sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Descrição articulada do Retrato-Escultura de Manuel Braz - Livro de Memórias
:A escultura-retrato de Manuel Braz apresenta-se como um objeto de arte autónomo, de presença solene e intencionalmente intemporal. Executada integralmente em ouro polido, a figura afasta-se da representação naturalista para assumir uma linguagem escultórica depurada, onde a identidade não é literal, mas sugerida pela estrutura do rosto, pela proporção dos planos e pela geometria essencial da silhueta.Os traços faciais surgem em baixo-relevo e facetação, como se a memória tivesse sido cristalizada em matéria nobre: o olhar insinuado por planos oblíquos, o sorriso contido gravado na superfície metálica, a cabeça como volume firme e sereno. As incrustações de diamantes, pérolas e pedras coloridas pontuam a superfície não como ornamento excessivo, mas como marcas de valor, experiência e continuidade — cada brilho funcionando como metáfora de episódios vividos, relações construídas e heranças transmitidas.As gravações e filigranas que percorrem o busto evocam saberes artesanais antigos, aproximando a escultura de uma lógica de objeto patrimonial, quase ritual. Não se trata de um corpo vivo, mas de uma presença simbólica: um retrato que existe entre a pessoa e a memória, entre o indivíduo e o lugar que o moldou.Nesse sentido, a escultura estabelece um diálogo profundo com a Casa de Sanoane de Cima. Tal como a casa, Manuel Braz é aqui representado como estrutura, não como episódio passageiro. Ambos partilham a mesma ideia de permanência: a casa como corpo construído ao longo do tempo, o retrato como corpo transformado em matéria durável. As filigranas do ouro ecoam as marcas deixadas nas paredes, nos pátios e nos caminhos antigos; as pedras incrustadas refletem a densidade simbólica de um lugar habitado por gerações.A escultura pode ser lida, assim, como uma extensão humana da Casa de Sanoane de Cima — não um simples retrato individual, mas a personificação de uma ligação contínua entre pessoa, território e memória. Tal como a casa, o retrato não pertence apenas ao presente: existe para ser visto, interpretado e reconhecido no futuro, como testemunho de pertença, identidade e continuidade.
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