segunda-feira, 23 de março de 2026

O Oficial do Exercito, Manuel Braz

Capítulo 1 – O percurso militar O ano de 1969 marcou o início de um caminho exigente e transformador. A entrada como cadete representou mais do que uma escolha profissional — foi a aceitação consciente de uma vida de disciplina, responsabilidade e entrega ao serviço da Pátria. Na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, começaram os primeiros desafios. A adaptação a uma realidade rigorosa, marcada por regras firmes e por uma exigência constante, revelou-se dura e, por vezes, espinhosa. Cada dia trazia novas provas físicas e psicológicas, onde a resistência, a coragem e a determinação eram constantemente testadas. Até ao momento solene do Juramento de Bandeira, viveu-se um período de intensa reflexão e formação. Foi aí que se consolidaram os primeiros traços da identidade militar — o sentido de pertença, o respeito pela hierarquia e o compromisso com valores maiores do que o próprio indivíduo. Seguiu-se a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde a instrução assumiu um caráter mais técnico e especializado. A exigência manteve-se elevada, mas o ambiente transformou-se. O trabalho tornou-se mais objetivo, mais focado e orientado para a missão. Surgiram novas perspetivas, uma maior maturidade e um entendimento mais profundo do papel a desempenhar. Capítulo 2 – Formação e identidade militar A formação como oficial miliciano de Artilharia consolidou uma base sólida de conhecimentos, mas, acima de tudo, moldou o caráter. A disciplina deixou de ser apenas uma imposição exterior para se tornar um princípio interior. A liderança começou a emergir não apenas pela autoridade, mas pelo exemplo, pela responsabilidade e pela capacidade de decisão. Foi neste percurso que se desenvolveram valores fundamentais: o espírito de sacrifício, a resiliência perante as dificuldades e a dedicação à missão. A dureza dos primeiros tempos deu lugar a uma consciência mais clara do dever e da importância do coletivo. A vida militar revelou-se, assim, uma escola exigente, mas profundamente formadora. Entre desafios, aprendizagens e superações, construiu-se uma identidade firme, alicerçada na disciplina, na liderança e num espírito de missão que viria a acompanhar Manuel ao longo de toda a sua vida. Ao longo da carreira como Oficial Militar de Artilharia, o percurso foi marcado por uma sucessão de experiências em diferentes unidades regimentais, que moldaram não apenas a sua competência técnica, mas também o seu sentido de missão e camaradagem.Iniciado o trajeto no Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde deu os primeiros passos na vida militar, assimilando os princípios fundamentais da disciplina, da hierarquia e do rigor operacional. Posteriormente, foi colocado no Regimento de Artilharia nº 5, em Penafiel, unidade onde viria a ocorrer a sua mobilização para o Ultramar. Integrado na Companhia nº 2671, viveu um período intenso de preparação, marcado pelo treino, pelo entrosamento e pela convivência entre militares, criando laços que se revelariam essenciais no teatro de operações. Seguiu-se a passagem pela Carreira de Tiro, em Silvalde, Espinho, onde aprimorou as suas competências no manuseamento e precisão das armas, consolidando a sua formação técnica. De Espinho, deslocou-se para Lisboa, onde embarcou no navio “Niassa”, rumo ao Ultramar, numa viagem que simbolizava a transição para uma nova e exigente etapa da sua vida militar.O primeiro destino foi o Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde aprofundou a preparação para o cenário africano. Posteriormente, seguiu para Angola, desembarcando em Luanda e sendo encaminhado para o Campo Militar do Grafanil. Este centro logístico desempenhava um papel crucial, albergando o Batalhão de Depósito de Material (BDM), onde os militares recebiam e entregavam o seu equipamento à chegada e à partida.O Grafanil destacava-se não apenas pela sua função operacional, mas também pelos seus elementos simbólicos e de convivência. Entre estes, sobressaía a Capela do Imbondeiro, esculpida no tronco de uma árvore monumental, que se tornou um marco de fé e reflexão para muitos militares. O campo dispunha ainda de diversas infraestruturas, como casernas, bar de oficiais e a conhecida “Sala do Soldado”, espaço de convívio e partilha nos momentos de descanso.Daqui, a Companhia 2671 foi projetada para o teatro de operações no Leste de Angola, mais concretamente para a região da Lunda, em Henrique de Carvalho. Integrada no Batalhão 2911, a unidade foi posicionada em zonas como Mussuco, Catxinga e Luremo, onde desenvolveu a sua campanha. Neste contexto, a sua missão centrou-se na defesa do território, na afirmação da presença militar e no apoio às populações locais, desempenhando também um papel social relevante junto das comunidades.Este percurso reflete não apenas um itinerário geográfico, mas sobretudo uma vivência intensa de serviço, marcada pelo dever, pela resiliência e pelo espírito de corpo que caracteriza a vida militar. A missão em campanhas de África decorreu entre fevereiro de 1970 e março de 1972, num período exigente e marcante da sua vida militar. Embora cumprida com sentido de dever e disciplina, não esteve isenta de sobressaltos, próprios de um teatro de operações complexo e em constante tensão.A adaptação ao clima africano constituiu um dos primeiros grandes desafios. As elevadas temperaturas, a humidade intensa e as condições sanitárias adversas colocaram à prova a resistência física e psicológica dos militares. A par disso, a distância da família e o isolamento geográfico acentuavam a dureza do quotidiano.Apesar dessas dificuldades, manteve-se firme no cumprimento das suas funções, integrado na dinâmica operacional da sua unidade. Entre missões de vigilância, patrulhamento e presença no terreno, contribuiu para os objetivos definidos, num contexto onde a incerteza era constante e a capacidade de adaptação essencial.Ao longo deste período, destacou-se também o espírito de camaradagem entre os militares, que se revelou fundamental para ultrapassar as adversidades. Foi nesse ambiente que se consolidaram laços de solidariedade e entreajuda, muitas vezes decisivos para enfrentar as exigências do serviço em campanha.Concluída a missão em março de 1972, ficou um percurso marcado pela resiliência, pela dedicação e pela experiência adquirida num contexto singular, que viria a deixar uma marca duradoura no seu percurso pessoal e militar.

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