcados pela distância da pátria e histórias de coragem silenciosa, nasceu uma missão feita de proximidade humana, escuta e serviço.Na Suíça, como Conselheiro Social da Embaixada de Portugal, cada atendimento foi mais do que um ato administrativo — foi um encontro de vidas, de esperanças e de desafios partilhados.Ao longo dos anos, passaram por este gabinete emigrantes, trabalhadores, famílias e jovens em busca de orientação, apoio e dignidade. Em cada palavra trocada, em cada problema resolvido, ficou a certeza de que servir a comunidade portuguesa no estrangeiro é também honrar Portugal.Estas memórias guardam não apenas o exercício de uma função, mas sobretudo a vivência de um compromisso humano: estar presente nos momentos difíceis, celebrar conquistas e fortalecer os laços entre a comunidade e o seu país de origem.A Suíça tornou-se, assim, palco de inúmeras histórias de trabalho, sacrifício e superação, onde o espírito português permaneceu vivo através da solidariedade, da união e da esperança.Mais do que recordações, estas páginas são testemunho de dedicação, responsabilidade e profundo respeito por todos aqueles que, longe da sua terra, nunca deixaram de trazer Portugal no coração.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Reflexão e História de um Alferes 50 Anos Depois - Viagem de Manuel Braz no Serviço Militar
HISTÓRIA E REFLEXÕES DE UM ALFERES
Cinquenta Anos Depois
Introdução
Manuel Braz
Alferes Miliciano
Esta é a memória de uma viagem humana, militar e pessoal vivida entre 1969 e 1972, ao serviço do Exército Português, no cumprimento do serviço militar obrigatório. Uma viagem feita de descobertas, dificuldades, incertezas, aprendizagem e reflexão, que o tempo jamais conseguiu apagar.
Ao longo da vida, compreendemos que nenhuma viagem nos deixa iguais ao que éramos antes de partir. Existem percursos que nos transformam silenciosamente e outros que ficam gravados para sempre na memória, pela intensidade dos acontecimentos vividos e pelas marcas humanas que deixam em nós. Esta foi uma dessas viagens.
Como Alferes Miliciano da Companhia de Artilharia 2671, destacado em Angola, na região da Lunda Norte, vivi momentos que ainda hoje permanecem vivos no pensamento e no coração. Entre o Mussuco, Catxinga, Malange e Henrique de Carvalho as longas deslocações pelas picadas africanas, os perigos constantes, as amizades construídas e os desafios de uma guerra distante, fui acumulando experiências que moldaram a minha forma de ver a vida e os homens.
Este livro não pretende ser apenas um relato militar. É também um testemunho pessoal, uma reflexão serena feita cinquenta anos depois, sobre os caminhos escolhidos, os sonhos interrompidos e as aprendizagens que o tempo transformou em memória.
O meu pai, homem simples nascido e criado numa pequena aldeia da Serra da Cabreira, alimentava sonhos antigos para os seus filhos. Gostaria de ver na família um professor, um padre e um militar, figuras que, no seu entendimento, representavam dignidade, respeito e serviço à comunidade. Influenciado por esse ideal, pensei seguir a carreira militar e fazer dela o meu futuro.
Contudo, a realidade encontrada durante a recruta, em Mafra, começou lentamente a alterar essa convicção inicial. A dureza de alguns comportamentos, a falta de humanidade em certas situações, as contrariedades, a ausência de respostas claras e a indefinição quanto ao futuro fizeram nascer dúvidas que acabariam por mudar o rumo da minha vida.
Ainda assim, o serviço militar deixou ensinamentos profundos. Foi uma escola de resistência, disciplina e convivência humana. Trouxe-me experiências únicas, contacto com diferentes realidades, amizades inesquecíveis e uma visão mais ampla da condição humana.
Hoje, ao olhar para trás, compreendo que a vida é construída pelas decisões que tomamos e, muitas vezes, pelas circunstâncias que nos obrigam a escolher novos caminhos. O futuro é feito de promessas, mas também de incertezas. E é precisamente nessas mudanças que aprendemos a reinventar-nos.
Reescrever a própria história não significa apagar o passado, mas antes compreendê-lo, aceitá-lo e dar-lhe um novo significado à luz do tempo vivido.
Estas páginas são, por isso, mais do que recordações. São fragmentos de uma vida, reflexões amadurecidas ao longo de cinquenta anos e o testemunho sincero de um jovem alferes que, mesmo tendo seguido outros caminhos, nunca esqueceu aquilo que viveu, sentiu e aprendeu.
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Prefácio
Há viagens que não se fazem por escolha, mas por dever. Ainda assim, acabam por ser as que mais nos transformam. Esta é a história de uma dessas viagens — construída em instantes, guardada em fotografias, e vivida intensamente no quotidiano do serviço militar obrigatório.
Tudo começou em 4 janeiro de 1969. Nesse mês frio, iniciou-se uma longa odisseia que só encontraria o seu fim a 5 de março de 1972, no regresso de Angola e na passagem à disponibilidade. Entre essas duas datas, ficou um tempo cheio — de aprendizagens, de desafios, de saudades e de crescimento.
Há datas que se inscrevem na memória como marcos incontornáveis. Não apenas pelo que nelas aconteceu, mas pelo que, a partir delas, deixámos de ser. Janeiro de 1969 foi uma dessas datas: o início de uma transformação silenciosa, feita de disciplina, de adaptação e de resistência. Março de 1972, por sua vez, representou o regresso — não ao ponto de partida, mas a uma nova versão de si próprio.
Se, noutros tempos, lutar pelo rei era um dever inerente à condição de súbdito, já na República o serviço militar assumia-se como expressão de cidadania — um compromisso do homem livre para com o Estado. E foi nesse espírito que se trilhou este caminho: não sem dúvidas ou receios, mas com a consciência de estar a cumprir uma missão.
Pelo meio, ficaram os dias comuns — aqueles que raramente entram nos livros de História, mas que moldam quem os vive. Os exercícios, as rotinas, as camaradagens improvisadas, as cartas escritas à distância, os silêncios partilhados. E também os momentos captados em fotografia: fragmentos de tempo que hoje contam, sem palavras, aquilo que a memória por vezes já não alcança.
Angola foi o cenário de uma parte decisiva desta viagem. Terra distante, de contrastes fortes, onde o tempo parecia correr de outra forma. Ali, entre o calor, a incerteza e a saudade, forjaram-se laços e consolidou-se uma forma de estar — mais firme, mais consciente, mais humana.
Esta não é apenas a narrativa de um percurso militar. É, acima de tudo, o testemunho de uma travessia interior. Uma história feita de momentos simples, de imagens guardadas e de experiências que deixaram marca para toda a vida.
Porque, no fim, há viagens que nunca terminam verdadeiramente — continuam a viver em nós, nas memórias que preservamos e nas histórias que escolhemos contar.
INICIO DA VIAGEM Bucos – Arco de Baúlhe - DE AUTOCARRO
A viagem começou em Bucos, no dia 4 de janeiro, na minha terra natal, num percurso curto mas carregado de significado. O destino era o Arco de Baúlhe, mais precisamente a sua estação ferroviária — o primeiro passo concreto rumo à integração no serviço militar.
Foi uma deslocação simples, feita de autocarro, tranquila e sem sobressaltos. A paisagem familiar acompanhava o caminho, como se quisesse suavizar a importância do momento. Cada curva, cada lugar por onde passávamos, fazia parte do meu universo de conhecimento, tornando a viagem quase íntima, próxima, segura.
Ao chegar ao Arco de Baúlhe, não havia surpresa nem estranheza — apenas a consciência de que algo maior estava prestes a começar. Aquela pequena viagem, tão comum em aparência, marcava na verdade a transição entre dois tempos: o da vida conhecida e o de uma nova etapa, feita de desafios, responsabilidades e descobertas.
Foi ali, nesse percurso breve e sereno, que dei o primeiro passo de uma longa jornada.
ESTAÇÃO DE EMBARQUE ARCO DE BAÚLHE, JANEIRO DE 1969, COM DESTINO A MAFRA.
Estação Ferroviária de Arco de Baúlhe
PEQUENA HISTÓRIA
"A construção da Linha do Tâmega iniciou-se em Março de 1905, tendo o primeiro troço, entre Livração e Amarante, sido inaugurado a 21 de Março de 1909.
O primeiro comboio chegou ao Arco de Baúlhe por volta das 15 horas de 15 de Novembro de 1948"
"Devido ao reduzido movimento, o troço entre Arco de Baúlhe e Amarante foi encerrado ao serviço em 1 de Janeiro de 1990".
VIAGEM DE COMBOIO ARCO DE BAÚLHE – MAFRA
Esta foi uma viagem longa, arrastada no tempo e exigente no corpo e no espírito. Um percurso feito em etapas, com mudanças sucessivas e a sensação constante de afastamento do ponto de partida. Para lá chegar, utilizei quatro meios de transporte: autocarro, comboio, comboio e, por fim, táxi.Saí de Bucos, passando por Cabeceiras de Basto e Arco de Baúlhe, rumo à estação ferroviária que me levaria mais longe.
Segui depois por Livração, Campanhã, no Porto, até alcançar Mafra, já noite dentro. Cada paragem era um pequeno marco, um avanço no mapa e, ao mesmo tempo, um distanciamento daquilo que me era familiar.A primeira mudança de comboio aconteceu na Livração, término da linha do Vale do Tâmega. Uma estação pequena, quase intimista, onde os comboios aguardavam uns pelos outros com uma paciência e humanidade difíceis de imaginar nos dias de hoje.
Havia ali uma simplicidade acolhedora, uma espécie de cumplicidade silenciosa entre viajantes e ferroviários.De seguida, embarquei num comboio da linha do Douro até Campanhã, no Porto. Foi, talvez, o trecho mais belo da viagem. As paisagens deslumbrantes sucediam-se pela janela, oferecendo um contraste sereno à inquietação interior.
Até esse momento, tudo corria pelo melhor.A segunda mudança deu-se no Porto. Ali, apanhei o comboio com destino a Mafra, numa viagem longa, que se prolongou por cerca de seis horas. O cansaço começava a instalar-se, e o tempo parecia ganhar outra dimensão — mais lento, mais pesado.Foi durante esse percurso que surgiram dois companheiros de carruagem, também eles a caminho de Mafra e da Escola Prática de Infantaria.
A conversa nasceu naturalmente, e com ela veio um alívio inesperado. A partilha de experiências, de expectativas e até de receios tornou o peso da viagem mais leve.Ficou então evidente a importância das pessoas junto das pessoas. Quando já me deixava vencer pelo incómodo e pela duração do trajeto, surgiram aquelas presenças que transformaram o momento.
O que parecia um dia difícil suavizou-se no diálogo e na identificação com quem vivia uma realidade semelhante.Cheguei à estação de Mafra já de noite. O último troço foi feito de táxi, num silêncio que contrastava com o movimento interior do dia vivido. Finalmente, alcancei o destino: o quartel da Escola Prática de Infantaria, em Mafra.
Ali terminava o primeiro dia de viagem. E, ao mesmo tempo, começava o meu serviço militar na Escola Prática de Infantaria em Mafra.
Escola Prática de Infantaria
MAFRA
Pequena História
"A Escola Prática de Infantaria (EPI) MHTE • MHA • MHL era um estabelecimento de ensino do exército português, cujo objetivo é a formação de tropas na arma de infantaria. Este estabelecimento estava instalado em parte lateral do edifício do Convento de Mafra, na vila de Mafra.
Foi criada em 1890 e desativada em 2013, passando as suas funções para a Escola das Armas.
A designação da EPI é alterada para "Escola de Tiro da Infantaria", em 1911. Em 1926, é reestabelecida a anterior designação de "Escola Prática de Infantaria".
A Escola Prática de Infantaria foi desativada a 1 de outubro de 2013, na sequência de unificar as diversas escolas práticas das armas do Exército numa única Escola das Armas"
Palácio Nacional de Mafra
História
"Por vontade real, o projecto inicial de um convento para 13 frades foi sucessivamente alargado para 40, 80 e finalmente 300 frades, uma Basílica e um Paço Real. No entanto, à data da sagração da Basílica, 22 de Outubro de 1730, apenas estavam abertos os alicerces do que viria a ser o Palácio, que apenas começou a ser construído nos anos seguintes, sendo dado como concluído perto de 1735.
A vida de Corte no Palácio de Mafra ao tempo de D. João V foi relativamente escassa, pois o Rei adoeceu gravemente em 1742 e morreu em 1750."
Aqui se instalou toda a Corte no ano de 1806/1807, na atribulada época que precedeu as Invasões Francesas.
Em Dezembro de 1807, as tropas francesas alojaram-se no Palácio sendo, alguns meses depois, substituídos por uma pequena fracção do exército inglês que aqui ficou até Março de 1828.
" O Palácio de Mafra está também associado ao fim da monarquia em Portugal, pois acolheu o rei D. Manuel II na última noite que passou no reino antes da sua partida para o exílio".
História de TRÊS MESES EM MAFRA, Como soldado Cadete.
Foram três meses difíceis. Muito difíceis.
Nunca fui pessoa de desistir. Sempre enfrentei os desafios com determinação.
Mas o aborrecimento constante, acumulado ao longo do tempo, marcou profundamente a minha passagem por aquela Unidade. A instrução militar foi dura, sofrida — mas foi cumprida.A transição da vida civil para a vida militar foi uma rutura total.
Até então, apesar das dificuldades próprias da época, tinha os meus amigos, a minha rotina, uma vida estável. A tropa levou-me isso tudo de forma abrupta. Deixei de ter nome — passei a ser um número. A alimentação era fraca, as provas físicas exigentes até à exaustão, e as provas psicológicas, muitas vezes, arrasadoras.
Recordo-me bem das instruções noturnas. Caminhávamos pela Tapada de Mafra, com o mato à altura do corpo, avançando às escuras, entre o cansaço e a tensão. Rastejávamos por túneis estreitos, com pouco mais de um metro de altura, mergulhados em água que nos chegava ao pescoço. Eram exercícios que punham à prova não só o corpo, mas também os limites da resistência mental.
Outras vezes, as instruções começavam às dez da noite. Por volta da meia-noite, quando regressávamos ao quartel completamente exaustos, ainda ouvíamos: “vamos dar mais uma voltinha”. Era um prolongar do esforço até ao limite. Foram dias duros — marcantes.Ainda hoje, sempre que volto a Mafra, sinto um arrepio.
A memória desse tempo não é leve. Foi uma fase traumatizante, em parte devido aos ferimentos sofridos por vários camaradas, consequência da dureza — por vezes excessiva — da instrução ministrada.Cheguei a ser indicado pelo Comandante de Pelotão para prestar provas para os Comandos, mas recusei por motivos pessoais. Mais tarde, quando considerei a Força Aérea, acabei por ser preterido — uma decisão que senti como injusta.Durante o primeiro ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, houve vários incidentes. No meu pelotão, dez soldados-cadetes ficaram feridos. Noutro pelotão, ocorreram também situações graves. Houve ainda episódios perigosos, como travessias de rio em que alguns quase se afogaram, sendo salvos pelos próprios companheiros.O problema maior estava na forma como muitos eram tratados — sobretudo os que tinham mais dificuldades. Havia momentos em que se assistia a atitudes desumanas, palavras duras, situações difíceis de compreender.
Lembro-me de episódios extremos que deixavam marcas profundas, físicas e emocionais.Num desses momentos, um incidente partiu-me os óculos. Por precaução, o médico da unidade enviou-me para o Hospital Militar da Estrela, em Lisboa. Foram três dias diferentes — talvez os melhores de toda a recruta. Depois da consulta, tínhamos liberdade para passear pela cidade. Foi um breve alívio, uma espécie de pausa necessária.
A dureza da instrução fazia-me, por vezes, lembrar cenários quase irreais, onde a pressão constante parecia querer transformar as pessoas à força. Na última operação, durante a travessia do rio Lizandro, já com o cansaço acumulado e o desgaste no limite, surgiu uma reação coletiva. Uma revolta silenciosa que ganhou forma — não por indisciplina, mas por saturação.Valeu a intervenção do comando superior, dos médicos e dos enfermeiros.
A situação acalmou, mas deixou marcas. Foi um momento de afirmação — uma resposta àquilo que muitos consideravam excessivo.
Fica a pergunta: terá valido a pena, como forma de “endurecimento”? Talvez. Mas a um custo demasiado elevado.Foram três meses que não se esquecem. Não pela glória, mas pela intensidade. Não pela facilidade, mas pela resistência. Uma etapa dura, que deixou cicatrizes — e também, inevitavelmente, alguma força.
JURAMENTO DE BANDEIRA
Mafra
O dia do Juramento de Bandeira ficou gravado na memória como um dos momentos mais marcantes da passagem por Mafra. Depois de semanas de instrução dura, exigente e muitas vezes levada ao limite, chegava finalmente o instante solene em que tudo ganhava um significado mais amplo.
No vasto espaço do quartel, formaram-se cinco companhias do Curso de Oficiais Milicianos, num total de vinte e cinco pelotões. Ao todo, 1.115 soldados-cadetes alinhados com rigor, compondo uma impressionante parada militar. A dimensão do conjunto, a precisão dos movimentos e a disciplina demonstrada criavam um cenário de grande impacto, difícil de esquecer.
Ali, já não éramos apenas indivíduos vindos de diferentes origens. Éramos parte de um corpo coletivo, moldado pela mesma exigência, pelo mesmo percurso, pelas mesmas dificuldades superadas. Cada posição, cada gesto, refletia o esforço acumulado ao longo da instrução.O juramento, proferido em uníssono, carregava um peso simbólico profundo. Representava o compromisso assumido, a responsabilidade aceite e a consciência de que, a partir daquele momento, o caminho militar deixava de ser apenas uma obrigação — passava a ser também um dever honrado.
Foi um instante de contraste: por um lado, a dureza dos meses vividos; por outro, a solenidade e o orgulho daquele momento. Entre o cansaço e a disciplina, entre a memória das dificuldades e a força do coletivo, emergia uma sensação clara — a de ter chegado até ali.Uma parada imponente.
Um juramento marcante. Um momento que ficou para sempre.
Nova VIAGEM DE COMBOIO MAFRA - VENDAS NOVAS
No final de março de 1969, concluída a Instrução Militar de soldado cadete na Escola prática de infantaria e já depois de ter jurado bandeira, chegou o momento de seguir para uma nova etapa.
Na mão, a guia de marcha indicava o próximo destino: a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas.Era mais uma partida.
Desta vez, já com o peso da experiência vivida em Mafra e com uma nova consciência do caminho que estava a percorrer.
A viagem fez-se novamente de comboio. Deixei Mafra para trás e segui em direção a Lisboa, ponto de passagem obrigatório, onde a azáfama da cidade contrastava com o ambiente fechado e rigoroso do quartel que acabara de deixar. Depois de ter passado pela Cervejaria Portugália, o percurso continuou rumo a Vendas Novas.
Desta vez, a viagem foi diferente. Já não levava apenas incerteza — levava também aprendizagem, resistência e uma noção mais clara do que me esperava. O desconhecido continuava presente, mas já não tinha o mesmo peso.
Entre estações e paisagens, avançava mais um capítulo. Uma nova unidade, novos desafios, e a continuação de um percurso que estava longe de terminar.
Escola Prática de Artilharia,
VENDAS NOVAS
HISTÓRIA
"A Escola Prática de Artilharia (EPA) GOC • MHA • MHL era um estabelecimento de ensino do exército português cujo objectivo principal é a formação na arma de artilharia. As instalações da EPA ficavam em Vendas Novas, no distrito de Évora, no Palácio Real de Vendas Novas..
A Escola Prática de Artilharia tem a sua origem em meados do século XIX (1853) quando o Palácio Real de Vendas Novas, construído no reinado de D. João V, em 1729, para celebrar os casamentos do D. José com a Infanta de Espanha, D. Maria Ana Vitória de Bourbon e do Príncipe das Astúrias Fernando VI de Espanha com a Infanta de Portugal, D. Maria Bárbara, é entregue ao Ministério da Guerra por D. Maria II.
A Escola Prática de Artilharia foi desativada a 1 de outubro de 2013, na sequência da decisão de se unificar as diversas escolas práticas das armas do Exército numa única Escola das Armas"
A ESECIALIDADE MILITAR, TRÊS MESES EM VENDAS NOVAS
Em abril de 1969, apresentei-me na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, para iniciar a minha especialidade como atirador de artilharia. Era mais uma etapa no percurso militar, agora com um carácter mais técnico e direcionado. No entanto, na prática, a especialidade acabaria por resumir-se, em grande parte, à espingarda G3 — arma que viria a ser a minha companheira constante durante mais de dois anos em Angola.
O meu instrutor era o Tenente Rodrigo Sousa e Castro, mais tarde Capitão de Abril, hoje Coronel na Reserva. Homem de postura firme, mas com sentido de medida, marcou positivamente a instrução. A seu lado, também o Tenente Freixo se destacou pelo equilíbrio, pela forma de estar e pela relação que estabelecia com os cadetes — havia ali um “savoir faire” que contrastava com experiências anteriores.
Durante este período, fomos sendo preparados não só fisicamente, mas também psicologicamente para a realidade da guerra do ultramar. Ao mesmo tempo, alimentava-se uma expectativa: dizia-se que os melhores classificados poderiam ficar a dar instrução e, assim, evitar a mobilização. Era, talvez, uma forma de incentivo — e também uma esperança a que muitos de nós nos agarrávamos.
A instrução começava, geralmente, com aulas teóricas. Falava-se de guerra subversiva, emboscadas, minas, golpes de mão, assaltos a objetivos, orientação na mata, cuidados nas deslocações e comportamentos a adotar com as populações locais. Era um ensino sistemático, orientado para um cenário real que se aproximava a cada dia.
Apesar da exigência, a vida em Vendas Novas foi mais suportável. Talvez porque já trazia a adaptação de Mafra, talvez pela postura dos instrutores. Ainda assim, não faltavam a ordem unida, a preparação física, as instruções noturnas e o ritmo intenso do quotidiano militar. Uma das maiores dificuldades foi, curiosamente, o frio — particularmente sentido durante as longas noites de treino no terreno.
Grande parte do tempo era passada no polígono de Vendas Novas, uma vasta área militar, com hectares de terreno, mato e instalações como o paiol da Escola. Ali, os instrutores procuravam recriar cenários de guerra, aproximando-nos o mais possível daquilo que poderíamos vir a enfrentar. Treinava-se com seriedade, mas também com uma consciência silenciosa do que estava em causa.
Embora a mobilização fosse, na prática, o destino da maioria, havia sempre exceções — raras, mas suficientes para manter viva a esperança. Ao longo do curso, essa ideia era reforçada: os melhores poderiam escapar. E eu, tendo ficado bem classificado, comecei a acreditar nessa possibilidade.
FINAL DE CURSO NA ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA - VENDAS NOVAS
Junho de 1969
Em junho de 1969, concluí a minha formação de Soldado Cadete na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, sendo promovido a Aspirante Miliciano. Era o culminar de meses de instrução exigente, de aprendizagem intensa e de adaptação a uma realidade completamente distinta daquela de onde tinha partido.
A saída da Escola não foi apenas o fim de uma etapa — foi, sobretudo, o início de uma nova responsabilidade. Já não era apenas um instruendo; passava a assumir funções com outro peso, com outra exigência, com uma consciência mais clara do papel que me caberia desempenhar.
Levava comigo os ensinamentos adquiridos, a disciplina interiorizada e a experiência acumulada ao longo daqueles meses. Mas levava também a incerteza do futuro, agora mais próxima e mais concreta.
O posto de Aspirante Miliciano representava mais do que uma graduação. Era um sinal de confiança, mas também um compromisso acrescido — comigo próprio, com os homens que viria a comandar e com a missão que me aguardava.
Saí de Vendas Novas diferente de como tinha chegado. Mais preparado, talvez. Mais consciente, certamente.
E com a sensação clara de que o caminho que se seguia seria ainda mais exigente.
NOVA VIAGEM DE COMBOIO VENDAS NOVAS - VILA NOVA DE GAIA - PENAFIEL
Seguiu-se mais uma etapa, mais uma viagem de comboio, desta vez com destino ao RASP, Vila Nova de Gaia.
Recepcionado pelo Major Matos, fui informado, que no momento, não haveria lugar nesta unidade, porque o quadro estaria completo. Acrescentou, no entanto, que iria consultar o Quartel General para posteriormente transmitir nova informação.
No dia seguinte, seguiria para Penafiel, RAl 5, por indicação superior.
A viagem, feita sempre sobre carris, transportava não apenas o corpo, mas também uma nova condição: já não era apenas um formando — era agora Aspirante Miliciano, com responsabilidades acrescidas e um papel mais definido dentro da estrutura militar.
Em Penafiel, surgiu a minha primeira experiência profissional relevante: fui colocado como Chefe da Secretaria do Regimento. Um cargo que exigia organização, rigor e discrição. Coordenava a elaboração da ordem de serviço diária, organizava a agenda do Comandante da Unidade, levava a despacho os documentos produzidos, dava conhecimento do correio recebido e tratava da datilografia de documentação confidencial.
Para uma primeira experiência, foi um desafio interessante. Permitiu-me aplicar, na prática, conhecimentos adquiridos anteriormente, nomeadamente o curso de datilografia que havia frequentado na Escola Tecla. Foi uma fase de aprendizagem útil e estruturante.
Mas, como diz o ditado, “não há rosas sem espinhos”.
Alguns Oficiais Superiores mantinham um certo distanciamento. A relação era formal, por vezes fria, refletindo também a postura do próprio Comandante da Unidade — reservado e pouco presente no dia a dia, deslocando-se frequentemente para a Régua, sua terra natal. Nessas ausências, ficava muitas vezes a meu cargo a transmissão de orientações.
Essa situação nem sempre era bem recebida. Houve ocasiões em que escutei respostas claras: “não recebo ordens de si, mas sim do Comandante”. Eram momentos delicados, que exigiam equilíbrio, contenção e consciência da posição que ocupava.
Após o toque da ordem, o quartel esvaziava-se. Permaneciam apenas os oficiais residentes, já que não existiam instalações para todos. Instalava-se então um ambiente mais silencioso, quase introspectivo, diferente da agitação do dia.
Foi também em Penafiel que conheci o Major Corvacho, figura que mais tarde viria a assumir um papel relevante após o 25 de Abril, como Comandante da Região Militar do Norte.
Esta etapa, feita entre viagens e novas responsabilidades, marcou o início de um percurso mais ativo e interventivo dentro da vida militar — com desafios próprios, aprendizagens constantes e a consciência crescente do lugar que passava a ocupar.
Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5, RAL 5
"O Regimento de Artilharia N.º 5 (RA5) é um órgão de base da Componente Fixa do Sistema de Forças do Exército Português. O RA5 encontra-se sediado no antigo Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia.
O RA5 funciona como centro de instrução geral de praças para o Exército.
O Regimento de Artilharia N.º 6 (RA6) foi criado em Penafiel em 1889. Em 1901 o RA6 passa a ser uma unidade de artilharia montada, sendo transferido para a Serra do Pilar em 1911. Em 1926, o RA6 passa a designar-se "Regimento de Artilharia N.º 5" e em 1927 passa a ser "Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5 (RAL5)" voltando a aquartelar-se em Penafiel, até ser extinto em 1975."
MOBILIZADO PARA O ULTRAMAR EM SETEMBRO 1969 NA CART 2671
A mobilização para o ultramar obedecia a uma lógica clara: era feita pela ordem inversa da classificação obtida no curso. Assim, terminada a especialidade, eu e os meus camaradas fomos distribuídos pelas diversas unidades de artilharia existentes em Portugal, aguardando o destino que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por chegar.Do meu curso, apenas um cadete escapou à mobilização. Já então era uma figura bem conhecida do futebol português: jogava na Académica e transferiu-se para o Benfica, numa tentativa de evitar o envio para o ultramar. Mais tarde passaria também pelo Futebol Clube do Porto e pela Seleção Nacional. Era o conhecido Artur Jorge, famoso pelo seu “pontapé moinho”, um gesto técnico que marcou uma geração.Para os restantes, a realidade foi outra. A minha esperança de não ser mobilizado esfumou-se no início de setembro de 1969.Nesse mês, começaram a concentrar-se no Regimento de Artilharia Ligeira nº 5, em Penafiel, os Oficiais, Sargentos e Furriéis mobilizados para integrar duas companhias: a CART 2670 e a CART 2671. Era o início da formação de unidades destinadas ao serviço no ultramar.Pouco depois, chegaram também os soldados, vindos de vários quartéis do país, para completar o efetivo e iniciar a preparação conjunta. Ali começava verdadeiramente a construção da Companhia — não apenas em termos operacionais, mas também humanos.As atividades de especialidade e a semana de campo foram organizadas e coordenadas sob o comando do Capitão Carmo. Era uma fase intensa, marcada pela necessidade de transformar um conjunto de homens, vindos de origens diferentes, numa unidade coesa e preparada para enfrentar o que os aguardava.Em Penafiel, viveu-se esse período de preparação, de ajustamento e de conhecimento mútuo. Entre exercícios, rotinas e exigências crescentes, começava a ganhar forma a CART 2671 — uma companhia que, em breve, deixaria o território nacional para cumprir missão no ultramar.Permaneci em Penafiel até ao dia 22 de dezembro de 1969. Até lá, consolidou-se o espírito de grupo, afinou-se a preparação e assumiu-se, de forma definitiva, o destino que já não podia ser evitado.
COMANDANTE
DO 3º PELOTÃO DA COMPANHIA DE ARTILHARIA 2671
3º Pelotão da Cart 2671
Hoje, ainda sei o nome de quase todos: (sentados; Conceição, Fernandes e Teixeira) (ao centro: Correia, Barriga, Sampaio, Pimenta, Barbosa, Santos e Afonso. (de pé: Fernandes, Cravinho, Moreira, Bandarra, Palha Gomes, ..., Aguiar, Lopes, Bandeira, Bráz, Ministro e Bernardes.
MENSAGEM
O 3º Pelotão foi formado por 30 combatentes da paz: um Alferes, 3 Furríeis, 6 Cabos e 20 Soldados. Mobilizados em Outubro de 1969, reuniram-se para uma instrução militar no RAL 5, Penafiel.
Aqui, nos conhecemos pela 1ªvez, pois éramos oriundos das diversas Regiões do País, com predominância do Algarve.
Neste período de instrução adótamos o lema "UM POR TODOS TODOS POR UM" e resultou plenamente.
Os mais débeis chegaram sempre com os mais fortes e os mais dotados souberam compreender, que a razão da nossa força estava no espírito de equipa.
A nossa missão foi cumprida de modo corajoso e responsável por todos.
Tivemos, alguma sorte, com as pessoas, que compuseram e se relacionaram neste conjunto de homens de bem, sem conflitos.
Em Angola, a sorte nos acompanhou por não termos acionado nenhuma mina ou armadilha, durante as deslocações a pé (a maioria) quer em viatura; de não sermos picados por algum mosquito portador de qualquer doença; de não sofrermos acidentes.
Assim formámos uma equipa completa de querer, vontade de vencer e compreender. Hoje, poderei dizer obrigado a todos pela compreensão, pelo carinho, pela força, pela amizade, porque conseguimos todos regressar em PAZ DA NOSSA GUERRA.
Lamento a perda do Soldado Aguiar, por motivo de doença.
A todos, OBRIGADO!
Manuel Bráz
VIAGEM De Comboio Penafiel – Silvalde, Espinho
Em dezembro de 1969, concluídas a especialidade e a semana de campo em Penafiel, surgiu nova ordem de deslocação. A Companhia foi transferida para a Carreira de Tiro de Espinho — o Quartel Militar de Silvalde — onde iríamos realizar a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO). A mudança ficou a dever-se à falta de condições de aquartelamento em Penafiel, obrigando-nos, uma vez mais, a fazer as malas e seguir viagem.Partimos de comboio, como tantas outras vezes, num percurso já marcado por despedidas sucessivas e por uma adaptação constante a novos destinos. Silvalde, em Espinho, passava a ser o novo ponto de concentração da CART 2671.Após a formação da Companhia, seguia-se então o IAO — uma fase decisiva de preparação antes do embarque para o ultramar. Em circunstâncias normais, entre a mobilização e o embarque decorreria cerca de dois meses. No meu caso, a mobilização tinha ocorrido em setembro de 1969; depois disso, ainda gozei dez dias de férias. O embarque estava previsto para mais tarde, mas acabaria por acontecer já em janeiro de 1970, por razões de carácter emergencial.Antes de nos instalarmos definitivamente em Silvalde, fomos dispensados para umas curtas férias de Natal e Ano Novo. Foi um regresso breve a casa, carregado de significado, numa altura em que o futuro já se adivinhava exigente e distante.Recebemos então a guia de marcha que indicava, com clareza, o novo destino: Silvalde, Espinho, distrito de Aveiro. Ali iríamos concluir a preparação final.Importa ainda referir que, por motivos alheios à nossa vontade, a Companhia sofreu uma alteração no seu comando. Perdemos o Capitão Carmo, que nos havia acompanhado até então, e em sua substituição foi nomeado o Capitão Afonso, que se juntou à CART 2671 nesta fase decisiva.Mais uma viagem. Mais uma etapa. E cada vez mais próximo o momento do embarque — e do verdadeiro destino que nos aguardava.
VIAGEM DE COMBOIO
SILVALDE – CAIS DE ALCÂNTARA, LISBOA
A instrução de aperfeiçoamento operacional encontrava-se ainda em fase de análise quando recebemos uma nova ordem: no dia 10 de janeiro embarcaríamos rumo ao Ultramar. A notícia chegou de forma direta, sem espaço para hesitações, como era próprio da vida militar.A permanência em Silvalde foi breve — três ou quatro dias apenas. Desse curto intervalo, permanece na memória sobretudo uma noitada em Espinho, momento raro de descompressão antes do que se adivinhava como uma etapa exigente.Na noite de 10 de janeiro de 1970, por volta da meia-noite, reunimo-nos no apeadeiro de Silvalde. O ambiente era marcado por um silêncio denso, onde se misturavam expectativa, incerteza e um certo peso emocional. Embarcámos então num comboio especial, preparado para nos transportar até Lisboa, mais concretamente ao Cais de Alcântara.A viagem decorreu na quietude própria das longas deslocações noturnas. Entre conversas contidas e pensamentos soltos, cada um lidava à sua maneira com a proximidade da partida para uma realidade desconhecida. O ritmo constante do comboio parecia acompanhar esse estado de espírito, como um compasso inevitável rumo ao destino.Ao chegarmos a Lisboa, no Cais de Alcântara, aguardava-nos o navio Niassa. Imponente e silencioso, representava a próxima etapa da viagem — já não por terra, mas por mar — e o início de uma missão que marcaria profundamente as nossas vidas.
Pela manhã do dia 10 de janeiro, estávamos embarcando no Navio Niassa, rumo a Cabo Verde, Ilha de S. Vicente, Cidade do Mindelo, depois da despedida dos familiares presentes no Cais de Alcãntara e da parada militar. Tudo foi muito rápido, havia uma necessidade urgente de partida. Depois viemos a saber, que o Navio Vera Cruz estava em dificuldades no mar da Guiné, transportando mil soldados e tripulação. As notícias oficiais falavam de uma avaria, mas também se ouvia falar de um boicoite à guerra do Ultramar. Assim que o Navio Niassa saiu, foram muitos os que sentindo as primeiras ondulações se aproximaram dos varandins inclinando a cabeça para o mar. A ondulação violenta provocou, em quase todos os ocupantes do navio,uma reação de enjoos e vómitos da refeição acabada de comer. A Enfermaria do Navio estava repleta de pessoas em dificuldade, onde passei três dias. Mas a melhoria do mar e a adaptação ao andamento do Navio fez voltar tudo à normalidade. A viagem teve a duração de 6 dias.
Imagens no Navio Niassa no Cais de Alcântara, passando por debaixo da Ponte Salazar, hoje 25 de Abril e algumas imagens observando o mar e pensando no que nos reservava o futuro.
VIAGEM
DE NAVIO "Navio Niassa"
LISBOA - Cabo Verde,
Ilha de S Vicente, Cidade do Mindelo
A chegada ao Porto, ou melhor, ao Cais da cidade do Mindelo, ficou marcada na memória como um momento simultaneamente esperado e inquietante. Desembarcámos no dia 15 de janeiro, após dias de travessia que, no meu caso, começaram da pior forma.
Logo no início da viagem, o meu labirinto não resistiu à ondulação constante do mar, obrigando-me a permanecer na enfermaria durante três dias, sob soro e medicação. Foram momentos difíceis, entre o desconforto físico e a sensação de fragilidade.
Felizmente, após esse período, consegui recuperar e o restante percurso decorreu com normalidade.A vida a bordo, porém, estava longe de ser animada.
Os passatempos eram escassos e os dias arrastavam-se numa monotonia quase opressiva. Tiravam-se algumas fotografias para mais tarde recordar, bebiam-se umas cervejas para quebrar a rotina, mas pouco mais havia para ocupar o tempo. Muitas horas eram passadas na proa do navio, olhando o horizonte infinito, onde apenas o azul do mar se confundia com o do céu. Era uma imensidão que tanto fascinava como fazia pensar.
Um dos poucos momentos de quebra dessa monotonia foi a passagem pela linha do Equador, assinalada com uma festa a bordo. Alguns militares, dotados de talento artístico, proporcionaram momentos de diversão e alívio, trazendo alguma leveza a uma viagem que, de outro modo, seria pesada e repetitiva
.No entanto, o ambiente geral não era dos mais animadores. A maioria dos camaradas seguia de má vontade, consciente das incertezas que os aguardavam. As longas viagens favoreciam o surgimento de conflitos, atos de indisciplina, levantamentos de rancho e a circulação constante de boatos sobre a situação militar e as perspetivas sombrias da guerra. Tudo isso contribuía para um clima de tensão e desgaste emocional, pouco favorável ao moral das tropas.
Assim, a chegada ao Mindelo não foi apenas o fim de uma viagem marítima, mas o início de uma nova etapa, carregada de dúvidas, receios e expectativas quanto ao que o futuro nos reservava.
Em Cabo Verde
Instrução no Centro de Instrução Militar de Barro Branco – Mindelo, Cabo Verde
O Centro de Instrução Militar de Barro Branco, situado na ilha de São Vicente, nas imediações de Mindelo, constituiu um ponto estratégico de preparação e adaptação para as forças destacadas no Ultramar. Implantado numa zona de terreno árido e exposto, bem característico da paisagem cabo-verdiana, este centro reunia condições exigentes que, por si só, já funcionavam como um primeiro teste à resistência física e psicológica dos militares.
À chegada, o impacto era imediato. O clima seco, o vento constante e a escassez de vegetação criavam um ambiente austero, muito diferente daquele a que a maioria estava habituada. A adaptação não era apenas operacional, mas também humana — aprender a lidar com o calor, com a poeira e com a distância de casa fazia parte integrante da experiência.
No Barro Branco, a instrução assumia um caráter intensivo. Os treinos eram orientados para o aperfeiçoamento das capacidades individuais e coletivas, com especial enfoque na disciplina, na prontidão e na coesão das unidades. Exercícios de campo, simulações táticas e rotinas rigorosas preenchiam os dias, preparando os militares para os desafios que poderiam encontrar nos diferentes teatros de operações em África.
Apesar das dificuldades, o convívio entre camaradas ganhava uma importância particular. Criavam-se laços fortes, muitas vezes duradouros, forjados na partilha das mesmas condições e no cumprimento de uma missão comum. Nos raros momentos de pausa, havia espaço para breves conversas, recordações de casa e até algum humor, que ajudava a aliviar a tensão acumulada.
O Centro de Instrução de Barro Branco foi, assim, mais do que um simples local de treino. Representou uma etapa marcante no percurso de muitos militares, funcionando como um espaço de transição entre a preparação em território nacional e a realidade operacional no Ultramar. Ali se consolidavam competências, se fortalecia o espírito de missão e se moldavam homens para enfrentar um futuro incerto, mas assumido com sentido de dever.
Pequenas Viagens na Ilha de S. Vicente
Durante a permanência na ilha de São Vicente, foram possíveis algumas saídas que nos permitiram conhecer melhor a cidade do Mindelo e o seu quotidiano. Percorrer as ruas do Mindelo era uma experiência marcante: havia um ambiente vivo e descontraído, com gente acolhedora, música no ar e uma sensação constante de proximidade com o mar. As casas coloridas, o movimento dos mercados e o convívio nas ruas davam à cidade uma identidade muito própria.As ilhas de Cabo Verde, situadas no Atlântico e próximas da linha do Equador, despertavam em nós uma curiosidade especial. Essa linha imaginária, que divide o globo terrestre em dois hemisférios, tinha já sido cruzada por nós durante a viagem — um momento simbólico que ficou gravado como uma espécie de passagem para um mundo novo e desconhecido.Eu e os companheiros de viagem, integrados nas companhias militares, partilhávamos essas descobertas com um misto de surpresa e camaradagem. Nos restaurantes do Mindelo, tínhamos oportunidade de provar a riqueza do mar: lagosta, camarão e uma variedade impressionante de peixe fresco. A abundância era visível também no porto, onde se encontravam inúmeros barcos de pesca — japoneses, russos, europeus — que exploravam as águas ricas do arquipélago.A praia do Mindelo era outro dos pontos altos. De mar sereno e águas quentes, oferecia momentos raros de tranquilidade e evasão. Ali, por instantes, esqueciam-se as preocupações e o peso da missão, substituídos pelo som das ondas e pela calma envolvente.Essas pequenas viagens pela ilha de São Vicente, embora breves, deixaram memórias duradouras — momentos de descoberta, convívio e algum alívio num contexto que, no seu todo, era exigente e incerto
Rua da Cidade do Mindelo.
NOVA VIAGEM
DE NAVIO
CABO VERDE - LUANDA, ANGOLA
O Navio Niassa, que nos levou até Cabo verde, permaneceu no Porto, aguardando not´cias do Navio Vera Cruz, que tinha desaparecido dos radares na Região do Mar Atlântico.
Encontrado e rebocado o navio Vera Cruz para Cabo Verde, procedeu-se à transferência da carga e dos soldados para o navio Niassa. A bordo seguiam cerca de 2.100 militares com destino à guerra em Moçambique, dois batalhões e duas companhias. A lotação do navio era de 1.242 passageiros, mas quando transportava tropas a lotação era largamente excedida.
Foi um momento de barafunda geral, porque não havia aquartelamentos, em Cabo Verde, nem o navio Niassa tinha capacidade para albergar tanta tropa. Os trezentos soldados transportados pelo navio Niassa ficaram sem alojamento, porque o número subiu para 2.400 militares.
Depois de uns dias em Cabo Verde, para análise da situação vergonhosa de super-lotação, os Comandantes fizeram um acordo de cavalheiros, ao qual manifestei o meu descontentamento, por não garantir segurança e condições aos militares. Aqui, defendendo esta posição, entrei para a lista negra do Capitão Afonso, Comandante da Cart 2671.
Dia 27 de janeiro inicíamos a viagem Mindelo - Luanda.
O que se passou, durante a viagem com os militares, nada sei, porque pedi escusas de fazer serviço naquelas condições sub-humanas.
Ao fim de 4 dias de viagem, já com alguma ansiedade, uma vez que íamos ao encontro do desconhecido, começamos a avistar ao longe, uma terra avermelhada. Houve alguma excitação geral. Era Luanda que despontava no horizonte. Os nossos corações começaram a palpitar mais forte. Estávamos a aproximar-nos rapidamente do palco da guerra.
O mar comportou se muito bem proporcionando uma viagem tranquila.
Chegámos ao porto de Luanda, Angola, dia 31 de janeiro de 1970.
Fotos retiradas da internet
Nova VIAGEM
De Comboio
CAIS DO PORTO
CAMPO MILITAR DO GRAFANIL, LUANDA
Chegada a Luanda.
Os primeiros momentos em Luanda, Angola, ficaram marcados por um sentimento geral de apreensão entre todos os camaradas. No dia 31 de janeiro de 1971, desembarcámos no cais de Luanda, conscientes de que estávamos a entrar numa nova realidade, bem diferente daquela que deixáramos para trás. À nossa espera encontrava-se um comboio que nos conduziu ao Campo Militar do Grafanil, um espaço que funcionava como centro de concentração de tropas, armazém de armamento e também local de recolhimento espiritual, junto da conhecida igreja do embondeiro.
Seguiu-se um curto estágio nesse campo militar, situado às portas da cidade, onde toda a tropa foi armada e equipada antes de seguir para os respetivos destinos, entre eles Mussuco. Dentro do Grafanil vivia-se um ambiente de fortes contrastes. De um lado, os recém-chegados, os chamados “maçaricos”, com fardas novas e ainda marcados pelo receio do desconhecido; do outro, militares mais experientes, de fardas gastas e desbotadas, que aguardavam o regresso, mais descontraídos, já habituados às exigências da guerra.
Por vezes, havia encontros inesperados com conterrâneos, momentos breves mas intensos, em que se trocavam notícias e se matavam saudades da terra. Ainda assim, o ambiente geral era de reflexão e incerteza. Os dias passados naquele quartel eram vividos com inquietação, marcados pela distância da família e pela consciência das dificuldades que se avizinhavam.
As condições no campo deixavam muito a desejar, tanto a nível físico como humano. Durante a noite, os inúmeros mosquitos tornavam o descanso quase impossível, enquanto o refeitório se apresentava degradado e pouco cuidado. Tudo contribuía para um cenário pouco animador, que testava a resistência e o moral de todos.
Permanecemos no Campo Militar do Grafanil durante onze dias, até ao dia 12 de fevereiro, período suficiente para perceber que aquela etapa era apenas o início de um percurso exigente, carregado de incertezas e desafios.
Chegados ao Cais de Luanda, seguimos de comboio até ao CAMPO MILITAR DO GRAFANIL.
VIAGEM
coluna LUANDA - Malange - MUSSUCO, LUNDA
No dia 12 de fevereiro de 1970, iniciámos mais uma etapa da nossa jornada. Em coluna motorizada, seguindo em camiões, partimos com destino à Lunda, rumo à localidade de Mussuco. O nome, curioso e carregado de significado, tem origem numa árvore da região, como tantos outros topónimos que refletem a ligação profunda entre a terra e as suas gentes.O Mussuco integrava a Comuna do Luremo, então administrada por um Chefe de Posto, pertencente ao Município do Cuango, sob autoridade de um Administrador, inserido na Região Distrital de Henrique de Carvalho — hoje Saurimo. Atualmente, esta área corresponde à Província da Lunda Norte. A localidade situava-se a cerca de 20 quilómetros do Luremo e a 85 quilómetros da sede municipal do Cuango, numa vasta extensão territorial com aproximadamente cinco mil habitantes.A língua predominante na região era o tchokwe, expressão viva da identidade cultural local. Do ponto de vista geográfico, o território inseria-se na bacia do rio Kongo, estendendo-se por uma área amplamente drenada por inúmeros cursos de água. A rede hidrográfica, orientada de sul para norte, era densa e permanente, sofrendo apenas pequenas variações durante a estação seca. Entre os rios mais importantes destacava-se o Kasai — ou Kásàyí, designação atribuída pelos tchokwe ao curso inicial do rio — um dos maiores afluentes do Kongo. Também o rio Cuango, na zona oeste e norte da Lunda, e os seus afluentes, irrigavam áreas como Mussuco, Luremo, Catxinga, Cafunfo e Cuango.O clima dividia-se em duas estações bem distintas: a estação das chuvas, entre outubro e abril, e a estação seca, conhecida como cacimbo, entre junho e agosto. Os meses de março e novembro registavam os picos de precipitação, enquanto a estiagem marcava um período mais prolongado de seca, interrompido apenas por um curto intervalo conhecido como “pequeno cacimbo”.A paisagem humana era composta por pequenas habitações construídas em barro e cobertas de capim, onde vivia a população local. Esses aglomerados eram designados por sanzalas, organizados segundo uma hierarquia tradicional ainda bem presente. À frente de cada sanzala estava o soba, figura de autoridade e intermediário entre a população e os militares.
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Nova Viagem Malange - Mussuco, dia 14
Mais uma chegada, mais uma partida. No dia 13, a meio da viagem, pernoitámos no Quartel de Malange, um aquartelamento já preparado para este tipo de trânsito constante de tropas. Era um ponto de passagem, onde se cruzavam destinos e se partilhavam, ainda que por breves horas, histórias e inquietações.De madrugada, no dia 14, retomámos a marcha em coluna militarizada, com destino ao Mussuco. À chegada, o cenário repetia-se: uma tropa entrava, outra saía. A falta de aquartelamento para todos obrigava a esta rotatividade permanente, num movimento contínuo de rendição e substituição.Durante as longas horas de viagem, a tensão era constante. A qualquer momento, esperava-se o rebentamento de uma mina ou o desencadear de uma emboscada. O silêncio da mata, por vezes, era mais inquietante do que qualquer ruído. Ainda assim, e felizmente, tudo decorreu sem incidentes.Os “velhinhos”, como eram conhecidos os militares que estavam de saída, mostravam uma ansiedade evidente por regressar. Era visível no olhar e nas palavras, como referia o Alferes Carmo Reis. Para eles, aquela partida significava o fim de um ciclo duro; para nós, o início de outro.A primeira impressão do local foi marcante. A imensidão da selva, o arame farpado a rodear o quartel, os postos de vigia atentos e a mata densa em redor criavam um ambiente pesado. A ausência de referências familiares e o contacto com uma realidade tão diferente provocavam um profundo sentimento de insegurança.Procedeu-se então à transferência de materiais, à assinatura dos autos e, rapidamente, tudo se resolveu — “shaw, shaw”, como se dizia. Uns ficaram, assumindo a nova missão; outros partiram de imediato, regressando a Malange para pernoitar.Assim se cumpria mais uma etapa, feita de transições rápidas, emoções contidas e da constante adaptação a um cenário exigente e imprevisível.
Viagem que Termina em Catxinga
Fui destacado para a localidade de Catxinga, integrado no 3.º pelotão, a cerca de 20 quilómetros do Mussuco. A viagem prosseguiu em viaturas pesadas, durante longas horas por caminhos difíceis, sempre envoltos pela mata densa. Os “velhinhos”, já rendidos, seguiam connosco mas com o pensamento noutra direção — ansiosos por partir e regressar a Malange, onde iriam pernoitar antes do tão esperado regresso.À chegada, o aquartelamento revelava a simplicidade e o isolamento em que se vivia. A casa do comando destacava-se das restantes construções: coberta de telha, com duas divisões — um quarto e uma pequena sala. As camaratas e anexos, esses, eram erguidos em tijolo e cobertos com chapas de zinco, denunciando um caráter mais funcional do que confortável.No interior, cada detalhe refletia a realidade que ali se vivia. Aos pés de cada cama, pendurado com rigor, estava o material de combate: a espingarda G3, o cinturão com carregadores, as granadas defensivas e ofensivas. Ao observar aquele cenário, ocorreu-me um pensamento inevitável — isto era, de facto, guerra a sério.O isolamento reforçava ainda mais essa perceção. O nosso quartel era o único em toda aquela zona, sem qualquer apoio próximo. O aquartelamento mais perto ficava a mais de 20 quilómetros de distância, o que tornava evidente que, ali, estávamos praticamente por nossa conta, dependentes da nossa organização, vigilância e capacidade de resistência.Assim começava uma nova fase, num lugar remoto, onde a distância, o silêncio da mata e a constante sensação de alerta marcavam o ritmo dos dias.
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A MISSÃO CATÓLICA DO MUSSUCO
AQUARTELAMENTO PRINCIPAL DA COMPANHIA DE ARTILHARIA 2671
A Missão Católica do Mussuco, que albergou a nossa Companhia, como podemos ver na imagem era constituida por dois edifícios principais, simétricos, frente a frente, com um grande terreiro ao centro, que nós chamávamos parada militar, a separá-los e no fundo uma Igreja, orientada leste - oeste. No edifício Sul estava instalado a Direção da Missão Católica Padre José e um Irmão, o Comando da Companhia e a Messe dos Oficiais. No edifício Norte, estava instalado a Secretaria, a Messe dos Sagentos, a Rádio e os Serviços Cripto.
Outras edificações se tinham erguido para albergar os restantes serviços da Companhia e a tropa. Poderíamos ver os pavilhões das casernas, do serviço auto, pequenos edifícios para a vagomestria, para o bar, para a enfermaria. Estes pequenos edifícios, já existiam e foram construídos, ao longo do tempo, de acordo com as necessidades militares.
O terreno da Missão católica era circundado por uma rede com 2 áreas de acesso leste - oeste. Na zona leste estava situada a porta de armas, que dava acesso à picada ou estrada principal e às povoações, Luremo, Cafunfo, Cuango, Catxinga. Do lado oposto, a picada que levava para a enfermaria, campo de futebol, sanzala e mata ou floresta.
Junto da rede uma pequena vala, que serviria para esconderijo de defesa, no caso de ataque, o que nunca aconteceu, felizmente.
CHEGADA AO MUSSUCO
Chegamos ao MUSSUCO no dia 14 de fevereiro de 1970.
Fomos recebidos pela Companhia de Cavalaria 2331 e pela população africana reunida no portão de entrada do aquartelamento, dando-nos as boas vindas e felizes pela nossa chegada.
Ali permanecemos durante dois anos, em zona de guerrilha a 100%. Felizmente, durante a nossa estadia, as situações de guerra ou guerrilha não existiram, porque todos os militares e população indígena se entre-ajudaram e se entenderam na dupla missão.
A Companhia de Artilharia tinha dois destacamentos.
Um para norte, Catxinga, que albergava dois pelotões, comandada por um Alferes e outro para oeste, Luremo, que albergava uma secção de 10 homens, comandada por um Furriel, que tinham por missão defender as populações indígenas locais e controlar a guerrilha na área.
As orientações, que a tropa recebia sobre o modo de tratar a população civil (não só as mulheres e crianças como também os homens) eram muito claras e excluíam quaisquer maus tratos, coacção ou violência.
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CATXINGA
Assim escrevia o Alferes Carmo Reis: Catxinga, 8 de Fevereiro de 1970.
"Os maçaricos estão a chegar! Prepara-se uma recepção solene. No tronco de uma árvore, uma tábua escrita reza assim: «Maçarico, se você demorasse mais uma hora, todos os velhinhos se enforcariam!» Na barraca da enfermagem: «Matadouro Municipal». Na casa do comerciante: «Caixa Geral de Depósitos». Na messe dos furriéis, está pendurado um boneco promovido a deus da guerra - O «Xalavadunga»"
Em Catxinga, para onde segui, fomos recebidos pelo Alferes Carmo Reis da Companhia de Cavalaria 2331, que nos desejou boas vindas, mostrou e explicou o funcionamento dos serviços no aquartelamento e partiu de seguida.
Foi tudo tão rápido, que mais tarde, quando reencontrei o Prof Dr Carmo Reis na Câmara Municipal de Vila do Conde não o reconheci fisicamente, sòmente o nome avivou a minha memória.
Desterrado no interior da Lunda, o tempo passou vagarosamente, sem problemas, ancorado e acompanhado por 60 companheiros e camaradas de luta.
Não foi fácil para alguns, esta presença e estadia em terras da Lunda. O calor, as chuvas, os mosquitos, as doênças perturbaram o nosso dia a dia.
Diàriamente, uma secção militar buscava água para a cozinha, os chuveiros e banheiros. O rio distava cerca de mil metros e não podiamos fazer a recolha da água de qualquer modo, tinha de existir segurança. Esta dupla dificuldade foi, sem dúvida, o maior problema de todos para todos, que enfrentamos.
As tarefas de patrulhamento ao redor do aquartelamento e da área de jurisdição correram sempre bem. Os animais selvagens eram as nossas visitas, durante a noite, fazendo rebentar, por vezes, as armadilhas instaladas em redor do aquartelamento.
Na primeira vez, que aconteceu o rebentamento das granadas, armadilhadas em redor do aquartelamento, alguns camaradas correram para as valas e ainda deram uns tiritos, a breda metralhadora cantou de galo, mas como não houve resposta, tudo acabou em PAZ e sossego rapidamente.
Depois dos serviços de patrulha, limpeza, abastecimentode água, jogávamos futebol; fumávamos (tabaco "local"...), bebíamos, e observávamos as osgas a paparem moscas (à luz de velas, depois do gerador ser desligado). Conversava-se até o sono começar a apertar.
O bom relacionamento com os nativos era meio caminho andado para diminuir os problemas com os turras. Não nos podíamos esquecer que a maioria dos turras que actuavam na nossa zona eram familiares e amigos destes nativos.
Último ataque a Catxinga
Catxinga, 7 de Setembro de 1968.
Tiroteio em Catxinga City! 10 minutos debaixo de fogo!
"Acordei com o matraquear das metralhadoras. As balas sibilavam no chão da parada e o estrépito do morteiro ribombou com o estrondo das granadas caídas na encosta do morro. Eram duas da manhã. Quando a cadência do tiro intervalava, a caminho do fim, ouvia-se ainda cantar a Breda, e a boa disposição dos nossos soldados decorava uma pesada atmosfera de pólvora com insultos escabrosos e maldições ao turra.
Ao romper d'alva, a frente Norte do acampamento estava coberta de cápsulas e alguns panfletos convidavam os sobas da sanzala a fugir para o Congo. Reparei então que uma bala abrira um buraco a um palmo onde inclinara a minha cabeça! Estou vivo!"
Alferes Carmo Reis
Catxinga, 14 de Dezembro de 1968.
A minha primeira noite,na mata
Durante a nossa comissão de serviço em Angola, eu e os meus camaradas da CART 2671, pernoitámos várias noites na mata, expostos aos mais variados perigos e muitas vezes à chuva.
Já decorreram mais de 40 anos e da grande maioria dessas noites já só retenho vagas recordações. Mas da primeira, embora não tenha sido a mais complicada, é a de que ainda hoje melhor me recordo, talvez por ter sido uma experiência diferente, a que eu não estava habituado.
Em meados de 1970, surgiu uma informação de que a FNLA teria conseguido infiltrar importantes forças de guerrilha na região, calculando-se que essa força não andaria longe dos 600 guerrilheiros. Embora os relatórios operacionais do Batalhão, com responsabilidade da quadrícula da região, não confirmassem a existência de tantos guerrilheiros.
Esta notícia modificou o nosso sistema de patrulhamento da região. O Comandante de Batalhão determinou, que as patrulhas tivessem a duração de 4 dias. Catxinga dirigia o seu patrulhamento para Norte e Mussuco para Oeste.
Normalmente, só nos era dado conhecimento das operações poucas horas antes da sua realização, para que o sigilo fosse mantido.
Recebida a ordem, foi necessário efectuar os preparativos para a operação, que iria ter a duração de 4 dias. O grupo de combate era formado por cerca de 25 homens. A cada militar foram distribuídos 5 carregadores, com 20 munições cada um (4 carregadores eram transportados presos ao cinturão e o outro era introduzido na espingarda G3). Aos comandantes foram distribuídas também granadas defensivas e ofensivas, que eram igualmente transportadas presas ao cinturão. Para além das munições, foram fornecidas 4 rações de combate a cada um dos elementos do grupo. Tínhamos de transportar também água (normalmente 2 cantis por elemento), roupa interior e agasalhos para dormir nas tendas.
Nestas operações a nossa carga (espingarda, munições, rações de combate, água e utensílios) facilmente ultrapassava os 15 quilos. Havia alguns ainda mais sacrificados. Era o caso do enfermeiro e do radiotelegrafista, que para além da carga normal, ainda tinham de transportar a bolsa de primeiros socorros e o rádio, respectivamente. A ração de combate continha os alimentos de um dia para as três refeições principais de um combatente: o pequeno-almoço, o almoço, o jantar. Embora o conteúdo não fosse igual em todas as embalagens, era composta basicamente pelos seguintes produtos: lata de leite achocolatado, lata de salsichas, fruta cristalizada, sardinhas em conserva, chocolate, pequenas embalagens de compotas, marmelada, uma lata de carne - por exemplo jardineira - uma lata de feijoada, sumo de laranja, sumo de ananás e bolachas sem sal.
Ao abrirmos a embalagem de uma ração de combate nunca sabíamos o que íamos encontrar no seu interior, pelo que, após a descoberta, procedíamos muitas vezes à troca de produtos entre nós, de acordo com os gostos de cada um. Apesar da comida das rações de combate ser intragável, o nosso problema principal era a água. Embora as matas que circundavam Catxinga fossem atravessadas por vários cursos de água, não era fácil localizá-los, por várias razões: a mata era muita densa e de difícil penetração e não nos podíamos desviar dos trilhos conhecidos, porque corríamos o risco de nos perdermos. Por isso, era necessário racionar esse bem precioso, porque, por vezes, andávamos várias horas, sob um sol abrasador, sem o encontrarmos e a capacidade dos cantis era muito reduzida.
Na madrugada do dia seguinte, o grupo estava preparado para a saída e, por volta das 6 da manhã, partíamos .
Após o pequeno-almoço internamo-nos na mata. O trilho pelo qual seguimos, guiados por um nativo, era muito estreito, mas a progressão ia-se fazendo sem problemas de maior, para além do calor escaldante, amenizado pela sombra das árvores de grande porte, cujas copas se entrelaçavam e onde o sol quase não consegui penetrar. Caminhávamos em silêncio absoluto. À nossa volta, apenas se ouvia o chilrear dos pássaros e os guinchos de alguns macacos que saltavam entre as árvores à nossa passagem.
Encontramos, um pouco mais à frente, um local propício para efectuar uma pequena paragem. Depois de montada a segurança, almoçamos, obviamente com recurso à ração de combate, e aproveitámos para recuperar forças.
Após aquela curta paragem, depois de termos enterrado os restos do almoço (as latas de conserva vazias e outro lixo) para que não denunciar a nossa passagem por aquele local, prosseguimos a marcha.
Por volta das cinco horas da tarde, começámos a procurar um seguro local para pernoitar. Em África, naquela época do ano, anoitece por volta das 8, 9 horas da tarde, a noite cai muito rapidamente e no interior da selva não era o sítio ideal para dormir.
Encontramos uma pequena clareira (local pouco arborizado) no cimo de um morro, que considerámos adequado, montámos segurança, jantámos e preparámo-nos para dormir umas horas.
Na mata, dormíamos vestidos e calçados, deitados no chão, tapados apenas pelo poncho, que era uma espécie de capa impermeável, que nos protegia do frio e da chuva. Quem achasse que eram necessários mais agasalhos, como por exemplo cobertores, tinha que os transportar na mochila que levávamos às costas, o que não era muito agradável, tendo em conta a carga (espingarda, munições, comida e água) que já éramos obrigados a suportar.
HISTÓRIA DA GIBÓIA
Na mata, quase virgem, encontrávamos uma enorme variedade de animais selvagens e insectos, desde elefentes, leões, pacaças, veados, gazelas, cobras, macacos, escorpiões, enxames de abelhas, borboletas, mosquitos, só para citar alguns.
Os moquitos eram os nossos visitantes de todos os dias, principalmente durante a noite.
Na porta do aquartelamento dos oficiais e sargentos havia um posto de plantão durante a noite. Muitas das noites, o plantão batia na minha porta informando, que ouviu um grande barulho,ali próximo. Eu levantava, conversava uns minutos com ele e como não existia qualquer barulho, chegávamos à conclusão, que não seria nada. Isto repetiu-se por diversas vezes. Mas um dia, o barulho não parou. Chamei o colega do quarto e analisamos o problema, porque alguém estava dentro do galinheiro.Abrimos a porta do galinheiro e com o auxílio de uma lanterna vimos uma gibóia com um pato na boca. Tínhamos descoberto a razão dos barulhos durante a noite. Mandamos avisar todo o aquartelamento, que se seguiria uma série de tiros de G3. O réptil, foi presenteado com alguns tiros na cabeça acabou a sua vida ficando no lugar e com o pato na boca.
Apesar desta morte infeliz, a desgraçada acabou por ser a jibóia mais famosa da zona, pois quando despontou a manhã, todo o aquartelamento quiz ver o bicho, alvo de uma sessão fotográfica semelhante ao de uma qualquer misse.
Mas se teve uma morte infeliz o seu fim foi ainda mais trágico. Depois da sessão fotográfica, foi esfolada e acabou comida numa sopa por meia dúzia de interessados da CART 2671 e pelos indígenas da sanzala, Mussuco. Dizem os nativos que jibóia grelhada era um verdadeiro manjar. A sopa de gibóia pelo aspecto e pelo aroma que exalava parecia estar boa. Eu provei e aprovei.
UMA GRANDE VIAGEM - 1000 KM REGRESSO de MUSSUCO AO GRAFANIL
Com alguma antecedência, fomos informados de que seríamos em breve substituídos, o que deu início aos preparativos para o regresso.
Tratámos das malas e da organização dos pertences pessoais; no meu caso, mandei fazer caixotes de madeira para garantir o transporte seguro de tudo o que havia acumulado ao longo da missão.
A rendição veio a concretizar-se no mês de fevereiro de 1972, com a chegada da Companhia de Caçadores 3511, constituída maioritariamente por militares açorianos, que assumiu a continuidade das operações.
Curiosamente, foram os mesmos camiões que trouxeram os novos militares que nos levaram de volta.Organizados em coluna motorizada, iniciámos então o regresso ao Grafanil. A viagem decorreu com alguma nostalgia, marcada pelas memórias entretanto construídas.
Pelo caminho, fizemos paragem no Quartel de Malange, onde pernoitámos, retomando a marcha no dia seguinte até ao destino final.
No CAMPO MILITAR DO GRAFANIL
De regresso ao Campo Militar do Grafanil, permanecemos ali mais algum tempo, numa espécie de etapa intermédia antes da viagem definitiva para Portugal. Era o tempo necessário para concluir todos os procedimentos administrativos e logísticos, bem como para preparar o tão aguardado regresso.
No Grafanil procedemos ao espólio e à entrega do material que nos havia sido distribuído durante a comissão, cumprindo as formalidades exigidas antes do embarque. Depois disso, restava aguardar pelo voo de regresso a Lisboa, que se realizaria no dia 4 de março de 1972.Muitos chamavam ao Grafanil “campo de concentração”.
A expressão, embora corrente entre os militares, parecia-me exagerada na dureza do seu significado. Na realidade, era o grande centro de receção e encaminhamento de todos os militares que chegavam da Metrópole e daqueles que regressavam após a missão cumprida. Existiam bares ao ar livre onde, à sombra de chapéus de palha, se bebiam cervejas frescas — a Cuca e a Nocal — e até uma igreja singular, com o altar embutido num embondeiro, imagem que ficou gravada na memória.
Ali vivia-se um ambiente de contrastes muito particulares. Cruzavam-se os recém-chegados, os “maçaricos”, de fardas impecavelmente novas e semblante carregado de inquietação perante o desconhecido que os esperava, com os que regressavam já marcados pelo tempo e pela experiência, de fardas gastas, desbotadas pelo sol africano, mas com a serenidade de quem estava prestes a deixar para trás aquela etapa. Entre uns e outros passava um olhar silencioso, quase cúmplice, onde cabiam perguntas nunca feitas e respostas que só o tempo poderia dar.
Imagens de Camaradas da Companhia
Nesta imagem, no Aquartelamento do Catxinga, podemos ver: (em cima) o Sold. Ferreira, Cabo Bernardes, .... , Cabo Santos, ... , Cabo Fernandes: (ao centro) Cabo Moreira, ..., Sold. Pimenta, ..., Sold Barbosa, ..., (em baixo): Sold. Barriga, Sold. Teixeira, ..., (... quer dizer que não lembro o nome).
Alf. Brás, Furr. Brunheira, Furr. Ferreira, Furr. Zeferino e Furr. Lemos
Nesta imagem, no aquartelamento do Mussuco, podemos ver alguns camaradas, amigos com o Alferes Brás, juntos ao mastro da bandeira, no centro da parada militar. Ao fundo o edifício da cantina, a portaria de entrada e a guarita do plantão. Obrigado a todos!
AS VIAGENS
PELAS PICADAS DE ANGOLA
EM VIATURA
As deslocações pelas picadas da Lunda faziam parte da rotina da companhia e eram, ao mesmo tempo, indispensáveis e arriscadas. Regra geral, de oito em oito dias realizávamos uma viagem ao Cafundo, localidade que dispunha de pista de aviação, onde se procedia ao reabastecimento de produtos frescos destinados a toda a companhia, provenientes de Henrique de Carvalho.Estas missões eram feitas em coluna militarizada, ao longo de picadas de terra batida, muitas vezes traiçoeiras devido às chuvas intensas e aos rios que era necessário atravessar. Por razões de segurança, consideradas de elevado risco, havia o esvaziamento de todos os militares não essenciais, reduzindo a coluna ao estritamente necessário para a operação.Paralelamente, realizava-se uma outra deslocação, de carácter quinzenal, à cidade de Malange, com o objetivo de reabastecimento de géneros alimentares não especificados. Também esta viagem era efetuada em caravana motorizada, composta por camiões e viaturas militares de escolta, garantindo a proteção ao longo do percurso.A estadia em Malange prolongava-se, normalmente, por quatro dias, no Quartel Distrital, onde se organizava toda a logística do reabastecimento. Havia um dia destinado ao descanso, outro ao carregamento dos mantimentos e preparação da coluna, seguindo-se o regresso ao destacamento, completando assim mais uma missão essencial ao funcionamento da companhia.
Imagens retiradas da Internet
IMAGENS DE PATRULHAS
As duas primeiras imagens foram retiradas da Internet, para mostrar os tipos de patrulha. A patrulha, em viatura, pelas picadas da região e as patrulhas a pé para o interior da mata, os acampamentos, em locais estratégicos, como no alto relevo e a vigilância em determinados trilhos.
As orientações que a tropa recebia sobre o modo de tratar a população civil (não só as mulheres e crianças como também os homens) eram muito claras e excluíam quaisquer maus tratos, coacção ou violência.
As viagens pelas pontes
da Lunda Norte
Algumas amostras de pontes na Lunda.
Para mostrar o tipo de pontes existentes na Lunda da altura, algumas imagens retiradas da Internet.
Na primeira imagem, o Alferes Brás da Cart 2671 construindo com troncos de árvore, uma passagem para viaturas num pântano do Mussuco, um pouco semelhante com a segunda imagem e depois as imagens das pontes sobre os rios da área da Companhia.
A última imagem pertence à Comp. de Caç. 2331, que nós rendemos no Mussuco, publicada no Blog de José Manuel Rodrigues.
MEIOS DE TRANSPORTE
DA COMPANHIA
A última imagem foi retirada da Internet.
EVENTOS
A Banda Musical da Cart 2671
PASSATEMPO
As queimadas, as caçadas e a pesca
Queimada- considerada, ainda nos nossos dias, uma época de caça com a presença das principais autoridades, se inicia durante a época de cacimbo de junho a agosto, a estação seca.
As caçadas aconteciam durante as queimadas, convidados pelos indígenas e durante as nossas patrulhas para o interior da mata. Quando se sentia leão, tudo fugia.
Esta pacaça de que exibo o troféu, saiu da queimada na nossa direção e veio morrer a três ou quatro metros do pessoal depois de ter levado com inúmeros tiros de bala.
A imagem mostra um dos troféus, a cabeça de uma pacaça.
A pesca era efetuada nos rios locais.
A recolha do peixe era feita com o apoio de uma canoa, como mostra a imagem e ajuda de uma rede feita pelos pescadores algarvios.
As duas últimas imagens foram retiradas da Internet
Visitas e viagens
Viagem às quedas de água do Duque de Bragança, no Distrito de Malange. Um lugar paradisíaco, no interior de Angola, mas bastante perigoso, na altura, motivo existir alguma guerrilha.
Viagem à cidade de Henrique de Carvalho, hoje Saurimo, capital Distrital da Lunda, que distava do Mussuco, cerca de 500 quilómetros. A viagem de ida e volta foi feita em coluna militar. O Quartel Distrital estava situado num extremo da cidade, junto do aeroporto, onde existia um bar muito frequentado, principalmente à noite. Henrique deCarvalho era uma cidade em franco desenvolvimento com inúmeras construções novas, restaurantes, bares e alguma vida noturna. Associado ao seu crescimento estava o movimento de militares colocados nessa área e à companhia Diamang. Esta minha viagem, está relacionada com ida do Capitão Afonso para a sede do Batalhão, por ordem superior e motivos disciplinares.
Durante a minha estadia no Mussuco e Caxinga, passei três momentos de férias, dois em Luanda e outro em Portugal.
Por 2 períodos distintos, estive algum tempo em Luanda e vou recordar alguns sítios frequentados pela malta militar. Como era sempre Verão e por isso algum tempo era passado em banhos de mar nas belas praias da Ilha, intercalados com umas imperais no bar Barracuda. Na baixa, o Polo Norte, A Portugália e o Bar Rialto eram também locais muito procurados. A cerveja fazia sempre parte da ementa juntamente com o marisco que era bom e barato. Visitei também família, que trabalhava para a Sonangol e vivia em Luanda.
Luanda era uma cidade moderna, maravilhosa, cheia de vida, diurna e nocturna. Ninguém diria que era a capital de uma província que estava em guerra.
A viagem de ida e volta para Portugal foi feita de avião. Durante a minha estadia de férias, aproveitei para tirar a carta de condução. Dividi o meu tempo de lazer entre Porto e Bucos, minha terra natal.
As três últimas imagens foram retiradas da Internet: Malange, Luanda, Henrique de Carvalho.
A simpática cidade de Malange acolhia uma secção da Cart todos os meses para efeito de reabastecimento dos bens alimentícios e bebidas.
A cidade de Malange distava cerca de 300 quilómetros do Mussuco, bem mais perto, que a sede do Batalhão Militar, Henrique de Carvalho.
Foi sempre uma Cidade agradável, simpática e acolhedora. A deslocação a Malange era sempre apetecida e disputada entre o pessoal da companhia.
Viagem de férias a Portugal
de avião
O primeiro momento inesquecível foi minha primeira viagem de avião. Fiquei com os assentos mais no fundo do avião, porque comprei a viagem na última hora. O que me gerou um certo receio! No momento da decolagem, fiquei muito preocupado achando que as pessoas poderiam sentir-se mal ou vomitar. E na hora do pouso, lembro de apertar bem o cinto, agarrando-me bem ao banco da frente com as duas mãos. Por um bom tempo, eu não conseguia esquecer aquela sensação. Sensação bonita, receosa, que mexeu com o meu interior.
As passagens da sonhada primeira viagem de avião já estavam compradas, mas quanto mais perto da data de embarque, maior foi a ansiedade e o nervosismo de voar. Não é para menos. O mundo dos aeroportos era desconhecido e cheio de palavras novas como check-in, conexão, escala, turbulência.
Painéis espalhados pelo aeroporto mostravam o horário de embarque do meu voo.
PREPARANDO-ME PARA A VIAGEM, arrumando a mala
Os documentos
Kit de viagem
Escolha roupas e calçados confortáveis para usar no dia da viagem. Não se esqueça de levar um casaco a bordo para se proteger do frio do ar-condicionado. Algumas pessoas sentem dor de ouvido principalmente no momento do pouso e da decolagem. Evite ingerir bebidas alcoólicas antes da viagem, já que a altitude potencializa os efeitos do álcool.
VIAGEM DE REGRESSO
de avião
dia 04.03.1972, chegada a Portugal
A Companhia de Artilharia 2671 foi condecorada com a medalha comemorativa das Campanhas das Forças Armadas em Angola 1970 - 1972, antes do embarque.
Imagem retirada da Internet.
Regressamos de avião, dia 4 de março de 1972.
A Força Aérea tinha nesse tempo dois Boeing 707 que se revelavam muito mais adequados ao transporte da tropa (e mais económicos). A rapidez do transporte era muito importante, pois evitava que os militares permanecessem sem fazer nada durante os dez dias que o "cruzeiro" durava.
De avião, era muito mais simples: o pessoal cantava umas cantigas, bebia qualquer coisa, passava pelas brasas e ... estava em Lisboa.
FIM DA VIAGEM
Março de 1972
BUCOS, CABECEIRAS DE BASTO
Reflexões de um Alferes — Cinquenta Anos Depois
Passados cinquenta anos, ao revisitar os caminhos percorridos na juventude, surgem inevitavelmente as memórias de um tempo intenso, exigente e profundamente marcante. Quando abraçou o serviço militar, o pensamento inicial era claro: continuar a carreira militar, fazer dela um projeto de vida, servir com dedicação e construir um futuro assente na disciplina, no sentido de missão e no espírito de camaradagem.
Naqueles primeiros tempos, tudo parecia apontar nessa direção. A farda vestia-se com orgulho, o dever era assumido com convicção e existia a esperança de encontrar, na instituição militar, estabilidade, reconhecimento e um caminho bem definido. Porém, a realidade revelou-se mais complexa do que o ideal sonhado.
As contrariedades surgidas ao longo do percurso, a ausência de definições claras quanto ao futuro, as poucas explicações dadas a muitos jovens oficiais e a incerteza constante foram, pouco a pouco, desgastando aquela vontade inicial de permanência. O entusiasmo não desapareceu de um momento para o outro; foi-se transformando lentamente em reflexão, dúvida e, por fim, na consciência de que talvez o destino tivesse reservado outro rumo.
Ainda assim, olhando hoje para trás, permanece a certeza de que o serviço militar deixou marcas profundas e valiosas. Foi uma escola de vida. Ensinou a enfrentar dificuldades, a decidir sob pressão, a compreender os homens nas suas diferenças e fragilidades, e a valorizar a solidariedade nas horas mais difíceis.
As viagens realizadas, os lugares conhecidos, as longas deslocações por terras distantes e as experiências vividas em contextos muitas vezes adversos abriram horizontes humanos e culturais impossíveis de esquecer. Cada percurso trouxe aprendizagens; cada missão deixou ensinamentos; cada companheiro de jornada acrescentou algo à construção da personalidade e da visão do mundo.
Sobretudo, ficou a riqueza do relacionamento humano. A convivência diária, os sacrifícios partilhados, as conversas nas horas de descanso, os momentos de tensão e também de alegria criaram laços que resistem ao tempo. Muitos rostos permanecem vivos na memória, como parte inseparável dessa etapa da vida.
Cinquenta anos depois, talvez permaneça uma leve sensação de interrogação sobre o que poderia ter sido. Contudo, não existe arrependimento. Existem, sim, gratidão e reconhecimento por tudo aquilo que o serviço militar proporcionou: maturidade, experiência, coragem, capacidade de adaptação e uma compreensão mais profunda da condição humana.
A vida acabou por seguir outros caminhos, mas o alferes de outrora continua presente na memória e no carácter de quem nunca esqueceu os valores aprendidos nesse tempo singular.
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sábado, 25 de abril de 2026
Manuel de Oliveira Henriques Braz, Vereador da Camara Municipal de Cabeceiras de Basto
Manuel de Oliveira Henriques Braz destacou-se na vida pública local ao assumir funções como vereador da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, integrante das listas do Partido Socialista, entre junho de 1983 e dezembro de 1985.
Durante cerca de dois anos de exercício, contribuiu ativamente para a gestão e desenvolvimento do concelho, pautando a sua atuação pelo compromisso com a comunidade e pelo sentido de responsabilidade cívica.
Oriundo de uma família enraizada na freguesia de Bucos, com ligações à Casa da Pereira, Manuel Braz carrega consigo valores tradicionais de proximidade, trabalho e dedicação à terra.
Residente na Casa de Sanoane de Cima, mantém uma forte ligação às suas origens, sendo reconhecido pelo seu envolvimento local e pelo respeito pelas tradições da região. A sua trajetória reflete a combinação entre o serviço público e a preservação de uma identidade familiar e comunitária sólida.
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