segunda-feira, 23 de março de 2026
O Homem e as suas Raízes
O HOMEM E AS SUAS RAÍZES
Nasci na pequena freguesia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, uma terra de raízes profundas, onde a montanha, os campos e o trabalho moldam o carácter e onde aprendi, desde muito cedo, que nada se consegue sem esforço, dedicação e perseverança.
Venho de uma família humilde, numerosa e trabalhadora. Éramos seis irmãos, unidos pelos laços da família e pelos mesmos valores que os nossos pais nos transmitiram. Cresci num ambiente em que o trabalho fazia parte da vida quotidiana e em que a entreajuda, o respeito pelos outros, a honestidade e o sentido de responsabilidade eram princípios que não precisavam de ser ensinados em palavras: aprendiam-se pelo exemplo.
A minha infância em Bucos foi simples, como simples era a vida das famílias da nossa terra. Mas foi também uma infância rica em experiências e ensinamentos. Foi ali, entre a família, a escola, os campos e as pessoas da comunidade, que comecei a construir a minha personalidade.
A escola primária de Bucos representou uma etapa importante da minha formação. Não foi apenas o lugar onde aprendi a ler, a escrever e a fazer contas. Foi também um espaço onde comecei a compreender o valor da disciplina, do respeito, do cumprimento das responsabilidades e da convivência com os outros. Hoje reconheço que muitos dos princípios que orientaram a minha vida começaram a formar-se naqueles primeiros anos.
O meu pai teve uma influência muito grande no meu percurso. Era um homem trabalhador, mas também tinha uma visão e uma ambição muito próprias para os filhos. Sonhava que cada um de nós pudesse seguir um caminho diferente e prestar, à sua maneira, um serviço à sociedade. Imaginava na família um padre, um professor, um militar, um médico... Talvez fosse o seu modo de acreditar que os filhos poderiam ir mais longe do que as circunstâncias da vida familiar permitiam imaginar.
Esse sonho nunca o senti como uma imposição. Pelo contrário, foi para mim uma inspiração silenciosa. Ficou dentro de mim como uma espécie de desafio: estudar, procurar um caminho e fazer alguma coisa de útil pelos outros.
Foi nesse contexto que, ainda jovem, deixei Bucos e ingressei no Seminário do Espírito Santo, em Viana do Castelo. A saída da minha terra natal foi uma mudança importante na minha vida. Deixava para trás a família, os lugares onde tinha crescido e o mundo que conhecia, para entrar num ambiente novo, exigente e disciplinado.
No Seminário tive a oportunidade de conciliar a formação religiosa com a formação académica, através do paralelismo pedagógico, realizando os exames no sistema oficial. Foram anos de aprendizagem intensa, mas também de crescimento interior. Aprendi a estudar, a organizar o meu tempo, a cumprir regras e, sobretudo, a conhecer melhor a mim próprio.
Mais tarde, prossegui os meus estudos no Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, onde continuei a minha formação e concluí o ensino secundário. Braga abriu-me novos horizontes. Aos poucos, o rapaz de Bucos começava a descobrir um mundo muito maior do que aquele que conhecera na infância.
Em 1967, dei mais um passo importante no meu percurso e ingressei na Faculdade de Engenharia do Porto, no curso de Engenharia Química. Naquele momento, imaginava que esse poderia ser o caminho profissional que iria seguir. Era uma escolha ligada aos estudos que tinha feito e às possibilidades que se abriam diante de mim.
Mas a vida, muitas vezes, conduz-nos por caminhos que não estavam inicialmente nos nossos planos.
Em 1969, fui chamado para o serviço militar. A partir desse momento, o meu percurso tomou uma nova direção. Entrei numa realidade completamente diferente, marcada pela disciplina, pela responsabilidade, pelo espírito de camaradagem e pelo sentido de dever.
A decisão de seguir a carreira militar foi, para mim, muito mais do que uma simples mudança de percurso académico ou profissional. Foi o início de uma etapa que viria a marcar profundamente a minha vida.
Tornei-me militar por dever e por circunstância, mas também encontrei nesse caminho valores que sempre estiveram presentes na minha formação: disciplina, responsabilidade, coragem, respeito, espírito de missão e serviço à Pátria.
O jovem que tinha saído de Bucos para estudar começava agora uma nova etapa da sua vida. Levava comigo as aprendizagens da família, os valores da minha terra e tudo aquilo que os anos de estudo me tinham proporcionado.
Sem o saber ainda, estava a iniciar um percurso que me levaria muito para além das fronteiras da minha aldeia e que, ao longo dos anos, haveria de passar pelo Exército, pela educação, pelo serviço público, pela vida autárquica e pela missão diplomática.
Mas, apesar de todos os caminhos que percorri, nunca deixei de ser o homem que nasceu em Bucos.
Foi nessa terra, entre a família e o trabalho, entre a escola e a comunidade, que aprendi as primeiras lições da vida. E são essas raízes que, ainda hoje, continuam a sustentar a pessoa que sou.
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