segunda-feira, 23 de março de 2026

Conclusão Livro de Manuel Braz

Conclusão – Entre o Passado e o Presente Chegado ao tempo presente, já na condição de aposentado, Manuel olha para trás com a serenidade de quem percorreu um caminho longo, exigente e profundamente significativo. O passado surge como um conjunto de etapas bem definidas — a vida militar, marcada pela disciplina e pelo sentido de dever; a vida de professor, dedicada à educação e à transformação social; e a vida diplomática, orientada para o apoio às comunidades e a representação do país além-fronteiras. Cada uma destas fases contribuiu para moldar o homem que hoje é, deixando marcas indeléveis no seu caráter e na sua forma de estar na vida. No presente, o ritmo é outro. A exigência deu lugar à reflexão, e o tempo, outrora escasso, permite agora revisitar memórias, valorizar conquistas e compreender melhor os desafios enfrentados. A aposentação não representa um fim, mas sim uma nova etapa — mais tranquila, mas igualmente rica em significado. É neste tempo que se consolidam os ensinamentos de uma vida: a importância da disciplina, o valor do conhecimento, a força do serviço aos outros e a necessidade de agir com humanidade em todas as circunstâncias. São princípios que permanecem vivos e atuais, mesmo fora do exercício ativo de funções. O legado que fica não se resume aos cargos desempenhados ou às funções exercidas, mas sim ao exemplo deixado — um exemplo de dedicação, integridade e compromisso com a sociedade. Assim, entre o passado vivido com intensidade e o presente vivido com serenidade, permanece uma certeza: a de que uma vida orientada por valores e pelo serviço aos outros nunca se esgota, prolongando-se no impacto que deixa nos outros e na memória que perdura no tempo.

Reflexões e Legado. Três vidas numa só: Militar, Professor e Diplomata

Ao longo do seu percurso, Manuel viveu três vidas distintas, mas profundamente interligadas: a do militar, a do professor e a do diplomata. Embora diferentes nas suas funções e contextos, todas se cruzam num ponto comum — o serviço aos outros. Cada etapa trouxe desafios próprios, exigências específicas e aprendizagens únicas. No entanto, longe de se afastarem, estas experiências aproximaram valores, consolidaram princípios e construíram uma identidade coerente e sólida. A disciplina adquirida na vida militar, o compromisso com o conhecimento na educação e a sensibilidade humana na diplomacia formaram um todo indivisível. Três caminhos que, juntos, definem uma vida com sentido.Valores transmitidos: disciplina, educação e serviço Os valores que marcaram este percurso são claros e consistentes: disciplina, educação e serviço. A disciplina, como base de organização e rigor, acompanhou todos os momentos da vida. A educação, como instrumento de transformação, revelou-se essencial na construção de uma sociedade mais justa. O serviço, como princípio orientador, deu sentido a cada função desempenhada. Mais do que palavras, estes valores foram vividos e transmitidos através do exemplo, influenciando todos aqueles que com ele conviveram ao longo dos anos. O impacto na sociedade O impacto de uma vida não se mede apenas pelos cargos ocupados, mas pelas pessoas tocadas e pelas mudanças geradas. Na vida militar, contribuiu para a defesa e organização. Na educação, ajudou a formar cidadãos e a dar oportunidades a quem delas precisava. Na diplomacia, apoiou comunidades e reforçou laços entre Portugal e os seus emigrantes. Em cada área, deixou uma marca de seriedade, dedicação e compromisso, contribuindo de forma discreta, mas significativa, para o bem comum. Memórias e ensinamentos As memórias que ficam são o reflexo de uma vida intensa, feita de desafios, superações e aprendizagens constantes. Cada experiência trouxe ensinamentos que ultrapassam o tempo e o contexto em que foram vividos. A capacidade de adaptação, o respeito pelos outros, o sentido de responsabilidade e a importância de nunca desistir são alguns dos legados mais marcantes. No final, permanece a certeza de que, apesar das dificuldades e das mudanças ao longo do caminho, é possível construir uma vida com propósito, guiada por valores sólidos e por um compromisso verdadeiro com os outros. Três vidas diferentes, mas profundamente vividas — unidas por princípios que perduram e por um legado que inspira.

O Diplomata, Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suiça.

Uma nova missão Após um percurso marcado pela educação e pelo serviço público, surge uma nova etapa: a diplomacia. O exercício de funções como Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça representou a continuidade de uma vida dedicada aos outros, agora num contexto institucional e internacional. Esta nova missão exigia não apenas conhecimento e experiência, mas também sensibilidade humana, capacidade de escuta e proximidade com as comunidades. Tratava-se de representar o Estado português, mas sobretudo de servir os cidadãos portugueses no estrangeiro. A ação diplomática A ação diplomática desenvolvida teve um forte carácter social e humano. O apoio às comunidades portuguesas assumiu-se como prioridade, procurando dar resposta a diversas situações, muitas vezes complexas, que afetavam emigrantes e suas famílias. O trabalho passava por visitas regulares a associações portuguesas, casas de Portugal, hospitais, clínicas, prisões, fortalecendo laços e promovendo a proximidade entre a Embaixada e a comunidade. Estes encontros permitiam conhecer melhor a realidade vivida pelos portugueses no estrangeiro, as suas dificuldades, aspirações e contributos para a sociedade de acolhimento. Paralelamente, desenvolvia-se um acompanhamento social atento, apoiando casos concretos e procurando soluções para problemas de natureza diversa — desde questões administrativas a situações pessoais mais delicadas. A representação do Estado português não se limitava a atos formais. Era, acima de tudo, uma presença ativa, próxima e responsável, onde a diplomacia se fazia também através do contacto humano, da compreensão e da solidariedade. Assim, esta missão consolidou uma visão de diplomacia social — uma diplomacia feita de pessoas para pessoas, onde o serviço público se traduzia em apoio concreto, dignidade e valorização das comunidades portuguesas no estrangeiro.

Manuel Braz - O Profesor de Português No Estrangeiro

– O ensino além-fronteiras Uma nova etapa iniciou-se com a integração no ensino de Português no estrangeiro, no âmbito do Instituto Camões e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Após concurso e mudança de ministério, surgia um novo desafio, marcado por diferentes funções e por uma realidade educativa completamente distinta. Ensinar além-fronteiras significava trabalhar com filhos de emigrantes portugueses e com alunos estrangeiros interessados na língua e cultura de Portugal. Era uma missão mais exigente, onde o ensino deixava de ser apenas académico para se tornar também cultural e identitário. Cativar os alunos nem sempre era fácil. A língua portuguesa, pela sua complexidade, exigia métodos adaptados e uma abordagem pedagógica criativa. Mais do que ensinar palavras e regras, era necessário despertar o interesse, criar ligação e dar sentido à aprendizagem. Capítulo 10 – Experiência internacional A experiência internacional decorreu em diferentes cidades europeias, cada uma com as suas particularidades e desafios. Em Lyon e Paris, em França, o contacto com comunidades portuguesas revelou a importância da escola como espaço de ligação às origens. No Luxemburgo, a forte presença de emigrantes portugueses reforçava ainda mais essa missão. Em Neuchâtel, na Suíça, o contexto multicultural trouxe novos desafios, exigindo adaptação constante e sensibilidade às diferentes realidades dos alunos. Cada cidade representou uma aprendizagem, não apenas profissional, mas também pessoal. O contacto com diferentes culturas, sistemas educativos e comunidades permitiu uma visão mais ampla do mundo e do papel da educação na integração e valorização das pessoas. Capítulo 11 – Cultura e identidade A língua portuguesa afirmava-se como uma verdadeira ponte entre povos. Mais do que um instrumento de comunicação, era um veículo de cultura, história e identidade. Ensinar português no estrangeiro implicava transmitir muito mais do que conteúdos linguísticos. Era dar a conhecer tradições, valores e uma herança cultural rica, ajudando a manter viva a ligação às origens. Os desafios eram muitos: a dificuldade da língua, a diversidade dos alunos, a concorrência com outras línguas e culturas. No entanto, cada conquista — cada aluno motivado, cada progresso alcançado — representava uma vitória significativa. Esta missão exigente reforçou a convicção de que a educação vai além da sala de aula. É um espaço de encontro entre culturas, de construção de identidade e de afirmação de valores. Assim, o ensino no estrangeiro tornou-se não apenas uma função profissional, mas uma missão profundamente humana e cultural, onde ensinar português era também afirmar Portugal no mundo.

Professor Coordenador da Educação de Adultos

Capítulo 6 – O início na educação O ano de 1975 marcou o início de uma nova etapa na vida de Manuel. Depois da exigente experiência militar, surgia um novo caminho — o da educação. Tornar-se professor do ensino primário não foi apenas uma mudança de profissão, mas uma continuação do seu sentido de missão, A experiência no ensino rapidamente se alargou à área da educação de adultos, um domínio exigente, mas profundamente enriquecedor. Entre 1975 e 1976, dedicou-se à alfabetização de adultos no concelho do Porto, trabalhando com pessoas que, por diferentes razões, não tinham tido acesso à educação em idade própria. Este trabalho exigia sensibilidade, adaptação e uma forte componente humana. Mais tarde, assumiu funções como professor coordenador concelhio de Gondomar na área da educação de adultos. Aqui, para além do ensino, passou a ter responsabilidades de organização, orientação e acompanhamento de projetos educativos. A educação de adultos revelou-se uma missão distinta: enquanto os jovens procuravam a instrução escolar, os adultos buscavam ferramentas para a sua vida profissional e pessoal. Exigia técnicas diferentes, objetivos mais práticos e uma abordagem mais ajustada à realidade de cada indivíduo. Capítulo 8 – Liderança educativa Entre 1981 e 1989, Manuel integrou a coordenação distrital do Porto, no âmbito da Direção-Geral de Educação de Adultos. Esta fase marcou um período de maior responsabilidade e intervenção estratégica na área da educação. A educação, entendida como um sistema com diferentes vetores — jovens e adultos, escola e formação profissional — exigia uma visão ampla e integradora. Cada público implicava metodologias específicas, objetivos distintos e respostas adequadas às necessidades da sociedade. Foi neste contexto que a educação de adultos ganhou um significado ainda mais profundo. Para Manuel, esta vertente representava uma missão social alinhada com os seus princípios: contribuir para a valorização das pessoas, promover a igualdade de oportunidades e reforçar a dignidade humana através do conhecimento. Na Direção-Geral de Educação de Adultos, consolidou-se esta visão de uma educação ao serviço da sociedade — não apenas como transmissão de saber, mas como instrumento de desenvolvimento, inclusão e cidadania. A educação tornava-se, assim, uma verdadeira vocação, marcada pelo compromisso com os outros e pela convicção de que ensinar é, acima de tudo, servir testemunhando. Foi também nesse primeiro contacto com a escola que consolidei uma convicção que me acompanharia durante toda a minha vida profissional: educar é servir, é acreditar no outro e é ajudar cada pessoa a descobrir que pode ir mais longe. Foi com esse espírito que iniciei a minha jornada como professor. Capitulo 9 - Capítulo 10 – A minha experiência internacional A minha rota internacional foi uma verdadeira viagem de enriquecimento pessoal e pedagógico por diferentes cidades europeias. Comecei por me fixar em Lyon, entre 1995 e 1997, adaptando-me aos primeiros impactos da multiculturalidade. Logo a seguir, entre 1997 e 1998, vivi a intensidade cultural de Paris, aperfeiçoando os meus métodos de ensino. A etapa seguinte levou-me ao Luxemburgo, onde permaneci de 1998 a 2002, gerindo as especificidades de uma comunidade portuguesa vibrante e numerosa. Por fim, encontrei estabilidade em Neuchâtel, Berna, na Suíça, onde dediquei oito anos da minha vida, de 2002 a 2010, consolidando a minha prática docente num ambiente de grande exigência e diversidade. A minha experiência internacionalLyon (1995/97)Paris (1997/98)Luxemburgo (1998/2002)Neuchâtel, Berna, Suíça (2002/2010) Capítulo 11 – Cultura e identidade sob o meu olhar Olhando para trás, compreendo que ensinar a nossa língua lá fora nunca foi apenas uma questão de gramática ou vocabulário. Aprendi a ver a língua portuguesa como a minha ponte entre povos, um elo capaz de unir culturas diferentes e de devolver o orgulho identitário aos filhos da nossa diáspora. O caminho não foi isento de dificuldades, mas cada obstáculo superado transformou-se numa vitória. Os meus desafios e conquistas no ensino internacional moldaram a minha identidade como educador, deixando-me a certeza de que a nossa língua é, e sempre será, o nosso maior património no mundo. Cultura e identidade sob o meu olharA língua portuguesa como a minha ponte entre povosOs meus desafios e conquistas no ensino internacional

– Serviço Militar em Território Nacional

Capítulo 3 – Serviço em território nacional Concluída a fase de formação, iniciou-se o serviço em território nacional, onde a teoria deu lugar à prática e à responsabilidade real no seio da estrutura militar. No Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, assim como no Regimento de Artilharia de Penafiel e na carreira de tiro de Espinho, o quotidiano militar revelava-se exigente e multifacetado. Nos quartéis, existia uma organização rigorosa onde cada oficial assumia funções específicas e determinantes para o funcionamento global da unidade. Os oficiais eram responsáveis por diversas áreas, desde a secretaria à manutenção militar e gestão de equipamentos, sempre articuladas com a instrução militar contínua. Esta instrução obrigava todos a estarem permanentemente preparados, garantindo que cada unidade mantinha a sua capacidade operacional, quer para a defesa, quer para o combate. Enquanto responsável pela secretaria, destacava-se a elaboração do Jornal da Ordem Militar do quartel, documento essencial para a organização interna e disciplina da unidade. Esta função, associada à instrução militar, exigia rigor, organização e sentido de responsabilidade, contribuindo para o funcionamento harmonioso da estrutura militar em tempo de paz. Capítulo 4 – Missão em África A missão em África representou um dos períodos mais marcantes e exigentes de toda a vida militar. No Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Cabo Verde, e posteriormente no Centro de Instrução Militar do Grafanil, em Luanda, Angola, o contexto alterou-se profundamente. A realidade da guerra impunha uma preparação constante e uma atenção permanente ao risco. Integrado na Companhia de Artilharia 2671, agregada ao Batalhão nº 2911, na região da Lunda, em Henrique de Carvalho, assumiu funções de comando direto. Como responsável por um grupo de cerca de trinta homens, tinha a missão de garantir a segurança, a manutenção da ordem e a defesa do aquartelamento. As tarefas incluíam também patrulhamentos em zonas determinadas, exigindo vigilância, disciplina e capacidade de decisão em situações de elevada tensão. Era um contexto onde a responsabilidade não era apenas operacional, mas também humana, envolvendo a liderança de homens em cenários de incerteza e perigo. Esta experiência proporcionou um profundo amadurecimento pessoal. A convivência com a realidade da guerra, com os desafios diários e com a necessidade de liderança firme, marcou de forma indelével o seu caráter e visão do mundo. Capítulo 5 – O regresso O regresso ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar marcou o fim de um ciclo intenso e transformador. Depois da experiência em África, o retorno trouxe consigo não apenas o reencontro com a normalidade, mas também uma nova consciência pessoal e profissional. A vivência da guerra deixou marcas profundas, traduzidas numa maior maturidade, sentido de responsabilidade e valorização da vida e dos outros. A experiência acumulada, tanto no território nacional como no estrangeiro, contribuiu para uma transformação interior significativa. O jovem cadete que iniciara o percurso em 1969 dava lugar a um homem mais consciente, mais preparado e com uma visão mais ampla do mundo. Este período encerra a fase militar ativa, mas deixa um legado duradouro: uma formação sólida, valores firmes e um espírito de missão que continuaria a orientar os passos seguintes da sua vida.

O Oficial do Exercito, Manuel Braz

Capítulo 1 – O percurso militar O ano de 1969 marcou o início de um caminho exigente e transformador. A entrada como cadete representou mais do que uma escolha profissional — foi a aceitação consciente de uma vida de disciplina, responsabilidade e entrega ao serviço da Pátria. Na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, começaram os primeiros desafios. A adaptação a uma realidade rigorosa, marcada por regras firmes e por uma exigência constante, revelou-se dura e, por vezes, espinhosa. Cada dia trazia novas provas físicas e psicológicas, onde a resistência, a coragem e a determinação eram constantemente testadas. Até ao momento solene do Juramento de Bandeira, viveu-se um período de intensa reflexão e formação. Foi aí que se consolidaram os primeiros traços da identidade militar — o sentido de pertença, o respeito pela hierarquia e o compromisso com valores maiores do que o próprio indivíduo. Seguiu-se a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde a instrução assumiu um caráter mais técnico e especializado. A exigência manteve-se elevada, mas o ambiente transformou-se. O trabalho tornou-se mais objetivo, mais focado e orientado para a missão. Surgiram novas perspetivas, uma maior maturidade e um entendimento mais profundo do papel a desempenhar. Capítulo 2 – Formação e identidade militar A formação como oficial miliciano de Artilharia consolidou uma base sólida de conhecimentos, mas, acima de tudo, moldou o caráter. A disciplina deixou de ser apenas uma imposição exterior para se tornar um princípio interior. A liderança começou a emergir não apenas pela autoridade, mas pelo exemplo, pela responsabilidade e pela capacidade de decisão. Foi neste percurso que se desenvolveram valores fundamentais: o espírito de sacrifício, a resiliência perante as dificuldades e a dedicação à missão. A dureza dos primeiros tempos deu lugar a uma consciência mais clara do dever e da importância do coletivo. A vida militar revelou-se, assim, uma escola exigente, mas profundamente formadora. Entre desafios, aprendizagens e superações, construiu-se uma identidade firme, alicerçada na disciplina, na liderança e num espírito de missão que viria a acompanhar Manuel ao longo de toda a sua vida. Ao longo da carreira como Oficial Militar de Artilharia, o percurso foi marcado por uma sucessão de experiências em diferentes unidades regimentais, que moldaram não apenas a sua competência técnica, mas também o seu sentido de missão e camaradagem.Iniciado o trajeto no Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde deu os primeiros passos na vida militar, assimilando os princípios fundamentais da disciplina, da hierarquia e do rigor operacional. Posteriormente, foi colocado no Regimento de Artilharia nº 5, em Penafiel, unidade onde viria a ocorrer a sua mobilização para o Ultramar. Integrado na Companhia nº 2671, viveu um período intenso de preparação, marcado pelo treino, pelo entrosamento e pela convivência entre militares, criando laços que se revelariam essenciais no teatro de operações. Seguiu-se a passagem pela Carreira de Tiro, em Silvalde, Espinho, onde aprimorou as suas competências no manuseamento e precisão das armas, consolidando a sua formação técnica. De Espinho, deslocou-se para Lisboa, onde embarcou no navio “Niassa”, rumo ao Ultramar, numa viagem que simbolizava a transição para uma nova e exigente etapa da sua vida militar.O primeiro destino foi o Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde aprofundou a preparação para o cenário africano. Posteriormente, seguiu para Angola, desembarcando em Luanda e sendo encaminhado para o Campo Militar do Grafanil. Este centro logístico desempenhava um papel crucial, albergando o Batalhão de Depósito de Material (BDM), onde os militares recebiam e entregavam o seu equipamento à chegada e à partida.O Grafanil destacava-se não apenas pela sua função operacional, mas também pelos seus elementos simbólicos e de convivência. Entre estes, sobressaía a Capela do Imbondeiro, esculpida no tronco de uma árvore monumental, que se tornou um marco de fé e reflexão para muitos militares. O campo dispunha ainda de diversas infraestruturas, como casernas, bar de oficiais e a conhecida “Sala do Soldado”, espaço de convívio e partilha nos momentos de descanso.Daqui, a Companhia 2671 foi projetada para o teatro de operações no Leste de Angola, mais concretamente para a região da Lunda, em Henrique de Carvalho. Integrada no Batalhão 2911, a unidade foi posicionada em zonas como Mussuco, Catxinga e Luremo, onde desenvolveu a sua campanha. Neste contexto, a sua missão centrou-se na defesa do território, na afirmação da presença militar e no apoio às populações locais, desempenhando também um papel social relevante junto das comunidades.Este percurso reflete não apenas um itinerário geográfico, mas sobretudo uma vivência intensa de serviço, marcada pelo dever, pela resiliência e pelo espírito de corpo que caracteriza a vida militar. A missão em campanhas de África decorreu entre fevereiro de 1970 e março de 1972, num período exigente e marcante da sua vida militar. Embora cumprida com sentido de dever e disciplina, não esteve isenta de sobressaltos, próprios de um teatro de operações complexo e em constante tensão.A adaptação ao clima africano constituiu um dos primeiros grandes desafios. As elevadas temperaturas, a humidade intensa e as condições sanitárias adversas colocaram à prova a resistência física e psicológica dos militares. A par disso, a distância da família e o isolamento geográfico acentuavam a dureza do quotidiano.Apesar dessas dificuldades, manteve-se firme no cumprimento das suas funções, integrado na dinâmica operacional da sua unidade. Entre missões de vigilância, patrulhamento e presença no terreno, contribuiu para os objetivos definidos, num contexto onde a incerteza era constante e a capacidade de adaptação essencial.Ao longo deste período, destacou-se também o espírito de camaradagem entre os militares, que se revelou fundamental para ultrapassar as adversidades. Foi nesse ambiente que se consolidaram laços de solidariedade e entreajuda, muitas vezes decisivos para enfrentar as exigências do serviço em campanha.Concluída a missão em março de 1972, ficou um percurso marcado pela resiliência, pela dedicação e pela experiência adquirida num contexto singular, que viria a deixar uma marca duradoura no seu percurso pessoal e militar. PARTE II – O OFICIAL DO EXÉRCITO Capítulo 1 – O início do meu percurso militar 1969 – A entrada como cadete O ano de 1969 marcou profundamente a minha vida. Tinha então vinte e dois anos e encontrava-me a estudar Engenharia Química na Faculdade de Engenharia do Porto quando fui chamado para cumprir o serviço militar. A minha vida, que até então se orientava sobretudo pelos estudos e pela preparação para uma profissão civil, tomou de repente um rumo diferente. Entrei no Exército como cadete, consciente de que iniciava uma experiência que me iria exigir disciplina, resistência física, capacidade de adaptação e, sobretudo, responsabilidade. Recordo esse momento como uma verdadeira mudança de etapa. O jovem estudante que até então conhecia sobretudo o ambiente familiar, escolar e universitário passou a integrar uma instituição com regras próprias, hierarquia rigorosa e uma forte cultura de dever. Não sabia ainda quanto aquela experiência iria marcar a minha personalidade e acompanhar-me pelo resto da vida. Escola Prática de Infantaria – Mafra A minha formação militar começou na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Ali aprendi que a vida militar não se fazia apenas de ordens e exercícios. Era uma escola de carácter. A disciplina começava nos pequenos gestos: cumprir horários, respeitar regras, cuidar da apresentação, obedecer às instruções e assumir as consequências das nossas decisões. O juramento de bandeira constituiu um dos momentos mais marcantes dessa primeira fase. Diante da Bandeira Nacional, compreendi de forma mais profunda o significado de servir o meu país. A partir daquele momento, já não era apenas um jovem chamado a cumprir uma obrigação. Sentia que assumia uma responsabilidade perante a Pátria e perante os homens que comigo partilhavam aquela caminhada. Escola Prática de Artilharia – Vendas Novas Depois de Mafra, segui para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas. Foi aí que comecei verdadeiramente a identificar-me com a Artilharia. A formação era exigente e obrigava a conciliar conhecimentos técnicos, disciplina, precisão e capacidade de comando. Aprendi que um oficial não podia limitar-se a mandar. Tinha de saber ouvir, decidir e, acima de tudo, dar o exemplo. Foi também em Vendas Novas que comecei a perceber que liderar homens significava conhecer as suas dificuldades, compreender as suas limitações e saber exigir-lhes o melhor sem perder de vista a sua condição humana. Capítulo 2 – Formação e identidade militar Oficial Miliciano de Artilharia A formação militar conduziu-me ao posto de Alferes Miliciano de Artilharia. Ser oficial significava assumir uma responsabilidade que ultrapassava a minha própria pessoa. Tinha homens sob a minha responsabilidade e sabia que as minhas decisões poderiam influenciar diretamente o seu trabalho, a sua segurança e o seu estado de espírito. Essa consciência obrigou-me a amadurecer rapidamente. O Exército ensinou-me a importância da preparação. Uma decisão tomada sem conhecimento podia ter consequências graves. Por isso, aprendi a estudar, a observar, a prever e a decidir. Disciplina, liderança e espírito de missão A disciplina foi talvez uma das maiores aprendizagens que trouxe da vida militar. Não a disciplina entendida apenas como obediência, mas como capacidade de cumprir o dever mesmo quando as circunstâncias são difíceis. Aprendi também que a verdadeira liderança não se impõe apenas pela autoridade do posto. Conquista-se pelo exemplo. Um oficial que exige dos seus homens aquilo que ele próprio não está disposto a fazer perde rapidamente a sua autoridade moral. Por isso, procurei sempre estar presente, acompanhar os meus homens e partilhar com eles as dificuldades. O espírito de missão tornou-se uma referência para mim. Aprendi que, quando se assume uma responsabilidade, é preciso levá-la até ao fim. Esta ideia acompanhou-me posteriormente em muitas outras dimensões da minha vida: como professor, como responsável pela educação, como autarca e como diplomata. Capítulo 3 – O serviço em território nacional Regimento de Artilharia da Serra do Pilar – Vila Nova de Gaia Depois da formação, iniciei uma nova etapa do meu percurso militar. Passei pelo Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde continuei a consolidar a minha preparação e a experiência como oficial. O contacto diário com militares de diferentes origens sociais e culturais foi também uma importante escola de vida. O Exército colocava lado a lado homens muito diferentes, mas unidos pelo mesmo uniforme e pelo cumprimento da mesma missão. Aprendi a trabalhar em equipa e a reconhecer o valor de cada pessoa dentro de uma estrutura organizada. Regimento de Artilharia de Penafiel Seguiu-se o Regimento de Artilharia de Penafiel. Ali continuei a desempenhar as minhas funções e a preparar-me para a missão que se aproximava. A realidade militar começava, entretanto, a ganhar uma dimensão diferente. Sabíamos que muitos de nós poderiam ser mobilizados para África. Essa possibilidade fazia parte das conversas, das preocupações e dos pensamentos de todos. Eu próprio sabia que o meu percurso militar poderia conduzir-me para longe de casa. Carreira de tiro de Espinho A passagem pela carreira de tiro de Espinho integrou igualmente esse período de preparação. Os exercícios militares exigiam concentração, rigor e responsabilidade. Cada instrução tinha um propósito e cada erro podia ter consequências. Foi uma fase de aprendizagem intensa, mas também de crescimento pessoal. O jovem que entrara no Exército em 1969 começava a transformar-se num homem mais consciente das suas responsabilidades. Capítulo 4 – A missão em África Centro de Instrução Militar do Morro Branco – Cabo Verde Chegou finalmente o momento da partida para África. A saída de Portugal representou uma ruptura com a vida que conhecia. Deixava para trás a família, os amigos, os estudos e a segurança do meu quotidiano. A viagem foi também uma viagem interior. Passei pelo Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Cabo Verde, onde vivi uma nova etapa de preparação antes de prosseguir para Angola. A distância de casa começava a tornar-se uma realidade concreta. Centro de Instrução Militar do Grafanil – Luanda Depois de Cabo Verde, chegámos ao Grafanil, em Luanda. Luanda era para mim um mundo diferente. O clima, a paisagem, as pessoas e a própria realidade colonial eram muito diferentes daquela que conhecia em Portugal. No Grafanil, a preparação continuou e fomos integrados na estrutura militar que nos conduziria ao nosso destino operacional. A expectativa aumentava. Sabíamos que não estávamos ali para fazer apenas exercícios. Estávamos numa zona de guerra. Companhia de Artilharia 2671 Foi neste contexto que passei a integrar a Companhia de Artilharia 2671, pertencente ao Batalhão de Caçadores 2911, com destino à região da Lunda. A partir desse momento, a palavra "guerra" deixou de ser uma realidade distante. Passou a fazer parte do nosso quotidiano. Cada deslocação, cada patrulhamento, cada contacto com as populações e cada operação eram vividos com atenção redobrada. Como oficial, tinha responsabilidades acrescidas. Não estava apenas preocupado comigo próprio. Tinha homens que dependiam das minhas decisões. Essa responsabilidade acompanhou-me todos os dias. Batalhão n.º 2911 – Lunda, Henrique de Carvalho Chegámos à região de Henrique de Carvalho, na Lunda, onde permanecemos durante a comissão. A realidade africana marcou-me profundamente. Conheci uma terra diferente, com uma natureza impressionante e com populações cuja vida pouco tinha em comum com aquela que eu conhecia em Portugal. Ao mesmo tempo, vivi a dureza da guerra. A guerra deixa marcas que nem sempre são visíveis. Ensina-nos a conhecer o medo, a incerteza, a solidariedade e a fragilidade da vida humana. Foi também ali que compreendi, de forma muito concreta, o valor da camaradagem. Em situações difíceis, os homens aproximam-se. O companheiro que está ao nosso lado deixa de ser apenas um camarada de armas. Passa a ser alguém em quem confiamos a nossa própria vida. A guerra e a transformação pessoal A experiência da guerra transformou-me. Quando parti para África, era um jovem oficial. Quando regressei, sentia-me um homem diferente. A guerra ensinou-me a relativizar muitas das preocupações que antes me pareciam importantes. Ensinou-me o valor da vida, da amizade, da solidariedade e da família. Também me ensinou que, perante situações extremas, somos obrigados a descobrir forças que desconhecíamos possuir. Aprendi a controlar o medo, a manter a cabeça fria e a tomar decisões mesmo quando não existiam soluções perfeitas. Mas trouxe também comigo perguntas que nunca deixaram de me acompanhar. O que significa verdadeiramente servir? Até onde vai o dever? Como pode um homem preservar a sua humanidade quando vive diariamente perante a possibilidade da morte? São perguntas para as quais não encontrei respostas definitivas, mas que contribuíram profundamente para a formação da pessoa que me tornei. Capítulo 5 – O regresso Regresso ao Regimento da Serra do Pilar Em 1972 chegou finalmente o momento do regresso. Depois de mais de dois anos longe de Portugal, voltar foi uma experiência difícil de explicar. Regressei fisicamente ao país que tinha deixado, mas interiormente já não era exatamente o mesmo. Voltei ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, onde encerrei uma importante etapa do meu percurso militar. Encontrar novamente as pessoas, os lugares e os hábitos que conhecia antes da partida provocava sentimentos contraditórios. Havia alegria pelo regresso, mas também a consciência de que uma parte de mim ficara em África, juntamente com as experiências vividas e com as pessoas que comigo partilharam aqueles anos. As experiências que ficaram A experiência militar acompanhou-me para além do uniforme. Quando deixei definitivamente a vida militar, levei comigo ensinamentos que continuariam presentes em todas as etapas seguintes da minha vida. Levei a disciplina, o sentido de responsabilidade, a capacidade de trabalhar em equipa e o espírito de missão. Levei também a consciência de que liderar é servir e de que qualquer função pública deve ser exercida com responsabilidade e respeito pelos outros. A experiência de África ensinou-me ainda uma coisa fundamental: nunca devemos esquecer a dimensão humana de cada decisão. Olho hoje para aqueles anos com a serenidade que o tempo permite, mas também com respeito por tudo aquilo que vivi. O Exército foi uma escola. Foi uma escola de disciplina, de responsabilidade, de coragem e de humanidade. E, sobretudo, foi uma etapa decisiva na construção do homem que viria a ser.

O Homem e as suas Raízes

O HOMEM E AS SUAS RAÍZES Nasci na pequena freguesia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, uma terra de raízes profundas, onde a montanha, os campos e o trabalho moldam o carácter e onde aprendi, desde muito cedo, que nada se consegue sem esforço, dedicação e perseverança. Venho de uma família humilde, numerosa e trabalhadora. Éramos seis irmãos, unidos pelos laços da família e pelos mesmos valores que os nossos pais nos transmitiram. Cresci num ambiente em que o trabalho fazia parte da vida quotidiana e em que a entreajuda, o respeito pelos outros, a honestidade e o sentido de responsabilidade eram princípios que não precisavam de ser ensinados em palavras: aprendiam-se pelo exemplo. A minha infância em Bucos foi simples, como simples era a vida das famílias da nossa terra. Mas foi também uma infância rica em experiências e ensinamentos. Foi ali, entre a família, a escola, os campos e as pessoas da comunidade, que comecei a construir a minha personalidade. A escola primária de Bucos representou uma etapa importante da minha formação. Não foi apenas o lugar onde aprendi a ler, a escrever e a fazer contas. Foi também um espaço onde comecei a compreender o valor da disciplina, do respeito, do cumprimento das responsabilidades e da convivência com os outros. Hoje reconheço que muitos dos princípios que orientaram a minha vida começaram a formar-se naqueles primeiros anos. O meu pai teve uma influência muito grande no meu percurso. Era um homem trabalhador, mas também tinha uma visão e uma ambição muito próprias para os filhos. Sonhava que cada um de nós pudesse seguir um caminho diferente e prestar, à sua maneira, um serviço à sociedade. Imaginava na família um padre, um professor, um militar, um médico... Talvez fosse o seu modo de acreditar que os filhos poderiam ir mais longe do que as circunstâncias da vida familiar permitiam imaginar. Esse sonho nunca o senti como uma imposição. Pelo contrário, foi para mim uma inspiração silenciosa. Ficou dentro de mim como uma espécie de desafio: estudar, procurar um caminho e fazer alguma coisa de útil pelos outros. Foi nesse contexto que, ainda jovem, deixei Bucos e ingressei no Seminário do Espírito Santo, em Viana do Castelo. A saída da minha terra natal foi uma mudança importante na minha vida. Deixava para trás a família, os lugares onde tinha crescido e o mundo que conhecia, para entrar num ambiente novo, exigente e disciplinado. No Seminário tive a oportunidade de conciliar a formação religiosa com a formação académica, através do paralelismo pedagógico, realizando os exames no sistema oficial. Foram anos de aprendizagem intensa, mas também de crescimento interior. Aprendi a estudar, a organizar o meu tempo, a cumprir regras e, sobretudo, a conhecer melhor a mim próprio. Mais tarde, prossegui os meus estudos no Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, onde continuei a minha formação e concluí o ensino secundário. Braga abriu-me novos horizontes. Aos poucos, o rapaz de Bucos começava a descobrir um mundo muito maior do que aquele que conhecera na infância. Em 1967, dei mais um passo importante no meu percurso e ingressei na Faculdade de Engenharia do Porto, no curso de Engenharia Química. Naquele momento, imaginava que esse poderia ser o caminho profissional que iria seguir. Era uma escolha ligada aos estudos que tinha feito e às possibilidades que se abriam diante de mim. Mas a vida, muitas vezes, conduz-nos por caminhos que não estavam inicialmente nos nossos planos. Em 1969, fui chamado para o serviço militar. A partir desse momento, o meu percurso tomou uma nova direção. Entrei numa realidade completamente diferente, marcada pela disciplina, pela responsabilidade, pelo espírito de camaradagem e pelo sentido de dever. A decisão de seguir a carreira militar foi, para mim, muito mais do que uma simples mudança de percurso académico ou profissional. Foi o início de uma etapa que viria a marcar profundamente a minha vida. Tornei-me militar por dever e por circunstância, mas também encontrei nesse caminho valores que sempre estiveram presentes na minha formação: disciplina, responsabilidade, coragem, respeito, espírito de missão e serviço à Pátria. O jovem que tinha saído de Bucos para estudar começava agora uma nova etapa da sua vida. Levava comigo as aprendizagens da família, os valores da minha terra e tudo aquilo que os anos de estudo me tinham proporcionado. Sem o saber ainda, estava a iniciar um percurso que me levaria muito para além das fronteiras da minha aldeia e que, ao longo dos anos, haveria de passar pelo Exército, pela educação, pelo serviço público, pela vida autárquica e pela missão diplomática. Mas, apesar de todos os caminhos que percorri, nunca deixei de ser o homem que nasceu em Bucos. Foi nessa terra, entre a família e o trabalho, entre a escola e a comunidade, que aprendi as primeiras lições da vida. E são essas raízes que, ainda hoje, continuam a sustentar a pessoa que sou.

Nota Introdutória a Manuel Braz

NOTA INTRODUTÓRIA Escrevo estas páginas movido por um desejo simples, mas profundo: deixar um testemunho da minha vida, das experiências que vivi, das pessoas que encontrei e dos valores que, ao longo dos anos, orientaram o meu caminho. Não escrevo apenas para recordar o passado. Escrevo porque acredito que uma vida, quando é feita de experiências, de trabalho, de dificuldades, de conquistas e de relações humanas, merece ser preservada na memória. Cada pessoa transporta consigo uma pequena parte da história do seu tempo, da sua terra e da sociedade em que viveu. Esta é a minha. Nasci em Bucos, Cabeceiras de Basto, no seio de uma família ligada à terra e aos valores simples do trabalho, da honestidade e da entreajuda. Foi ali que aprendi as primeiras lições da vida. As raízes que ali criei acompanharam-me sempre, mesmo quando o destino me levou para longe. A minha vida acabou por se construir através de diferentes caminhos, que à primeira vista podem parecer distantes uns dos outros, mas que, para mim, estiveram sempre ligados por um mesmo princípio: servir. Fui militar por dever. Ainda jovem, fui chamado a cumprir o meu compromisso com a Pátria. Como oficial miliciano de Artilharia, vivi anos particularmente exigentes, incluindo a experiência da guerra em África. Foram tempos que me marcaram profundamente. Conheci a disciplina, a responsabilidade, o medo, a camaradagem e a necessidade de tomar decisões em circunstâncias difíceis. Essa experiência ensinou-me que o sentido do dever não é uma palavra vazia: é uma responsabilidade que se assume, mesmo quando o caminho é difícil. Depois, encontrei na educação uma outra forma de servir. Fui professor por vocação. Dediquei-me à alfabetização e à educação de adultos, porque sempre acreditei que o conhecimento pode transformar vidas. Ensinar alguém a ler e a escrever não significava apenas transmitir uma competência. Significava abrir uma porta, dar autonomia, criar confiança e permitir que uma pessoa pudesse participar mais plenamente na sociedade. Mais tarde, a minha profissão levou-me para fora de Portugal. Em França, no Luxemburgo e na Suíça, continuei ligado à educação e à promoção da língua e da cultura portuguesas. Longe da minha terra, compreendi ainda melhor o valor das nossas raízes. Para muitos emigrantes, a língua portuguesa era uma ligação à família, à infância, à memória e à própria identidade. Foi também nesse percurso que assumi responsabilidades como diplomata, procurando representar Portugal com dignidade e estar próximo das comunidades portuguesas. Ser representante do meu país no estrangeiro foi uma missão que assumi com orgulho, mas também com humildade. Levei comigo Portugal, mas trouxe igualmente comigo muitas histórias, rostos e experiências de portugueses que viviam longe da sua terra. Contribui na vida pública como autarca. A política local nasceu, para mim, da vontade de participar e de contribuir para o desenvolvimento da minha terra. Sempre entendi a função pública como um compromisso com as pessoas e não como um privilégio pessoal. A proximidade, a escuta, a procura de soluções e a defesa do interesse comum foram princípios que procurei seguir. Ao olhar hoje para trás, vejo uma vida feita de muitos caminhos: Bucos, o Exército, a escola, a emigração, as comunidades portuguesas, a diplomacia e a administração local. Mas, apesar das mudanças e das distâncias, há algo que nunca mudou: as minhas raízes. Nunca deixei de ser o rapaz de Bucos que partiu um dia em busca do seu caminho. Nunca esqueci a casa, a família, os lugares da infância, as pessoas e as paisagens que moldaram a minha personalidade. Pelo contrário, quanto mais longe estive, maior foi muitas vezes a consciência da importância da minha terra. Este livro é, por isso, também uma viagem de regresso. Um regresso às pessoas que fizeram parte da minha história, aos lugares onde fui feliz, aos momentos difíceis que me fizeram crescer e às escolhas que determinaram o homem que me tornei. Não pretendo apresentar uma vida perfeita. Tive dúvidas, dificuldades, erros, perdas e momentos de incerteza. Mas tive também a felicidade de encontrar pessoas que me ensinaram, famílias que me apoiaram, amigos que caminharam comigo e oportunidades que me permitiram servir. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos é que uma vida não se mede apenas pelos cargos que ocupámos ou pelas coisas que conseguimos alcançar. Mede-se, sobretudo, pelo bem que fomos capazes de fazer, pelas pessoas que ajudámos e pelas marcas humanas que deixámos no caminho. É essa dimensão humana que desejo preservar nestas páginas. Escrevo sobretudo para os meus filhos, para os meus netos, para a minha família e para aqueles que um dia quiserem conhecer melhor o percurso que me trouxe até aqui. Quero que possam compreender de onde vim, o que vivi, aquilo em que acreditei e por que razão fiz determinadas escolhas. Quero também que estas memórias possam servir de testemunho de uma geração que viveu profundas transformações em Portugal e no mundo. Uma geração que conheceu a guerra, a emigração, as mudanças políticas e sociais, a expansão da educação e a construção de uma sociedade diferente. A minha vida foi feita nesse tempo. Militar por dever, professor por vocação, autarca por compromisso e diplomata por missão. Quatro dimensões diferentes de uma mesma caminhada. Em todas elas procurei ser fiel aos mesmos valores: o sentido de responsabilidade, o respeito pelos outros, o trabalho, a educação, a solidariedade e o amor à minha terra e ao meu país. Hoje, ao escrever estas memórias, percebo que o maior privilégio que a vida me concedeu não foram os cargos que desempenhei, mas as pessoas que encontrei pelo caminho. A elas, à minha família e à minha terra, dedico estas páginas. Este é o meu testemunho. Esta é a minha memória. Esta é, afinal, a história de uma vida ao serviço da Pátria, da educação, da comunidade e das pessoas.

Indice: Manuel o Oficial, o Professor, o Autarca e o Diplomata

ÍNDICE DO LIVRO Manuel Braz – O Oficial, o Professor, o autarca e o Diplomata 
Prefácio Nota introdutória A importância de uma vida ao serviço público 
PARTE I – O HOMEM E AS SUAS RAÍZES Origem e infância Valores familiares e formação pessoal O despertar para o serviço público 
PARTE II – O OFICIAL DO EXÉRCITO 
Capítulo 1 – O início do percurso militar 1969 – Entrada como soldado Cadete Escola Prática de Infantaria, Mafra, Escola Prática de Artilharia, Vendas Novas 
Capítulo 2 – Formação e identidade militar Oficial miliciano de Artilharia Disciplina, liderança e espírito de missão 
Capítulo 3 – Serviço em território nacional Regimento de Artilharia da Serra do Pilar (Vila Nova de Gaia) Regimento de Artilharia de Penafiel, Carreira de Tiro , Silvalde, Espinho .
Capítulo 4 – Missão em África Centro de Instrução Militar do Morro Branco, Cabo Verde Centro de Instrução Militar do Grafanil, Luanda, Companhia de Artilharia 2671, Mussuco, Catxinga, Luremo, Batalhão nº 2911 – Lunda, Henrique de Carvalho. 
Capítulo 5 – O regresso Regresso ao Regimento da Serra do Pilar, Experiência de guerra e transformação pessoal 
PARTE III – O PROFESSOR 
Capítulo 6 – O início na educação 1975 – Professor do ensino primário O compromisso com a alfabetização 
Capítulo 7 – Educação de adultos Alfabetização de adultos no concelho do Porto (1975/76) Professor coordenador concelhio de Gondomar (1977–1981) 
Capítulo 8 – Liderança educativa Coordenação distrital do Porto (1981–1989) Direção-Geral de Educação de Adultos A educação como missão social 
PARTE IV – O PROFESSOR NO ESTRANGEIRO 
Capítulo 9 – O ensino além-fronteiras Instituto Camões e o Ministério dos Negócios Estrangeiros Ensino de Português no estrangeiro 
Capítulo 10 – Experiência internacional Lyon Paris Luxemburgo Neuchâtel (Suíça) 
Capítulo 11 – Cultura e identidade A língua portuguesa como ponte entre povos Desafios e conquistas no ensino internacional 
PARTE V - AUTARCA 
Capítulo 12 - Vereador da Camara Municipal de Cabeceiras de Basto , 1983 - 1985 
 PARTE VI – O DIPLOMATA 
Capítulo 13 – Uma nova missão Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça 
Capítulo 14 – A ação diplomática Apoio às comunidades portuguesas Representação do Estado português Diplomacia social e humana
 PARTE VII – REFLEXÕES E LEGADO
 Quatro vidas numa só: militar, professor, autarca e diplomata Valores transmitidos: disciplina, educação e serviço O impacto na sociedade Memórias e ensinamentos Conclusão O sentido de uma vida ao serviço O exemplo para as novas gerações Anexos Cronologia da vida de Manuel Documentos e fotografias 

 PREFÁCIO Uma vida ao serviço 
 Ao escrever estas páginas, sinto que estou, de alguma forma, a regressar ao princípio. Regresso à minha infância, à minha terra, à minha família e às primeiras experiências que moldaram o homem que viria a ser. Regresso a Bucos, à minha aldeia, às suas montanhas, aos seus caminhos, aos campos e às pessoas que fizeram parte dos meus primeiros anos de vida. Nasci numa terra pequena, mas aprendi cedo que uma terra não se mede pelo tamanho. Mede-se pelos valores das suas gentes, pela força das suas raízes e pela capacidade que tem de formar homens e mulheres. Foi em Bucos que recebi as primeiras lições de vida. Antes da escola, aprendi com a família. Aprendi o valor do trabalho, da palavra, da responsabilidade, da entreajuda e do respeito pelos outros. Aprendi também que nada se consegue sem esforço e que cada pessoa deve procurar deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou. Esses princípios acompanharam-me ao longo de toda a minha vida. Quando, ainda jovem, deixei a minha terra para continuar os estudos, não imaginava os caminhos que o futuro me reservaria. Muito menos imaginava que a minha vida me levaria aos quartéis, às escolas, às instituições públicas, às autarquias, às comunidades portuguesas espalhadas pela Europa e aos corredores da diplomacia. O caminho foi-se fazendo passo a passo. Em 1969, fui chamado para cumprir o serviço militar. Entrei no Exército e iniciei uma etapa que viria a marcar profundamente a minha personalidade. Passei pela Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas. Ali aprendi a disciplina, o rigor, a responsabilidade e, sobretudo, o significado da palavra camaradagem. Ser oficial miliciano foi muito mais do que vestir uma farda ou assumir uma função. Foi aprender a comandar, a decidir e a assumir as consequências das decisões tomadas. Foi compreender que, quando temos homens sob a nossa responsabilidade, não podemos pensar apenas em nós próprios. Depois vieram os tempos de serviço em Portugal e, posteriormente, a missão em África. A experiência africana foi uma das mais marcantes da minha juventude. Vivi situações difíceis, conheci a realidade da guerra e partilhei com outros homens momentos que ficaram para sempre na minha memória. A guerra ensinou-me muitas coisas que nenhum livro poderia ensinar. Ensinou-me o valor da vida. Ensinou-me a importância da solidariedade. Ensinou-me que, perante a adversidade, é preciso manter a serenidade, proteger os outros e nunca esquecer a dimensão humana de cada decisão. Quando regressei a Portugal, trazia comigo experiências que jamais poderia esquecer. Tinha mudado. Aquele jovem que partira para cumprir o seu dever regressava com uma visão diferente da vida e com uma consciência ainda maior da responsabilidade que cada um de nós tem perante os outros. Mas o meu percurso não terminaria no Exército. Em 1975, encontrei uma nova forma de servir: a educação. Tornei-me professor e dediquei-me particularmente à alfabetização e à educação de adultos. Foi uma das experiências que mais profundamente me marcou. Ensinar alguém a ler e a escrever é muito mais do que transmitir conhecimentos. É abrir uma porta. É devolver autonomia. É dar confiança a quem, muitas vezes, nunca teve oportunidade de aprender. Na alfabetização de adultos, descobri que também eu aprendia todos os dias. Aprendia com as histórias de vida dos meus alunos, com as suas dificuldades, com os seus sonhos e com a vontade que muitos demonstravam de recuperar oportunidades que lhes tinham sido negadas. Depois vieram as funções de coordenação em Gondomar e, mais tarde, a coordenação distrital do Porto. A responsabilidade aumentou, mas manteve-se a mesma convicção: a educação deve estar ao serviço das pessoas. Foi assim que compreendi que ensinar não significa apenas estar diante de uma turma. Educar é também acompanhar, orientar, organizar, acreditar e criar oportunidades. Mais tarde, a minha vida profissional levou-me para fora de Portugal. Ao serviço do Instituto Camões e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tive a oportunidade de ensinar Português no estrangeiro e de contactar com comunidades portuguesas em diferentes países. Lyon, Paris, Luxemburgo e Neuchâtel são nomes que ficaram ligados à minha história. Em cada lugar encontrei realidades diferentes, mas encontrei também algo que nos une: a língua portuguesa. Percebi, ainda mais profundamente, que uma língua não é apenas um instrumento de comunicação. É memória, identidade, cultura e pertença. Ensinar Português fora de Portugal foi, por isso, também uma forma de levar comigo um pouco da minha terra e do meu país. Ao longo desse percurso internacional, tive oportunidade de conhecer pessoas de diferentes culturas e compreender melhor o significado de ser português longe de Portugal. Mais tarde, a minha vida levou-me novamente para o serviço público, desta vez através da atividade autárquica. Ser autarca significou, para mim, estar mais perto das pessoas e dos problemas concretos da comunidade. Significou ouvir, procurar soluções, assumir responsabilidades e compreender que a política só faz sentido quando está ao serviço do bem comum. Foi uma experiência diferente das anteriores, mas encontrei nela os mesmos princípios que tinham orientado a minha vida militar e profissional: responsabilidade, compromisso, proximidade e serviço. Finalmente, surgiu uma nova missão: a diplomacia. Como Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça, tive a responsabilidade de acompanhar e apoiar comunidades portuguesas e de representar o Estado português. Foi uma etapa que me permitiu compreender ainda melhor o significado de servir Portugal. Na diplomacia, aprendi que representar um país não significa apenas cumprir funções institucionais. Significa saber ouvir, compreender os problemas das pessoas, procurar respostas e estar presente quando alguém precisa de apoio. O diplomata, tal como o professor, precisa de saber escutar. O autarca, tal como o militar, precisa de assumir responsabilidades. E o homem, em todas essas circunstâncias, precisa de não perder a sua humanidade. Hoje, quando olho para trás, vejo que estas diferentes etapas da minha vida nunca estiveram verdadeiramente separadas. O militar, o professor, o autarca e o diplomata são, afinal, diferentes expressões do mesmo homem. O militar ensinou-me a disciplina e o sentido do dever. O professor ensinou-me a importância do conhecimento e da educação. O autarca ensinou-me o valor da proximidade e do compromisso com a comunidade. O diplomata ensinou-me a representar Portugal e a servir os portugueses para além das fronteiras. E Bucos ensinou-me a nunca esquecer de onde vim. Talvez essa seja uma das maiores certezas que hoje tenho: podemos viajar pelo mundo, viver em diferentes países, desempenhar funções importantes e conhecer realidades muito diferentes, mas as nossas raízes continuam dentro de nós. Eu nunca deixei verdadeiramente Bucos. A minha terra acompanhou-me nos quartéis, nas escolas, nas cidades estrangeiras e nas funções que desempenhei. A memória dos meus pais, da família, da casa, dos caminhos e das gentes da minha infância permaneceu sempre comigo. É também por isso que este livro não pretende ser apenas uma autobiografia. É uma tentativa de preservar memórias. Memórias de uma geração. Memórias de um país que mudou profundamente. Memórias da guerra, da educação, da emigração, da construção democrática e das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Mas é também uma forma de agradecer. Agradecer aos meus pais, à minha família, aos professores que contribuíram para a minha formação, aos camaradas de armas, aos colegas, aos alunos, aos amigos e a todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, fizeram parte do meu caminho. Ninguém constrói sozinho uma vida. Aquilo que somos resulta também daqueles que encontramos pelo caminho. Ao recordar estes anos, não procuro apenas falar das minhas conquistas. Quero também reconhecer as dificuldades, as dúvidas, os momentos de incerteza e os erros que fazem parte de qualquer percurso humano. Não tive uma vida perfeita. Tive uma vida vivida. E é essa vida que quero deixar registada. Se tivesse de resumir todo o meu percurso numa única ideia, escolheria a palavra serviço. Servi a Pátria como militar. Servi a Educação como professor. Servi a minha comunidade como autarca. Servi Portugal e os portugueses como diplomata. Quatro caminhos diferentes, mas unidos por um mesmo princípio. Servir. Hoje, ao escrever estas memórias, compreendo que uma vida não se mede pelos cargos que ocupámos, pelos títulos que recebemos ou pelos lugares onde estivemos. Mede-se pelas pessoas que ajudámos, pelos valores que transmitimos e pelas marcas de humanidade que deixámos nos outros. É esse o legado que gostaria de deixar. Não pretendo que estas páginas sejam vistas como um exemplo de perfeição. Gostaria, antes, que fossem entendidas como o testemunho de um homem que procurou cumprir o seu dever, aprender com a vida e colocar os seus conhecimentos e capacidades ao serviço dos outros. Aos mais jovens, deixaria apenas uma mensagem: tenham coragem para sonhar, humildade para aprender, determinação para ultrapassar as dificuldades e sentido de responsabilidade para servir. Nunca esqueçam as vossas raízes. Nunca tenham vergonha da terra de onde partiram. E nunca pensem que uma vida se torna grande apenas porque alcança lugares distantes. Uma vida torna-se verdadeiramente grande quando consegue ser útil aos outros. Foi essa a minha procura ao longo dos anos. Ainda hoje continuo a aprender. Continuo a recordar. Continuo a acreditar que podemos sempre fazer alguma coisa pelo próximo, pela nossa terra e pelo nosso país. E, olhando para o caminho percorrido, sinto sobretudo gratidão. Gratidão pela vida que me foi concedida. Gratidão pelas pessoas que encontrei. Gratidão pela minha família. Gratidão pela minha terra. E gratidão por ter tido a oportunidade de servir. Esta é a minha história. Uma vida feita de diferentes missões, mas guiada por um só compromisso: servir. 
 NOTA INTRODUTÓRIA Escrevo estas páginas movido por um desejo simples, mas profundo: deixar um testemunho da minha vida, das experiências que vivi, das pessoas que encontrei e dos valores que, ao longo dos anos, orientaram o meu caminho. Não escrevo apenas para recordar o passado. Escrevo porque acredito que uma vida, quando é feita de experiências, de trabalho, de dificuldades, de conquistas e de relações humanas, merece ser preservada na memória. Cada pessoa transporta consigo uma pequena parte da história do seu tempo, da sua terra e da sociedade em que viveu. Esta é a minha. Nasci na Casa da Pereira, em Bucos, Cabeceiras de Basto, no seio de uma família ligada à terra e aos valores simples do trabalho, da honestidade e da entreajuda. Foi ali que aprendi as primeiras lições da vida. As raízes que ali criei acompanharam-me sempre, mesmo quando o destino me levou para longe. A minha vida acabou por se construir através de diferentes caminhos, que à primeira vista podem parecer distantes uns dos outros, mas que, para mim, estiveram sempre ligados por um mesmo princípio: servir. Fui militar por dever. Ainda jovem, fui chamado a cumprir o meu compromisso com a Pátria. Como oficial miliciano de Artilharia, vivi anos particularmente exigentes, incluindo a experiência da guerra em África. Foram tempos que me marcaram profundamente. Conheci a disciplina, a responsabilidade, o medo, a camaradagem e a necessidade de tomar decisões em circunstâncias difíceis. Essa experiência ensinou-me que o sentido do dever não é uma palavra vazia: é uma responsabilidade que se assume, mesmo quando o caminho é difícil. Depois, encontrei na educação uma outra forma de servir. Fui professor por vocação. Dediquei-me à alfabetização e à educação de adultos, porque sempre acreditei que o conhecimento pode transformar vidas. Ensinar alguém a ler e a escrever não significava apenas transmitir uma competência. Significava abrir uma porta, dar autonomia, criar confiança e permitir que uma pessoa pudesse participar mais plenamente na sociedade. Mais tarde, a minha profissão levou-me para fora de Portugal. Em França, no Luxemburgo e na Suíça, continuei ligado à educação e à promoção da língua e da cultura portuguesas. Longe da minha terra, compreendi ainda melhor o valor das nossas raízes. Para muitos emigrantes, a língua portuguesa era uma ligação à família, à infância, à memória e à própria identidade. Foi também nesse percurso que assumi responsabilidades como diplomata, procurando representar Portugal com dignidade e estar próximo das comunidades portuguesas. Ser representante do meu país no estrangeiro foi uma missão que assumi com orgulho, mas também com humildade. Levei comigo Portugal, mas trouxe igualmente comigo muitas histórias, rostos e experiências de portugueses que viviam longe da sua terra. Contribui na vida pública como autarca. A política local nasceu, para mim, da vontade de participar e de contribuir para o desenvolvimento da minha terra. Sempre entendi a função pública como um compromisso com as pessoas e não como um privilégio pessoal. A proximidade, a escuta, a procura de soluções e a defesa do interesse comum foram princípios que procurei seguir. Ao olhar hoje para trás, vejo uma vida feita de muitos caminhos: Bucos, o Exército, a escola, a emigração, as comunidades portuguesas, a diplomacia e a administração local. Mas, apesar das mudanças e das distâncias, há algo que nunca mudou: as minhas raízes. Nunca deixei de ser o rapaz de Bucos que partiu um dia em busca do seu caminho. Nunca esqueci a casa, a família, os lugares da infância, as pessoas e as paisagens que moldaram a minha personalidade. Pelo contrário, quanto mais longe estive, maior foi muitas vezes a consciência da importância da minha terra. Este livro é, por isso, também uma viagem de regresso. Um regresso às pessoas que fizeram parte da minha história, aos lugares onde fui feliz, aos momentos difíceis que me fizeram crescer e às escolhas que determinaram o homem que me tornei. Não pretendo apresentar uma vida perfeita. Tive dúvidas, dificuldades, erros, perdas e momentos de incerteza. Mas tive também a felicidade de encontrar pessoas que me ensinaram, famílias que me apoiaram, amigos que caminharam comigo e oportunidades que me permitiram servir. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos é que uma vida não se mede apenas pelos cargos que ocupámos ou pelas coisas que conseguimos alcançar. Mede-se, sobretudo, pelo bem que fomos capazes de fazer, pelas pessoas que ajudámos e pelas marcas humanas que deixámos no caminho. É essa dimensão humana que desejo preservar nestas páginas. Escrevo sobretudo para os meus filhos, para os meus netos, para a minha família e para aqueles que um dia quiserem conhecer melhor o percurso que me trouxe até aqui. Quero que possam compreender de onde vim, o que vivi, aquilo em que acreditei e por que razão fiz determinadas escolhas. Quero também que estas memórias possam servir de testemunho de uma geração que viveu profundas transformações em Portugal e no mundo. Uma geração que conheceu a guerra, a emigração, as mudanças políticas e sociais, a expansão da educação e a construção de uma sociedade diferente. A minha vida foi feita nesse tempo. Militar por dever, professor por vocação, autarca por compromisso e diplomata por missão. Quatro dimensões diferentes de uma mesma caminhada. Em todas elas procurei ser fiel aos mesmos valores: o sentido de responsabilidade, o respeito pelos outros, o trabalho, a educação, a solidariedade e o amor à minha terra e ao meu país. Hoje, ao escrever estas memórias, percebo que o maior privilégio que a vida me concedeu não foram os cargos que desempenhei, mas as pessoas que encontrei pelo caminho. A elas, à minha família e à minha terra, dedico estas páginas. Este é o meu testemunho. Esta é a minha memória. Esta é, afinal, a história de uma vida ao serviço da Pátria, da educação, da comunidade e das pessoas. 
 O HOMEM E AS SUAS RAÍZES Nasci na pequena freguesia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, uma terra de raízes profundas, onde a montanha, os campos e o trabalho moldam o carácter e onde aprendi, desde muito cedo, que nada se consegue sem esforço, dedicação e perseverança. Venho de uma família humilde, numerosa e trabalhadora. Éramos seis irmãos, unidos pelos laços da família e pelos mesmos valores que os nossos pais nos transmitiram. Cresci num ambiente em que o trabalho fazia parte da vida quotidiana e em que a entreajuda, o respeito pelos outros, a honestidade e o sentido de responsabilidade eram princípios que não precisavam de ser ensinados em palavras: aprendiam-se pelo exemplo. A minha infância em Bucos foi simples, como simples era a vida das famílias da nossa terra. Mas foi também uma infância rica em experiências e ensinamentos. Foi ali, entre a família, a escola, os campos e as pessoas da comunidade, que comecei a construir a minha personalidade. A escola primária de Bucos representou uma etapa importante da minha formação. Não foi apenas o lugar onde aprendi a ler, a escrever e a fazer contas. Foi também um espaço onde comecei a compreender o valor da disciplina, do respeito, do cumprimento das responsabilidades e da convivência com os outros. Hoje reconheço que muitos dos princípios que orientaram a minha vida começaram a formar-se naqueles primeiros anos. O meu pai teve uma influência muito grande no meu percurso. Era um homem trabalhador, mas também tinha uma visão e uma ambição muito próprias para os filhos. Sonhava que cada um de nós pudesse seguir um caminho diferente e prestar, à sua maneira, um serviço à sociedade. Imaginava na família um padre, um professor, um militar, um médico... Talvez fosse o seu modo de acreditar que os filhos poderiam ir mais longe do que as circunstâncias da vida familiar permitiam imaginar. Esse sonho nunca o senti como uma imposição. Pelo contrário, foi para mim uma inspiração silenciosa. Ficou dentro de mim como uma espécie de desafio: estudar, procurar um caminho e fazer alguma coisa de útil pelos outros. Foi nesse contexto que, ainda jovem, deixei Bucos e ingressei no Seminário do Espírito Santo, em Viana do Castelo. A saída da minha terra natal foi uma mudança importante na minha vida. Deixava para trás a família, os lugares onde tinha crescido e o mundo que conhecia, para entrar num ambiente novo, exigente e disciplinado. No Seminário tive a oportunidade de conciliar a formação religiosa com a formação académica, através do paralelismo pedagógico, realizando os exames no sistema oficial. Foram anos de aprendizagem intensa, mas também de crescimento interior. Aprendi a estudar, a organizar o meu tempo, a cumprir regras e, sobretudo, a conhecer melhor a mim próprio. Mais tarde, prossegui os meus estudos no Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, onde continuei a minha formação e concluí o ensino secundário. Braga abriu-me novos horizontes. Aos poucos, o rapaz de Bucos começava a descobrir um mundo muito maior do que aquele que conhecera na infância. Em 1967, dei mais um passo importante no meu percurso e ingressei na Faculdade de Engenharia do Porto, no curso de Engenharia Química. Naquele momento, imaginava que esse poderia ser o caminho profissional que iria seguir. Era uma escolha ligada aos estudos que tinha feito e às possibilidades que se abriam diante de mim. Mas a vida, muitas vezes, conduz-nos por caminhos que não estavam inicialmente nos nossos planos. Em 1969, fui chamado para o serviço militar. A partir desse momento, o meu percurso tomou uma nova direção. Entrei numa realidade completamente diferente, marcada pela disciplina, pela responsabilidade, pelo espírito de camaradagem e pelo sentido de dever. A decisão de seguir a carreira militar foi, para mim, muito mais do que uma simples mudança de percurso académico ou profissional. Foi o início de uma etapa que viria a marcar profundamente a minha vida. Tornei-me militar por dever e por circunstância, mas também encontrei nesse caminho valores que sempre estiveram presentes na minha formação: disciplina, responsabilidade, coragem, respeito, espírito de missão e serviço à Pátria. O jovem que tinha saído de Bucos para estudar começava agora uma nova etapa da sua vida. Levava comigo as aprendizagens da família, os valores da minha terra e tudo aquilo que os anos de estudo me tinham proporcionado. Sem o saber ainda, estava a iniciar um percurso que me levaria muito para além das fronteiras da minha aldeia e que, ao longo dos anos, haveria de passar pelo Exército, pela educação, pelo serviço público, pela vida autárquica e pela missão diplomática. Mas, apesar de todos os caminhos que percorri, nunca deixei de ser o homem que nasceu em Bucos. Foi nessa terra, entre a família e o trabalho, entre a escola e a comunidade, que aprendi as primeiras lições da vida. E são essas raízes que, ainda hoje, continuam a sustentar a pessoa que sou.
 PARTE II – O OFICIAL DO EXÉRCITO CAPÍTULO 1 – O INÍCIO DE MEU PERCURSO MILITAR 1969 – A entrada como soldado cadete. O ano de 1969 marcou profundamente a minha vida. Tinha então vinte e dois anos e encontrava-me a estudar Engenharia Química na Faculdade de Engenharia do Porto quando fui chamado para cumprir o serviço militar. A minha vida, que até então se orientava sobretudo pelos estudos e pela preparação para uma profissão civil, tomou de repente um rumo diferente. Entrei no Exército como cadete, consciente de que iniciava uma experiência que me iria exigir disciplina, resistência física, capacidade de adaptação e, sobretudo, responsabilidade. Recordo esse momento como uma verdadeira mudança de etapa. O jovem estudante que até então conhecia sobretudo o ambiente familiar, escolar e universitário passou a integrar uma instituição com regras próprias, hierarquia rigorosa e uma forte cultura de dever. Não sabia ainda quanto aquela experiência iria marcar a minha personalidade e acompanhar-me pelo resto da vida. Escola Prática de Infantaria – Mafra A minha formação militar começou na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Ali aprendi que a vida militar não se fazia apenas de ordens e exercícios. Era uma escola de carácter. A disciplina começava nos pequenos gestos: cumprir horários, respeitar regras, cuidar da apresentação, obedecer às instruções e assumir as consequências das nossas decisões. O juramento de bandeira constituiu um dos momentos mais marcantes dessa primeira fase. Diante da Bandeira Nacional, compreendi de forma mais profunda o significado de servir o meu país. A partir daquele momento, já não era apenas um jovem chamado a cumprir uma obrigação. Sentia que assumia uma responsabilidade perante a Pátria e perante os homens que comigo partilhavam aquela caminhada. Escola Prática de Artilharia – Vendas Novas Depois de Mafra, segui para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas. Foi aí que comecei verdadeiramente a identificar-me com a Artilharia. A formação era exigente e obrigava a conciliar conhecimentos técnicos, disciplina, precisão e capacidade de comando. Aprendi que um oficial não podia limitar-se a mandar. Tinha de saber ouvir, decidir e, acima de tudo, dar o exemplo. Foi também em Vendas Novas que comecei a perceber que liderar homens significava conhecer as suas dificuldades, compreender as suas limitações e saber exigir-lhes o melhor sem perder de vista a sua condição humana. Capítulo 2 – Formação e identidade militar Oficial Miliciano de Artilharia A formação militar conduziu-me ao posto de Alferes Miliciano de Artilharia. Ser oficial significava assumir uma responsabilidade que ultrapassava a minha própria pessoa. Tinha homens sob a minha responsabilidade e sabia que as minhas decisões poderiam influenciar diretamente o seu trabalho, a sua segurança e o seu estado de espírito. Essa consciência obrigou-me a amadurecer rapidamente. O Exército ensinou-me a importância da preparação. Uma decisão tomada sem conhecimento podia ter consequências graves. Por isso, aprendi a estudar, a observar, a prever e a decidir. Disciplina, liderança e espírito de missão A disciplina foi talvez uma das maiores aprendizagens que trouxe da vida militar. Não a disciplina entendida apenas como obediência, mas como capacidade de cumprir o dever mesmo quando as circunstâncias são difíceis. Aprendi também que a verdadeira liderança não se impõe apenas pela autoridade do posto. Conquista-se pelo exemplo. Um oficial que exige dos seus homens aquilo que ele próprio não está disposto a fazer perde rapidamente a sua autoridade moral. Por isso, procurei sempre estar presente, acompanhar os meus homens e partilhar com eles as dificuldades. O espírito de missão tornou-se uma referência para mim. Aprendi que, quando se assume uma responsabilidade, é preciso levá-la até ao fim. Esta ideia acompanhou-me posteriormente em muitas outras dimensões da minha vida: como professor, como responsável pela educação, como autarca e como diplomata. Capítulo 3 – O serviço em território nacional Regimento de Artilharia da Serra do Pilar – Vila Nova de Gaia Depois da formação, iniciei uma nova etapa do meu percurso militar. Passei pelo Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde continuei a consolidar a minha preparação e a experiência como oficial. O contacto diário com militares de diferentes origens sociais e culturais foi também uma importante escola de vida. O Exército colocava lado a lado homens muito diferentes, mas unidos pelo mesmo uniforme e pelo cumprimento da mesma missão. Aprendi a trabalhar em equipa e a reconhecer o valor de cada pessoa dentro de uma estrutura organizada. REGIMENTO de Artilharia de Penafiel nº 5 Depois do Regimento da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, , seguiu-se o Regimento de Artilharia de Penafiel, onde fui nomeado Chefe da Secretaria do Regimento, função que desempenhei durante cerca de dois meses. Entretanto, a realidade militar começava a ganhar uma dimensão diferente. Sabíamos que muitos de nós poderiam ser mobilizados para África. Essa possibilidade fazia parte das conversas, das preocupações e dos pensamentos de todos. Eu próprio tinha consciência de que o meu percurso militar poderia levar-me para muito longe de casa. Foi nesse contexto que fui mobilizado para a Companhia de Artilharia n.º 2671, formada em Penafiel. A partir de outubro, iniciámos a atividade preparatória e a instrução necessária para a missão que se aproximava. Começava, assim, uma nova etapa da minha vida militar. Preparava-me para deixar Portugal e partir para África, para Angola, levando comigo o sentido do dever, mas também a natural inquietação de quem sabia que iria enfrentar uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. A preparação militar intensificava-se. Cada exercício, cada instrução e cada momento vivido na companhia contribuíam para nos preparar para a missão que nos esperava. A CARREIRA DE TIRO EM SILVALDE, ESPINHO A partida para África aproximava-se e, com ela, começava um dos capítulos mais marcantes da minha vida como oficial do Exército. Carreira de tiro de Espinho A passagem pela carreira de tiro de Espinho integrou igualmente esse período de preparação. Os exercícios militares exigiam concentração, rigor e responsabilidade. Cada instrução tinha um propósito e cada erro podia ter consequências. Foi uma fase de aprendizagem intensa, mas também de crescimento pessoal. O jovem que entrara no Exército em 1969 começava a transformar-se num homem mais consciente das suas responsabilidades. CAPíTULO 4 – A MISSÃO EM ÁFRICA Chegou finalmente o momento da partida para África, janeiro de 1970. A saída de Portugal representou uma ruptura com a vida que conhecia. Deixava para trás a família, os amigos, os estudos e a segurança do meu quotidiano. A viagem no navio Niassa foi também uma aprendizagem, uma nova experiência. Passei pelo Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Cabo Verde, Cidade do Mindelo, onde vivi uma nova etapa de preparação antes de prosseguir para Angola. A distância de casa começava a tornar-se uma realidade concreta. Centro de Instrução Militar do Grafanil – Luanda Depois de Cabo Verde, chegámos ao Grafanil, em Luanda. Luanda era para mim um mundo diferente. O clima, a paisagem, as pessoas e a própria realidade colonial eram muito diferentes daquela que conhecia em Portugal. No Grafanil, a preparação continuou e fomos integrados na estrutura militar que nos conduziria ao nosso destino operacional. A expectativa aumentava. Sabíamos que não estávamos ali para fazer apenas exercícios. Estávamos numa zona de guerra. Companhia de Artilharia 2671 Foi neste contexto que passei a integrar a Companhia de Artilharia 2671, pertencente ao Batalhão de Caçadores 2911, com destino à região da Lunda. A partir desse momento, a palavra "guerra" deixou de ser uma realidade distante. Passou a fazer parte do nosso quotidiano. Cada deslocação, cada patrulhamento, cada contacto com as populações e cada operação eram vividos com atenção redobrada. Como oficial, tinha responsabilidades acrescidas. Não estava apenas preocupado comigo próprio. Tinha homens que dependiam das minhas decisões. Essa responsabilidade acompanhou-me todos os dias. Batalhão n.º 2911 – Lunda, Henrique de Carvalho Chegámos à região de Henrique de Carvalho, na Lunda, onde permanecemos durante a comissão. A realidade africana marcou-me profundamente. Conheci uma terra diferente, com uma natureza impressionante e com populações cuja vida pouco tinha em comum com aquela que eu conhecia em Portugal. Ao mesmo tempo, vivi a dureza da guerra. A guerra deixa marcas que nem sempre são visíveis. Ensina-nos a conhecer o medo, a incerteza, a solidariedade e a fragilidade da vida humana. Foi também ali que compreendi, de forma muito concreta, o valor da camaradagem. Em situações difíceis, os homens aproximam-se. O companheiro que está ao nosso lado deixa de ser apenas um camarada de armas. Passa a ser alguém em quem confiamos a nossa própria vida. A guerra e a transformação pessoal A experiência da guerra transformou-me. Quando parti para África, era um jovem oficial. Quando regressei, sentia-me um homem diferente. A guerra ensinou-me a relativizar muitas das preocupações que antes me pareciam importantes. Ensinou-me o valor da vida, da amizade, da solidariedade e da família. Também me ensinou que, perante situações extremas, somos obrigados a descobrir forças que desconhecíamos possuir. Aprendi a controlar o medo, a manter a cabeça fria e a tomar decisões mesmo quando não existiam soluções perfeitas. Mas trouxe também comigo perguntas que nunca deixaram de me acompanhar. O que significa verdadeiramente servir? Até onde vai o dever? Como pode um homem preservar a sua humanidade quando vive diariamente perante a possibilidade da morte? São perguntas para as quais não encontrei respostas definitivas, mas que contribuíram profundamente para a formação da pessoa que me tornei. CAPÍTULO 5 – O REGRESSO AO REGIMENTO DA SERRA DO PILAR Em 1972 chegou finalmente o momento do regresso. Depois de mais de dois anos longe de Portugal, voltar foi uma experiência difícil de explicar. Regressei fisicamente ao país que tinha deixado, mas interiormente já não era exatamente o mesmo. Voltei ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, onde encerrei uma importante etapa do meu percurso militar. Encontrar novamente as pessoas, os lugares e os hábitos que conhecia antes da partida provocava sentimentos contraditórios. Havia alegria pelo regresso, mas também a consciência de que uma parte de mim ficara em África, juntamente com as experiências vividas e com as pessoas que comigo partilharam aqueles anos. As experiências que ficaram A experiência militar acompanhou-me para além do uniforme. Quando deixei definitivamente a vida militar, levei comigo ensinamentos que continuariam presentes em todas as etapas seguintes da minha vida. Levei a disciplina, o sentido de responsabilidade, a capacidade de trabalhar em equipa e o espírito de missão. Levei também a consciência de que liderar é servir e de que qualquer função pública deve ser exercida com responsabilidade e respeito pelos outros. A experiência de África ensinou-me ainda uma coisa fundamental: nunca devemos esquecer a dimensão humana de cada decisão. Olho hoje para aqueles anos com a serenidade que o tempo permite, mas também com respeito por tudo aquilo que vivi. O Exército foi uma escola. Foi uma escola de disciplina, de responsabilidade, de coragem e de humanidade. E, sobretudo, foi uma etapa decisiva na construção do homem que viria a ser. PARTE III – O PROFESSOR Capítulo 6 – O início na educação 1975 O meu início como professor do ensino primárioDepois da experiência militar e de tudo aquilo que a vida me tinha ensinado até então, entrei numa nova etapa que viria a marcar profundamente o meu percurso: a educação.O ano de 1975 ficou gravado na minha memória como o ano em que comecei a exercer funções como professor do ensino primário. Era uma época de grandes mudanças em Portugal. O país vivia uma profunda transformação social e política, e a educação era, também ela, chamada a responder aos novos desafios.Entrei nesta profissão com a consciência de que ensinar não significava apenas transmitir conhecimentos. Significava ajudar a abrir portas. Significava dar a uma criança, a um jovem ou a um adulto instrumentos para compreender melhor o mundo e nele participar com maior autonomia.As minhas próprias origens, numa família humilde de agricultores de Bucos, ajudaram-me a compreender o valor da escola. Eu sabia, pela experiência da minha infância, que o acesso ao conhecimento podia transformar vidas.Foi com esse espírito que abracei a profissão docente.O compromisso com a alfabetizaçãoDesde o início, senti que a alfabetização deveria ocupar um lugar especial na minha atividade profissional. Saber ler e escrever era, para muitas pessoas, muito mais do que adquirir uma competência escolar. Era conquistar liberdade, dignidade e autonomia.Quando comecei a trabalhar com pessoas que não tinham tido oportunidade de frequentar a escola ou que tinham abandonado muito cedo o percurso escolar, percebi ainda melhor a dimensão social da educação.Cada palavra aprendida, cada frase escrita, cada documento que alguém passava a conseguir ler sozinho representava uma pequena vitória.Foi nesse contacto próximo com as pessoas que compreendi que ser professor era também saber ouvir, compreender as dificuldades de cada um e encontrar caminhos para motivar quem muitas vezes já tinha perdido a esperança de aprender.A educação começou, assim, a tornar-se para mim mais do que uma profissão. Tornou-se uma missão. Capítulo 7 – Educação de adultos Alfabetização de adultos no concelho do Porto – 1975/1976 A minha experiência na educação de adultos começou no concelho do Porto, durante os anos de 1975 e 1976.Foi uma experiência particularmente marcante. Trabalhar com adultos era diferente de trabalhar com crianças. Cada aluno trazia consigo uma história de vida, uma profissão, uma família, dificuldades e conhecimentos adquiridos fora da escola.Eu tinha diante de mim pessoas que, apesar de não saberem ler ou escrever, possuíam uma enorme riqueza de experiências.Aprendi com elas tanto quanto elas aprenderam comigo.Nas aulas de alfabetização procurava criar um ambiente em que ninguém se sentisse inferiorizado pela sua falta de escolaridade. Pelo contrário, procurava valorizar aquilo que cada pessoa já sabia e utilizar essa experiência como ponto de partida para novas aprendizagens.A alfabetização era, para mim, uma forma concreta de combater desigualdades. Professor coordenador concelhio de Gondomar – 1977–1981 Em 1977 iniciei uma nova responsabilidade: professor coordenador concelhio de Gondomar, função que desempenhei até 1981.Esta experiência permitiu-me conhecer mais profundamente a realidade educativa do concelho e acompanhar diferentes projetos e iniciativas relacionados com a educação de adultos.Passei a ter uma visão mais abrangente do trabalho educativo. Já não estava apenas perante uma sala de aula. Era necessário coordenar pessoas, organizar atividades, acompanhar professores e alunos e procurar soluções para problemas concretos.Foi também um período de grande aprendizagem pessoal e profissional.Compreendi que a liderança na educação não se faz apenas através de decisões administrativas. Faz-se através do diálogo, da capacidade de mobilizar pessoas e, sobretudo, da consciência de que cada decisão pode ter consequências na vida de quem procura na educação uma oportunidade. Capítulo 8 – Liderança educativaCoordenação distrital do Porto – 1981–1989 Em 1981 assumi novas responsabilidades na área da educação, passando para a coordenação distrital do Porto.Foram anos de intenso trabalho, mas também de grande realização profissional.A experiência acumulada nos anos anteriores permitiu-me assumir esta nova função com maior preparação. Conhecia a realidade dos professores, conhecia as dificuldades dos alunos adultos e compreendia a importância de aproximar as estruturas de coordenação das comunidades.O trabalho passou a envolver uma dimensão muito mais ampla. Era necessário planear, coordenar, acompanhar equipas e articular diferentes intervenientes.Aprendi que uma estrutura educativa só funciona verdadeiramente quando as pessoas que a integram sentem que fazem parte de um projeto comum.Direção-Geral de Educação de AdultosA minha passagem pelas estruturas ligadas à Direção-Geral de Educação de Adultos aprofundou ainda mais a minha experiência nesta área.A educação de adultos tinha uma importância social que ultrapassava o espaço da escola. Tratava-se de criar oportunidades para pessoas que, por diferentes razões, tinham ficado afastadas do sistema educativo.Ao longo destes anos, fui testemunha de muitas histórias de esforço e superação.Algumas pessoas procuravam aprender a ler para poderem acompanhar os filhos. Outras queriam preencher um formulário sem depender de terceiros. Outras pretendiam simplesmente recuperar uma oportunidade que a vida lhes tinha negado.Essas experiências marcaram-me profundamente.A educação como missão social Hoje, olhando para trás, reconheço que os anos dedicados à educação foram decisivos na formação do homem que me tornei.A educação ensinou-me a ouvir. Ensinou-me a respeitar diferentes percursos de vida. Ensinou-me que liderar não significa mandar, mas criar condições para que os outros possam crescer.Foi também através da educação que consolidei uma ideia que me acompanharia em todas as fases posteriores da minha vida: o serviço público só faz sentido quando está verdadeiramente ao serviço das pessoas.Essa convicção acompanhou-me depois na vida autárquica e diplomática.A experiência de professor deu-me ferramentas que nenhuma escola formal poderia ensinar por completo: a capacidade de comunicar, de compreender diferentes realidades, de trabalhar em equipa e de procurar soluções para problemas concretos.Foi uma escola de vida. PARTE IV – O PROFESSOR NO ESTRANGEIRO Capítulo 9 – O ensino além-fronteirasInstituto Camões e Ministério dos Negócios EstrangeirosA minha carreira profissional levou-me, posteriormente, para fora de Portugal.A experiência acumulada no ensino e na educação de adultos abriu-me novas portas e permitiu-me abraçar um desafio diferente: ensinar Português às comunidades portuguesas e aos seus descendentes espalhados pela Europa.Passei a exercer funções ligadas ao Instituto Camões e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, entrando numa realidade educativa e cultural muito diferente daquela que conhecera em Portugal.Levar a língua portuguesa para além-fronteiras significava também levar uma parte da nossa história, da nossa cultura e da nossa identidade.O ensino de Português no estrangeiroEnsinar Português no estrangeiro tinha uma dimensão particular.Para muitos alunos, a língua portuguesa representava a ligação à terra dos pais ou dos avós. Para outros, era a língua da sua própria infância e da sua família.O professor tinha, por isso, uma responsabilidade que ia além da transmissão da língua.Era necessário ensinar a língua, mas também despertar o interesse pela literatura, pela história, pelas tradições e pela cultura portuguesa.Em cada escola, em cada turma e em cada comunidade, encontrei diferentes realidades.Essa diversidade obrigou-me a adaptar métodos, linguagens e estratégias.Foi uma aprendizagem permanente. Capítulo 10 – Experiência internacional Lyon, França, foi uma das cidades onde vivi a experiência do ensino português no estrangeiro.Ali encontrei comunidades portuguesas que procuravam manter os laços com Portugal e transmitir aos filhos e netos uma parte da sua herança cultural.O contacto com essas famílias permitiu-me perceber a importância que a língua podia assumir na construção da identidade das novas gerações. Paris Paris, a Capital, proporcionou-me uma experiência ainda mais ampla.Numa cidade internacional e culturalmente tão diversa, ensinar Português significava apresentar aos alunos uma língua com uma história secular e uma presença espalhada por vários continentes.O contacto com diferentes comunidades e culturas ajudou-me também a olhar para Portugal de outra maneira.Quando estamos fora do nosso país, começamos muitas vezes a perceber melhor aquilo que nos identifica. Luxemburgo No Luxemburgo encontrei uma realidade marcada pela presença de comunidades de diferentes nacionalidades.A comunidade portuguesa tinha uma presença significativa, e o ensino da nossa língua assumia uma importância especial na preservação dos laços familiares e culturais.Ali percebi, de forma muito concreta, que a escola portuguesa no estrangeiro podia funcionar como uma ponte entre gerações.Os pais e avós procuravam transmitir aos mais novos a língua e as referências culturais de Portugal. Suíça A minha experiência na Suíça foi particularmente importante no meu percurso profissional e pessoal.O trabalho junto da comunidade portuguesa permitiu-me conhecer de perto as dificuldades, os projetos e as expectativas dos portugueses que viviam fora do país.Mais tarde, as minhas funções no âmbito do Ministério dos Negócios Estrangeiros levar-me-iam a assumir responsabilidades de maior dimensão, incluindo funções como Conselheiro Social na Embaixada de Portugal em Berna.A experiência acumulada como professor foi fundamental para compreender as comunidades portuguesas e para trabalhar com elas. Capítulo 11 – Cultura e identidade A língua portuguesa como ponte entre povos Ao longo da minha experiência no estrangeiro, fui compreendendo cada vez mais profundamente que uma língua é muito mais do que um instrumento de comunicação.A língua portuguesa transporta memória, cultura, afetos e identidade.Para um emigrante, ouvir falar português longe da sua terra pode despertar lembranças da infância, da família e das suas origens.Para uma criança nascida no estrangeiro, aprender Português pode representar a descoberta de uma parte da sua própria história familiar.Foi por isso que encarei sempre o ensino da nossa língua como uma missão cultural.Eu não estava apenas a ensinar palavras e regras gramaticais. Estava, de alguma forma, a ajudar a preservar uma ligação entre pessoas, famílias e países.Desafios e conquistas no ensino internacionalEnsinar fora de Portugal trouxe-me muitos desafios.Tive de lidar com diferentes sistemas educativos, diferentes culturas, diferentes formas de aprendizagem e comunidades com necessidades muito diversas.Mas trouxe-me também grandes conquistas.Conheci pessoas extraordinárias. Fiz amizades. Aprendi com outras culturas e compreendi melhor a dimensão universal da língua portuguesa.Ao olhar para este percurso, vejo uma linha de continuidade entre todas as etapas da minha vida profissional.Fui militar, professor, coordenador educativo, autarca e diplomata, mas em todas essas funções procurei manter o mesmo princípio: servir e ser útil aos outros.A vida militar ensinou-me o sentido da disciplina e da responsabilidade.A educação ensinou-me a importância de formar pessoas e de abrir caminhos.A experiência autárquica aproximou-me das necessidades concretas das comunidades.A diplomacia e o trabalho junto das comunidades portuguesas ensinaram-me que Portugal não termina nas suas fronteiras.É também feito dos seus homens e mulheres espalhados pelo mundo.E foi assim que a minha caminhada profissional, iniciada numa pequena aldeia de Bucos, me levou a diferentes lugares, diferentes funções e diferentes responsabilidades, sem nunca perder de vista as minhas raízes.Continuo a acreditar que aquilo que somos nasce, em grande parte, do lugar onde aprendemos os primeiros valores.Eu aprendi os meus em Bucos.E levei-os comigo por todos os caminhos que a vida me proporcionou PARTE V - O AUTARCA Capítulo 12 - 1983–1985 — Vereador da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto Entre 1983 e 1985 tive a oportunidade de exercer as funções de vereador da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, em substituição do Eng.º Joaquim Barreto, que entretanto assumira funções como Chefe do Gabinete do Secretário de Estado do Fomento Cooperativo. Foi uma experiência que vivi com sentido de responsabilidade e, sobretudo, com uma profunda ligação à terra onde nasci. Ser vereador do meu concelho significava, para mim, muito mais do que ocupar um lugar numa instituição. Significava estar ao serviço das pessoas, conhecer as suas dificuldades, compreender as suas aspirações e procurar, dentro das possibilidades que o exercício das funções permitia, encontrar respostas para as suas necessidades. Dois pensamentos fundamentais nortearam a minha presença na Câmara Municipal: proteger e dignificar.Proteger significava defender aquilo que era nosso — as pessoas, as aldeias, as tradições, a cultura, o património e a identidade de Cabeceiras de Basto. Dignificar significava criar condições para que cada pessoa pudesse sentir orgulho na sua terra e acreditar no seu futuro. Uma das minhas preocupações particulares foi a juventude. Eu entendia que Cabeceiras precisava de proporcionar oportunidades aos mais jovens, permitindo-lhes desenvolver as suas capacidades e encontrar razões para permanecerem ligados ao concelho. A juventude representava o futuro e não podia ser esquecida nas decisões do presente. Outra área que me mereceu especial atenção foi o trabalho desenvolvido pelas coletividades locais. Sempre considerei que as associações, grupos culturais e outras organizações da comunidade desempenhavam um papel essencial na preservação da nossa memória coletiva. Por isso, procurei apoiar iniciativas relacionadas com a divulgação etnográfica, a valorização das tradições e a recolha do património material e imaterial. Naquele tempo, talvez não tivéssemos ainda a consciência generalizada de que muitas das práticas, histórias, objetos, músicas, costumes e tradições que faziam parte da vida quotidiana das nossas aldeias estavam em risco de desaparecer. Eu acreditava, porém, que era necessário preservar esse património antes que a passagem das gerações o fizesse desaparecer.As coletividades eram, nesse sentido, verdadeiras guardiãs da memória de Cabeceiras. Apoiar o seu trabalho era também apoiar a identidade do concelho. A minha passagem pela Câmara Municipal foi, assim, marcada por uma ideia simples: um vereador deve estar próximo das pessoas e ao serviço da comunidade. Não entendia a política autárquica como uma carreira pessoal, mas como uma forma de serviço público. O poder local só tem verdadeiro significado quando consegue responder às necessidades concretas das populações e quando consegue transformar preocupações individuais em respostas coletivas.Procurei, por isso, ouvir. Ouvir os mais velhos, que guardavam a memória das comunidades; ouvir os jovens, que procuravam oportunidades; ouvir os agricultores e trabalhadores, que conheciam as dificuldades do quotidiano; ouvir as associações e coletividades, que davam vida às freguesias. Foi também uma época em que compreendi ainda melhor que governar um município exige sensibilidade para perceber aquilo que nem sempre aparece nos documentos ou nas reuniões. Há necessidades que se conhecem apenas quando se percorrem as aldeias, se entra em contacto direto com as pessoas e se percebe como vivem. A minha filosofia de vida enquanto vereador assentava, portanto, numa convicção que ainda hoje considero válida: servir é proteger, dignificar, apoiar e criar oportunidades. Procurei deixar uma marca de proximidade, de respeito pelas pessoas e de valorização daquilo que Cabeceiras de Basto tinha de mais genuíno: a sua gente, a sua cultura, as suas tradições e o seu património. Hoje, olhando para esse período da minha vida, recordo-o como mais uma etapa de um percurso que foi sempre orientado pelo mesmo princípio: estar ao serviço dos outros. Primeiro como militar, como professor, como autarca e, posteriormente, como diplomata, fui encontrando diferentes formas de servir.Na Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, servi a minha própria terra. E fazê-lo teve para mim um significado especial, porque era a terra das minhas raízes, a terra de Bucos, a terra onde aprendi os primeiros valores da vida e onde sempre senti que a memória das pessoas e das comunidades merecia ser respeitada e preservada. PARTE VI - O DIPLOMATA Capitulo 13 - Uma nova missão Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça Depois de diferentes etapas da minha vida profissional e de serviço público — como militar, professor e autarca — surgiu uma nova missão que me levaria para além das fronteiras de Portugal.Fui nomeado Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça, por decisão do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, António Braga. Recebi essa nomeação com sentido de responsabilidade, mas também com a consciência de que iniciava uma etapa muito diferente das anteriores.A Suíça era então um dos países europeus onde a presença portuguesa tinha uma expressão significativa. Eram milhares de homens, mulheres e famílias que tinham deixado Portugal à procura de melhores condições de vida e que, ao longo dos anos, tinham construído as suas vidas naquele país.Encontrava, por isso, uma comunidade portuguesa com necessidades muito diversas. Havia trabalhadores, empresários, professores, dirigentes associativos, jovens, idosos e famílias inteiras que procuravam conciliar as suas raízes portuguesas com a realidade da sociedade suíça.A minha função não podia limitar-se ao cumprimento de tarefas administrativas. Desde o primeiro momento compreendi que o cargo exigia proximidade, disponibilidade e capacidade de ouvir.Ser Conselheiro Social significava estar atento aos problemas concretos das pessoas. Significava conhecer as suas preocupações, acompanhar situações sociais particularmente delicadas e procurar, dentro das competências da representação diplomática, encontrar respostas e encaminhamentos adequados.Foi assim que comecei a compreender a verdadeira dimensão daquela missão: eu estava ali para representar Portugal, mas também para estar próximo dos portugueses.A minha experiência anterior como professor e autarca ajudou-me muito. Na educação, tinha aprendido a importância de ouvir e compreender cada pessoa. Na autarquia, tinha aprendido que o serviço público só tem sentido quando está próximo das populações. Na Suíça, esses dois ensinamentos encontraram uma nova dimensão.Passei a olhar para a comunidade portuguesa não apenas como um conjunto de cidadãos residentes no estrangeiro, mas como uma extensão de Portugal, levando consigo a nossa língua, a nossa cultura, as nossas tradições e os valores aprendidos nas suas terras de origem.Essa realidade marcou profundamente a minha passagem pela Embaixada de Portugal na Suíça. CAPÍTULO 14 - A ação diplomática Apoio às comunidades portuguesasA minha ação diplomática foi, acima de tudo, uma ação de proximidade.O contacto com as comunidades portuguesas permitiu-me conhecer histórias de vida muito diferentes. Algumas eram histórias de sucesso e de integração; outras eram marcadas por dificuldades económicas, familiares ou sociais. Em todas encontrei, porém, uma característica comum: a vontade de manter uma ligação a Portugal.Procurei estar presente junto das comunidades, das associações e das instituições portuguesas. O movimento associativo tinha uma importância extraordinária. Muitas associações eram verdadeiros espaços de encontro, onde se preservavam a língua portuguesa, a música, a gastronomia, o folclore e as tradições das diferentes regiões de Portugal.Eu entendia que apoiar essas estruturas era também uma forma de preservar a identidade portuguesa.A comunidade emigrante não precisava apenas de serviços administrativos. Precisava de sentir que Portugal não se esquecia dela.Foi essa preocupação que procurei transmitir no exercício das minhas funções. Representação do Estado português Representar Portugal no estrangeiro é uma responsabilidade que exige equilíbrio, respeito e sentido de Estado.A representação diplomática não acontece apenas nas grandes cerimónias ou nos contactos institucionais. Ela acontece também no contacto quotidiano com os cidadãos, nas reuniões com associações, nas visitas às comunidades e na atenção prestada aos problemas das pessoas.Em cada contacto eu tinha presente que, de alguma forma, estava a representar o meu país.Procurei desempenhar essa função com dignidade e respeito pelas instituições portuguesas e suíças, mas também com uma atitude de abertura e diálogo.Portugal estava representado na Embaixada, mas Portugal estava igualmente presente nas comunidades, nas associações, nas escolas, nas igrejas e nos espaços onde os portugueses se encontravam. Uma diplomacia social e humana Com o tempo, fui percebendo que a minha missão podia ser definida através de uma expressão simples: uma diplomacia social e humana.A diplomacia não deveria ser apenas feita de protocolos, reuniões e documentos. Também deveria ser feita de pessoas.Por detrás de cada situação social havia uma história. Por detrás de cada pedido de ajuda havia uma família, uma preocupação ou uma dificuldade. Por detrás de cada associação havia homens e mulheres que dedicavam parte do seu tempo à comunidade.Foi nesse contacto direto que encontrei uma das dimensões mais gratificantes da minha missão.Procurei aproximar as instituições das pessoas e fazer com que os portugueses residentes na Suíça sentissem que continuavam ligados ao seu país.A minha formação como professor ensinara-me a comunicar e a compreender diferentes realidades. A experiência autárquica ensinara-me a conhecer os problemas concretos das populações. A experiência militar dera-me disciplina e sentido de missão. Todas essas aprendizagens foram importantes nesta nova etapa.Na Suíça, essas experiências cruzaram-se.Já não estava apenas perante uma sala de aula ou uma comunidade local. Estava perante portugueses espalhados por diferentes regiões de um país estrangeiro, com histórias, necessidades e percursos diversos.Foi uma escola de vida.Aprendi que servir Portugal no estrangeiro é também servir os portugueses que vivem longe da sua terra.E foi essa ideia que procurei levar comigo durante todo o período em que exerci funções de Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça.Mais do que um cargo, vivi aquela missão como uma responsabilidade. Uma responsabilidade para com Portugal e, sobretudo, para com os portugueses que, longe da sua terra natal, continuavam a transportar consigo a memória das suas origens, a língua dos seus pais e avós e a esperança de um futuro melhor.Foi talvez essa dimensão humana que mais marcou a minha experiência diplomática. Porque, no final de cada encontro, de cada visita e de cada situação acompanhada, permanecia a mesma convicção que tinha orientado outras fases da minha vida:estar ao serviço das pessoas é, em qualquer lugar do mundo, uma das formas mais nobres de servir Portugal. CONCLUSÃO O sentido de uma vida ao serviço Ao chegar ao fim destas memórias, dou por mim a olhar para trás e a percorrer, uma vez mais, os caminhos que a vida me foi oferecendo.Nasci em Bucos, numa família humilde e numerosa, onde aprendi desde cedo que a vida se constrói com trabalho, responsabilidade, respeito e entreajuda. Foi nessa pequena terra de Cabeceiras de Basto que recebi os primeiros ensinamentos e onde nasceram os valores que, de diferentes formas, me acompanharam ao longo de toda a minha existência.Nunca imaginei, nos primeiros anos da minha vida, que o caminho me levaria por experiências tão diferentes. Fui militar, professor, autarca e diplomata. Vivi em Portugal e no estrangeiro. Conheci diferentes pessoas, comunidades e realidades. Mas, olhando hoje para esse percurso, encontro um fio condutor que atravessa todas essas etapas: o sentido de serviço.No Exército aprendi a disciplina, o espírito de missão, a responsabilidade e a importância de cumprir o dever, mesmo perante as dificuldades.Na educação descobri que ensinar é muito mais do que transmitir conhecimentos. É ajudar alguém a crescer, a acreditar nas suas capacidades e a encontrar o seu próprio caminho. A alfabetização de adultos ensinou-me, sobretudo, que nunca é tarde para aprender e que o conhecimento pode transformar vidas.Na autarquia compreendi ainda melhor a importância da proximidade. Servir uma comunidade significa conhecer as suas necessidades, ouvir as pessoas, respeitar as suas preocupações e procurar respostas para os problemas concretos do quotidiano.Na diplomacia encontrei uma nova forma de servir. Longe de Portugal, junto das comunidades portuguesas na Suíça, percebi que representar o nosso país significa também estar próximo dos portugueses, compreender as suas dificuldades e valorizar as suas raízes, a sua língua, a sua cultura e a sua ligação à terra de origem.Foram caminhos diferentes, mas todos tiveram uma mesma finalidade: estar ao serviço dos outros.Hoje compreendo que uma vida não se mede apenas pelos cargos que ocupámos, pelos títulos que recebemos ou pelas funções que desempenhámos. Mede-se também pelas pessoas que encontramos, pelas oportunidades que ajudámos a criar, pelas dificuldades que procurámos ultrapassar e pelas marcas que deixámos na vida daqueles que se cruzaram connosco.É esse o sentido que encontro na minha vida.Não pretendo apresentar estas memórias como uma história perfeita, porque nenhuma vida o é. Houve momentos de alegria e de realização, mas também houve dificuldades, dúvidas, perdas e desafios. Houve decisões acertadas e outras que, com o passar dos anos, talvez pudesse ter tomado de maneira diferente.Mas cada etapa contribuiu para aquilo que sou.Se alguma coisa aprendi ao longo dos anos é que ninguém constrói sozinho o seu caminho. Devemos muito à família, aos professores, aos amigos, aos colegas, às comunidades onde vivemos e a todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, nos ajudam a crescer.Por isso, estas memórias são também uma homenagem a essas pessoas.São uma homenagem aos meus pais, à minha família, aos meus irmãos, aos meus filhos e a todos aqueles que fizeram parte da minha caminhada. São uma homenagem aos companheiros de armas, aos alunos, aos professores, aos colegas da administração pública, aos autarcas, aos dirigentes associativos e às comunidades portuguesas que conheci ao longo da vida.E são, acima de tudo, uma homenagem à minha terra.Bucos, a Casa da Pereira e a Casa de Sanoane de Cima continuam a ser a minha raiz.É lá que encontro as primeiras imagens da minha infância, os caminhos da aldeia, as casas, os campos, as pessoas e as memórias que o tempo não conseguiu apagar. É por isso que a Casa da Pereira e Casa de Sanoane de Cima ocupam também um lugar especial nesta história. Elas representam uma ligação entre o passado e o futuro, entre a memória familiar e a memória coletiva.Preservar essa memória é, para mim, uma forma de continuar a servir. O exemplo para as novas gerações Se estas páginas puderem deixar alguma mensagem às novas gerações, gostaria que fosse uma mensagem simples.Nunca devemos ter vergonha das nossas origens. Eu vim de uma família humilde e de uma pequena aldeia de Portugal. Foi precisamente aí que aprendi valores que me acompanharam durante toda a vida. As nossas origens não nos limitam. Pelo contrário, podem dar-nos força para construir novos caminhos.Aos jovens diria também: estudem, trabalhem, sejam persistentes e não desistam perante os primeiros obstáculos. A vida nem sempre segue o caminho que imaginamos. Muitas vezes somos chamados a adaptar-nos, a recomeçar e a aprender com novas experiências.Mas, acima de tudo, mantenham a capacidade de servir e de pensar nos outros.O sucesso pessoal tem valor, mas ganha um significado maior quando pode contribuir para o bem da comunidade.Vivemos numa sociedade em permanente mudança. As novas gerações terão desafios diferentes daqueles que enfrentámos. Terão novas tecnologias, novas profissões, novas formas de comunicação e novas oportunidades. Mas alguns valores continuarão a ser fundamentais: honestidade, respeito, responsabilidade, solidariedade, trabalho e dedicação.São valores que não envelhecem.Se pudesse resumir numa só frase aquilo que procurei fazer ao longo da minha vida, diria:Procurei ser útil.Ser útil à minha família, ao meu país, aos meus alunos, às comunidades onde trabalhei e, sempre que possível, às pessoas que precisaram de mim.Hoje, olhando para trás, não são os cargos que mais me importa recordar. O que verdadeiramente permanece são as pessoas, os lugares, as amizades, os ensinamentos e as experiências que fizeram de mim quem sou.A vida passou depressa. Vieram os anos, vieram as responsabilidades, vieram as viagens e vieram as mudanças. Mas as raízes permaneceram.Continuo a ser o homem que nasceu em Bucos e que nunca deixou de levar consigo a sua terra.É talvez esse o maior ensinamento destas memórias: podemos viajar pelo mundo, desempenhar diferentes funções e conhecer outras culturas, mas não devemos esquecer de onde viemos.A minha vida foi feita de etapas. Militar. Professor. Autarca. Diplomata. Mas, antes de tudo isso, fui e continuo a ser um homem ligado às suas raízes, à sua família e à sua terra.E é com esse sentimento que encerro estas memórias.Não como quem fecha um livro sobre o passado, mas como quem deixa um testemunho para o futuro.Porque uma vida só ganha verdadeiro sentido quando aquilo que aprendemos pode ser transmitido a quem vem depois de nós.Que as novas gerações tenham coragem para sonhar, determinação para construir e generosidade para servir.Se alguma coisa ficar destas páginas, que seja essa mensagem.E que, muitos anos depois de estas memórias terem sido escritas, alguém possa olhar para elas e compreender que uma vida dedicada ao serviço, à família, à educação, à comunidade e ao país nunca é uma vida perdida.É uma vida que deixa raízes.E as raízes, tal como as de Bucos, podem permanecer vivas muito depois de nós.