segunda-feira, 23 de março de 2026

Indice: Manuel o Oficial, o Professor, o Diplomata

ÍNDICE DO LIVRO Manuel Braz – O Oficial, o Professor, o autarca e o Diplomata Prefácio Nota introdutória A importância de uma vida ao serviço PARTE I – O HOMEM E AS SUAS RAÍZES Origem e infância Valores familiares e formação pessoal O despertar para o serviço público PARTE II – O OFICIAL DO EXÉRCITO Capítulo 1 – O início do percurso militar 1969 – Entrada como cadete Escola Prática de Infantaria, Mafra Escola Prática de Artilharia, Vendas Novas Capítulo 2 – Formação e identidade militar Oficial miliciano de Artilharia Disciplina, liderança e espírito de missão Capítulo 3 – Serviço em território nacional Regimento de Artilharia da Serra do Pilar (Vila Nova de Gaia) Regimento de Artilharia de Penafiel Carreira de tiro de Espinho Capítulo 4 – Missão em África Centro de Instrução Militar do Morro Branco, Cabo Verde Centro de Instrução Militar do Grafanil, Luanda Companhia de Artilharia 2671 Batalhão nº 2911 – Lunda, Henrique de Carvalho Capítulo 5 – O regresso Regresso ao Regimento da Serra do Pilar Experiência de guerra e transformação pessoal PARTE III – O PROFESSOR Capítulo 6 – O início na educação 1975 – Professor do ensino primário O compromisso com a alfabetização Capítulo 7 – Educação de adultos Alfabetização de adultos no concelho do Porto (1975/76) Professor coordenador concelhio de Gondomar (1977–1981) Capítulo 8 – Liderança educativa Coordenação distrital do Porto (1981–1989) Direção-Geral de Educação de Adultos A educação como missão social PARTE IV – O PROFESSOR NO ESTRANGEIRO Capítulo 9 – O ensino além-fronteiras Instituto Camões e o Ministério dos Negócios Estrangeiros Ensino de Português no estrangeiro Capítulo 10 – Experiência internacional Lyon Paris Luxemburgo Neuchâtel (Suíça) Capítulo 11 – Cultura e identidade A língua portuguesa como ponte entre povos Desafios e conquistas no ensino internacional PARTE V - AUTARCA PARTE VI – O DIPLOMATA Capítulo 12 – Uma nova missão Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça Capítulo 13 – A ação diplomática Apoio às comunidades portuguesas Representação do Estado português Diplomacia social e humana PARTE VII – REFLEXÕES E LEGADO Quatro vidas numa só: militar, professor, autarca e diplomata Valores transmitidos: disciplina, educação e serviço O impacto na sociedade Memórias e ensinamentos Conclusão O sentido de uma vida ao serviço O exemplo para as novas gerações Anexos Cronologia da vida de Manuel Documentos e fotografias PREFÁCIO Uma vida ao serviço Ao escrever estas páginas, sinto que estou, de alguma forma, a regressar ao princípio. Regresso à minha infância, à minha terra, à minha família e às primeiras experiências que moldaram o homem que viria a ser. Regresso a Bucos, à minha aldeia, às suas montanhas, aos seus caminhos, aos campos e às pessoas que fizeram parte dos meus primeiros anos de vida. Nasci numa terra pequena, mas aprendi cedo que uma terra não se mede pelo tamanho. Mede-se pelos valores das suas gentes, pela força das suas raízes e pela capacidade que tem de formar homens e mulheres. Foi em Bucos que recebi as primeiras lições de vida. Antes da escola, aprendi com a família. Aprendi o valor do trabalho, da palavra, da responsabilidade, da entreajuda e do respeito pelos outros. Aprendi também que nada se consegue sem esforço e que cada pessoa deve procurar deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou. Esses princípios acompanharam-me ao longo de toda a minha vida. Quando, ainda jovem, deixei a minha terra para continuar os estudos, não imaginava os caminhos que o futuro me reservaria. Muito menos imaginava que a minha vida me levaria aos quartéis, às escolas, às instituições públicas, às autarquias, às comunidades portuguesas espalhadas pela Europa e aos corredores da diplomacia. O caminho foi-se fazendo passo a passo. Em 1969, fui chamado para cumprir o serviço militar. Entrei no Exército e iniciei uma etapa que viria a marcar profundamente a minha personalidade. Passei pela Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas. Ali aprendi a disciplina, o rigor, a responsabilidade e, sobretudo, o significado da palavra camaradagem. Ser oficial miliciano de Artilharia foi muito mais do que vestir uma farda ou assumir uma função. Foi aprender a comandar, a decidir e a assumir as consequências das decisões tomadas. Foi compreender que, quando temos homens sob a nossa responsabilidade, não podemos pensar apenas em nós próprios. Depois vieram os tempos de serviço em Portugal e, posteriormente, a missão em África. A experiência africana foi uma das mais marcantes da minha juventude. Vivi situações difíceis, conheci a realidade da guerra e partilhei com outros homens momentos que ficaram para sempre na minha memória. A guerra ensinou-me muitas coisas que nenhum livro poderia ensinar. Ensinou-me o valor da vida. Ensinou-me a importância da solidariedade. Ensinou-me que, perante a adversidade, é preciso manter a serenidade, proteger os outros e nunca esquecer a dimensão humana de cada decisão. Quando regressei a Portugal, trazia comigo experiências que jamais poderia esquecer. Tinha mudado. Aquele jovem que partira para cumprir o seu dever regressava com uma visão diferente da vida e com uma consciência ainda maior da responsabilidade que cada um de nós tem perante os outros. Mas o meu percurso não terminaria no Exército. Em 1975, encontrei uma nova forma de servir: a educação. Tornei-me professor e dediquei-me particularmente à alfabetização e à educação de adultos. Foi uma das experiências que mais profundamente me marcou. Ensinar alguém a ler e a escrever é muito mais do que transmitir conhecimentos. É abrir uma porta. É devolver autonomia. É dar confiança a quem, muitas vezes, nunca teve oportunidade de aprender. Na alfabetização de adultos, descobri que também eu aprendia todos os dias. Aprendia com as histórias de vida dos meus alunos, com as suas dificuldades, com os seus sonhos e com a vontade que muitos demonstravam de recuperar oportunidades que lhes tinham sido negadas. Depois vieram as funções de coordenação em Gondomar e, mais tarde, a coordenação distrital do Porto. A responsabilidade aumentou, mas manteve-se a mesma convicção: a educação deve estar ao serviço das pessoas. Foi assim que compreendi que ensinar não significa apenas estar diante de uma turma. Educar é também acompanhar, orientar, organizar, acreditar e criar oportunidades. Mais tarde, a minha vida profissional levou-me para fora de Portugal. Ao serviço do Instituto Camões e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tive a oportunidade de ensinar Português no estrangeiro e de contactar com comunidades portuguesas em diferentes países. Lyon, Paris, Luxemburgo e Neuchâtel são nomes que ficaram ligados à minha história. Em cada lugar encontrei realidades diferentes, mas encontrei também algo que nos une: a língua portuguesa. Percebi, ainda mais profundamente, que uma língua não é apenas um instrumento de comunicação. É memória, identidade, cultura e pertença. Ensinar Português fora de Portugal foi, por isso, também uma forma de levar comigo um pouco da minha terra e do meu país. Ao longo desse percurso internacional, tive oportunidade de conhecer pessoas de diferentes culturas e compreender melhor o significado de ser português longe de Portugal. Mais tarde, a minha vida levou-me novamente para o serviço público, desta vez através da atividade autárquica. Ser autarca significou, para mim, estar mais perto das pessoas e dos problemas concretos da comunidade. Significou ouvir, procurar soluções, assumir responsabilidades e compreender que a política só faz sentido quando está ao serviço do bem comum. Foi uma experiência diferente das anteriores, mas encontrei nela os mesmos princípios que tinham orientado a minha vida militar e profissional: responsabilidade, compromisso, proximidade e serviço. Finalmente, surgiu uma nova missão: a diplomacia. Como Conselheiro Social da Embaixada de Portugal na Suíça, tive a responsabilidade de acompanhar e apoiar comunidades portuguesas e de representar o Estado português. Foi uma etapa que me permitiu compreender ainda melhor o significado de servir Portugal. Na diplomacia, aprendi que representar um país não significa apenas cumprir funções institucionais. Significa saber ouvir, compreender os problemas das pessoas, procurar respostas e estar presente quando alguém precisa de apoio. O diplomata, tal como o professor, precisa de saber escutar. O autarca, tal como o militar, precisa de assumir responsabilidades. E o homem, em todas essas circunstâncias, precisa de não perder a sua humanidade. Hoje, quando olho para trás, vejo que estas diferentes etapas da minha vida nunca estiveram verdadeiramente separadas. O militar, o professor, o autarca e o diplomata são, afinal, diferentes expressões do mesmo homem. O militar ensinou-me a disciplina e o sentido do dever. O professor ensinou-me a importância do conhecimento e da educação. O autarca ensinou-me o valor da proximidade e do compromisso com a comunidade. O diplomata ensinou-me a representar Portugal e a servir os portugueses para além das fronteiras. E Bucos ensinou-me a nunca esquecer de onde vim. Talvez essa seja uma das maiores certezas que hoje tenho: podemos viajar pelo mundo, viver em diferentes países, desempenhar funções importantes e conhecer realidades muito diferentes, mas as nossas raízes continuam dentro de nós. Eu nunca deixei verdadeiramente Bucos. A minha terra acompanhou-me nos quartéis, nas escolas, nas cidades estrangeiras e nas funções que desempenhei. A memória dos meus pais, da família, da casa, dos caminhos e das gentes da minha infância permaneceu sempre comigo. É também por isso que este livro não pretende ser apenas uma autobiografia. É uma tentativa de preservar memórias. Memórias de uma geração. Memórias de um país que mudou profundamente. Memórias da guerra, da educação, da emigração, da construção democrática e das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Mas é também uma forma de agradecer. Agradecer aos meus pais, à minha família, aos professores que contribuíram para a minha formação, aos camaradas de armas, aos colegas, aos alunos, aos amigos e a todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, fizeram parte do meu caminho. Ninguém constrói sozinho uma vida. Aquilo que somos resulta também daqueles que encontramos pelo caminho. Ao recordar estes anos, não procuro apenas falar das minhas conquistas. Quero também reconhecer as dificuldades, as dúvidas, os momentos de incerteza e os erros que fazem parte de qualquer percurso humano. Não tive uma vida perfeita. Tive uma vida vivida. E é essa vida que quero deixar registada. Se tivesse de resumir todo o meu percurso numa única ideia, escolheria a palavra serviço. Servi a Pátria como militar. Servi a Educação como professor. Servi a minha comunidade como autarca. Servi Portugal e os portugueses como diplomata. Quatro caminhos diferentes, mas unidos por um mesmo princípio. Servir. Hoje, ao escrever estas memórias, compreendo que uma vida não se mede pelos cargos que ocupámos, pelos títulos que recebemos ou pelos lugares onde estivemos. Mede-se pelas pessoas que ajudámos, pelos valores que transmitimos e pelas marcas de humanidade que deixámos nos outros. É esse o legado que gostaria de deixar. Não pretendo que estas páginas sejam vistas como um exemplo de perfeição. Gostaria, antes, que fossem entendidas como o testemunho de um homem que procurou cumprir o seu dever, aprender com a vida e colocar os seus conhecimentos e capacidades ao serviço dos outros. Aos mais jovens, deixaria apenas uma mensagem: tenham coragem para sonhar, humildade para aprender, determinação para ultrapassar as dificuldades e sentido de responsabilidade para servir. Nunca esqueçam as vossas raízes. Nunca tenham vergonha da terra de onde partiram. E nunca pensem que uma vida se torna grande apenas porque alcança lugares distantes. Uma vida torna-se verdadeiramente grande quando consegue ser útil aos outros. Foi essa a minha procura ao longo dos anos. Ainda hoje continuo a aprender. Continuo a recordar. Continuo a acreditar que podemos sempre fazer alguma coisa pelo próximo, pela nossa terra e pelo nosso país. E, olhando para o caminho percorrido, sinto sobretudo gratidão. Gratidão pela vida que me foi concedida. Gratidão pelas pessoas que encontrei. Gratidão pela minha família. Gratidão pela minha terra. E gratidão por ter tido a oportunidade de servir. Esta é a minha história. Uma vida feita de diferentes missões, mas guiada por um só compromisso: servir. NOTA INTRODUTÓRIA Escrevo estas páginas movido por um desejo simples, mas profundo: deixar um testemunho da minha vida, das experiências que vivi, das pessoas que encontrei e dos valores que, ao longo dos anos, orientaram o meu caminho. Não escrevo apenas para recordar o passado. Escrevo porque acredito que uma vida, quando é feita de experiências, de trabalho, de dificuldades, de conquistas e de relações humanas, merece ser preservada na memória. Cada pessoa transporta consigo uma pequena parte da história do seu tempo, da sua terra e da sociedade em que viveu. Esta é a minha. Nasci em Bucos, Cabeceiras de Basto, no seio de uma família ligada à terra e aos valores simples do trabalho, da honestidade e da entreajuda. Foi ali que aprendi as primeiras lições da vida. As raízes que ali criei acompanharam-me sempre, mesmo quando o destino me levou para longe. A minha vida acabou por se construir através de diferentes caminhos, que à primeira vista podem parecer distantes uns dos outros, mas que, para mim, estiveram sempre ligados por um mesmo princípio: servir. Fui militar por dever. Ainda jovem, fui chamado a cumprir o meu compromisso com a Pátria. Como oficial miliciano de Artilharia, vivi anos particularmente exigentes, incluindo a experiência da guerra em África. Foram tempos que me marcaram profundamente. Conheci a disciplina, a responsabilidade, o medo, a camaradagem e a necessidade de tomar decisões em circunstâncias difíceis. Essa experiência ensinou-me que o sentido do dever não é uma palavra vazia: é uma responsabilidade que se assume, mesmo quando o caminho é difícil. Depois, encontrei na educação uma outra forma de servir. Fui professor por vocação. Dediquei-me à alfabetização e à educação de adultos, porque sempre acreditei que o conhecimento pode transformar vidas. Ensinar alguém a ler e a escrever não significava apenas transmitir uma competência. Significava abrir uma porta, dar autonomia, criar confiança e permitir que uma pessoa pudesse participar mais plenamente na sociedade. Mais tarde, a minha profissão levou-me para fora de Portugal. Em França, no Luxemburgo e na Suíça, continuei ligado à educação e à promoção da língua e da cultura portuguesas. Longe da minha terra, compreendi ainda melhor o valor das nossas raízes. Para muitos emigrantes, a língua portuguesa era uma ligação à família, à infância, à memória e à própria identidade. Foi também nesse percurso que assumi responsabilidades como diplomata, procurando representar Portugal com dignidade e estar próximo das comunidades portuguesas. Ser representante do meu país no estrangeiro foi uma missão que assumi com orgulho, mas também com humildade. Levei comigo Portugal, mas trouxe igualmente comigo muitas histórias, rostos e experiências de portugueses que viviam longe da sua terra. Contribui na vida pública como autarca. A política local nasceu, para mim, da vontade de participar e de contribuir para o desenvolvimento da minha terra. Sempre entendi a função pública como um compromisso com as pessoas e não como um privilégio pessoal. A proximidade, a escuta, a procura de soluções e a defesa do interesse comum foram princípios que procurei seguir. Ao olhar hoje para trás, vejo uma vida feita de muitos caminhos: Bucos, o Exército, a escola, a emigração, as comunidades portuguesas, a diplomacia e a administração local. Mas, apesar das mudanças e das distâncias, há algo que nunca mudou: as minhas raízes. Nunca deixei de ser o rapaz de Bucos que partiu um dia em busca do seu caminho. Nunca esqueci a casa, a família, os lugares da infância, as pessoas e as paisagens que moldaram a minha personalidade. Pelo contrário, quanto mais longe estive, maior foi muitas vezes a consciência da importância da minha terra. Este livro é, por isso, também uma viagem de regresso. Um regresso às pessoas que fizeram parte da minha história, aos lugares onde fui feliz, aos momentos difíceis que me fizeram crescer e às escolhas que determinaram o homem que me tornei. Não pretendo apresentar uma vida perfeita. Tive dúvidas, dificuldades, erros, perdas e momentos de incerteza. Mas tive também a felicidade de encontrar pessoas que me ensinaram, famílias que me apoiaram, amigos que caminharam comigo e oportunidades que me permitiram servir. Se alguma coisa aprendi ao longo destes anos é que uma vida não se mede apenas pelos cargos que ocupámos ou pelas coisas que conseguimos alcançar. Mede-se, sobretudo, pelo bem que fomos capazes de fazer, pelas pessoas que ajudámos e pelas marcas humanas que deixámos no caminho. É essa dimensão humana que desejo preservar nestas páginas. Escrevo sobretudo para os meus filhos, para os meus netos, para a minha família e para aqueles que um dia quiserem conhecer melhor o percurso que me trouxe até aqui. Quero que possam compreender de onde vim, o que vivi, aquilo em que acreditei e por que razão fiz determinadas escolhas. Quero também que estas memórias possam servir de testemunho de uma geração que viveu profundas transformações em Portugal e no mundo. Uma geração que conheceu a guerra, a emigração, as mudanças políticas e sociais, a expansão da educação e a construção de uma sociedade diferente. A minha vida foi feita nesse tempo. Militar por dever, professor por vocação, autarca por compromisso e diplomata por missão. Quatro dimensões diferentes de uma mesma caminhada. Em todas elas procurei ser fiel aos mesmos valores: o sentido de responsabilidade, o respeito pelos outros, o trabalho, a educação, a solidariedade e o amor à minha terra e ao meu país. Hoje, ao escrever estas memórias, percebo que o maior privilégio que a vida me concedeu não foram os cargos que desempenhei, mas as pessoas que encontrei pelo caminho. A elas, à minha família e à minha terra, dedico estas páginas. Este é o meu testemunho. Esta é a minha memória. Esta é, afinal, a história de uma vida ao serviço da Pátria, da educação, da comunidade e das pessoas. O HOMEM E AS SUAS RAÍZES Nasci na pequena freguesia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, uma terra de raízes profundas, onde a montanha, os campos e o trabalho moldam o carácter e onde aprendi, desde muito cedo, que nada se consegue sem esforço, dedicação e perseverança. Venho de uma família humilde, numerosa e trabalhadora. Éramos seis irmãos, unidos pelos laços da família e pelos mesmos valores que os nossos pais nos transmitiram. Cresci num ambiente em que o trabalho fazia parte da vida quotidiana e em que a entreajuda, o respeito pelos outros, a honestidade e o sentido de responsabilidade eram princípios que não precisavam de ser ensinados em palavras: aprendiam-se pelo exemplo. A minha infância em Bucos foi simples, como simples era a vida das famílias da nossa terra. Mas foi também uma infância rica em experiências e ensinamentos. Foi ali, entre a família, a escola, os campos e as pessoas da comunidade, que comecei a construir a minha personalidade. A escola primária de Bucos representou uma etapa importante da minha formação. Não foi apenas o lugar onde aprendi a ler, a escrever e a fazer contas. Foi também um espaço onde comecei a compreender o valor da disciplina, do respeito, do cumprimento das responsabilidades e da convivência com os outros. Hoje reconheço que muitos dos princípios que orientaram a minha vida começaram a formar-se naqueles primeiros anos. O meu pai teve uma influência muito grande no meu percurso. Era um homem trabalhador, mas também tinha uma visão e uma ambição muito próprias para os filhos. Sonhava que cada um de nós pudesse seguir um caminho diferente e prestar, à sua maneira, um serviço à sociedade. Imaginava na família um padre, um professor, um militar, um médico... Talvez fosse o seu modo de acreditar que os filhos poderiam ir mais longe do que as circunstâncias da vida familiar permitiam imaginar. Esse sonho nunca o senti como uma imposição. Pelo contrário, foi para mim uma inspiração silenciosa. Ficou dentro de mim como uma espécie de desafio: estudar, procurar um caminho e fazer alguma coisa de útil pelos outros. Foi nesse contexto que, ainda jovem, deixei Bucos e ingressei no Seminário do Espírito Santo, em Viana do Castelo. A saída da minha terra natal foi uma mudança importante na minha vida. Deixava para trás a família, os lugares onde tinha crescido e o mundo que conhecia, para entrar num ambiente novo, exigente e disciplinado. No Seminário tive a oportunidade de conciliar a formação religiosa com a formação académica, através do paralelismo pedagógico, realizando os exames no sistema oficial. Foram anos de aprendizagem intensa, mas também de crescimento interior. Aprendi a estudar, a organizar o meu tempo, a cumprir regras e, sobretudo, a conhecer melhor a mim próprio. Mais tarde, prossegui os meus estudos no Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, onde continuei a minha formação e concluí o ensino secundário. Braga abriu-me novos horizontes. Aos poucos, o rapaz de Bucos começava a descobrir um mundo muito maior do que aquele que conhecera na infância. Em 1967, dei mais um passo importante no meu percurso e ingressei na Faculdade de Engenharia do Porto, no curso de Engenharia Química. Naquele momento, imaginava que esse poderia ser o caminho profissional que iria seguir. Era uma escolha ligada aos estudos que tinha feito e às possibilidades que se abriam diante de mim. Mas a vida, muitas vezes, conduz-nos por caminhos que não estavam inicialmente nos nossos planos. Em 1969, fui chamado para o serviço militar. A partir desse momento, o meu percurso tomou uma nova direção. Entrei numa realidade completamente diferente, marcada pela disciplina, pela responsabilidade, pelo espírito de camaradagem e pelo sentido de dever. A decisão de seguir a carreira militar foi, para mim, muito mais do que uma simples mudança de percurso académico ou profissional. Foi o início de uma etapa que viria a marcar profundamente a minha vida. Tornei-me militar por dever e por circunstância, mas também encontrei nesse caminho valores que sempre estiveram presentes na minha formação: disciplina, responsabilidade, coragem, respeito, espírito de missão e serviço à Pátria. O jovem que tinha saído de Bucos para estudar começava agora uma nova etapa da sua vida. Levava comigo as aprendizagens da família, os valores da minha terra e tudo aquilo que os anos de estudo me tinham proporcionado. Sem o saber ainda, estava a iniciar um percurso que me levaria muito para além das fronteiras da minha aldeia e que, ao longo dos anos, haveria de passar pelo Exército, pela educação, pelo serviço público, pela vida autárquica e pela missão diplomática. Mas, apesar de todos os caminhos que percorri, nunca deixei de ser o homem que nasceu em Bucos. Foi nessa terra, entre a família e o trabalho, entre a escola e a comunidade, que aprendi as primeiras lições da vida. E são essas raízes que, ainda hoje, continuam a sustentar a pessoa que sou. PARTE II – O OFICIAL DO EXÉRCITO Capítulo 1 – O início do meu percurso militar 1969 – A entrada como cadete O ano de 1969 marcou profundamente a minha vida. Tinha então vinte e dois anos e encontrava-me a estudar Engenharia Química na Faculdade de Engenharia do Porto quando fui chamado para cumprir o serviço militar. A minha vida, que até então se orientava sobretudo pelos estudos e pela preparação para uma profissão civil, tomou de repente um rumo diferente. Entrei no Exército como cadete, consciente de que iniciava uma experiência que me iria exigir disciplina, resistência física, capacidade de adaptação e, sobretudo, responsabilidade. Recordo esse momento como uma verdadeira mudança de etapa. O jovem estudante que até então conhecia sobretudo o ambiente familiar, escolar e universitário passou a integrar uma instituição com regras próprias, hierarquia rigorosa e uma forte cultura de dever. Não sabia ainda quanto aquela experiência iria marcar a minha personalidade e acompanhar-me pelo resto da vida. Escola Prática de Infantaria – Mafra A minha formação militar começou na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. Ali aprendi que a vida militar não se fazia apenas de ordens e exercícios. Era uma escola de carácter. A disciplina começava nos pequenos gestos: cumprir horários, respeitar regras, cuidar da apresentação, obedecer às instruções e assumir as consequências das nossas decisões. O juramento de bandeira constituiu um dos momentos mais marcantes dessa primeira fase. Diante da Bandeira Nacional, compreendi de forma mais profunda o significado de servir o meu país. A partir daquele momento, já não era apenas um jovem chamado a cumprir uma obrigação. Sentia que assumia uma responsabilidade perante a Pátria e perante os homens que comigo partilhavam aquela caminhada. Escola Prática de Artilharia – Vendas Novas Depois de Mafra, segui para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas. Foi aí que comecei verdadeiramente a identificar-me com a Artilharia. A formação era exigente e obrigava a conciliar conhecimentos técnicos, disciplina, precisão e capacidade de comando. Aprendi que um oficial não podia limitar-se a mandar. Tinha de saber ouvir, decidir e, acima de tudo, dar o exemplo. Foi também em Vendas Novas que comecei a perceber que liderar homens significava conhecer as suas dificuldades, compreender as suas limitações e saber exigir-lhes o melhor sem perder de vista a sua condição humana. Capítulo 2 – Formação e identidade militar Oficial Miliciano de Artilharia A formação militar conduziu-me ao posto de Alferes Miliciano de Artilharia. Ser oficial significava assumir uma responsabilidade que ultrapassava a minha própria pessoa. Tinha homens sob a minha responsabilidade e sabia que as minhas decisões poderiam influenciar diretamente o seu trabalho, a sua segurança e o seu estado de espírito. Essa consciência obrigou-me a amadurecer rapidamente. O Exército ensinou-me a importância da preparação. Uma decisão tomada sem conhecimento podia ter consequências graves. Por isso, aprendi a estudar, a observar, a prever e a decidir. Disciplina, liderança e espírito de missão A disciplina foi talvez uma das maiores aprendizagens que trouxe da vida militar. Não a disciplina entendida apenas como obediência, mas como capacidade de cumprir o dever mesmo quando as circunstâncias são difíceis. Aprendi também que a verdadeira liderança não se impõe apenas pela autoridade do posto. Conquista-se pelo exemplo. Um oficial que exige dos seus homens aquilo que ele próprio não está disposto a fazer perde rapidamente a sua autoridade moral. Por isso, procurei sempre estar presente, acompanhar os meus homens e partilhar com eles as dificuldades. O espírito de missão tornou-se uma referência para mim. Aprendi que, quando se assume uma responsabilidade, é preciso levá-la até ao fim. Esta ideia acompanhou-me posteriormente em muitas outras dimensões da minha vida: como professor, como responsável pela educação, como autarca e como diplomata. Capítulo 3 – O serviço em território nacional Regimento de Artilharia da Serra do Pilar – Vila Nova de Gaia Depois da formação, iniciei uma nova etapa do meu percurso militar. Passei pelo Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde continuei a consolidar a minha preparação e a experiência como oficial. O contacto diário com militares de diferentes origens sociais e culturais foi também uma importante escola de vida. O Exército colocava lado a lado homens muito diferentes, mas unidos pelo mesmo uniforme e pelo cumprimento da mesma missão. Aprendi a trabalhar em equipa e a reconhecer o valor de cada pessoa dentro de uma estrutura organizada. Regimento de Artilharia de Penafiel Seguiu-se o Regimento de Artilharia de Penafiel. Ali continuei a desempenhar as minhas funções e a preparar-me para a missão que se aproximava. A realidade militar começava, entretanto, a ganhar uma dimensão diferente. Sabíamos que muitos de nós poderiam ser mobilizados para África. Essa possibilidade fazia parte das conversas, das preocupações e dos pensamentos de todos. Eu próprio sabia que o meu percurso militar poderia conduzir-me para longe de casa. Carreira de tiro de Espinho A passagem pela carreira de tiro de Espinho integrou igualmente esse período de preparação. Os exercícios militares exigiam concentração, rigor e responsabilidade. Cada instrução tinha um propósito e cada erro podia ter consequências. Foi uma fase de aprendizagem intensa, mas também de crescimento pessoal. O jovem que entrara no Exército em 1969 começava a transformar-se num homem mais consciente das suas responsabilidades. Capítulo 4 – A missão em África Centro de Instrução Militar do Morro Branco – Cabo Verde Chegou finalmente o momento da partida para África. A saída de Portugal representou uma ruptura com a vida que conhecia. Deixava para trás a família, os amigos, os estudos e a segurança do meu quotidiano. A viagem foi também uma viagem interior. Passei pelo Centro de Instrução Militar do Morro Branco, em Cabo Verde, onde vivi uma nova etapa de preparação antes de prosseguir para Angola. A distância de casa começava a tornar-se uma realidade concreta. Centro de Instrução Militar do Grafanil – Luanda Depois de Cabo Verde, chegámos ao Grafanil, em Luanda. Luanda era para mim um mundo diferente. O clima, a paisagem, as pessoas e a própria realidade colonial eram muito diferentes daquela que conhecia em Portugal. No Grafanil, a preparação continuou e fomos integrados na estrutura militar que nos conduziria ao nosso destino operacional. A expectativa aumentava. Sabíamos que não estávamos ali para fazer apenas exercícios. Estávamos numa zona de guerra. Companhia de Artilharia 2671 Foi neste contexto que passei a integrar a Companhia de Artilharia 2671, pertencente ao Batalhão de Caçadores 2911, com destino à região da Lunda. A partir desse momento, a palavra "guerra" deixou de ser uma realidade distante. Passou a fazer parte do nosso quotidiano. Cada deslocação, cada patrulhamento, cada contacto com as populações e cada operação eram vividos com atenção redobrada. Como oficial, tinha responsabilidades acrescidas. Não estava apenas preocupado comigo próprio. Tinha homens que dependiam das minhas decisões. Essa responsabilidade acompanhou-me todos os dias. Batalhão n.º 2911 – Lunda, Henrique de Carvalho Chegámos à região de Henrique de Carvalho, na Lunda, onde permanecemos durante a comissão. A realidade africana marcou-me profundamente. Conheci uma terra diferente, com uma natureza impressionante e com populações cuja vida pouco tinha em comum com aquela que eu conhecia em Portugal. Ao mesmo tempo, vivi a dureza da guerra. A guerra deixa marcas que nem sempre são visíveis. Ensina-nos a conhecer o medo, a incerteza, a solidariedade e a fragilidade da vida humana. Foi também ali que compreendi, de forma muito concreta, o valor da camaradagem. Em situações difíceis, os homens aproximam-se. O companheiro que está ao nosso lado deixa de ser apenas um camarada de armas. Passa a ser alguém em quem confiamos a nossa própria vida. A guerra e a transformação pessoal A experiência da guerra transformou-me. Quando parti para África, era um jovem oficial. Quando regressei, sentia-me um homem diferente. A guerra ensinou-me a relativizar muitas das preocupações que antes me pareciam importantes. Ensinou-me o valor da vida, da amizade, da solidariedade e da família. Também me ensinou que, perante situações extremas, somos obrigados a descobrir forças que desconhecíamos possuir. Aprendi a controlar o medo, a manter a cabeça fria e a tomar decisões mesmo quando não existiam soluções perfeitas. Mas trouxe também comigo perguntas que nunca deixaram de me acompanhar. O que significa verdadeiramente servir? Até onde vai o dever? Como pode um homem preservar a sua humanidade quando vive diariamente perante a possibilidade da morte? São perguntas para as quais não encontrei respostas definitivas, mas que contribuíram profundamente para a formação da pessoa que me tornei. Capítulo 5 – O regresso Regresso ao Regimento da Serra do Pilar Em 1972 chegou finalmente o momento do regresso. Depois de mais de dois anos longe de Portugal, voltar foi uma experiência difícil de explicar. Regressei fisicamente ao país que tinha deixado, mas interiormente já não era exatamente o mesmo. Voltei ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, onde encerrei uma importante etapa do meu percurso militar. Encontrar novamente as pessoas, os lugares e os hábitos que conhecia antes da partida provocava sentimentos contraditórios. Havia alegria pelo regresso, mas também a consciência de que uma parte de mim ficara em África, juntamente com as experiências vividas e com as pessoas que comigo partilharam aqueles anos. As experiências que ficaram A experiência militar acompanhou-me para além do uniforme. Quando deixei definitivamente a vida militar, levei comigo ensinamentos que continuariam presentes em todas as etapas seguintes da minha vida. Levei a disciplina, o sentido de responsabilidade, a capacidade de trabalhar em equipa e o espírito de missão. Levei também a consciência de que liderar é servir e de que qualquer função pública deve ser exercida com responsabilidade e respeito pelos outros. A experiência de África ensinou-me ainda uma coisa fundamental: nunca devemos esquecer a dimensão humana de cada decisão. Olho hoje para aqueles anos com a serenidade que o tempo permite, mas também com respeito por tudo aquilo que vivi. O Exército foi uma escola. Foi uma escola de disciplina, de responsabilidade, de coragem e de humanidade. E, sobretudo, foi uma etapa decisiva na construção do homem que viria a ser.

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