terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Feliz Ano Novo 2026, Votos da Casa de Sanoane de Cima
Que 2026 chegue com passos suaves e coração aberto.
Que traga saúde para o corpo, paz para a alma e esperança renovada a cada amanhecer.
Que os desafios se transformem em aprendizagem,
e que as conquistas, grandes ou pequenas, sejam motivo de gratidão.
Que não faltem motivos para sorrir,
nem coragem para seguir em frente.
Que a família, os amigos e os afetos estejam sempre por perto,
iluminando os dias e aquecendo os momentos difíceis.
Desejo que 2026 seja um ano de encontros, de harmonia,
de sonhos cultivados com fé e colhidos com alegria.
Um ano de luz, amor e bons caminhos.
Feliz Ano Novo 2026!
O Meu Passeio Matinal na Bahia, Chapada Diamantina
O meu passeio matinal seguiu hoje pela trilha do Capão, em Lençóis. A saída foi por volta das 7 horas, quando o dia ainda despertava lentamente. Antes mesmo de começar a caminhada, parei para fazer um vídeo do sabiá-cinza, atento e sereno, empoleirado, anunciando a manhã com o seu canto discreto.
A rua de terra, ainda barrenta da humidade da noite, exigia passos cuidadosos. Logo surgiram as gralhas, barulhentas e curiosas, cruzando o caminho e pousando próximas, como guardiãs do amanhecer.
Junto ao Hotel Portal de Lençóis, o sabiá-laranjeira deu o ar de sua graça. Corria ao longo do muro, saltitando com leveza, aparecendo e desaparecendo entre as sombras, enchendo o ambiente de vida e movimento.
Já na trilha do Capão, as espadas-de-São-Jorge continuam firmes e vivas, alinhadas ao longo do caminho, resistentes ao tempo. Os sabiás voltam a aparecer na trilha, ora cantando, ora saltando entre os galhos e o chão, acompanhando silenciosamente o caminhar.
Ao longo do percurso, notei mais duas ou três casas novas já concluídas, sinais claros do crescimento da região. Mais adiante, surge o depósito de abastecimento de água de Lençóis, estrutura essencial que se integra à paisagem, lembrando a importância da natureza e do cuidado com os recursos que sustentam a cidade.
Foi um passeio simples, tranquilo e cheio de pequenos encontros, onde a natureza, o silêncio da manhã e os sons das aves tornaram o início do dia especial.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Parque de Férias - Um Verão de descobertas e Aventuras
O Parque de Férias é um espaço pensado para proporcionar às crianças e adolescentes momentos inesquecíveis de lazer, aprendizagem e convívio, em total segurança e contacto com a natureza.
O complexo conta com quatro casas funcionais, acolhedoras, que servem de base para as atividades diárias, refeições e momentos de descanso. Junto a elas destaca-se um espigueiro tradicional, símbolo do património rural, que desperta a curiosidade dos mais novos e permite explorar histórias, saberes antigos e a vida no campo.
A alegria continua na piscina, especialmente pensada para crianças e adolescentes, onde se promovem brincadeiras aquáticas, momentos de diversão e refresco nos dias mais quentes.
A envolvente natural é um dos grandes atrativos do Parque de Férias. A zona de mata convida a caminhadas, jogos ao ar livre, educação ambiental e contacto direto com a fauna e flora. Já a gruta, misteriosa e fascinante, torna-se palco de explorações orientadas, histórias e atividades pedagógicas que despertam o gosto pela natureza e pela aventura.
O Parque de Férias é, assim, um espaço onde brincar, aprender e crescer caminham juntos, criando memórias felizes e experiências enriquecedoras para crianças e adolescentes durante o período de férias.
A Casa de Sanoane de Cima, o Menino Lourenço e a Oliveira Centenária
Na aldeia serrana de Bucos, entre montes verdes e caminhos de pedra, existia uma casa muito especial: a Casa de Sanoane de Cima. As suas paredes antigas guardavam histórias de muitos anos, mas a mais bonita de todas começou no dia em que nasceu o menino Lourenço.
Mesmo ao lado da casa, no pequeno campo banhado pelo sol da manhã, vivia uma oliveira centenária. O seu tronco era grosso e retorcido, como se tivesse braços a abraçar o tempo, e as suas folhas prateadas brilhavam quando o vento passava, contando segredos antigos.
Desde pequenino, Lourenço gostava de brincar à sombra da oliveira. Sentava-se junto ao tronco e dizia:
— Bom dia, velhinha amiga.
E a oliveira, que sabia ouvir crianças de coração puro, respondia com um suave farfalhar das folhas:
— Bom dia, Lourenço. Que aventuras vamos viver hoje?
O Avô dizia que aquela oliveira já estava ali antes da casa ser construída. Tinha visto passar gerações, colheitas, invernos frios e verões quentes. Guardava a memória da terra e protegia quem ali vivia.
Certo dia, Lourenço estava triste. Sentia-se pequeno perante o mundo. Abraçou o tronco da oliveira e contou-lhe o que ia no coração.
Então, uma azeitona caiu suavemente aos seus pés. Lourenço apanhou-a e ouviu, bem baixinho:
— Vês, Lourenço? Eu demorei muitos anos a crescer. Fui pequena como tu. A força vem com o tempo, com a paciência e com o amor à terra.
Nesse momento, Lourenço sorriu. Percebeu que crescer era um caminho, não uma pressa. Aprendeu a ajudar na casa, a respeitar a natureza, a ouvir os mais velhos e a cuidar da oliveira, regando-a nos dias quentes e limpando o chão à sua volta.
Com o passar dos anos, Lourenço cresceu forte e bondoso, tal como a oliveira. A Casa de Sanoane de Cima continuou cheia de vida, risos e histórias, e a oliveira centenária permaneceu ali, orgulhosa, a guardar o menino que aprendera com ela o valor do tempo e das raízes.
E ainda hoje, quando o vento passa por Sanoane de Cima, diz-se que se pode ouvir a oliveira sussurrar:
— Aqui vive um menino que aprendeu a crescer com o coração.
domingo, 28 de dezembro de 2025
Passeio Matinal por Bucos
O passeio matinal por Bucos começa na ponte da Pereira, ponto de encontro antigo e simbólico, sobre o sereno rio Peio, cujas águas acompanham a memória e o quotidiano da freguesia. Dali, o caminho segue junto à piscina comunitária de Bucos, hoje espaço de convívio, e aos moinhos que outrora moíam o milho e o centeio: os moinhos da Serra, da Senra, o moinho da casa do José, o do poço do Capitão, o moinho da casa de Sanoane de Cima e o moinho da casa da Pereira, todos integrados na paisagem do monte do Outeiro, coberto de árvores que mudam de cor ao longo das estações.
Atravessando a ponte do Vale, a caminhada segue em direção ao lugar da Deveza, com as suas casas antigas, hortas e um vale fértil de campos agrícolas, onde se destaca o campo de kiwis, sinal dos tempos novos que convivem com a tradição. Mais adiante surge o lugar da Touça, com a casa do José, outras casas antigas e a pequena casa da Maria do Trigo, modesta mas orgulhosa do seu espigueiro, guardião do milho.
A poça da Quelha, usada para a rega dos campos, reflete o céu da manhã. Seguem-se a casa do Ruival, a fonte de água e novamente a casa da Pereira, a casa do Coucieiro com o seu espigueiro, e a casa da Vendeira, onde existiram o primeiro mercado e a primeira escola da freguesia, marcos importantes da vida comunitária.
O percurso conduz ao largo da Fonte da Vila, coração de Bucos, ladeado pela casa da Senra e pela casa da Angustinha. A visita ao adro da igreja convida ao silêncio e à memória, entre túmulos que contam histórias de gerações. No interior da igreja, os altares e o altar-mor revelam fé, arte e devoção. Perto dali, o cruzeiro observa o vaivém do tempo e as casas de Sanoane de Baixo e de Cima.
Subindo a rua da Portela, surgem casas antigas e uma ampla paisagem sobre o vale de campos. O caminho leva a um aglomerado de casas, ao largo do Jeremias, à imagem da Senhora dos Caminhos, à antiga escola, hoje Museu da Lã, e à Junta de Freguesia. As poças de Vales anunciam a proximidade da antiga capela, hoje eira e espigueiro de milho, símbolo da adaptação dos espaços ao longo do tempo.
O passeio encerra-se onde começou, na ponte da Pereira, lugar carregado de tradição, onde se diz que as pessoas da freguesia batizavam os bebés ainda na barriga das mães, num ritual simples e cheio de fé. Assim termina um passeio matinal por Bucos: feito de caminhos, águas, casas e memórias vivas, que continuam a unir passado e presente.
O passeio da tardinha do menino Miguel
Ao cair da tarde, quando o sol abranda e a luz fica dourada, o menino Miguel sai da Casa de Sanoane de Cima para o seu passeio tranquilo. O caminho começa devagar, com passos curiosos e atentos, como quem quer guardar cada pormenor na memória.
Primeiro passa pelo cruzeiro, lugar de silêncio e respeito, onde o tempo parece parar. Um pouco adiante surge a casa da paróquia e, ao seu lado, o diospireiro da casa, testemunha antiga de outras caminhadas e conversas serenas.
O passeio segue pelos soutos, onde os castanheiros se erguem fortes e generosos, misturados com o sobreiro de copa larga, sombra boa nos dias quentes. Dali, Miguel pára para olhar a paisagem aberta sobre o rio Pertessouto, que corre lá em baixo, e para o Monte Picoto, coberto de eucaliptos e carvalhos, entre pedras soltas e grandes penedos moldados pelo tempo.
Mais à frente chega a Fontelas, lugar de pequenas e diversas fontes de água clara, que brotam da terra como segredos antigos. O som da água acompanha o caminho e refresca o pensamento do menino.
No final do percurso aparece a Cruz de Prados, encontro de caminhos e de histórias. Ali, outrora, a cultura predileta era o centeio, que ondulava ao vento; hoje, os campos são de pasto, onde os animais repousam tranquilos. Perto dali está a figueira do João, carregada de figos pingo de mel, doces e maduros, que anunciam o sabor do verão.
No regresso, antes de voltar a casa, Miguel faz uma visita ao senhor padre da paróquia. Trocam-se palavras simples, sorrisos e gestos de carinho, como manda a tradição da aldeia.
E assim termina o passeio da tardinha, com o coração cheio de paisagem, de natureza e de afetos, levando consigo a paz que só os caminhos de Bucos sabem oferecer.
O Meu Passeio Matinal em Bucos.
O passeio matinal começa na Casa do Menino Lourenço, em Sanoane de Cima, onde o dia nasce devagar entre o silêncio da serra e o cheiro fresco da terra. Ao sair, o caminho convida à caminhada tranquila, feita de passos leves e olhos atentos.
A primeira paragem é junto ao cruzeiro, guardião antigo do lugar, símbolo de fé e de encontros. Um pouco adiante surge a igreja, coração espiritual da freguesia, onde tantas gerações marcaram os momentos importantes da vida. Seguindo o percurso, chegde Angustinha, a-se à fonte da vila, onde a água corria límpida, memória viva do tempo em que ali se encontravam vizinhos e se partilhavam histórias.
O passeio continua pela Casa da Pereira, carregada de lembranças, e pelos grandes espigueiros: o da casa o da Casa do Coucieiro e o da Casa do Ruival, testemunhos da vida agrícola, do milho guardado com cuidado e do trabalho paciente do povo serrano. Segue se, a poça de água da quelha que reflete o céu e as paredes de pedra, criando um pequeno espelho da aldeia.
Passa-se pela Casa da Maria do Trigo, evocando nomes e vidas simples, e segue-se até à Touça, onde fica a casa do José, entre caminhos antigos e muros de pedra. Mais à frente, a rochada impõe-se na paisagem, firme e silenciosa, lembrando a força da natureza que molda Bucos.
Surge então o lugar onde existiu a antiga capela, hoje transformada em eira e espigueiro, espaço de trabalho e convívio, onde o sagrado e o quotidiano se encontram. A poça de Vales e o fontanário de água oferecem novamente frescura ao caminho, antes de se alcançar a Junta de Freguesia.
Ali perto, a antiga escola primária, hoje Museu da Lã, guarda a memória da aprendizagem e do saber, bem como da tradição lanar que marcou a identidade da terra. O passeio passa pela nogueira do Orides, árvore de sombra generosa e histórias antigas, e à Senhora dos Caminhos, protetora dos viajantes e dos que partem e regressam.
No largo do antigo mercado do Jeremias, com a sua ramada, sente-se ainda o eco das malhas, das trocas e da vida animada de outros tempos. Pela Rua da Portela, o caminho abre-se para uma paisagem ampla e luminosa: o vale dos campos de Bucos estende-se à frente, verde e sereno, desenhando um quadro de paz, trabalho e pertença.
Assim termina o passeio matinal, feito de lugares, memórias e afetos, onde cada passo conta uma história e cada recanto confirma a alma viva de Bucos.
Bucos nasceu ao lado da Fonte da Vila
Bucos nasceu ao lado da Fonte da Vila
Bucos nasceu ao lado da Fonte da Vila, lugar de água abundante e de vida, que desde cedo atraiu a fixação humana. Foi em torno desta fonte primordial que se ergueram as principais casas rurais, as mais antigas do lugar, marcando o início da aldeia e o seu crescimento ao longo dos séculos.
Junto à Fonte da Vila surgiram as primeiras estruturas comunitárias: ali existiu a primeira venda ou mercado, ponto de encontro e de troca de produtos; ali funcionou a primeira escola primária, onde várias gerações deram os seus primeiros passos no saber; e dali partiram os primeiros padres da freguesia, ligados às casas da Senra e de Entre Curros, que tiveram papel central na vida religiosa e social da comunidade.
Este núcleo inicial estava rodeado pelos principais campos agrícolas, terras férteis trabalhadas com esforço e saber antigo, onde a agricultura sustentou famílias inteiras. Os grandes espigueiros, erguidos com solidez e engenho, guardavam o milho e simbolizavam a abundância das colheitas. As minas de água, abertas com paciência na terra, asseguravam a rega dos campos e davam continuidade à vida agrícola, mesmo nos períodos mais secos.
A importância histórica deste território encontra eco no inquérito eclesiástico de 1283, onde já é referida a existência de várias casas e lugares que marcaram Bucos ao longo do tempo. Entre elas destacam-se a Casa da Pereira, da Senra, do Barreiro, do Coucieiro, do Ruival, da Angustinha, entre outras, testemunhos vivos de uma ocupação antiga, organizada e profundamente ligada à terra.
Assim, Bucos afirma-se como berço das colheitas, da fé, do trabalho e da comunidade. Uma aldeia que nasceu da água, cresceu com o suor dos campos e preserva, ainda hoje, a memória de um passado enraizado na Fonte da Vila e nas casas que lhe deram identidade e continuidade.
O Meu Passeio Matinal às Águas de Lençois
No meu passeio matinal, a rua ainda desperta em silêncio, quebrado apenas pelos sons da natureza. Logo no início, detenho-me a observar e fotografar as gralhas, que fizeram das proximidades das casas o seu habitat. Partilham esse espaço com o sabiá-cinzento, que constrói o seu ninho debaixo dos telhados, discreto e atento ao movimento da manhã.
Nos postes de luz da rua surge o bem-te-vi, ágil e vigilante, aproveitando os insetos que foram atraídos pela iluminação noturna. É um espetáculo simples, mas cheio de vida, que anuncia o começo do dia.
Subo até ao Hotel Portal de Lençóis, onde o sabiá-laranjeira e o cardeal costumam procurar alimento nas primeiras horas da manhã. Entre árvores e jardins, a presença dessas aves traz cor, canto e harmonia ao caminho.
Depois, desço pela Avenida Adolpho Morais até às Águas de Lençóis. Ali, a maioria das aves se reúne para matar a sede, num encontro natural que encerra o meu passeio com tranquilidade e contemplação.
É nesse cenário que a manhã se completa, entre passos calmos, observação atenta e gratidão pela vida que se renova a cada amanhecer.
sábado, 27 de dezembro de 2025
A Noite de Natal na Casa de Sanoane de Cima
Na Casa de Sanoane de Cima, a noite de Consoada chega envolta num silêncio sereno, quebrado apenas pelas vozes da família que se reúne, como manda a tradição, em torno da lareira e da boa mesa. As paredes antigas guardam memórias de muitos Natais e, mais uma vez, acolhem todos com calor e ternura.
À mesa, o bacalhau à portuguesa é o rei da noite, preparado com saber antigo e partilhado com gratidão. Seguem-se os doces tradicionais, que despertam sorrisos e lembranças: o bolo-rei bem dourado, as rabanadas polvilhadas de açúcar e canela, o pão de ló de ovos e as cavacas estaladiças, que fazem as delícias de miúdos e graúdos. Cada sabor traz consigo histórias contadas e recontadas, num convívio simples e verdadeiro.
Enquanto os adultos conversam, o menino Miguel e os primos, Lourenço e Salvador, aproveitam a liberdade da noite. Na eira, entre risos e corridas, jogam futebol até o frio apertar e as estrelas brilharem mais alto. Depois, seguem juntos num pequeno passeio, caminhando até ao cruzeiro, onde param por instantes, num momento de quietude e respeito, como se também ali a noite de Natal pedisse silêncio e agradecimento.
Assim se vive a Consoada na Casa de Sanoane de Cima: entre família unida, mesa partilhada, brincadeiras de infância e passos lentos pela aldeia, num Natal feito de tradição, afeto e esperança renovada.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Mensagem de Natal
Neste Natal, 2025, a família Brás reúne-se na Casa do Coucieiro: com o coração cheio, a mesa posta e a memória viva dos que vieram antes de nós.Que estas paredes, marcadas por histórias e afetos, continuem a acolher abraços, partilhas simples e verdadeiras.
Que o Menino Jesus nos traz paz, saúde e união, fortalecendo os laços que nos unem como família.Que nunca nos falte o amor, o respeito e a alegria de estarmos juntos, hoje e sempre.
Um Santo e Feliz Natal para toda a família Brás, com esperança renovada para o ano que começa.
Com carinho,
Manuel e Luisa
O Meu Passeio Matinal
Hoje, o meu passeio matinal levou-me até ao largo do coreto da Cidade de Lençois, um lugar simples e acolhedor, onde a natureza parece acordar com mais calma. Ao redor, as palmeiras erguem-se serenas, como sentinelas verdes a guardar o espaço e a oferecer abrigo aos pequenos habitantes do ar.
Entre os ramos, os pássaros davam vida à manhã. O bem-te-vi anunciava o dia com o seu canto firme e alegre; o sabiá deixava no ar uma melodia suave e contínua; o pardal, irrequieto, saltitava de um lado para o outro; o cardeal destacava-se pela sua presença elegante; e a graúna, com o seu canto grave, completava essa sinfonia natural.
Ali, por alguns instantes, o tempo pareceu abrandar. Respirei fundo, ouvi os sons simples da vida e segui o caminho com o coração mais leve, levando comigo a paz discreta que só um passeio matinal pode oferecer.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima, o Natal e o Menino Miguel
Na aldeia serrana de Bucos, rodeada de montes verdes e caminhos antigos, existia uma casa muito especial: a Casa de Sanoane de Cima. Era uma casa de pedra, com janelas que pareciam sorrir e um telhado que já tinha ouvido muitas histórias ao longo dos anos.
No Natal, a Casa de Sanoane de Cima ganhava um brilho diferente. As noites ficavam mais frias, mas lá dentro tudo era calor, luz e alegria. O cheiro da lenha a arder na lareira misturava-se com o aroma dos doces de Natal, e as vozes da família enchiam cada canto da casa.
Era ali que o menino Miguel passava o Natal. Miguel adorava aquela época do ano, porque sentia que a casa falava com ele. As paredes antigas guardavam segredos, risos de outros natais e histórias dos avós que ali viveram.
Na véspera de Natal, Miguel acordou cedo. Espreitou pela janela e viu a geada a cobrir a eira como se fosse açúcar em pó. Vestiu o casaco, correu para o quintal e imaginou que aquele chão branco era um tapete mágico preparado especialmente para a noite mais bonita do ano.
Dentro da casa, os adultos preparavam a ceia. Havia broa, rabanadas, filhoses e sonhos dourados. Miguel ajudava como podia, colocando guardanapos na mesa grande, onde todos se iriam sentar juntos, unidos como uma só família.
Quando a noite caiu, a Casa de Sanoane de Cima iluminou-se. A lareira crepitava, a mesa estava cheia e os corações ainda mais. Miguel sentou-se ao lado dos avós e ouviu histórias de outros natais, de tempos em que tudo era mais simples, mas cheio de amor.
Depois da ceia, Miguel saiu um pouco para o cruzeiro. Olhou para o céu estrelado e sentiu que aquele Natal era diferente. Não era pelos presentes, mas pelo carinho, pela união e pela magia que só aquela casa sabia criar.
Ao regressar, encontrou todos à sua espera. A família cantava, sorria e partilhava abraços. Miguel percebeu então que a Casa de Sanoane de Cima não era apenas uma casa: era um lugar onde o Natal vivia todos os anos, guardado na memória e no coração de quem ali passava.
E assim, com o som suave da lareira e o espírito do Natal a encher cada divisão, o menino Miguel adormeceu, certo de que aquele Natal ficaria para sempre gravado na sua infância.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima, o Cruzeiro e o Menino Lourenço
Na aldeia de Bucos, entre montes verdes e caminhos de pedra, existia um lugar muito especial chamado Casa de Sanoane de Cima. Era uma casa antiga, de paredes grossas e janelas que pareciam guardar histórias antigas, contadas em silêncio pelo vento.
Ali vivia — ou melhor, ali passava dias felizes — o menino Lourenço, um rapaz curioso, de olhos atentos e coração cheio de perguntas. Sempre que chegava a Sanoane, Lourenço sentia que o tempo andava mais devagar, como se quisesse brincar com ele.
Perto da casa, um pouco mais abaixo, erguia-se o Cruzeiro. Feito de pedra, firme e sereno, estava ali há muitos e muitos anos. Os mais velhos diziam que o Cruzeiro protegia a aldeia, as casas, os campos e as crianças que por ali passavam.
Lourenço gostava muito de ir até ao Cruzeiro. descia devagar, pisando as pedras com cuidado, e sentava-se ali a ouvir o silêncio. Às vezes levava uma fruta, outras vezes apenas os seus pensamentos. Imaginava que o Cruzeiro era um velho guardião, que tudo via e tudo sabia.
— Bom dia, senhor Cruzeiro — dizia Lourenço, com voz baixinha.
E, no seu coração, parecia ouvir uma resposta suave, como se a pedra sorrisse.
Daquele lugar, Lourenço via a Casa de Sanoane de Cima, os campos cultivados, as árvores que dançavam com o vento e os caminhos por onde passaram os seus avós. Sentia-se ligado a tudo: à terra, à casa e às histórias que ainda não tinham sido contadas.
Certo dia, enquanto o sol se punha e pintava o céu de laranja e dourado, Lourenço teve a certeza de que aquele lugar fazia parte dele. A Casa ensinava-lhe o valor da família, o Cruzeiro lembrava-lhe o respeito e a proteção, e Sanoane de Cima mostrava-lhe que as raízes são como abraços invisíveis.
Quando subiu de volta para casa, ouviu a voz da família chamando-o para o jantar. Sorriu. Sabia que, no dia seguinte, o Cruzeiro continuaria ali, firme e atento, à espera de mais uma conversa com o menino que acreditava que até as pedras sabem ouvir.
E assim, entre a casa, o Cruzeiro e o menino Lourenço, nascia mais uma história guardada no coração de Sanoane de Cima — uma história feita de afeto, memória e esperança
Homenagem a Dra Maria Alice Brás – 80 Anos
Celebrar os 80 anos de Maria Alice Brás é celebrar uma vida dedicada ao saber, à educação e à preservação da memória. Professora exemplar, historiadora atenta e mulher de cultura, Maria Alice construiu um percurso marcado pelo rigor, pelo humanismo e pelo profundo amor ao conhecimento.
Nascida em Bucos, aldeia de raízes firmes e identidade forte, foi ali que deu os primeiros passos no caminho da aprendizagem, frequentando a escola primária da sua terra natal. Desde cedo revelou curiosidade intelectual e dedicação ao estudo, valores que a acompanharam ao longo de toda a vida.
Prosseguiu a sua formação no Colégio da Torre – Sagrado Coração de Maria, em Braga, e mais tarde no Liceu Sá de Miranda, onde concluiu o ensino secundário, consolidando uma base sólida de saber e disciplina. O seu percurso académico culminou na Universidade de Coimbra, berço de gerações de intelectuais, onde aprofundou a formação que viria a sustentar a sua notável carreira profissional.
Como professora do Ministério da Educação, Maria Alice Brás marcou gerações de alunos pela competência, exigência e sensibilidade pedagógica. A sua missão ultrapassou fronteiras quando integrou o Ensino de Português no Estrangeiro, na Suíça, onde desempenhou um papel fundamental na divulgação da língua e da cultura portuguesas, sempre com elevado profissionalismo, reconhecimento e sucesso.
Hoje, vivendo em Lisboa, Maria Alice Brás é exemplo de uma vida plena, construída com trabalho, saber e dedicação ao serviço público. A sua história honra Bucos, engrandece a família Brás, e permanece como inspiração para todos os que acreditam que ensinar é também um ato de amor e de responsabilidade social.
Aos 80 anos, prestamos-lhe uma sentida homenagem, com gratidão, respeito e admiração, desejando que continue a ser presença luminosa, guardiã da memória e referência de dignidade intelectual.
O seu legado permanece vivo. Parabéns!
sábado, 20 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima e as Férias do Menino Miguel
Na Casa de Sanoane de Cima, o verão tem um ritmo próprio, feito de sol, risos soltos e memórias que ficam para sempre. É ali que o menino Miguel passa parte das suas férias grandes, entre a serra e o vale, num tempo simples e feliz.
Depois do café da manhã, ainda com o cheiro do pão quente no ar, o avô do Miguel começa os preparativos. Com a calma de quem sabe o valor desses momentos, prepara a eira: abre o guarda-sol, coloca a espreguiçadeira, as cadeiras alinhadas à sombra, separa as boias e as abraçadeiras. A piscina, já cheia de água fresca e limpa, espera pelo mergulho do neto.
Miguel desce cheio de entusiasmo. Corre, mergulha, chapinha, brinca sem medo, inventa jogos com a água a brilhar ao sol. Os pais acompanham-no, sempre atentos, partilhando sorrisos e conversas tranquilas, enquanto o avô observa com orgulho aquele verão vivido em família.
Depois do almoço, quando o calor abranda e a tarde se estende lentamente, tudo se repete. A eira volta a encher-se de vida, a piscina de gargalhadas, e o tempo parece parar. Assim são as férias de verão do menino Miguel na Casa de Sanoane de Cima: feitas de cuidado, alegria e laços familiares que se fortalecem dia após dia.
A Casa de Sanoane de Cima e a Passagem do Ano
Na Casa de Sanoane de Cima, a passagem do ano é mais do que uma mudança no calendário: é um momento de encontro, de memória e de esperança renovada. As paredes antigas, carregadas de história, acolhem a família Braz e os amigos que chegam para celebrar juntos, como se todos fossem parte de uma mesma corrente viva.
Nesta data, há festa. A música ecoa pela sala, os foguetes rasgam o céu da noite e anunciam que um novo ano começa. O convívio é simples e verdadeiro, feito de risos, abraços, partilhas e mesas cheias de alimento que aquece o corpo e a alma. Cada gesto reforça a união, cada palavra aproxima.
No meio dessa alegria coletiva está o menino Lourenço, símbolo do futuro e da continuidade. O seu olhar curioso e a sua presença luminosa dão sentido especial à celebração, lembrando a todos que a vida segue, renova-se e encontra força na família e na amizade.
Assim, todos se unem numa só torrente de sentimentos: união, momento, alimento e convívio. Na Casa de Sanoane de Cima, a passagem do ano transforma-se num rito de comunhão, onde o passado encontra o presente e abre caminho para o amanhã
O meu passeio matinal
Nesta fase da vida, durmo cerca de seis horas seguidas. Hoje levantei-me às quatro e meia da manhã. Por volta das cinco, começaram a ouvir-se os primeiros sinais do despertar da natureza: os passarinhos iniciavam os seus cantos, enquanto os mosquitos também acordavam, prontos a incomodar. Era a hora de tomar o medicamento do estômago.
Logo cedo, o sabiá-cinzento veio fazer as suas cantigas. Pouco depois, partiu à procura de alimento na grama e seguiu para o quintal, remexendo as folhas caídas. Entretanto, os insetos e algumas borboletas da noite iniciavam o voo de regresso, abandonando as paredes para onde tinham sido atraídos pela luz exterior da casa durante a noite.
Mais um copo de água para ajudar o corpo a despertar. Depois, um pouco de repelente para afastar os mosquitos. Dou alguns passos para trás e para a frente, faço movimentos com as pernas e os braços para libertar os músculos e preparar o corpo. Por volta das seis horas, o sol começa a despontar. Os primeiros raios surgem, se as nuvens o permitirem. O canto da gralha ecoa ao longe, marcando presença e território.
Dentro de casa, prepara-se o pequeno-almoço: pão com manteiga, café com leite e mais alguns medicamentos. Pelas sete horas inicia-se o passeio matinal. O telemóvel na mão, os ténis nos pés, o chapéu do Vasco, a camisola da cervejaria. Caminho num ritmo mais acelerado, com algumas paragens para gravar pequenos vídeos dos passarinhos que brincam ou procuram alimento na rua, nas árvores e nas praças ao redor.
No regresso, um banho revigorante e depois a preparação de uma pequena saída, ou então um jogo no computador. Em seguida, trato dos alimentos para o almoço, dando continuidade ao dia, já com o corpo e a alma despertos.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima e a Voz da Cabreira
A Casa de Sanoane de Cima e a Voz da Serra
Na Serra da Cabreira, onde a terra se abre em rechãs e o tempo caminha devagar, ergue-se a Casa de Sanoane de Cima. Feita de pedra antiga e mãos trabalhadoras, esta casa não foi apenas construída: foi vivida.
À sua frente, na rechã, está o cruzeiro de Sanoane. Há muitos anos que ali permanece, firme e silencioso, a abençoar os caminhos e a guardar quem chega e quem parte. Diz-se que, quando a neblina desce da serra, o cruzeiro é o primeiro a acordar e o último a adormecer.
Poucos passos abaixo da casa corre a fonte de água cristalina. Água boa, vinda do coração da serra, que durante anos matou a sede, lavou rostos cansados e refrescou os verões. A fonte conhece todos os segredos do lugar, porque a água nunca esquece.
Ao lado da casa cresce a figueira centenária, de copa larga e sombra generosa. Viu crianças brincar, ouviu conversas ao fim da tarde e ofereceu figos doces a quem soube esperar pelo tempo certo. As suas raízes profundas ligam a casa à terra, como se fossem laços de família.
A Casa de Sanoane de Cima escuta tudo. Escuta o vento da serra, o murmúrio da fonte, o silêncio do cruzeiro e o sussurrar da figueira. Não fala, mas guarda. Guarda passos antigos, risos recentes e a certeza de que ali o tempo não se perdeu — apenas ficou.
E assim permanece, simples e inteira, como um lugar onde a serra entra pela porta, a água corre pela memória, a árvore protege o pátio e o cruzeiro vela pelo futuro.
A Casa de Sanoane de Cima e o Menino Miguel
Lá no baixo da Serra da Cabreira, onde as nuvens passam devagar e o vento sabe contar histórias antigas, existe uma casa muito especial: a Casa de Sanoane de Cima.
É uma casa de pedra, firme e tranquila, que já viu muitos verões e invernos. De manhã cedo, o sol entra pelas janelas como quem pede licença, e à tarde a casa escuta o canto dos pássaros e o murmúrio da serra.
Ali vive o menino Miguel.
Miguel gosta de acordar cedo para correr pelos caminhos, falar com as árvores e ouvir os segredos da casa. Ele diz que a Casa de Sanoane de Cima não é apenas uma casa: é uma guardiã da serra. As paredes guardam risos antigos, a figueira dá sombra generosa, e a fonte oferece água fresca, clara como cristal.
Um dia, Miguel perguntou à casa:
— Casa antiga, o que tu sabes da serra?
A casa estalou de leve, como se sorrisse, e o vento trouxe a resposta:
— Sei das cabras que sobem os caminhos, dos pastores que cantam ao entardecer, das estrelas que iluminam as noites frias. Sei de tudo aquilo que respeita a terra.
Desde esse dia, Miguel passou a cuidar ainda mais de tudo à sua volta. Não arrancava flores sem pedir, não sujava a água da fonte, e falava baixinho com as pedras do caminho.
Quando o verão chegava, Miguel brincava à sombra da casa, imaginando que era um explorador da Serra da Cabreira. No inverno, encostava-se às paredes grossas, sentindo o calor da história que ali morava.
E assim, entre brincadeiras, silêncio e descobertas, a Casa de Sanoane de Cima e o menino Miguel tornaram-se amigos inseparáveis.
A casa protegia Miguel.
E Miguel prometia, todos os dias, proteger a casa e a serra.
Porque quem cresce junto da serra aprende cedo uma coisa importante:
a terra cuida de nós, quando nós cuidamos dela
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
O tanque da Casa de Sanoane de Cima e o Miguel
No verão, quando o sol aquecia a Rechã e as tardes pareciam não ter fim, o lugar preferido do Miguel era o tanque da Casa de Sanoane de Cima.
A água vinha da fonte, sempre fresca e cristalina, correndo mansinha até encher o tanque. O Miguel dizia que aquela água tinha segredo: brilhava como vidro e fazia cócegas nos pés.
Com as braçadeiras bem colocadas e as boias coloridas à volta da cintura, o Miguel entrava na água sem medo. Primeiro devagar, depois com risadas, até começar os mergulhos pequenos, daqueles que fazem plash! e espalham gotinhas pelo ar.
Mas o verão também pedia brincadeira. As pistolas de água apareciam, e o tanque transformava-se num mar de aventuras. O Miguel disparava jatos brilhantes, ria alto, escondia-se atrás da boia e voltava a atacar, sempre em festa.
Quando o sol começava a baixar, o Miguel saía do tanque cansado e feliz. Sentava-se à beira, deixava os pés na água fria e escutava o murmúrio da fonte, como se ela lhe contasse histórias antigas.
E assim, verão após verão, o tanque da Casa de Sanoane de Cima guardava risos, mergulhos e a alegria simples do Miguel — um passatempo que ficava para sempre na memória, tão claro e puro como a sua água.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Mensagem de Natal da Casa de Sanoane de Cima
Nesta quadra festiva de Natal, deixo o meu sincero agradecimento a todos os que, com trabalho, disponibilidade e espírito de colaboração, têm contribuído para a Casa de Sanoane de Cima.
Cada gesto, cada presença e cada ajuda prestada reforçam o valor desta Casa, feito de memória, cuidado e partilha. É graças a esse empenho conjunto que a casa se mantém viva, acolhedora e fiel à sua história.
Com reconhecimento, estima e gratidão,
desejo a todos um Natal feliz e um Ano Novo de paz, esperança e prosperidade.
O Menino Miguel e a Figueira Centenária
Na Casa de Sanoane de Cima existe uma figueira muito, muito antiga. Dizem que já lá estava antes dos avós dos avós nascerem. E uma figueira centenária, de tronco largo e forte, com numerosos ramos que se abriam no ar como braços gigantes a dar abraços.
O menino Miguel gostava especialmente daquela árvore. Nos dias quentes de verão, sentava-se à sua sombra fresca, onde o sol entrava aos bocadinhos, a brincar às escondidas entre as grandes folhas e verdes.
— Bom dia, minha figueira — disse Miguel, com voz baixinha.
E a figueira, se alguém prestasse muita atenção, parecia responder com o suave farfalhar das folhas.
Todos os anos, a figueira enchia-se de figos brancos, doces e cheirosos. Miguel esperava com paciência até serem maduros. Sabia que os melhores eram os que se escondiam entre os ramos mais altos, onde os pássaros também iam espreitar.
— Estes são tesouros! — dizia ele, com os dedos colados de sumô doce.
Uma figueira divertida de ver o menino crescer. Vira-o dar os primeiros passos, cair e levantar-se, correr à volta do tronco e inventar histórias com os seus ramos, que ora eram castelos, ora navios, ora caminhos mágicos.
Num certo dia, Miguel abraçou o tronco rugoso e prometeu:
— Quando eu for grande, vou cuidar sempre de ti.
A figueira ficou contente. Continuou a dar sombra, figos brancos e memórias à Casa de Sanoane de Cima, sabendo que, enquanto havia filhos como Miguel, nunca seria esquecida.
E assim, entre ramos frondosos e figos doces, cresceu uma amizade feita de tempo, carinho e natureza — daquelas que duram para sempre.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
A Fonte da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Miguel
Em frente à Casa de Sanoane de Cima havia, e ainda há, uma fonte de água fresca e cantarina. A água era tão clara que parecia feita de vidro, e diziam os mais velhos que era “água boa”, daquelas que matam a sede e refrescam a alma, mesmo não sendo controlada por máquinas nem por tubos
modernos
Antigamente, ao lado da fonte, existia um tanque em pedra com lavadouro. As mulheres da aldeia iam lá lavar a roupa, batendo os lençóis na pedra lisa, enquanto conversavam e riam. A água vinha da poça do Souto, correndo livre pelos caminhos da terra, trazendo o cheiro das folhas e o murmúrio da floresta.
O pequeno Miguel gostava de sentar-se no muro baixo da fonte e observar tudo. Via a água a cair, ouvia as histórias antigas e molhava as mãos, imaginando que aquela fonte era mágica. Às vezes, fingia que era um explorador e que a água vinha de um reino escondido debaixo da terra.
Com o passar dos anos, as coisas mudaram. A água passou a vir do nascente do Silvaredo. Os habitantes do lugar juntaram-se e, com esforço e união, encanaram a água para que chegasse limpa e segura à fonte. Já não havia o tanque de lavadouro, mas a fonte continuava ali, firme, guardando a memória do passado.
Miguel, agora um pouco maior, continua a visitar a fonte. Bebia da água fresca e lembrava-se das histórias que ouvira em criança. Para ele, aquela fonte não era apenas água: era amizade, trabalho em conjunto e amor pela terra.
E assim, todos os dias, a fonte da Casa de Sanoane de Cima continua a correr, ligando o ontem e o hoje, enquanto o menino Miguel aprendia que a água, tal como as histórias, deve ser cuidada para nunca deixar de correr.
O Lagar da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Miguel
Na Casa de Sanoane de Cima existe um lagar de uvas, largo e fundo, feito de pedra antiga.
Todos os outonos, o lagar acordava com gargalhadas, pés descalços e uvas maduras a estalar de alegria.
O menino Miguel adorava aquele lugar. Dizia que o lagar tinha cheiro de festa e de segredo.
Quando ninguém via, Miguel sentava-se na beira da pedra e ficava a ouvir o silêncio, que ali nunca era vazio.
— Lagar, está acordado?
— perguntou ele.
O lagar não falava, mas lembrava.
Lembrava-se das vindimas, dos cestos cheios, das mãos roxas de sumô, das cantigas que subiam mais alto do que os muros.
Miguel gostava de imaginar as uvas para conversar entre si.
— Aperta devagar — dizem elas —, queremos virar vinho bom!
Nos seus sonhos, o lagar enchia-se de gente outra vez. Os pés dançavam, o mosto corria vermelho e doce, e a casa inteira parecia sorrir.
Um dia, Miguel disse:
— E agora, para que serve?
O lagar sentiu o sol aquecendo a pedra e respondeu sem palavras: servia para ensinar.
Ensinava que o tempo transforma, que da uva simples nasce algo forte e generoso, e que as festas da aldeia moram na memória.
Miguel passou a mão pela pedra lisa e prometeu:
— Vou guardar tudo isto comigo.
Desde então, sempre que o vento passa pela Casa de Sanoane de Cima, parece trazer um cheiro leve ao vinho novo e a certeza de que, enquanto houver um menino como o Miguel, o lagar de uvas nunca ficará vazio.
Casa de Sanoane de Cima
Casa antiga, de pedra e silêncio,
onde o tempo abranda os passos.
As paredes guardam vozes
de quem ficou e de quem partiu.
No canastro, o milho dorme a memória,
grão a grão, histórias de colheita e pão,
mãos calejadas, dias longos,
o sustento feito de esperança.
O cruzeiro ergue-se firme na rechã,
vigia caminhos, vitórias e promessas,
A cruz de fé, de sombra breve,
marco de encontros e despedidas.
A figueira abre o seu abraço largo,
folhas como mãos protetoras,
frutos doces de verão,
infância colhida ao correr dos dias.
E a fonte canta baixinho, sem pressa,
água clara a lavar cansaços,
espelho do céu e da serra,
vida a nascer da pedra fria.
domingo, 14 de dezembro de 2025
História do Ecomuseu Familiar da Casa de Sanoane de Cima
Chamo-me Manuel e cresci na Casa de Sanoane de Cima. Quando era pequeno, achava que a casa falava comigo, mesmo sem mexer os lábios. Hoje sei que não era imaginação: era a memória a chamar.
Lembro-me bem do dia em que tudo começou. Estava sentado à sombra da figueira grande, aquela que sempre deu mais sombra do que parece possível. Enquanto comia um figo maduro, reparei nas marcas do tempo no tronco e pensei que aquela árvore tinha visto muito mais do que eu. Tinha visto crianças a crescer, gente a partir, gente a voltar.
Fui então até ao forno antigo. O Lourenço estava lá, a passar a mão pelas pedras negras do fumo. Disse-me que aquele forno já tinha alimentado meia aldeia. Imaginei o pão a sair quente, as mulheres a conversar, os risos e até o cansaço dos dias longos. O forno não era só pedra: era cuidado e partilha.
Seguimos depois para o cruzeiro. O José estava parado a olhar os caminhos, como se escolhesse qual seguir. Disse-nos que por ali passavam todos: para a missa, para as malhadas, para as festas e para a vida. Percebi que os caminhos guardam passos, mesmo quando já ninguém os vê.
Nos pomares encontrei o Miguel, que contava as árvores uma a uma. Cada colheita tinha uma história, cada ano ensinava a esperar. Aprendi ali que a terra não promete pressa, mas recompensa quem respeita o seu tempo.
Quando o calor apertou, apareceu o Daniel, com um guarda-sol e brinquedos de água improvisados. Ríamos muito. Foi aí que percebi que a alegria também faz parte da memória, e que um lugar sem risos fica incompleto.
Nesse dia entendemos todos a mesma coisa, mesmo sem dizer em voz alta: nada daquilo podia ser esquecido. A casa, o forno, a eira, as árvores, a água, os caminhos — tudo tinha valor porque tinha vida.
Foi assim que nasceu a ideia do Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima. Não como um museu fechado, mas como um lugar onde as histórias continuam a acontecer. Um espaço onde os mais velhos ensinam, as crianças perguntam e quem chega escuta.
Hoje, quando volto e caminho devagar, sinto que continuo a fazer parte de tudo. E sei que, enquanto alguém escutar com atenção, a Casa de Sanoane de Cima nunca deixará de contar a sua história.
Projeto de Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima
1. Enquadramento e Visão
A Casa de Sanoane de Cima, situada na freguesia de Bucos, insere‑se num território rural de forte identidade histórica, agrícola e comunitária. O projeto de Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima pretende valorizar o património material e imaterial local, preservando memórias, saberes e práticas tradicionais, ao mesmo tempo que cria um espaço vivo de cultura, património e desenvolvimento sustentável.
O ecomuseu não será apenas um edifício expositivo, mas um território vivido, onde a casa, os campos, os caminhos, as árvores, os fornos, as eiras e as histórias das pessoas formam um conjunto inseparável.
2. Objetivos Gerais
Preservar e valorizar o património rural, agrícola e arquitetónico da Casa de Sanoane de Cima.
Recolher, salvaguardar e divulgar a memória oral da aldeia e das suas gentes.
Incentivar o turismo cultural e de natureza, de forma sustentável.
Criar um polo de identidade local e orgulho comunitário.
3. Conceito de Ecomuseu
O ecomuseu assenta em três pilares fundamentais:
O Lugar – a casa, os anexos agrícolas, os campos, as árvores (figueira, nogueira, macieira, videira, pessegueiro), a eira, o forno e os caminhos envolventes.
As Pessoas – moradores, antigos trabalhadores rurais, crianças, visitantes, investigadores e voluntários.
A Memória Viva – histórias, lendas, práticas agrícolas, festas, brincadeiras de infância, gastronomia e saber‑fazer tradicional.
História Fundadora do Ecomuseu
Diz‑se na Casa de Sanoane de Cima que as histórias não moram nos livros, mas nas pedras, nas árvores e nos caminhos. Durante muitos anos, tudo ali viveu em silêncio atento, à espera que alguém escutasse.
Foi numa tarde de verão que o menino Miguel, brincando à sombra da figueira antiga, perguntou por que razão aquela árvore parecia conhecer tantos segredos. A figueira não respondeu com palavras, mas deixou cair um fruto maduro, como quem diz: escuta.
Miguel correu então até ao forno velho, onde encontrou o menino Lourenço, a passar a mão pelas pedras gastas pelo tempo. O forno parecia adormecido, mas ainda guardava o calor de centenas de fornadas, as vozes das mulheres a amassar o pão e as conversas demoradas à espera da cozedura.
Mais adiante, junto ao cruzeiro da rechã, estava o menino José, seguindo com os olhos os caminhos que se cruzavam. Ali tinham passado gerações: para a missa, para as malhadas, para as festas e para a vida. Cada passo deixara uma memória invisível.
Nos pomares, o menino Manuel contava as árvores como quem conta histórias. Cada macieira, cada nogueira, cada videira tinha visto crescer crianças, colheitas e anos bons e maus. A terra ensinara‑lhes a esperar.
E quando o calor apertava, o menino Daniel abria o guarda‑sol e inventava brinquedos de água, lembrando que a alegria também faz parte da memória de um lugar.
Foi então que os meninos perceberam que tudo aquilo — a casa, o forno, a eira, as árvores, a água e os caminhos — não podia ficar esquecido. Não era apenas passado: era vida ainda presente.
Decidiram, sem o saber, criar um ecomuseu. Um museu sem paredes fechadas, onde cada canto contasse uma história, onde os mais velhos ensinassem e as crianças perguntassem. Um lugar onde a memória não ficasse guardada, mas fosse partilhada.
Assim nasceu o Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima: do olhar curioso das crianças, do silêncio cheio de sentido das coisas antigas e da vontade de não deixar perder aquilo que fez a aldeia ser casa.
E dizem que, ainda hoje, quem entra devagar e com atenção, consegue ouvir risos de meninos misturados com o som do vento nas árvores — sinal de que a memória continua viva.
O Forno da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Lourenço
Na Casa de Sanoane de Cima existe um forno antigo de pão, feito de pedra grossa e boca larga, escurecido pelo fumo de muitos anos. Durante gerações, aquele forno acordara madrugadas, aquecera invernos e enchera a casa do cheiro bom do pão acabado de cozer.
O menino Lourenço gostava de se sentar perto do forno e ouvir as histórias que os mais velhos contavam. Diziam que ali dentro tinham entrado milhares de broas de milho e centeio, feitas com mãos cansadas mas felizes. O forno era paciente, guardava o calor e devolvia alimento.
— Este forno já trabalhou mais do que muita gente — dizia o avô, sorrindo.
Lourenço imaginava o forno vivo. Via as chamas a dançar lá dentro, ouvia o crepitar da lenha e sentia que o forno respirava, como um velho sábio da casa.
Com o passar dos anos, o forno deixou de cozer pão. As mãos mudaram, os tempos também. Mas o forno ficou. Hoje, na Casa de Sanoane de Cima, ele é um ornamento do ecomuseu da casa, limpo, cuidado, respeitado.
Lourenço leva os amigos até ele e explica, com orgulho:
— Aqui cozia-se o pão da família e, às vezes, do vizinho também.
As pessoas escutam, tocam na pedra morna do passado e sorriem. Lourenço sabe que o forno já não tem fogo, mas tem memória. E isso é um calor que nunca se apaga.
Assim, o forno antigo continua a cumprir a sua missão: ensinar. Ensina que o pão não nasce nas prateleiras, que o trabalho une as pessoas e que a história também alimenta.
E sempre que Lourenço passa por ele, o velho forno parece sorrir, agradecido por ainda ser lembrado na Casa de Sanoane de Cima.
O Menino António e a Figueira da Casa de Sanoane de Cima
Na Casa de Sanoane de Cima, onde os muros de pedra guardavam histórias antigas e o sol se demorava a brincar com as sombras, vivia uma figueira grande e generosa. O seu tronco era grosso, retorcido pelo tempo, e as folhas largas pareciam mãos verdes sempre abertas.
Ali passava muitos dias o menino António, curioso e alegre, que gostava de ouvir os sons da aldeia: o cantar dos pássaros, o correr da água na ribeira e o vento a dançar nas folhas da figueira.
Certa manhã de verão, António aproximou-se da árvore e falou-lhe em segredo:
— Bom dia, minha figueira. Será que hoje tens histórias para me contar?
A figueira abanou suavemente os ramos, como se respondesse. António sentou-se à sua sombra fresca, sentindo o cheiro doce dos figos maduros. Cada figo parecia guardar um pequeno tesouro de sol.
Quando colhia um figo, António lembrava-se de dividir com quem passava: um para o vizinho cansado, outro para a criança que vinha do caminho, outro ainda para a mãe, que sorria ao ver o filho tão generoso. A figueira parecia ficar mais feliz a cada gesto de partilha.
Num dia de muito calor, um rebanho passou pela estrada e os animais pararam à sombra da figueira. António levou água fresca e ficou ali, protegido, como se a árvore fosse uma mãe grande a cuidar de todos.
Diziam os mais velhos que a figueira da Casa de Sanoane de Cima dava os figos mais doces porque sabia ouvir as crianças. E António acreditava nisso, pois sempre que estava triste, bastava encostar-se ao tronco e sentir o coração ficar leve.
Assim, o menino António cresceu, mas nunca esqueceu a figueira. E a figueira, paciente e sábia, continuou ali, ensinando a quem passava que a verdadeira riqueza nasce da sombra partilhada, do fruto dividido e do amor pela terra.
E ainda hoje, quem passa pela Casa de Sanoane de Cima diz que a figueira sorri quando uma criança se senta a brincar debaixo dos seus ramos.
sábado, 13 de dezembro de 2025
A Ameixoeira da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Manuel
Na Casa de Sanoane de Cima, na aldeia de Bucos, havia uma ameixoeira antiga, de tronco grosso e ramos generosos, que todos conheciam. Na primavera, vestia-se de flores brancas como pequenos flocos de neve, e no verão enchia-se de ameixas roxas e douradas, doces como o mel da serra.
O menino Manuel gostava muito daquela ameixoeira. Todos os dias, depois da escola, corria até ao quintal para lhe contar segredos. Sentava-se à sua sombra fresca e dizia-lhe como tinha sido o dia, as brincadeiras com os amigos e os sonhos que tinha para quando fosse grande. A ameixoeira parecia ouvir tudo, balançando suavemente os ramos ao sabor do vento, como se respondesse com carinho.
Certo ano, o verão veio mais quente e seco do que o costume. As fontes corriam mais fracas e as plantas pareciam cansadas. Manuel reparou que as folhas da ameixoeira estavam menos verdes. Preocupado, começou a trazer-lhe água todos os dias, num pequeno balde, mesmo que fosse pesado para as suas mãos de criança.
— Não te preocupes — dizia ele — eu cuido de ti, como tu cuidas de mim.
A ameixoeira, agradecida, guardou forças. Quando chegou o tempo da colheita, ofereceu mais ameixas do que nunca. Eram grandes, sumarentas, e tinham um brilho especial. Manuel colheu-as com cuidado e levou-as para casa, onde a família fez compotas e partilhou com os vizinhos, como sempre se fazia na aldeia.
Numa tarde tranquila, Manuel mordeu uma ameixa madura e sentiu um sabor diferente, mais doce, quase mágico. Nesse instante, percebeu que a ameixoeira lhe tinha ensinado algo importante: quem cuida, recebe; quem partilha, nunca fica pobre.
Desde então, sempre que passava pela Casa de Sanoane de Cima, Manuel parava junto da ameixoeira, agradecia-lhe em silêncio e sorria. E a árvore continuou ali, ano após ano, guardando memórias, histórias e a amizade sincera de um menino que aprendeu com a natureza a beleza de cuidar e partilhar.
Primavera de Bucos
Entre os socalcos verdes, o vento desliza como um sussurro desperto. O campo se veste de cores suaves, e as cerejeiras florescem em nuvens rosadas, espalhando perfume pelo ar. As ribeiras, com suas águas cristalinas, cantam baixinho, como risos de crianças correndo monte abaixo. Cada canto da aldeia parece acordar para um novo ciclo, e o tempo, aqui, respira no ritmo da natureza.
É na primavera que Bucos se revela no seu esplendor mais calmo e radiante. O ar tem o perfume de recomeço, macio e brilhante como o sol filtrado pelas giestas. As pessoas saem de casa, como que atraídas pela luz que inunda os campos, e tudo ao redor reflete a renovação que a estação traz.
Os socalcos que definem a paisagem de Bucos — verdadeiros labirintos verdes — tornam-se o cenário perfeito para os pequenos gestos da vida rural. As flores nascem nos cantos mais inesperados, e a terra, cultivada com tanto cuidado, parece agradecer o toque da estação. Quem passa por ali, seja morador ou visitante, sente o abraço suave da primavera, como uma promessa de crescimento e continuidade.
Na aldeia, as conversas giram em torno das colheitas que estão por vir. As mulheres, com os cestos ao braço, já falam sobre o tempo da apanha da cereja, as frutas vermelhas que dominam os campos e que logo estarão prontas para enfeitar as mesas e as festas de verão. A vida é feita de pequenos ciclos, e em Bucos, cada um deles é celebrado com a mesma intensidade, como um ritual de união entre a terra e as pessoas.
O Pessegueiro da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Miguel
Era uma vez, numa aldeia tranquila, um pessegueiro que crescia no quintal de uma casa rural Sanoane de Cima e encantada. Esse pessegueiro não era qualquer árvore. Diziam que ele tinha um segredo especial, algo que o tornava diferente de todos os outros. As pessoas da aldeia chamavam-no de "O Pessegueiro Mágico".
Naquela casa morava o menino Miguel. Ele era um garoto curioso e alegre, que adorava explorar os cantos da natureza ao redor de sua casa. Miguel já ouvira muitas histórias sobre o pessegueiro, mas sempre achava que eram apenas lendas contadas pelos mais velhos. Até que um dia, decidiu investigar por conta própria.
Certo fim de tarde, quando o sol já estava se pondo e a brisa fresca da noite começava a chegar, Miguel resolveu que era hora de descobrir o que havia de tão especial naquela árvore. Ele se aproximou do pessegueiro, que estava cheio de frutos dourados e rosados. Quando tocou o tronco da árvore, algo mágico aconteceu.
"Olá, Miguel!" disse uma voz suave, como o som do vento entre as folhas.
Miguel pulou para trás, assustado. "Quem... quem está falando?"
"Sou eu, o pessegueiro!" respondeu a árvore com uma risada suave. "Não tenha medo, meu amigo. Venha mais perto. Eu sou velho e tenho muitos segredos. Mas, para contar, preciso de sua ajuda."
Miguel não acreditava no que estava ouvindo. Um pessegueiro conversando com ele? "Você está falando sério?" perguntou, com os olhos arregalados.
"Sim, estou", disse o pessegueiro. "Eu fui plantado aqui há muitos anos por seus avós, e desde então tenho cuidado da terra, da casa e de todos que moram aqui. Eu sou parte da família Sanoane de Cima. Mas agora, preciso de um amigo para ajudar a proteger minha magia."
Miguel ficou mais curioso. "Como eu posso ajudar?"
"Bem", disse o pessegueiro, "minha magia vem da união entre a natureza e as pessoas. Eu sou a árvore mais forte da aldeia, mas preciso que você cuide de mim e das minhas frutas. Quando alguém come um dos meus pêssegos, algo de bom acontece. Eles ficam mais alegres, mais generosos. Mas, se alguém pegar um pêssego sem pedir, a magia vai embora e a árvore começará a murchar."
Miguel sentiu um calor no peito. "Então, os pêssegos são mágicos?"
"Sim", respondeu o pessegueiro. "Mas eles só têm magia quando são colhidos com amor e respeito pela natureza. Você pode escolher um pêssego, mas sempre com cuidado e gratidão."
Miguel pensou por um momento e, com um sorriso, pegou um pêssego da árvore. Ele segurou o fruto com cuidado e olhou para o pessegueiro. "Eu prometo cuidar de você", disse Miguel.
A árvore se balançou suavemente, como se estivesse sorrindo. "Muito bem, meu amigo. Agora, você verá o poder da amizade entre a natureza e o coração humano."
No dia seguinte, quando Miguel levou o pêssego para sua avó, ela ficou surpresa com a doçura e a energia que o envolvia. "Onde você encontrou este pêssego, Miguel?" perguntou ela, sorrindo.
"Foi o pessegueiro da casa", respondeu Miguel, com um brilho nos olhos. "Ele me contou um segredo."
A partir daquele dia, Miguel passou a cuidar do pessegueiro todos os dias, regando suas raízes e garantindo que ninguém pegasse os pêssegos sem pedir permissão. Ele sabia que aquela árvore era mais do que uma simples planta. Ela era uma amiga mágica, cheia de segredos e histórias para contar.
E assim, a magia do pessegueiro de Sanoane de Cima continuou a florescer, espalhando alegria, bondade e magia por toda a aldeia, graças ao cuidado e respeito do menino Miguel.
Fim.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
A Rechã de Sanoane
Na rechã de Sanoane, o tempo abranda,
sobre a terra aberta ao céu antigo,
ergue-se o cruzeiro, guardião de silêncios,
cruz de pedra onde a fé repousa e vigia.
Ali, os passos antigos deixaram sinais,
vozes de outrora misturam-se ao vento,
rezas baixas, promessas simples,
a sombra do cruzeiro alonga-se na tarde.
A Casa de Sanoane de Cima observa,
de janelas abertas ao vale e à memória,
paredes que guardam risos, lutos e esperança,
coração de pedra onde a vida sempre voltou.
Entre a casa e o cruzeiro corre a história,
feita de encontros, partidas e regresso,
terra partilhada, chão de comunidade,
onde cada pedra sabe o nome de quem passou.
E quando o sol se deita por trás dos montes,
a rechã fica em silêncio dourado,
como se o lugar inteiro rezasse baixinho,
agradecendo o dia, guardando o amanhã.
O Verão do Menino Daniel na Casa de Sanoane de Cima
Era verão na Casa de Sanoane de Cima, e o sol parecia gostar tanto dali que se demorava horas a brilhar sobre os vales. As tardes estendiam-se douradas, como um grande cobertor de luz, e o menino Daniel acordava todos os dias com um sorriso, pronto para novas aventuras.
Daniel adorava correr pelas eiras, onde o calor dançava sobre as pedras como se fossem pequenas miragens. O canto dos grilos vinha das clareiras, um concerto que parecia feito só para ele. Sempre que o ouvia, Daniel imaginava que os grilos eram músicos escondidos no meio da erva, tocando violinos minúsculos.
Ao lado da casa, os pinheiros balançavam lentamente com o vento quente. Daniel achava que eles estavam a acenar-lhe, como amigos gigantes que o acompanhavam em silêncio. Quando o vento soprava mais forte, as sombras dos pinheiros moviam-se no chão e Daniel corria para tentar pisá-las antes que fugissem.
Mas o que Daniel mais gostava era dos tanques de água nas eiras. A água era tão fresca que parecia feita de pedacinhos de nuvem. Ele metia os pés, chapinhava, ria, e às vezes via o seu reflexo ondulado, como se fosse um peixe mágico prestes a saltar.
Num desses dias de calor, Daniel decidiu seguir o som da água que corria desde a fonte. Caminhou pelas estradas de paralelo, sentindo o cheiro das pedras quentes e o murmúrio fresco da nascente. Quando chegou à fonte, encontrou uma libélula azul pousada na borda. Era tão brilhante que parecia feita de vidro.
— Olá, pequena estrela das asas — disse Daniel.
A libélula levantou voo e, para surpresa do menino, começou a rodopiar à sua volta. Daniel seguiu-a por entre os fetos e as flores silvestres, até chegar a um recanto que nunca tinha visto: um pequeno poço de água tão límpida que o céu parecia ali morar.
A libélula pousou numa pedra e Daniel percebeu que aquele era um lugar especial, um segredo da serra guardado só para quem soubesse escutar o verão.
Ele sentou-se, mergulhou as mãos na água fresca e prometeu voltar todos os verões, para reencontrar a natureza, os grilos músicos, os pinheiros gigantes e, claro, a sua amiga libélula.
Desde então, para o menino Daniel, o verão na Casa de Sanoane de Cima nunca mais foi igual — tornou-se uma estação mágica, cheia de aventuras e pequenos tesouros escondidos.
A Videira Encantada de Sanoane de Cima e o Menino Pedro
Na freguesia de Bucos, havia uma casa muito antiga chamada Casa de Sanoane de Cima, e junto dela crescia uma videira tão grande e tão frondosa que todos na aldeia a conheciam.
Diziam até que era a Rainha das Videiras da Serra da Cabreira.
A videira era tão enorme que, com o passar dos anos, se estendeu com graça sobre o caminho público e abriu os braços verdes até à rechã do cruzeiro e ao muro da casa. Os seus ramos faziam uma sombra fresca, boa para descansar no verão.
Debaixo dela ficava o lavadouro, onde as mulheres iam lavar a roupa cantando. A sombra da videira protegia-as do sol, e as folhas murmuravam histórias ao vento.
Até os animais, quando iam beber água ao tanque, paravam um instante, como se escutassem a voz suave da videira.
E quem mais adorava aquele lugar era o menino Pedro.
Pedro passava ali muitas tardes. Assim que as primeiras uvas amadureciam, ele chegava devagarinho, estendia a mão e colhia um cacho. As uvas eram doces, brilhantes como pequenas jóias, e ele dizia muitas vezes:
— São as melhores uvas do mundo!
Mas Pedro não era o único admirador. As crianças que passavam pelo caminho paravam sempre para provar um bago, felizes com aquele presente da natureza.
A videira gostava disso. Sentia-se útil, importante, parte viva da aldeia. E quando chegava o tempo das vindimas, os adultos colhiam as uvas com respeito e alegria.
Depois, lá na adega, nascia um vinho saboroso, que enchia a Casa de Sanoane de Cima com o cheiro suave do outono.
Certa tarde, enquanto Pedro descansava à sombra da videira, ouviu um sussurro leve, como se as folhas falassem:
— Obrigado, Pedro. Tu e todos os que aqui passam dão-me vida. Sem vocês, eu não seria esta videira feliz que sou.
Pedro sorriu, porque no fundo acreditava que as plantas tinham alma — e aquela videira, com certeza, tinha uma grande.
Desde então, sempre que alguém passava pelo caminho público, pela rechã do cruzeiro ou pelo lavadouro, lembrava-se da velha videira amiga, que dava sombra, acolhia pessoas, refrescava animais, oferecia uvas doces às crianças e vinho delicioso aos adultos.
E o menino Pedro cresceu com a certeza de que aquela videira fazia parte da história da sua vida — e da própria magia de Bucos.
A Macieira da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Lourenço
Na aldeia serrana de Bucos, destacava-se a macieira da casa de Sanoane de Cima, conhecida pelas suas belas maçãs. Diariamente, o menino Lourenço visitava a árvore para colher e saborear um fruto. Era com genuíno prazer que ele observava o ciclo das maçãs, estação após estação. O ritual simples tornou-se uma constante feliz na sua infância. Com o passar dos anos, a macieira foi envelhecendo, tal como Lourenço, que crescia. A árvore testemunhou silenciosamente a passagem do tempo, mantendo-se como um marco afetivo na paisagem e na memória do menino Lourenço.
A Nogueira da Casa de Sanoane de Cima e o Miguel
A Nogueira da Casa de Sanoane de Cima e o Miguel
Na aldeia serena de Bucos, havia uma casa antiga com um quintal mágico, onde se erguia uma grande nogueira. Era tão alta que parecia tocar o céu, e tão antiga que muitos diziam que já existia quando os avós dos avós eram crianças.
O Miguel, um menino curioso e cheio de imaginação, adorava brincar debaixo daquela árvore. Para ele, a nogueira era mais do que apenas uma árvore: era uma amiga que sabia ouvir, guardar segredos e contar histórias ao vento.
Todas as manhãs, Miguel ia ter com ela.
— Bom dia, Dona Nogueira! — cumprimentava, levantando a cabeça para ver as folhas dançarem ao sol.
A nogueira, com o seu tronco largo e rugoso, respondia sempre da mesma forma: com um suave balançar de ramos, como quem diz “Bom dia, Miguel”.
O Segredo da Nogueira
Um dia, enquanto Miguel brincava com uma casca de noz caída no chão, ouviu um sussurro leve, quase como um sibilo do vento:
— Miguel… Miguel…
Assustado, olhou à volta, mas não havia ninguém. O sussurro voltou:
— Sou eu, a Nogueira… Quero mostrar-te uma coisa.
Miguel aproximou-se do tronco e pousou a mão. Num instante, sentiu o chão a brilhar sob os pés, e uma pequena porta de madeira surgiu na base da árvore.
— Entra, disse a voz suave.
O coração do Miguel batia depressa, mas a curiosidade era maior que o medo. Ele empurrou a portinha e entrou num mundo secreto, cheio de luz dourada e cheirinho a folhas frescas.
Lá dentro, viviam pequenos duendes das nozes, criaturas alegres com barbas feitas de fios de casca e chapéus verdes. Eles guardavam o segredo da árvore: um tesouro de memórias.
O Tesouro das Memórias
O chefe dos duendes, chamado Nozico, aproximou-se:
— Miguel, esta nogueira guarda as memórias das famílias que viveram na Casa de Sanoane de Cima. Cada noz é uma recordação, uma história, um riso, uma alegria!
Mostrou-lhe uma noz brilhante. Quando a abriu, Miguel viu como num filme: crianças a brincar, festas no quintal, merendas de verão à sombra da nogueira. Era como se o tempo voltasse atrás.
— A tua família também faz parte destas memórias, disse Nozico. — E agora tu, Miguel, és o guardião deste lugar.
A Promessa do Miguel
Miguel sorriu, cheio de orgulho. Prometeu que iria cuidar da nogueira, dos duendes e das histórias guardadas.
Quando saiu pela portinha mágica, ela desapareceu, deixando apenas o tronco forte e silencioso.
A nogueira voltou a falar:
— Sempre que precisares, Miguel, estarei aqui. Basta ouvires o vento.
E assim, todos os dias, Miguel continuou a visitar a sua amiga. Agora sabia que, para além da sombra e das nozes, aquela árvore escondia um mundo inteiro — um mundo que só existe para quem acredita na magia das coisas simples.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Homenagem a Antônio Santos Touça
Homenagem a Antônio Santos Touça
Neste momento de profunda tristeza, venho prestar nossa homenagem a Antônio Santos Touça, um homem íntegro que marcou a vida de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Sua partida deixa um vazio imenso, mas também nos oferece a oportunidade de refletir sobre a rica trajetória que construiu e os ensinamentos que nos deixaram.
Antônio era um exemplo de honestidade, sempre pautando suas ações por valores que inspiravam aqueles ao seu redor. Sua integridade não era apenas uma característica, mas sim uma forma de vida. Ele declarou que, em um mundo muitas vezes desafiador, é possível permanecer fiel a si mesmo e aos seus princípios. Essa firmeza moral o destacava em qualquer ambiente, seja no âmbito profissional, familiar ou social.
Além, Antônio era um homem do povo, sempre disposto a ajudar quem precisasse. Sua generosidade e empatia foram traços marcantes de sua personalidade, e sua presença sempre transmite um sentimento de acolhimento e respeito. Ele acreditava no poder da comunidade e investia seu tempo e energia para tornar o mundo ao seu redor um lugar melhor, seja por meio de ações voluntárias ou oferecendo um ombro amigo.
Com sua sabedoria e visão de futuro, Antônio nos ensinou a importância de lutar pelos nossos valores e de nunca desistir dos nossos sonhos. Sua vida é um legado que deve ser comemorado e honrado, e sua memória viverá sempre em nossos corações.
Neste tributo, lembramos de Antônio Santos Touça não apenas como um homem íntegro, mas como um amigo, um mentor e uma fonte de inspiração. Que possamos honrar sua memória através de nossas ações, sempre buscando ser o melhor, assim como ele foi.
Descanse em paz, querido Antônio. Seu legado perdurará em nossas lembranças e em nossos corações.
Manuel Braz
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Viagem por Bucos
Aqui tem um resumo destacando os pontos principais de uma viagem por Bucos observando a essencia de seu património natural e cultural.
Ponte da Pereira : Uma ponte de grande importância sobre o rio Peio, que une história e natureza. É um local ideal para observar a biodiversidade local, incluindo trutas em suas águas cristalinas.
Moinhos tradicionais : Os moinhos ainda estão em funcionamento, moendo milho e centeio, demonstrando a sabedoria ancestral e a importância da agricultura.
Espigueiros : Esses celeiros contam histórias das colheitas e do trabalho local, contribuindo para o charme da paisagem rural.
Igreja de Bucos : Um centro espiritual e coração comunitário, construída no local de uma antiga capela, com túmulos de pedra e uma torre sineira cujo som ecoa pela região.
Casas históricas : A existência de várias casas tradicionais ilustra a rica herança arquitetônica da comunidade.
O Cruzeiro:
Comunidade da Portela : Situada no alto de Bucos, esta coleção de casas oferece vistas deslumbrantes da paisagem rural circundante e promove um forte senso de comunidade.
Nicho da Senhora dos Caminhos : Construção de 1964 simbolizando a proteção dos viajantes, localizada na praça do Balteiro, agregando pontos de interesse de Bucos.
Este resumo pinta um belo retrato de Bucos como um lugar repleto de história e beleza natural, deixando claro por que é um destino encantador. Se você tiver algum aspecto específico de Bucos que gostaria de explorar mais a fundo ou alguma dúvida sobre a região, fique à vontade para perguntar!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Bucos, Terra de Bons Pescadores
Em Bucos, onde os montes se fecham em abraços largos e o vento corre como memória antiga, sempre se disse que as águas falam. Nos ribeiros da Cangada e do Pertessouto, que serpenteiam vivos até se entregarem ao Rio Peio, a pesca não era apenas ofício: era arte, era saber transmitido de geração em geração, era forma de completar a mesa quando o peixe faltava.
As águas límpidas, correndo por pedras gastas e musgos eternos, guardavam trutas ligeiras como sombras. Para as apanhar, era preciso mais que sorte — era preciso paciência, silêncio e aquela espécie de respeito antigo que os homens de Bucos sabiam ter pelos ribeiros.
Entre eles, destacavam-se mestres cuja fama se espalhava de eira em eira.
Lembro-me bem do Sr. Egídio, do Lugar de Além do Rio, homem calado, de olhar vivo, que parecia adivinhar o caminho das trutas mesmo antes da corrente o dizer.
Recordo o tio-avô Manuel de Urjais, que conhecia cada poço, cada remanso, cada sombra onde a água repousava. Diziam que pescava como quem reza: devagar, atento, dedicado.
E havia também o Custódio das Ladeiras, ágil como rapaz novo, mesmo já com idade feita, que dominava o jeito de lançar o anzol curto e certeiro, no instante exacto em que a truta rompia o brilho da água.
Eram homens simples, mas grandes naquilo que sabiam. Da sua perícia dependiam muitas vezes os almoços e jantares da família — e que jantares! As trutas de Bucos, fritas com alho, cozidas com presunto, ou assadas com folhas de louro e azeite novo, enchiam a casa de aromas que todos reconheciam como sabor de festa.
A pesca nos ribeiros não era apenas sustento: era convivência, era orgulho, era encontro com a natureza que moldava o próprio povo. Cada captura contava uma história; cada prato na mesa trazia consigo o murmúrio da água fria, o brilho das escamas ao sol, e a habilidade desses bons pescadores que fizeram de Bucos terra de trutas e de mestres.
Hoje, quando passo pelos ribeiros da Cangada e do Pertessouto, sinto ainda o eco dessas memórias. As águas continuam a correr, teimosas e claras, como quem guarda segredos antigos — dos homens que nelas aprenderam a pescar e das trutas que, geração após geração, alimentaram famílias e história.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Canto da Casa de Sanoane de Cima
(Folclore minhoto / transmontano, ritmo vivo para concertina)
I
Lá no alto da Rechã, onde o vento faz caminho,
Há uma casa que é farol, pedra velha com carinho.
Casa de Sanoane é nome, tradição que nunca passa,
É história que se levanta no calor de cada praça.
Refrão
Ó Casa de Sanoane,
lá no cimo a florescer,
quem te vê não te abandona,
volta sempre a teu saber.
A concertina dá o tom,
o povo canta e anima:
viva a alma de Bucos,
viva a Casa de Sanoane de Cima!
II
No sopé do Outeiro antigo, o cruzeiro faz vigília,
E ecoam pelas paredes séculos de uma família.
Delgados, Henriques e Brás, nomes que o tempo guardou,
Cada pedra tem memórias do suor que ali ficou.
Refrão
Ó Casa de Sanoane,
lá no cimo a florescer…
(repete)
III
Quando a concertina soa, dança o povo na eira,
E a lua fica a espreitar por cima da oliveira.
Quem entra sente o abraço desta casa tão antiga,
Que no peito de quem parte deixa sempre uma cantiga.
Refrão final
Ó Casa de Sanoane,
és raiz que nunca finda!
Quem nasceu ao teu lado
tem a alma mais bem-vinda.
Entre histórias e saudade,
canta a terra que nos anima…
viva Bucos, viva a gente,
viva a Casa de Sanoane de Cima!
Poema a Casa de Sanoane de Cima
No sopé do outeiro, onde a rechã respira calma,
ergue-se a Casa de Sanoane de Cima, velha de séculos,
com a Cruz de São João gravada na alma
e o vento a sussurrar histórias desde 1677.
Entre silêncios de pedra e memórias de luz,
passaram os Delgado, que ali plantaram raízes,
os Henriques, que lhe deram voz e caminho,
e os Braz, guardiões do tempo e do destino.
Junto ao cruzeiro, onde a fé encontra a terra,
a casa vigia o vale como um velho pastor,
sentinela de invernos duros e primaveras brandas,
comportando no peito a coragem de quem viveu antes.
À sombra da cruz, ergue-se o lume das gerações —
um fio contínuo de mãos que semearam, moldaram, sonharam.
Cada janela vê mais do que o mundo:
vê a memória, a pertença, o coração de Bucos.
E enquanto o outeiro permanece, altivo e paciente,
a Casa de Sanoane de Cima persiste também,
casa de pedra, casa de gente, casa de alma —
um farol antigo,
onde o passado acende o futuro.
Senhora dos Caminhos - Bucos
No largo quieto de Balteiro,
onde a estrada respira passos antigos,
ergue-se o vosso nicho humilde,
farol sereno para todos os destinos.
Senhora que vê partir e chegar,
que acolhe os silêncios dos viajantes,
no vosso olhar de pedra repousa
a fé simples dos caminhantes.
Desde mil novecentos e sessenta e quatro,
guardais a poeira das idas e vindas,
a pressa de uns, a saudade de outros,
e os segredos deixados nas esquinas.
Ó Senhora dos Caminhos,
mãe de quem segue sem saber,
abençoai cada jornada,
cada passo que há de crescer.
E que, no largo de Balteiro,
o vosso nicho continue a ser
o abraço que nunca se fecha,
o porto que sabe acolher.
Trova à Senhora dos Caminhos
No largo do Balteiro há um nicho iluminado,
À Senhora dos Caminhos, guardiã do povoado;
Desde mil novecentos e sessenta e quatro erguido,
Protege quem passa, na estrada, sempre sentido.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Lembranças de Bucos - Desfolhadas e Lavradas
Lembranças de Infância – As Jornadas do Campo em Bucos
Nos anos cinquenta, a vida em Bucos desenrolava-se ao ritmo das estações e ao compasso das grandes tarefas agrícolas. Eram tempos em que os campos e as eiras se enchiam de gente, de vozes, de força e de cumplicidade. Cada trabalho exigia mãos, braços, pulmões – e, sobretudo, união. Hoje era para mim, amanhã era para ti, e assim se vivia, num ciclo de ajuda mútua que sustentava famílias e fortalecia amizades.
Nas lavradas, o campo transformava-se num pequeno exército organizado. Havia os picadores das seitas, que abriam o solo firme; o espalhador do estrume, que preparava a terra para a nova vida; o homem do arado, que guiava o ferro profundo; e o puxador do gado, que orientava as vacas na sua passada lenta e poderosa. Mas a figura mais marcante era o tocador — o homem de pulmão largo, voz aberta, que berrava para anunciar que havia lavrada grande. Em Bucos, esse papel cabia ao Sr. Avelino do Jerónimo, mestre na arte de se fazer ouvir pelas serras e vales. O seu brado ecoava longe e era quase um chamamento ancestral, que misturava trabalho, orgulho e tradição.
Nas malhadas do centeio, o ritmo era outro: seco, firme, compassado. Os malhadores batiam a palha com força, e o barulho dos malhos tornava-se quase música, acompanhado pelas conversas altas que desafiavam o silêncio da aldeia. Ali, o som era prova de vigor, era sinal de que o trabalho ia andando, de que havia fartura para colher.
Nas tarefas das batatas, surgiam os arrancadores e as apanhadeiras, cada qual no seu gesto repetido mas essencial. Era trabalho duro, de muita dobra de costas, de terra nas mãos e pó nos rostos, mas também de companhia e partilha.
E depois vinham as desfolhadas, talvez as mais alegres de todas. O trabalho ali era leve, quase festivo. Entre mãos ágeis que libertavam as espigas, surgiam as cantorias, as risadas e a expectativa do milho-rei, que trazia brincadeiras e pequenas cumplicidades. Nesses serões, havia menos esforço e mais convivência; as pessoas ficavam mais perto umas das outras, literalmente e no coração.
Lembranças de Infância em Bucos, (anos cinquenta).
Lembranças de Infância em Bucos
Os Contadores de Histórias, o Jogo da Malha, o Jogo das Cartas e o Jogo do Pau.
Quando penso na minha infância, vejo Bucos como uma aldeia cheia de vozes, risos e passos que ecoavam entre tascas, levadas e eiras. Era um lugar onde cada esquina parecia guardar um segredo, e cada casa sabia uma história.
Os melhores contadores de histórias da minha meninice reuniam-se, quase sempre, na tasca ou adega do Sr. Jeremias. Lá, brilhavam três figuras que pareciam feitos de palavras: o José Leites, que desenhava histórias no ar com gestos largos; o José Fontes, com aquele jeito pausado que segurava a atenção de todos; e o Rodrigues, que fazia rir até quem chegava cansado do campo. Quando eles se juntavam, a tasca ficava pequena, e a noite parecia nunca querer acabar.
Na Tasca do Sr. Orides, porém, o maior contador de histórias era o meu pai, Custódio Braz. Ele não contava apenas duas ou três histórias — ele criava momentos. E, como homem generoso que era, pagava uma rodada de vinho para todos, porque história boa, dizia ele, só se saboreia em conjunto. A tasca enchia-se sempre por dois motivos: para ouvir um conto e para beber um copo. E eu, pequeno, acompanhava-o nessas idas, absorvendo tudo, como quem recolhe sementes para guardar para a vida inteira.
No exterior da tasca do Sr. Jeremias havia sempre movimento. Ali jogava-se à malha ou patela, um jogo que misturava destreza e camaradagem. Naquela altura, os melhores jogadores eram o José Portela, o Artur do Maria Teresa e o José Custódio do Lomba. A rapaziada, sentada no bordo da levada de água, assistia às jogadas com seriedade de quem vê campeões. Enquanto a malha voava, os jovens escutavam as narrativas do José Leites ou do José Fontes — como se o jogo e as histórias fizessem parte da mesma tradição.
Já na tasca do Sr. Orides o jogo dominante era outro: as cartas. Ali, quem sobressaía era o Taneca, sobretudo no jogo do truque, aquele truque falado, cheio de piscadelas, subentendidos e pequenos blefes. No jogo da sueca, que exigia silêncio e concentração, destacavam-se o Taneca e também o Joaquim da Caseira, que mais tarde seguiu para Maceira do Liz.
Outra lembrança viva daqueles tempos era o jogo do pau. Aos domingos de manhã, era tradição ver o Mestre — o Sr. Ernesto dos Santos — ensinar a arte com elegância e precisão. Havia ali um respeito profundo, quase cerimonial, como se cada movimento guardasse a memória de muitos antes de nós.
São estas as imagens que guardo de Bucos: as vozes que narravam, as mesas de jogo, a poeira da malha a levantar-se, o murmúrio da água na levada, o cheiro a vinho novo e o brilho nos olhos de quem sabia transformar o quotidiano em histórias que o tempo nunca conseguiu apagar.
Porque crescer em Bucos foi isto: viver num lugar onde as histórias uniam as pessoas — e onde a infância, entre palavras e risos, ganhava raízes para toda a vida.
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