sábado, 7 de fevereiro de 2026

Índice - Casa de Sanoane de Cima

Prefácio Introdução Enquadramento geográfico territorial Enquadramento paisagistico Enquadramento Social Enquadramento Histórico e Social Leitura Patrimonial e Valor Patrimonial Simbólico e Construtivo Leitura arquitetónica da Casa de Sanoane de Cima Conclusão Epílogo, Notas Finais

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Descrição articulada do Retrato-Escultura de Manuel Braz - Livro de Memórias

A escultura-retrato de Manuel Braz apresenta-se como um objeto de arte autónomo, de presença solene e intencionalmente intemporal. Executada integralmente em ouro polido, a figura afasta-se da representação naturalista para assumir uma linguagem escultórica depurada, onde a identidade não é literal, mas sugerida pela estrutura do rosto, pela proporção dos planos e pela geometria essencial da silhueta. Os traços faciais surgem em baixo-relevo e facetação, como se a memória tivesse sido cristalizada em matéria nobre: o olhar insinuado por planos oblíquos, o sorriso contido gravado na superfície metálica, a cabeça como volume firme e sereno. As incrustações de diamantes, pérolas e pedras coloridas pontuam a superfície não como ornamento excessivo, mas como marcas de valor, experiência e continuidade — cada brilho funcionando como metáfora de episódios vividos, relações construídas e heranças transmitidas. As gravações e filigranas que percorrem o busto evocam saberes artesanais antigos, aproximando a escultura de uma lógica de objeto patrimonial, quase ritual. Não se trata de um corpo vivo, mas de uma presença simbólica: um retrato que existe entre a pessoa e a memória, entre o indivíduo e o lugar que o moldou. Nesse sentido, a escultura estabelece um diálogo profundo com a Casa de Sanoane de Cima. Tal como a casa, Manuel Braz é aqui representado como estrutura, não como episódio passageiro. Ambos partilham a mesma ideia de permanência: a casa como corpo construído ao longo do tempo, o retrato como corpo transformado em matéria durável. As filigranas do ouro ecoam as marcas deixadas nas paredes, nos pátios e nos caminhos antigos; as pedras incrustadas refletem a densidade simbólica de um lugar habitado por gerações. A escultura pode ser lida, assim, como uma extensão humana da Casa de Sanoane de Cima — não um simples retrato individual, mas a personificação de uma ligação contínua entre pessoa, território e memória. Tal como a casa, o retrato não pertence apenas ao presente: existe para ser visto, interpretado e reconhecido no futuro, como testemunho de pertença, identidade e continuidade.

Retrato de Manuel Braz

Este retrato guarda mais do que a imagem de um homem num momento da sua vida. Guarda um modo de estar no mundo que encontra eco na Casa de Sanoane de Cima — a mesma contenção, a mesma sobriedade, a mesma permanência discreta. Tal como a casa, também este rosto se apresenta sem excessos. O olhar firme, a postura medida e o fato cuidadosamente composto revelam uma relação profunda com o tempo e com a responsabilidade. Não há aqui gesto supérfluo: há presença. Uma presença que se construiu entre paredes conhecidas, ritmos agrícolas, estações repetidas e uma vida feita de continuidade. A Casa de Sanoane de Cima não era apenas o lugar onde se habitava; era o espaço onde se aprendia a resistir, a cuidar e a permanecer. Este homem pertence a esse universo. A sua imagem parece trazer consigo os mesmos valores que moldaram a casa: solidez, discrição e sentido de pertença. As marcas que hoje atravessam a fotografia — riscos, dobras, sinais de uso — são semelhantes às que o tempo deixou na casa. Não são feridas, mas testemunhos. Confirmam que tanto a imagem como a arquitetura foram vividas, atravessadas por gerações, tocadas pelo quotidiano. Integrar este retrato neste livro é reconhecer que a história da Casa de Sanoane de Cima não se escreve apenas através de paredes, pátios ou terrenos, mas também nos rostos que lhe deram vida. A casa permanece porque foi habitada. E este rosto permanece porque pertence à Casa.

Prefácio do livro

Este livro nasce da vontade de reconhecer e dar sentido à Casa de Sanoane de Cima, entendida não apenas como uma construção, mas como um lugar de memória, de pertença e de continuidade.Antes de qualquer abordagem técnica ou histórica, impõe-se vê-la como um espaço vivido, marcado pela passagem do tempo e pela presença de sucessivas gerações. Entre paredes de pedra e caminhos antigos, a casa guarda histórias, gestos quotidianos, silêncios e afetos que lhe conferem significado e identidade.Ao longo destas páginas, a Casa de Sanoane de Cima é situada no seu contexto geográfico, paisagístico e humano, revelando a profunda relação entre o edificado, o território e a comunidade que o moldou. A paisagem, os percursos, o meio rural e as formas de habitar ajudam a compreender não só a implantação da casa, mas também a sua permanência no tempo.A casa é aqui observada como património vivo: material na sua forma, cultural no seu valor simbólico, social e histórico. A sua história confunde-se com a história de quem a habitou, refletindo modos de vida, transformações e continuidades que ultrapassam a dimensão individual.Este livro propõe, assim, uma leitura integrada da Casa de Sanoane de Cima, valorizando-a como herança coletiva e como referência de memória. Mais do que um olhar sobre o passado, é um convite a reconhecer a casa como elemento vivo, capaz de continuar a contar histórias e de inspirar novas formas de relação com o património e com o território.

Casa de Sanoane de Cima, Paisagem Rural

A Casa de Sanoane de Cima insere-se numa paisagem rural de forte matriz agrícola. A construção em pedra, de carácter utilitário, revela a arquitetura tradicional do meio rural, associada à economia de subsistência. Destaca-se o canastro/espigueiro, elevado do solo, testemunho da antiga conservação de cereais e do saber construtivo local. O enquadramento natural é marcado por oliveiras centenárias, árvores de grande valor simbólico, produtivo e paisagístico, que atestam a continuidade da ocupação humana e agrícola ao longo de gerações. A presença de ovinos em pastoreio reforça a ligação viva entre o edificado, a terra e as práticas tradicionais ainda ativas. O conjunto — casa rural, estruturas agrícolas, árvores antigas e uso do solo — constitui uma leitura clara da paisagem cultural, onde natureza e ação humana se articulam de forma equilibrada, transmitindo memória, identidade e permanência no tempo.

Casa de Sanoane de Cima, a Eira

A composição arquitetónica organiza-se em torno de um pátio central lajeado em pedra, elemento estruturante da casa rural tradicional, que funciona simultaneamente como espaço de circulação, trabalho e convivência. Este vazio central articula os diferentes corpos edificados, reforçando a unidade do conjunto e a sua relação com o exterior.As construções apresentam paredes portantes em granito aparente, de aparelhamento irregular, testemunhando técnicas construtivas vernaculares e uma forte adequação aos recursos locais. A espessura dos muros confere inércia térmica, robustez estrutural e uma expressão de permanência, características próprias da arquitetura rural do Norte de Portugal.Os telhados de duas águas, cobertos por telha cerâmica tradicional, garantem uma leitura volumétrica simples e funcional, adaptada às condições climáticas. A presença de pilares em pedra no alpendre reforça o carácter utilitário do espaço coberto, originalmente associado a tarefas agrícolas, abrigo de animais ou armazenamento.Observa-se uma intervenção contemporânea de adaptação, visível nas amplas superfícies envidraçadas e na ligação entre corpos edificados. Esta solução introduz luz natural e transparência, estabelecendo um diálogo entre o antigo e o novo, sem romper com a escala nem com a materialidade dominante. O vidro assume aqui um papel de mediação, permitindo a leitura contínua do pátio e da paisagem envolvente.O conjunto revela, assim, uma arquitetura evolutiva, resultado de sucessivas fases de construção e adaptação, onde a função original rural se transforma progressivamente em espaço de habitação e fruição. O pátio mantém-se como núcleo simbólico e funcional, preservando a memória do lugar e assegurando a continuidade entre passado e presente

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Introdução A Casa de Sanoane de Cima

Este livro nasce da vontade de identificar, enquadrar e dar sentido à Casa de Sanoane de Cima, não apenas como construção física, mas como lugar de memória, de pertença e de continuidade. Antes de qualquer descrição técnica ou histórica, importa reconhecê-la como um espaço vivido, atravessado por gerações, onde o tempo deixou marcas visíveis e invisíveis. Ao longo das páginas seguintes, o livro apresenta a identificação da casa e do seu enquadramento geográfico, inserindo-a na paisagem natural que a envolve e lhe dá carácter. O território, o relevo, os caminhos, a relação com o meio rural e com a envolvente humana são elementos essenciais para compreender a sua implantação e o modo como dialoga com o lugar. Segue-se o enquadramento paisagístico e patrimonial, onde a casa é observada como parte integrante de um conjunto mais amplo, refletindo modos de construir, de habitar e de organizar o espaço próprios de uma determinada época e comunidade. A Casa de Sanoane de Cima é aqui entendida como património, não apenas pelo que conserva materialmente, mas pelo que representa culturalmente. O livro aborda ainda o seu valor simbólico, social e histórico. Símbolo de enraizamento familiar, a casa foi palco de trabalho, de convivência, de celebrações e de silêncios. A sua história confunde-se com a história de quem a habitou, refletindo transformações sociais, económicas e culturais ao longo do tempo. Do ponto de vista arquitetónico, são analisadas as suas características construtivas, os materiais, as soluções formais e funcionais, procurando compreender a lógica que presidiu à sua edificação e às adaptações que foi sofrendo, sem perder a identidade original. Por fim, nas considerações gerais, este livro propõe uma leitura integrada da Casa de Sanoane de Cima, valorizando-a como herança coletiva e como referência de memória. Mais do que um registo do passado, pretende-se afirmar a casa como um elemento vivo, capaz de continuar a contar histórias e de inspirar novas formas de relação com o património e com o território.

Introdução 2

A Casa de Sanoane de Cima ergue-se no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos, como um marco silencioso da história rural e humana desta terra. Construída em pedra, moldada pelo tempo e pelas mãos de gerações sucessivas, não é apenas um edifício: é memória viva, testemunho de modos de vida, de trabalho árduo, de relações familiares profundas e de uma ligação íntima à terra. Ao longo dos séculos, esta casa foi abrigo, centro de atividade agrícola, espaço de encontro e de transmissão de saberes. As suas dependências — a eira, a adega, o lagar, o forno de lenha, os alpendres e arrecadações — refletem uma economia de subsistência equilibrada, onde cada espaço tinha uma função precisa e um significado próprio. Aqui se produziram alimentos, se guardaram colheitas, se celebraram ciclos da natureza e se construíram histórias partilhadas. A Casa de Sanoane de Cima foi também ponto de referência social. Por ela passaram e nela viveram diversas famílias, cujos nomes, gestos e memórias permanecem inscritos nas paredes, nos objetos preservados e nas narrativas transmitidas de geração em geração. Cada pedra, cada viga e cada utensílio guardam marcas de um tempo em que o quotidiano se organizava ao ritmo das estações e da comunidade. Este livro nasce do desejo de preservar e dignificar esse legado. Não pretende apenas relatar factos ou datas, mas sobretudo contar a história de uma casa enquanto organismo vivo, inseparável das pessoas que a habitaram e do território que a envolve. Ao abrir estas páginas, o leitor é convidado a entrar na Casa de Sanoane de Cima, a escutar as suas vozes e a reconhecer nela um património que é familiar, local e, ao mesmo tempo, coletivo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O que pensar, o que fazer?

A idade vai avançando, silenciosa e persistente. As alterações fisiológicas do corpo começam a aparecer uma a uma, como sinais que já não pedem licença. O domínio corporal diminui, o equilíbrio falha em alguns momentos, a memória esquece nomes, datas, pequenos gestos que antes vinham sozinhos. Surge uma espécie de neblina visual, a cabeça parece mais pesada, as forças enfraquecem. Tudo isso vai crescendo com a idade, somando dificuldades ao dia a dia. Diante disso, o que pensar? Talvez aceitar sem resignação cega, reconhecer sem medo. O corpo muda, mas a pessoa não se reduz a ele. O envelhecimento não é apenas perda; é também adaptação, aprendizagem de novos ritmos, revisão de prioridades. E o que fazer? Cuidar mais do que controlar. Respeitar os limites sem desistir do movimento. Estimular a memória, mesmo quando ela falha. Manter rotinas simples, atenção ao corpo, à alimentação, ao descanso. Pedir ajuda quando necessário — isso não é fraqueza, é inteligência prática.Sobretudo, é preciso cultivar a lucidez emocional: não se medir apenas pelo que já não se consegue fazer, mas pelo que ainda se sente, se compreende, se transmite. A idade traz dificuldades, sim, mas também traz uma visão mais larga da vida, um saber que não se aprende nos livros. Envelhecer é aprender a caminhar com mais cuidado, mas com mais consciência. É perder alguma força nos músculos e ganhar densidade no olhar. É aceitar o tempo no corpo, sem deixar que ele roube o sentido da própria existência.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Enquadramento Paisagistico, O Cruzeiro e a Igreja

O CRUZEIRO .Nos terrenos anexos à Casa encontra-se implantado o cruzeiro, elemento simbólico de grande relevância religiosa e cultural, que reforça o papel histórico da propriedade como lugar de referência e centralidade no contexto local. Este marco sacro, integrado no domínio da Casa, estabelece uma ligação direta entre o espaço privado, a devoção popular e a vivência coletiva da aldeia A IGREJA PAOQUIAL .A igreja paroquial, situada nas proximidades e claramente visível a partir da Casa de Sanoane de Cima, assume-se como um elemento dominante na paisagem e um importante ponto de orientação visual e espiritual. A sua presença próxima reforça a relação histórica entre a habitação, o núcleo religioso e a organização social da comunidade ntegra igualmente este enquadramento uma fonte de água proveniente da montanha, que desde tempos antigos matava a sede à população e agora serve de ponto de apoio aos caminheiros dos percursos tradicionais. Este elemento natural, associado aos caminhos ancestrais, evoca valores de hospitalidade, partilha e sobrevivência no meio rural .Destaca-se ainda a figueira centenária, árvore de grande porte e valor simbólico, que constitui um marco vivo da paisagem e da memória coletiva. À sua sombra terão ocorrido encontros, pausas e momentos de convívio, fazendo desta árvore um elemento identitário e afetivo do lugar, testemunha silenciosa da passagem do tempo e das gerações. A presença da capela mortuária, integrada no tecido paisagístico envolvente, acrescenta uma dimensão de recolhimento e memória, refletindo os rituais comunitários associados ao ciclo da vida e da morte.

A Casa, as Famílias e o Tempo da Casa de Sanoane de Cima

A história familiar revela um percurso de casamentos e uniões que transcende o tempo, desde 1677 até 2013, com a presença de nomes e datas que marcam a evolução de uma família. 1677 Família Delgado/Francisca Casamento de Simão Delgado C/ Margarida Francisca da Casa de Sanhoane. 1710 Família Delgado/Oliveira Casamento de António Delgado com Ilena Oliveira da Casa do Ruival 1747 Família Delgado/Domingues Casamento de João Delgado com Ana Domingues S/ data Família Henriques/Delgado Casamento de Catarina Delgado com Manuel Henriques" S/ data Família Henriques/Alvarez Casamento de Domingos Henriques com Maria Alvarez da Freguesia de Salto 1812 Família Henriques/Gomes Casamento de José Henriques com Maria Gomes da Casa da Pereira 1844 Família Basto/Fernandes Casamento de António Henriques Basto com Luiza Fernandes da Casa de Cortezelas. 1900 Família Henriques Basto/Vieira Casamento de José Henriques Basto com Maria Vieira da Casa de José. 2013 Família Henriques Braz/Gonçalves Casamento de Manuel de Oliveira Henriques Braz com Maria Luisa Gonçalves Lopes In"memórias religiosas"

Valor Patrimonial Simbólico, Identitário e Construtivo

Para além da sua relevância histórica e genealógica, a Casa de Sanoane de Cima possui um valor patrimonial simbólico e identitário, representando um testemunho material da cultura rural tradicional de Bucos e da região envolvente. A casa afirma-se como lugar de pertença, memória e continuidade, onde sucessivas gerações construíram não apenas um edifício, mas um modo de vida profundamente enraizado no território.O valor identitário do conjunto manifesta-se na utilização exclusiva de materiais locais e técnicas construtivas tradicionais. A edificação é maioritariamente construída em alvenaria de pedra azul e amarela da região, cuja extração e aplicação refletem um conhecimento empírico transmitido ao longo do tempo. Estas pedras, abundantes no território, conferem à casa uma forte integração cromática e material na paisagem rural circundante, reforçando a sua autenticidade vernacular. A madeira desempenha igualmente um papel estrutural e simbólico fundamental. O uso predominante de castanho nas estruturas interiores e elementos construtivos traduz a durabilidade e a resistência associadas às construções tradicionais. As traves em eucalipto e carvalho, empregues em pavimentos e coberturas, revelam uma adaptação pragmática aos recursos disponíveis, aliando funcionalidade, economia local e saber construtivo tradicional. A cobertura em telha cerâmica completa o conjunto, garantindo proteção climática e continuidade formal com a arquitetura rural da região.Do ponto de vista patrimonial, a organização funcional da casa constitui um dos seus aspetos mais relevantes. O conjunto preserva uma clara leitura da estrutura doméstica e agrícola tradicional, onde cada espaço responde a uma função específica no quotidiano rural. A eira, a adega, o alpendre, o canastro e o tanque de água formam um sistema articulado de apoio às atividades agrícolas, desde a secagem e armazenamento dos cereais até à transformação e conservação dos produtos da terra. No interior, a organização espacial reflete a lógica funcional antiga, com a distinção entre áreas de trabalho, armazenamento e habitação. A antiga sala, associada ao armazém das culturas da casa, evidencia a centralidade do espaço produtivo na vida familiar. A cozinha, espaço nuclear da vida doméstica, encontra-se claramente separada do hall e da zona dos quartos, garantindo privacidade e organização funcional. Esta separação entre espaços comuns e área íntima revela uma conceção espacial amadurecida, adaptada às necessidades de uma família rural numerosa e às dinâmicas do trabalho agrícola. Este equilíbrio entre forma, função e materialidade confere à Casa de Sanoane de Cima um valor patrimonial excecional enquanto exemplo de património rural vernacular preservado. A casa não é apenas um objeto arquitetónico, mas um símbolo da permanência das práticas, dos saberes e da identidade rural de Bucos, constituindo um testemunho vivo da relação histórica entre o homem, a terra e a construção do espaço habitado.

Epílogo Casa de Sanoane de Cima – Ecomuseu Familiar

A Casa de Sanoane de Cima não é apenas um edifício antigo preservado no tempo. É um lugar de memória viva, onde as paredes de pedra guardam histórias, gestos e silêncios acumulados ao longo de gerações. Cada espaço — da casa à eira, do lagar ao canastro, do tanque de água aos caminhos antigos — testemunha modos de viver profundamente enraizados no território e na relação respeitosa entre o homem e a natureza. Enquanto ecomuseu familiar, Sanoane de Cima afirma-se como um espaço de continuidade, onde o passado não é cristalizado, mas compreendido, valorizado e transmitido. Aqui, a herança material cruza-se com o património imaterial: os saberes agrícolas, as práticas comunitárias, a oralidade, as memórias de trabalho e de festa, de escassez e de partilha. Tudo isso constrói uma identidade que permanece viva porque é cuidada e reinterpretada pelas gerações atuais. Este projeto nasce da vontade de preservar sem musealizar em excesso, de mostrar sem desvirtuar, de abrir portas sem perder autenticidade. A casa continua a ser casa; o lugar continua a ser vivido. O ecomuseu não se impõe ao território — emerge dele, respeitando a sua escala, o seu ritmo e o seu silêncio. O epílogo de Sanoane de Cima é, na verdade, um recomeço. Um compromisso com a memória, com a paisagem e com o futuro. Um convite à escuta atenta do lugar, à valorização do património rural e à compreensão de que a história não reside apenas nos grandes monumentos, mas também nas casas simples, nos gestos repetidos e na relação íntima entre pessoas e terra. Assim, a Casa de Sanoane de Cima permanece — não como relíquia, mas como testemunho vivo de um modo de habitar, de cuidar e de pertencer.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Enquadramento Arquitetónico da Casa de Sanoane de Cima

A Casa de Sanoane de Cima apresenta características marcantes da arquitetura rural vernacular de montanha, refletindo uma construção funcional, robusta e profundamente adaptada às condições naturais, sociais e económicas do território onde se insere. A edificação resulta de um processo evolutivo contínuo, desenvolvido ao longo de várias gerações, mais do que de um projeto unitário, traduzindo-se numa arquitetura orgânica e coerente. O conjunto edificado organiza-se em volumes simples, de implantação ajustada à topografia do terreno, aproveitando os desníveis naturais para a diferenciação funcional dos espaços. As paredes em alvenaria de pedra local, de grande espessura, asseguram estabilidade estrutural, inércia térmica e proteção face às variações climáticas características da Serra da Cabreira. A utilização da pedra, extraída do próprio território, confere unidade cromática e integração visual com a paisagem envolvente. A estrutura da casa distingue claramente os espaços habitacionais dos espaços de apoio agrícola, refletindo a organização tradicional das casas rurais antigas. Os pisos térreos e anexos eram destinados a funções agrícolas, armazenamento e abrigo de animais, enquanto os pisos superiores acolhiam os compartimentos de habitação, beneficiando de melhores condições de luz, ventilação e salubridade. Os vãos são contidos e funcionalmente distribuídos, com portas e janelas de dimensões moderadas, adequadas ao controlo térmico e à proteção contra os ventos e o frio. A cobertura, de duas águas, originalmente executada com estrutura de madeira e revestimento em telha cerâmica, responde às exigências climáticas da região, permitindo o rápido escoamento das águas pluviais. O alpendre, enquanto elemento arquitetónico de transição entre o interior e o exterior, assume particular relevância. Funciona como espaço de abrigo, trabalho e convívio, articulando a casa com a eira e os restantes espaços agrícolas. A eira, diretamente associada ao conjunto habitacional, constitui um prolongamento funcional da casa, essencial às atividades de secagem e tratamento dos cereais.A organização arquitetónica da Casa de Sanoane de Cima revela, assim, uma estreita relação entre forma, função e território. Cada elemento construtivo responde a uma necessidade concreta, resultando num conjunto equilibrado, onde a simplicidade formal se alia à eficácia funcional e à durabilidade dos materiais.Enquanto património edificado, a Casa de Sanoane de Cima representa um testemunho autêntico da arquitetura rural tradicional, preservando soluções construtivas e espaciais que refletem um modo de vida ligado à terra, ao clima e à comunidade, constituindo um legado arquitetónico de elevado valor cultural e identitário.

Enquadramento Paisagístico da Casa

A Casa de Sanoane de Cima insere-se harmoniosamente numa paisagem rural de forte carácter identitário, construída ao longo de séculos pela relação contínua entre a comunidade e o território. Este enquadramento paisagístico reflete um sistema agrícola tradicional, onde a ação humana moldou o relevo, organizou os campos e estruturou os espaços de produção e de vivência. A paisagem envolvente é marcada pela presença de campos de cultivo tradicionais, organizados em socalcos e delimitados por muros de pedra, elementos fundamentais na ordenação do território e no controlo do solo e da água. Estes campos testemunham práticas agrícolas ancestrais, transmitidas de geração em geração, e revelam uma adaptação cuidada às condições naturais da região de montanha. A rede de caminhos antigos constitui um conjunto de percursos tradicionais que articulam a Casa de Sanoane de Cima com a paisagem envolvente, reforçando a sua leitura histórica, cultural e territorial. Destaca-se de forma particular, a igreja paroquial, situada nas proximidades e claramente visível a partir da Casa de Sanoane de Cima, assume-se como um elemento dominante na paisagem e um importante ponto de orientação visual e espiritual. A sua presença próxima, integra igualmente este enquadramento e reforça a relação histórica entre a habitação, o núcleo religioso e a organização social da comunidade. Nos terrenos anexos à Casa encontra-se implantado o cruzeiro, elemento simbólico de grande relevância religiosa e cultural, que reforça o papel histórico da propriedade como lugar de referência e centralidade no contexto local. Este marco sacro, integrado no domínio da Casa, estabelece uma ligação direta entre o espaço privado, a devoção popular e a vivência coletiva da aldeia. A presença da capela mortuária, integrada no tecido paisagístico envolvente, acrescenta uma dimensão de recolhimento e memória, refletindo os rituais comunitários associados ao ciclo da vida e da morte. A paisagem é ainda enriquecida pela presença de árvores autóctones e de outros elementos naturais que asseguram equilíbrio ecológico, oferecem sombra e enquadramento visual ao conjunto edificado. Em articulação com os elementos construídos — habitações rurais, muros, eiras e estruturas agrícolas — forma-se um cenário coerente, de grande valor estético, cultural e simbólico. Este conjunto de fatores confere à Casa de Sanoane de Cima uma identidade paisagística e territorial muito marcada, afirmando-a como testemunho vivo da relação histórica, funcional e cultural entre a arquitetura rural, a paisagem e a comunidade que a habitou, utilizou e preservou ao longo do tempo.

Toponímia - Nome e Origem do Lugar Sanoane

A designação Sanoane, surgindo também nas formas Sanhuane ou Sanhoane, encontra-se registada na documentação paroquial desde, pelo menos, o século XVII, identificando um antigo sítio rural da freguesia. Em 1716, o topónimo aparece claramente referido como Sanhuane, evidenciando a antiguidade da ocupação humana e a fixação do nome ao território. A forma atual Sanoane de Cima resulta da evolução natural da toponímia local. O termo “Sanoane” preserva o nome tradicional do sítio onde a casa foi edificada, mantendo viva a memória do lugar ao longo dos séculos. A expressão “de Cima”, amplamente utilizada na toponímia portuguesa, funciona como elemento diferenciador, assinalando a localização na parte mais elevada do território, em oposição a outro núcleo ou edificação de igual origem, conhecido como Sanoane de Baixo. Assim, o nome Casa de Sanoane de Cima traduz não apenas uma identificação geográfica, mas também um testemunho da organização histórica do espaço, da ocupação do solo e da forma como as comunidades rurais nomearam e distinguiram os seus lugares em função da paisagem e do relevo.

Identificação da Casa de Sanoane de Cima, Ecomuseu Familiar

A Casa de Sanoane de Cima é uma casa rural tradicional, que associa um ecomuseu familiar na aldeia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, norte de Portugal. É um ecomuseu familiar, isto é, um espaço que preserva e valoriza a história, objetos, documentos e tradições de uma família e da comunidade agrícola local. A casa fica situada na Rua da Igreja, nº 37, do Lugar da Portela. Codigo Postal 4860-122 Bucos Toponímia – nome e origem do lugar A palavra Sanoane / Sanhuane aparece nos registos paroquiais do século XVIII como nome de um sítio rural: Em 1716, o local aparece nos registos como Sanhuane. Há também referências mais antigas como Sanhoane de Riba (século XVII), que significaria simplesmente o lugar mais alto onde se situava a casa, em relação a outros pontos mais baixos da mesma propriedade ou da povoação. A forma moderna Sanoane de Cima deriva de:“Sanoane” — o nome tradicional do sítio ou local onde a casa foi construída.“de Cima” — um adjetivo toponímico usado em português para distinguir uma parte mais alta (neste caso, do local ou do sítio) face a outra de mesma origem (a chamada Casa de Sanoane de Baixo).

Enquadramento Geográfico da Casa de Sanoane de Cima

A Casa de Sanoane de Cima implanta-se na parte alta da freguesia de Bucos, ocupando uma posição dominante e estrategicamente escolhida no território. Esta localização elevada permite uma relação direta com a paisagem envolvente, garantindo boa exposição solar, controlo visual sobre os campos agrícolas e proximidade aos recursos naturais essenciais à subsistência. O território que envolve a casa caracteriza-se pela presença de campos de socalcos, modelados ao longo de séculos pelo trabalho humano. Estes socalcos, sustentados por muros de pedra, refletem uma adaptação inteligente à morfologia acidentada do terreno, permitindo o cultivo em encostas e o aproveitamento eficiente da água e dos solos. A organização dos campos evidencia uma agricultura tradicional de montanha, fortemente dependente da regularização do relevo.A proximidade às linhas de água, foi determinante para a fixação da casa neste local. Estas linhas asseguravam o abastecimento doméstico e a rega dos campos, estruturando a ocupação agrícola e a distribuição das culturas. A presença de poças e levadas confirma a importância da água como elemento organizador do território e da vida quotidiana. Os acessos à Casa de Sanoane de Cima desenvolvem-se a partir da estrada municipal, da qual derivam caminhos antigos de ligação à aldeia e às propriedades agrícolas. A casa situa-se num ponto de confluência de caminhos tradicionais, nomeadamente os que ligam a Portela, a igreja e a Cruz de Prados, assumindo-se como lugar de passagem e referência no tecido rural. A proximidade ao cruzeiro reforça o seu enquadramento simbólico e territorial, associando o espaço habitado a práticas religiosas, percursos comunitários e marcos identitários da freguesia. Do ponto de vista natural, a casa insere-se num território de clima de montanha, influenciado pela proximidade da Serra da Cabreira. Os invernos são frios e rigorosos, com precipitação significativa, enquanto os verões tendem a ser amenos, favorecendo determinadas culturas agrícolas e condicionando as soluções construtivas adotadas. Esta realidade climática explica a robustez das paredes de pedra, a organização compacta dos volumes e a orientação cuidada da edificação. A Casa de Sanoane de Cima integra-se, assim, de forma harmoniosa num território moldado pela interação contínua entre natureza e ação humana. A sua implantação revela um profundo conhecimento do meio físico, traduzido na escolha do local, na gestão da água, na organização dos acessos e na relação equilibrada entre habitação, campos agrícolas e paisagem envolvente.

Enquadramento Patrimonial da Casa de Sanoane de Cima

Enquadramento Patrimonial da Casa de Sanoane de Cima A Casa de Sanoane de Cima constitui um notável exemplo de património rural vernacular, cujo valor ultrapassa a dimensão arquitetónica, afirmando-se sobretudo pela continuidade histórica e familiar documentada desde 1677. A permanência da casa no mesmo núcleo familiar ao longo de mais de três séculos confere-lhe um carácter patrimonial singular, onde o edificado, a paisagem e a memória social formam um todo indissociável. As memórias paroquiais de 18 de junho de 1677, que referem o casamento de Simão Delgado com Margarida Francisco (ou Francisca), atestam a existência da casa — então designada Casa de Sanhoane de Riba — já no século XVII. Este registo confirma que o núcleo edificado primitivo se encontrava plenamente integrado na organização agrícola e social do lugar de Bucos, servindo de habitação permanente e centro de exploração da terra. A sucessão das famílias Delgado/Francisco, Delgado/Oliveira e Delgado/Domingues, documentada entre os séculos XVII e XVIII, reflete um período de consolidação da casa enquanto unidade agrícola. A necessidade de armazenamento de cereais, transformação do vinho e apoio às tarefas do campo terá conduzido à progressiva definição dos espaços patrimoniais associados, como a eira, a adega, o lagar e o canastro, elementos estruturantes da arquitetura rural da região. Um momento patrimonialmente relevante ocorre com o casamento de Catarina Delgado com Manuel Henriques, sem data precisa, mas decisivo na história da casa. Esta união marca a transição do apelido Delgado para Henriques, sem interrupção da ocupação nem da função da casa, evidenciando a transmissão hereditária do património edificado. A partir deste momento, a Casa de Sanoane de Cima passa a estar associada à linhagem Henriques, que lhe imprime continuidade e identidade até à atualidade. Ao longo do século XVIII e início do século XIX, com a família Henriques/Alvarez, a casa mantém a sua função agrícola plena. O registo do batismo de José, em 5 de junho de 1803, filho desta casa, confirma a vitalidade demográfica e a permanência do núcleo familiar. A organização dos espaços revela uma clara adaptação às exigências da economia rural, mantendo-se a separação funcional entre habitação, armazenamento e transformação dos produtos agrícolas. No século XIX, com José Henriques Basto ou Bastos (nascido em 1812) e os sucessivos casamentos com famílias vizinhas — Henriques/Gomes e Henriques/Fernandes — a casa afirma-se como património estável e reconhecido no território. A introdução do apelido Basto/Bastos reflete práticas sociais de distinção familiar, mas não altera a continuidade da posse nem o uso tradicional do conjunto edificado. Já no início do século XX, com o casamento de José Henriques Basto ou Bastos com Maria Vieira, em 1900, a casa mantém-se como residência e espaço produtivo, embora comece a sentir-se a transformação progressiva dos modos de vida rurais. Apesar disso, os elementos patrimoniais fundamentais permanecem ativos e preservados, testemunhando uma longa adaptação funcional sem rutura estrutural. O falecimento de José Henriques, em 1953, e a passagem da casa para a família Henriques Braz, assinalam a fase mais recente da sua história. Esta transição garante a continuidade da casa enquanto património familiar, agora com uma valorização acrescida da sua dimensão histórica, arquitetónica e simbólica. Assim, a Casa de Sanoane de Cima não deve ser entendida apenas como um conjunto de construções antigas, mas como um património vivo, moldado por sucessivas gerações das famílias Delgado, Henriques, Henriques Basto/Bastos e Henriques Braz. Cada fase deixou marcas no edificado, nos espaços agrícolas e na paisagem envolvente, tornando a casa um testemunho material excecional da história rural de Bucos desde o século XVII.

Enquadramento Histórico e Social da Casa de Sanoane de Cima (desde 1677)

Enquadramento Histórico e Social da Casa de Sanoane de Cima (desde 1677) A Casa de Sanoane de Cima, também referida nas memórias mais antigas como Casa de Sanhoane de Riba, possui uma linhagem familiar documentada que remonta ao ano de 1677, constituindo um raro exemplo de continuidade habitacional e patrimonial ao longo de mais de três séculos. A referência mais antiga surge nas memórias paroquiais de 18 de junho de 1677, data em que é registado o casamento de Simão Delgado com Margarida Francisco (ou Francisca), identificados como moradores da Casa de Sanhoane. Este registo marca o início conhecido da presença da família Delgado/Francisco associada à casa, sendo considerada a primeira família documentada do local. Posteriormente, as memórias referem o casamento de António Delgado, natural desta casa, com Ilena Oliveira, oriunda da Casa do Ruival, consolidando a linhagem Delgado/Oliveira e reforçando as alianças familiares entre casas vizinhas, prática comum no contexto rural da época. Já em 22 de janeiro de 1747, surge o registo do casamento de João Delgado, igualmente desta casa, com Ana Domingos ou Domingues, dando continuidade à presença da família Delgado na Casa de Sanoane de Cima e originando a linhagem Delgado/Domingues. Sem data precisa, mas ainda no decurso do século XVIII, as memórias paroquiais referem o casamento de Catarina Delgado com Manuel Henriques, momento particularmente significativo, pois assinala a transição do apelido Delgado para Henriques, marcando uma mudança nominal que, contudo, mantém a continuidade familiar e patrimonial da casa. A partir deste enlace estabelece-se a família Delgado/Henriques, dando início à linhagem Henriques associada à Casa de Sanoane de Cima. Posteriormente, também sem data exata, é referido o casamento de Domingos Henriques, desta casa, com Maria Alvarez, natural do Lugar de Paredes, freguesia de Salto, constituindo a família Henriques/Alvarez e ampliando a rede de ligações familiares para além do lugar de Bucos. Em 5 de junho de 1803, é registado o batismo de José, filho desta casa, nascido a 30 de maio do mesmo ano, reforçando a permanência da família Henriques na Casa de Sanoane de Cima no início do século XIX. Surge depois a referência a José Henriques Basto ou Bastos, nascido em 1812, natural desta casa, que contraiu casamento com Maria Gomes, da Casa da Pereira, dando origem à linhagem Henriques/Gomes. A introdução do apelido Basto ou Bastos reflete práticas de distinção familiar comuns à época, sem quebra da continuidade patrimonial. Em 1844, as memórias paroquiais registam o casamento de António Henriques Basto, desta casa, com Luiza Fernandes, da Casa de Cortezelas, formando a família Henriques/Fernandes e confirmando a vitalidade social e demográfica da casa ao longo do século XIX. Já no início do século XX, em 1900, ocorre o casamento de José Henriques Basto ou Bastos com Maria Vieira, da Casa de José, mantendo-se a residência e a ligação direta à Casa de Sanoane de Cima, agora com a linhagem Henriques Basto/Vieira. Um momento determinante ocorre em 1953, com o falecimento de José Henriques, altura em que a casa transita para a família Henriques Braz, marcando a fase mais recente da história familiar da Casa de Sanoane de Cima e assegurando a continuidade do património até à atualidade.

Enquadramento Histórico e Social desde 1677

A referência mais antiga conhecida à Casa de Sanoane de Cima remonta ao ano de 1677, data que surge associada à ocupação e exploração agrícola do lugar de Bucos. Este registo confirma a existência da casa — ou de um núcleo habitacional precursor — já no século XVII, inserido num contexto rural marcado pela economia de subsistência e pela forte ligação à terra.Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a casa esteve associada a famílias residentes no lugar de Sanoane, transmitindo-se maioritariamente por via hereditária. Embora os nomes dos primeiros moradores nem sempre surjam de forma explícita nos registos escritos, a continuidade da ocupação indica uma linhagem estável, enraizada no território e profundamente ligada às práticas agrícolas locais.Durante o século XIX, com a maior sistematização dos registos paroquiais e civis, torna-se mais clara a sucessão das famílias associadas à Casa de Sanoane de Cima. A casa consolida-se como unidade agrícola familiar, integrando habitação, eira, adega, lagar e restantes estruturas de apoio, refletindo um período de relativa estabilidade e crescimento.Já no século XX, sobretudo até às décadas de 1950–1960, a casa manteve uma vivência intensa, acolhendo várias gerações da mesma família. A partir desse período, os fenómenos de emigração e transformação social conduziram a uma redução da atividade agrícola permanente, sem, contudo, quebrar o vínculo familiar e simbólico ao lugar.Assim, desde 1677 até à atualidade, a Casa de Sanoane de Cima afirma-se como um raro exemplo de continuidade histórica, social e patrimonial, onde sucessivas gerações moldaram o espaço construído de acordo com as necessidades, os recursos e os valores do seu tempo.

Enquadramento Histórico da Casa de Sanoane de Cima

Fundada em 1677 por Simão Delgado e Margarida Francisca, a Casa de Sanoane de Cima constitui um testemunho singular Desde a sua origem, a casa desempenhou simultaneamente funções residenciais e agrícolas, integrando-se de forma plena no quotidiano camponês. Ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, manteve-se como uma unidade familiar ativa, acompanhando as transformações históricas e sociais sem perder a sua identidade estrutural, funcional e simbólica. No século XX, a transmissão hereditária assegurou a continuidade das vivências, dos usos e das memórias associadas ao imóvel, reforçando o seu valor enquanto espaço de pertença familiar e comunitária. No século XXI, a Casa de Sanoane de Cima permanece na posse da família, sendo atualmente pertença de Manuel de Oliveira Henriques Braz, afirmando-se como um lugar vivo de memória, identidade e valorização do património rural.

Enquadramento Histórico da Casa de Sanoane de Cima

A origem da Casa de Sanoane de Cima perde-se no tempo, como acontece com muitas edificações rurais de Bucos. A sua implantação, os materiais utilizados e a organização funcional apontam para uma construção gradual, adaptada às necessidades de cada geração, mais do que para um projeto fechado e definido à partida. Inicialmente, a casa terá surgido como um núcleo habitacional simples, ligado diretamente à exploração agrícola envolvente. Com o passar dos anos, e à medida que a família crescia e as atividades se diversificavam, foram sendo acrescentadas dependências essenciais à economia rural: a eira, a adega, o lagar, o canastro, o forno a lenha e os espaços de apoio ao armazenamento e transformação dos produtos da terra. Ao longo da sua história, a Casa de Sanoane de Cima acompanhou os ciclos económicos e sociais da região. Viveu períodos de maior prosperidade agrícola, mas também momentos de dificuldade, marcados por crises, migração e envelhecimento da população. Cada alteração estrutural da casa reflete uma adaptação a esses tempos: uma ampliação, uma reparação, uma mudança de uso. Com o declínio progressivo da agricultura tradicional e o abandono de práticas ancestrais, muitos dos espaços perderam a sua função original. Ainda assim, a casa manteve-se como referência identitária, resistindo ao abandono total e preservando marcas claras da sua história. As paredes de pedra, os vãos, os utensílios guardados e os espaços exteriores contam silenciosamente a história das pessoas que ali viveram. Hoje, a Casa de Sanoane de Cima assume-se como testemunho material de um passado rural que moldou Bucos e a sua gente. Mais do que um edifício antigo, é um arquivo vivo de memórias, hábitos e valores, cuja preservação permite compreender não apenas a história de uma família, mas também a história coletiva de uma comunidade.

Enquadramento Social da Casa de Sanoane de Cima

A Casa de Sanoane de Cima foi, ao longo de gerações, muito mais do que um abrigo físico. Foi espaço de vida, de trabalho, de convivência e de transmissão de saberes. Como tantas casas rurais de Bucos, organizava-se em torno da família alargada, onde várias gerações partilhavam o mesmo espaço, os mesmos ritmos e as mesmas responsabilidades. A vida social da casa estava profundamente ligada à terra. O calendário agrícola ditava o quotidiano: a matança do porco, as sementeiras, as colheitas, a vindima, a apanha da azeitona e a produção do pão estruturavam o ano e mobilizavam todos os membros da família. Cada espaço da casa e das dependências agrícolas tinha uma função clara, refletindo uma organização social baseada na cooperação, na partilha e no esforço coletivo. A Casa de Sanoane de Cima foi também lugar de encontro. A eira reunia vizinhos nos dias de malha do milho e do centeio, a adega acolhia conversas demoradas após o trabalho, e o forno a lenha era ponto de partilha e solidariedade, onde o pão de várias famílias era cozido em conjunto. Estes momentos reforçavam os laços comunitários e criavam uma rede de apoio fundamental à sobrevivência num meio rural marcado pela exigência física e pela dependência da natureza. As mulheres desempenhavam um papel central na gestão da casa, na preparação dos alimentos, na criação dos filhos e na preservação das tradições, enquanto os homens se dedicavam sobretudo ao trabalho dos campos e às tarefas mais pesadas. Ainda assim, a divisão de funções era flexível, ajustando-se às necessidades de cada momento e às contingências da vida rural. A casa guarda, assim, a memória de um modo de vida assente na proximidade humana, na economia de subsistência e numa forte ligação à comunidade, valores que hoje persistem sobretudo através das lembranças, dos relatos orais e do afeto que os descendentes continuam a nutrir por este lugar.

A Casa de Sanoane de Cima – Bucos

Identificação da Casa de Sanoane de Cima 1.1. Identificação1.2. Inserção administrativa e territorial (Bucos, concelho, região)1.3. Toponímia e origem do nome “Sanoane”1.4. Descrição sumária do conjunto edificado 2. Enquadramento Geográfico2.1. Contexto físico e natural2.2. Relevo, solos e recursos naturais2.3. Hidrografia e disponibilidade de água2.4. Clima e influência na ocupação humana2.5. Acessos, caminhos tradicionais e ligações à aldeia 3. Enquadramento Paisagístico3.1. A paisagem rural envolvente3.2. Organização dos campos agrícolas e socalcos3.3. Árvores centenárias e vegetação autóctone3.4. Vinhas, ramadas e culturas tradicionais3.5. Relação visual e funcional entre a casa, a eira e os terrenos3.6. Transformações da paisagem ao longo do tempo 4. Enquadramento Patrimonial4.1. A Casa de Sanoane de Cima como património rural vernacular4.2. Materiais e técnicas construtivas tradicionais (pedra, madeira, telha)4.3. Organização arquitetónica e funcional4.4. Elementos patrimoniais associados 4.4.1. Eira e alpendre 4.4.2. Adega, lagar e lagareta 4.4.3. Canastro 4.4.4. Forno a lenha 4.4.5. Tanque de água4.5. Valor patrimonial, simbólico e identitário 5. Enquadramento Social5.1. A casa como unidade de vida familiar5.2. Famílias associadas à Casa de Sanoane de Cima5.3. Organização do trabalho agrícola e doméstico5.4. Práticas comunitárias e relações de vizinhança5.5. Festas, rituais, memórias e oralidade5.6. A casa no quotidiano da aldeia 6. Enquadramento Histórico6.1. Origens e primeiros registos da casa6.2. Evolução da edificação ao longo das gerações6.3. A casa e os ciclos da agricultura tradicional6.4. Momentos marcantes, histórias e acontecimentos6.5. Mudanças sociais, abandono e adaptação6.6. A Casa de Sanoane de Cima na atualidade 7. Considerações Finais7.1. A casa como memória viva7.2. Importância da preservação e valorização7.3. Continuidade, legado e futuro

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Bucos em Maio, tempo dos pássaros.

Para os amantes da natureza e da fotografia de pássaros, Bucos revela o seu lado mais encantador na primeira quinzena de Maio. É quando a paisagem ganha novos tons de verde: as árvores estão brotando, cheias de vida, e os pássaros entram no período de criação dos seus filhotes. Nas primeiras horas da manhã, a cena é especialmente rica. Não é raro observar três ou quatro indivíduos da mesma espécie juntos, pousando entre galhos jovens, voando baixo e explorando o ambiente em busca de alimento. Esse comportamento torna o momento ideal para quem gosta de observar, registrar e se conectar com a dinâmica natural das aves em liberdade. Com clima ameno e luz suave, típica dessa época do ano, Bucos se transforma num verdadeiro refúgio para quem aprecia o silêncio, o canto dos pássaros e a fotografia de vida selvagem em seu estado mais autêntico. Uma visita nesse período é mais do que um passeio — é um encontro íntimo com o ciclo da natureza.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Canastro da Casa de Sanoane de Cima

O canastro da Casa de Sanoane de Cima constitui um dos elementos mais representativos das práticas agrícolas tradicionais da região. Construído de pedra e ripas de madeira, recorrendo a materiais locais e a técnicas artesanais transmitidas ao longo de gerações, o canastro destinava-se essencialmente à secagem e armazenamento do milho, protegendo as espigas da humidade e dos animais. Elevado do solo, o canastro permitia uma ventilação constante, garantindo a conservação do cereal ao longo dos meses e assegurando a subsistência da família. A sua presença junto à casa e às restantes dependências agrícolas revela a importância central do milho na economia doméstica e na alimentação rural, estando intimamente ligada ao ciclo anual das colheitas, ao forno a lenha e à produção do pão. Mais do que uma simples estrutura funcional, o canastro da Casa de Sanoane de Cima é um testemunho vivo do saber-fazer rural, da relação equilibrada entre o homem e a terra e da organização tradicional do espaço agrícola. Hoje, permanece como elemento patrimonial de grande valor histórico e simbólico, evocando memórias de trabalho comunitário, partilha e continuidade cultural.

O Tanque/ Piscina da Casa de Sanoane de Cima

O tanque de água de rega, originalmente concebido como elemento funcional indispensável ao apoio das atividades agrícolas, assegurava a retenção e a distribuição da água necessária à irrigação dos campos envolventes. Implantado em posição estratégica, articulava-se diretamente com a eira, que funcionava como espaço complementar de trabalho, encontro e organização das tarefas rurais sazonais. Com o passar do tempo, este tanque conheceu uma nova utilidade, sendo hoje adaptado a espaço de banho, sem perder a sua leitura histórica e a ligação à paisagem cultural. Esta reutilização respeitosa traduz a capacidade de reinvenção dos elementos tradicionais, conciliando memória, conforto contemporâneo e valorização do património, mantendo viva a relação entre a água, a eira e o quotidiano da casa rural.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Dia das Surpresas em Lençóis

Ontem, 18 de janeiro, foi um dia diferente em muitos lugares do mundo. Em Portugal, os adultos falavam animados sobre eleições, votos e surpresas. Mas bem longe dali, em Lençóis, na Bahia, a surpresa tinha outro sabor e outro som.O dia nasceu chuvoso, com o céu cinzento e uma temperatura amena, perfeita para ficar junto da família. A chuva caía fininha, como se estivesse a contar segredos à terra. No quintal, alguém acendeu o fogo para um churrasco especial. O cheiro do pão com alho a dourar misturava-se com o aroma da linguiça estalando na grelha e da fraldinha a assar devagar.Foi então que a magia começou.O primeiro a chegar foi o sabiá-barranco, trazendo consigo o seu filhote, ainda meio desajeitado. O pequeno piava curioso, como se perguntasse:— É aqui que está a festa?Logo depois, apareceu uma gralha, elegante e atenta, pousando num galho mais alto para observar tudo. Da moita saiu o alma-de-gato, com o seu canto misterioso, quase como um assobio encantado. O sanhaço, azulzinho e alegre, saltava de um lado para o outro, enquanto o bem-te-vi anunciava em voz alta:— Bem-te-vi! Bem-te-vi! Este dia é especial!Mesmo com a chuva, ninguém arredava pé. Até o aracuã, com o seu canto forte e ecoante, fez questão de aparecer, como se estivesse a dar o seu próprio voto à alegria daquele dia.As pessoas riam, as crianças observavam encantadas, e os pássaros pareciam ter combinado tudo. Não falavam de eleições, nem de resultados, mas de coisas importantes à sua maneira: do cheiro bom no ar, da chuva que refresca, da amizade e da partilha.E assim, enquanto em Portugal se contavam votos e surpresas eleitorais, em Lençóis contavam-se pássaros, sorrisos e momentos felizes.Porque naquele dia, todos aprenderam uma coisa muito importante:há dias em que o mundo decide caminhos e outros em que a natureza decide celebrar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Milho, o Pão e o Forno

O milho sempre ocupou um lugar central na vida quotidiana da Casa de Sanoane de Cima. Cultivado nos campos envolventes, semeado à mão e colhido em tempo próprio, o milho representava sustento, trabalho e continuidade. Depois de seco nas canastros, cuidadosamente guardado, era malhado e escolhido.Posteriormente o grão era guardado nas tulhas ou caixas de madeira destinado à moagem. A farinha de milho, obtida nos moinhos da região, era a base do pão que alimentava a família e, muitas vezes, também os trabalhadores agrícolas. O pão não era apenas alimento: era símbolo de partilha, de esforço coletivo e de respeito pelo ciclo da terra. Cada fornada representava dias de trabalho nos campos e horas de preparação dentro de casa. O forno a lenha da Casa de Sanoane de Cima assume, neste contexto, um papel de grande relevo. Construído em pedra, sólido e funcional, era aquecido com lenha cuidadosamente escolhida, criando a temperatura ideal para a cozedura lenta e uniforme. O acender do forno marcava um momento especial: reuniam-se saberes transmitidos entre gerações, gestos precisos, tempos certos e um profundo conhecimento empírico. As masseiras enchiam-se de farinha, água e fermento natural, trabalhados à mão até ganharem corpo e vida. Depois de levedar, a massa era moldada em broas e levada ao forno, onde o cheiro do pão quente se espalhava pelo pátio e pelas dependências agrícolas, anunciando que a fornada estava pronta. O forno a lenha não servia apenas para o pão. Nele se cozinhavam também bolos, assados e, em dias festivos, pratos que reuniam a família alargada e os vizinhos. Era um espaço de encontro, de conversa e de transmissão de histórias, reforçando laços familiares e comunitários. Hoje, o forno a lenha, a masseira permanecem como um dos elementos mais simbólicos da Casa de Sanoane de Cima, testemunho vivo de uma ruralidade autêntica, onde o milho e o pão representavam muito mais do que alimento: eram identidade, memória e herança cultural.

A Adega: o Lagar, a Lagareta e os Pipos da Casa de Sanoane de Cima

A adega da Casa de Sanoane de Cima sempre foi um espaço de trabalho, guarda e celebração. Inserida no conjunto rural da casa, cumpria uma função essencial no ciclo agrícola: transformar a uva em vinho e conservar esse produto ao longo do ano. Mais do que um compartimento funcional, a adega era um lugar carregado de significado, onde o tempo era medido em colheitas e o vinho acompanhava a vida quotidiana, os rituais e os encontros. Na lateral da adega encontravam-se os pipos de madeira, de diferentes dimensões, alinhados ao longo das paredes ou dispostos segundo a necessidade da produção. Cada pipo tinha a sua história, o seu uso e, muitas vezes, o seu nome. Eram cuidados com atenção, lavados, reparados e vigiados, pois neles repousava o resultado de um ano inteiro de trabalho na vinha. O vinho ali guardado destinava-se sobretudo ao consumo da família, mas também à partilha com vizinhos, às festas e às ocasiões marcantes da vida. O lagar, espaço de transformação por excelência, ganhava vida no tempo das vindimas. Construído em pedra, sólido e funcional, recebia as uvas recém-colhidas, que eram pisadas segundo práticas antigas, transmitidas de geração em geração. O mosto escorria lentamente, seguindo o seu caminho natural, enquanto o ambiente da adega se enchia de aromas intensos e de um silêncio atento, interrompido apenas pelas vozes e pelo trabalho coordenado. Associada ao lagar, a lagareta cumpria uma função complementar, permitindo um aproveitamento mais cuidado do mosto e das massas da uva. Era um espaço menor, mas igualmente importante, onde se completava o processo de extração e se garantia que nada se perdia. A presença da lagareta revela o cuidado e a racionalidade com que a produção era conduzida, mesmo em contexto de pequena escala familiar.A adega não era apenas lugar de trabalho sazonal. Ao longo do ano, era visitada para provar o vinho, vigiar a fermentação, trasfegar e garantir a sua boa conservação. Era também um espaço de convívio, onde se contavam histórias, se comentavam as colheitas e se reforçavam laços. A adega guardava segredos, saberes e gestos repetidos, inscritos nas paredes e no cheiro persistente da madeira e do vinho.Hoje, a adega da Casa de Sanoane de Cima mantém a sua centralidade, embora com funções transformadas. Os antigos pipos convivem com uma coleção cuidada de garrafões e de garrafas, testemunhando a continuidade da relação com o vinho e a memória do seu uso. Cada objeto preservado representa não apenas um utensílio, mas um fragmento de história, um elo entre o passado produtivo e o presente de salvaguarda patrimonial. A adega permanece, assim, como um espaço de memória viva. Mesmo quando o vinho já não é produzido como outrora, o lagar, a lagareta, os pipos, os garrafões e as garrafas continuam a contar a história de uma casa onde o vinho foi, durante gerações, símbolo de trabalho, partilha e identidade rural.

A Eira de Pedra e o Alpendre: Ritmo das Estações e Trabalho da Colheita

A eira de pedra e o alpendre constituem dois espaços centrais na vida agrícola da Casa de Sanoane de Cima. Mais do que estruturas funcionais, eram lugares onde o tempo se media pelas estações e onde o trabalho coletivo dava forma ao quotidiano rural. Construída em lajes de pedra, a eira ocupava um ponto aberto e bem exposto, pensado para receber o sol e o vento, elementos essenciais ao processo de secagem e malha dos cereais.Era na eira que o ciclo agrícola atingia um dos seus momentos mais intensos. Depois da ceifa e do transporte das medas, iniciava-se o trabalho de malhar o milho, o centeio e os feijões. O som ritmado dos manguals a bater no chão de pedra marcava os dias de trabalho, repetindo gestos aprendidos desde cedo, passados de pais para filhos. Cada colheita tinha o seu tempo próprio, respeitando o calendário natural e as condições do clima.O milho, base da alimentação, exigia longas jornadas de trabalho. Depois de seco, era malhado para libertar o grão, que mais tarde seria guardado no canastro. O centeio, cereal antigo e resistente, seguia um processo semelhante, sendo fundamental para a produção do pão. Os feijões, colhidos e secos, eram igualmente malhados na eira, completando um sistema agrícola de subsistência onde nada se desperdiçava.O alpendre, contíguo à eira, funcionava como espaço de apoio e transição. Protegia do sol intenso do verão e das primeiras chuvas do outono, permitindo que o trabalho continuasse mesmo quando o tempo mudava. Era ali que se guardavam ferramentas, se faziam pausas breves e se trocavam palavras durante o labor. O alpendre criava um abrigo simples, mas essencial, onde o esforço físico encontrava momentos de descanso e convívio.As estações do ano determinavam o ritmo da eira. O verão era tempo de maior atividade, de dias longos e intensos, enquanto o outono trazia a conclusão das colheitas e a preparação para o inverno. A eira transformava-se então num espaço mais silencioso, aguardando o regresso do ciclo agrícola. Ainda assim, permanecia como referência constante, visível e presente no conjunto da casa.Na eira e no alpendre cruzavam-se gerações. Crianças aprendiam observando, adultos trabalhavam em conjunto, e os mais velhos orientavam e transmitiam saberes. O trabalho não era apenas esforço físico; era também aprendizagem, partilha e pertença. Cada colheita reforçava laços familiares e comunitários, consolidando uma cultura de entreajuda profundamente enraizada.Hoje, a eira de pedra e o alpendre permanecem como testemunhos materiais de um modo de viver organizado em torno da terra e das estações. As marcas do uso, gastas pelo tempo e pelo trabalho, contam uma história silenciosa, onde o ritmo do ano agrícola continua inscrito na pedra e na memória da Casa de Sanoane de Cima.

O Lugar e as Suas Origens

O Lugar e as Suas Origens >O lugar onde hoje se ergue a Casa de Sanoane de Cima antecede a própria casa. Antes das paredes de pedra, existia já uma relação profunda entre o homem e a terra, construída ao longo de gerações que aprenderam a reconhecer os ritmos naturais, a fertilidade do solo e as vantagens estratégicas do relevo. A ocupação deste espaço resultou de uma escolha consciente, orientada pela necessidade de abrigo, pela proximidade das terras de cultivo e pela segurança que a elevação proporcionava/span>Bucos formou-se a partir de pequenos núcleos habitacionais dispersos, ligados por caminhos antigos e por uma economia essencialmente agrícola. Estes lugares foram surgindo de forma gradual, acompanhando o crescimento das famílias e a divisão das terras. O território não foi imposto; foi lido, interpretado e ocupado com respeito. Cada casa, cada muro, cada eira corresponde a uma adaptação direta às condições naturais e às exigências da vida rural>O Lugar da Portela, implantado numa encosta, assume desde cedo uma função de charneira entre o espaço habitado e o espaço produtivo. A sua posição permitia dominar visualmente os campos, controlar acessos e beneficiar de boa exposição solar. A própria designação “Portela” sugere passagem, ligação e continuidade — um ponto onde caminhos se cruzam e onde a vida se organiza em torno do movimento quotidiano das pessoas e dos animais>As origens deste lugar estão intimamente ligadas ao aproveitamento da terra. O cultivo do milho, da vinha e das hortas estruturou a paisagem e definiu o ritmo da ocupação humana. A presença de água, a qualidade dos solos e a possibilidade de construir em pedra local favoreceram a fixação das famílias. Assim se foi formando um aglomerado coeso, onde a proximidade entre casas reforçava a entreajuda e a partilha de saberes.Muito do que hoje se conhece sobre as origens do lugar provém da memória oral. Histórias transmitidas de geração em geração, referências a antepassados, limites de propriedades e usos comuns constituem um património imaterial tão valioso quanto os vestígios materiais. Mesmo quando os registos escritos são escassos, a permanência do traçado, dos caminhos e dos espaços agrícolas confirma uma ocupação antiga e contínua>O lugar não é apenas cenário; é fundamento. A Casa de Sanoane de Cima nasce deste território e dele retira sentido. A sua implantação, orientação e organização refletem escolhas herdadas, feitas muito antes da sua construção formal. Compreender as origens do lugar é compreender a lógica profunda que sustenta a casa e a comunidade que a fez existir.>É neste entrelaçamento entre natureza, trabalho e memória que o Lugar da Portela se afirma como origem viva — um espaço onde o passado permanece inscrito na paisagem e continua a dialogar com o presente.

Bucos e o Lugar da Portela

Bucos desenvolveu-se a partir de uma ocupação rural dispersa, organizada em pequenos aglomerados de casas que se adaptaram à morfologia do terreno. O Lugar da Portela constitui um desses núcleos, implantado numa encosta, onde a necessidade de habitar, cultivar e circular se conciliou com as condições naturais do relevo. As casas surgem escalonadas, acompanhando a pendente, formando um conjunto coerente, construído mais por necessidade e saber empírico do que por planeamento formal. Neste aglomerado, a proximidade entre as habitações não significava perda de autonomia, mas antes reforço da vida comunitária. As casas, erguidas em pedra, partilhavam caminhos, muros, acessos e vistas sobre os campos, criando uma leitura contínua da encosta. Cada construção ocupava o seu lugar exato, respeitando a luz, a proteção dos ventos e a relação direta com as terras de cultivo. O Lugar da Portela organizava-se em torno de percursos antigos, moldados pelo uso repetido ao longo de gerações. Estes caminhos ligavam as casas entre si, às eiras, às fontes e às parcelas agrícolas, constituindo uma rede funcional essencial ao quotidiano rural. A encosta não era um obstáculo, mas um elemento estruturante, que determinava a forma de construir, de circular e de viver. A Casa de Sanoane de Cima integra este aglomerado como uma referência do conjunto. Pela sua posição elevada e pela articulação entre habitação e dependências agrícolas, estabelece uma relação privilegiada com o território. Da casa avista-se o casario, os campos e os caminhos, reforçando a ideia de pertença a um todo maior, onde cada edificação tinha um papel definido. O aglomerado da Portela reflete um modelo de ocupação tradicional, em que a arquitetura se subordina à paisagem e às funções da vida agrícola. Não há excessos nem rupturas: há continuidade. Muros de pedra delimitam propriedades, sustentam a encosta e desenham o espaço habitado, enquanto pequenos largos informais surgem como locais de paragem, conversa e encontro. Com o passar do tempo, este núcleo manteve a sua identidade, apesar das transformações sociais e económicas. Algumas casas foram adaptadas, outras perderam a sua função original, mas o desenho do aglomerado permanece legível. A encosta continua a contar a história de um modo de viver coletivo, onde a proximidade física reforçava os laços humanos. O Lugar da Portela, enquanto aglomerado de casas na encosta, é mais do que um conjunto construído: é a expressão material de uma comunidade rural que soube ocupar o território com equilíbrio, respeito e permanência. É neste contexto que a Casa de Sanoane de Cima ganha sentido pleno, como parte integrante de uma paisagem humana e construída que atravessou o tempo sem perder a sua essência. Bucos desenvolveu-se a partir de uma ocupação rural dispersa, organizada em pequenos aglomerados adaptados à morfologia do terreno. O Lugar da Portela, implantado numa encosta, é um desses núcleos. As casas surgem escalonadas, acompanhando a pendente, formando um conjunto coerente erguido mais por necessidade e saber empírico do que por planeamento formal. A proximidade entre as habitações reforçava a vida comunitária. Os percursos antigos, moldados pelo uso repetido, ligavam as casas às eiras, fontes e parcelas agrícolas. A encosta era um elemento estruturante, que determinava a forma de construir, circular e viver. O aglomerado da Portela exemplifica um modelo tradicional de ocupação, onde a arquitetura se integra na paisagem e serve às funções da vida agrícola. Muros de pedra estruturam o terreno, definindo propriedades e criando espaços de convívio informais. Apesar das mudanças socioeconômicas, a sua identidade permanece. Algumas construções foram adaptadas, mas a estrutura original mantém-se legível. Este conjunto é a expressão material de uma comunidade que ocupou o território com equilíbrio e respeito. A Casa de Sanoane de Cima integra-se nesta paisagem humana e construída, que preserva a sua essência ao longo do tempo.

Indice

Indice Prefácio Nota Introdutória Parte I – O Lugar e as Origens A Casa, o Lugar e o TempoB ucos e o Lugar da PortelaA Origem do Nome Sanoane Fundação e Primeiros Registos da Casa de Sanoane de Cima Parte II – A Casa de Pedra Arquitetura Rural Tradicional A Implantação no Terreno e a Relação com a Paisagem Materiais, Técnicas e Saberes da Construção em Pedra Parte III – As Dependências Agrícolas A Eira: Trabalho, Ritmo e Comunidade A Adega: O Vinho, o Lagar e a Partilha O Alpendre: Abrigo e Vida QuotidianaO Canastro: O Milho e a Segurança Alimentar O Forno de Lenha: Pão, Fogo e Tradição Parte IV – A Casa Vivida O Quotidiano Rural e o Ciclo das Estações As Famílias da Casa de Sanoane de Cima Infância, Trabalho e Transmissão de Saberes Festas, Rituais e Momentos Marcantes. Parte V – Mudança e Permanência Transformações ao Longo do Tempo A Emigração, o Abandono e a Resistência da Memória A Casa no Século XXI Parte VI – Legado e Futuro Preservar, Recuperar e Valorizar A Casa como Património Vivo Mensagem às Gerações Futuras Conclusão Glossário de Termos Rurais Fontes, Testemunhos e Agradecimentos

A Casa, o Lugar e o Tempo

Antes de ser paredes de pedra, a Casa de Sanoane de Cima foi lugar. Lugar escolhido, habitado e cuidado por gerações que souberam ler a paisagem, respeitar o ritmo da terra e inscrever a sua vida no tempo longo do mundo rural. Ergue-se no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos, numa posição elevada, de onde o olhar alcança campos, caminhos e a cadência serena da vida agrícola. Não é uma casa isolada: é parte viva de um território, de uma comunidade e de uma memória coletiva. A sua construção em pedra, sólida e funcional, reflete um modo de viver assente na permanência. Cada muro foi levantado com o esforço de mãos calejadas; cada espaço pensado para responder às necessidades do quotidiano rural. Aqui, habitar nunca foi apenas morar — foi trabalhar, partilhar, resistir e transmitir. A casa cresceu com o tempo, agregando dependências agrícolas, adaptando-se às estações, às famílias e às transformações inevitáveis da vida. A Casa de Sanoane de Cima organizou-se em torno do essencial: a terra, o pão, o vinho e a comunidade. A eira, aberta ao céu, era espaço de trabalho e encontro; a adega guardava o fruto da vinha e da partilha; o alpendre protegia do sol e da chuva; o canastro assegurava o sustento do ano; o forno de lenha reunia vozes, gestos e rituais que iam muito além da cozedura do pão. Cada dependência tinha uma função prática, mas também um valor simbólico, inscrito na memória de quem ali viveu. Ao longo do tempo, muitas famílias passaram por esta casa. Algumas deixaram nomes gravados em documentos, outras permaneceram apenas na lembrança oral, transmitida de pais para filhos. Todas, porém, contribuíram para a construção de uma identidade comum, feita de trabalho árduo, solidariedade e pertença. A Casa de Sanoane de Cima foi abrigo, escola de vida e ponto de referência numa aldeia onde as relações humanas eram tão importantes quanto a produção da terra.Este livro nasce da vontade de preservar essa herança. Não pretende apenas descrever uma casa antiga, mas dar voz às suas paredes, aos seus espaços e às pessoas que lhes deram sentido. É um gesto de reconhecimento para com os antepassados e, simultaneamente, um compromisso com o futuro: o de manter viva a memória de um modo de viver que moldou Bucos e que continua a ecoar, silenciosamente, na pedra da Casa de Sanoane de Cima.Aqui começa a sua história — não como passado fechado, mas como memória viva, em permanente diálogo com o presente.

Epílego da História do Menino Lourenço

A história do Lourenço não se mede apenas pelos clubes que representou, mas pelo caminho que aprendeu a percorrer. Começou num grande clube, rodeado de talento e exigência, onde cedo percebeu que nem sempre o sonho caminha ao ritmo da vontade. As oportunidades eram escassas, o espaço limitado, e foi aí que surgiu a primeira grande lição: crescer também é saber mudar. Num clube pequeno encontrou aquilo que mais precisava — tempo, confiança e campo. Ali aprendeu a jogar de verdade, a competir, a respeitar o jogo e os colegas, a cair e a levantar-se. Foi nesse ambiente mais simples que construiu bases sólidas, ganhou identidade como jogador e passou a entender o futebol para além do nome no emblema.Esse crescimento abriu-lhe novas portas. O salto para um clube com outra estrutura e dimensão não foi um acaso, mas o resultado de um percurso feito com humildade, trabalho e perseverança. Agora, num contexto mais exigente, Lourenço procura consolidar-se, consciente de que cada treino é uma oportunidade e cada jogo um novo desafio. O futuro ainda está por escrever, mas uma coisa já é certa: o menino que um dia entrou num grande clube à procura de um sonho transformou-se num jovem jogador que sabe que o verdadeiro crescimento nasce do caminho percorrido, das escolhas feitas e da coragem de nunca desistir.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Sonho do Menino Lourenço

Lourenço começou sua trajetória futebolística aos oito anos, impulsionado por um genuíno desejo de evoluir no desporto. O Estádio do Dragão, sede do projeto Dragão Force do FC Porto, tornou-se um local de referência e inspiração. Sua frequência regular no Estádio do Dragão e o amor pelo clube facilitaram o início. Esse processo foi auxiliado pelo companheirismo dos colegas de escola e, de forma fundamental, pelo apoio constante e incondicional de seus pais. Esse ambiente foi crucial em seus primeiros contatos com o futebol organizado. A disponibilidade da família e a forte motivação do Lourenço foram decisivas para que o futebol ganhasse consistência no seu percurso. O desejo de evoluir e de se testar em novos desafios levou-o mais tarde até Gens, em Gondomar, onde rapidamente confirmou as suas qualidades como jovem jogador.Em campo, destacou-se pela atitude interessada e participativa, revelando inteligência tática e sentido de responsabilidade. Assumiu naturalmente o papel de comandante da retaguarda, organizando a linha defensiva, comunicando com os colegas e transmitindo segurança à equipa.Desde cedo, Lourenço demonstrou que o futebol é, para si, mais do que jogar a bola: é compromisso, espírito de equipa e vontade constante de aprender e crescer.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Coleção de Livros de Histórias - Ecomuseu Familiar da Casa de Sanoane de Cima

A coleção de livros de histórias do Ecomuseu Familiar da Casa de Sanoane de Cima nasce da vontade consciente de preservar, transmitir e dignificar a memória viva de uma casa, de uma família e de um território. Mais do que um conjunto de publicações, esta coleção constitui um instrumento de salvaguarda da identidade rural, das vivências quotidianas e do património imaterial associado à Casa de Sanoane de Cima e à comunidade que a rodeia. Cada volume assume-se como um lugar de memória, onde se registam histórias de vida, práticas agrícolas, tradições, afetos, saberes transmitidos entre gerações e episódios marcantes da história familiar e local. Através da palavra escrita, procura-se perpetuar experiências que, de outro modo, permaneceriam apenas na oralidade ou correriam o risco de se perder com o tempo. Esta coleção tem como propósito dignificar os antepassados, reconhecendo o seu trabalho, a sua resiliência e o papel fundamental que desempenharam na construção da paisagem humana e cultural da região. Ao fixar nomes, datas, acontecimentos, narrativas e memórias, os livros tornam-se também um arquivo histórico-afetivo, acessível às gerações presentes e futuras.Integrada no conceito de ecomuseu familiar, a coleção articula-se com o território, a casa, os objetos, os lugares e as práticas que lhes dão sentido. Os livros funcionam como extensão do espaço museológico, permitindo que a memória ultrapasse as paredes físicas e se transforme em legado partilhado, educativo e cultural. A Coleção de Livros de Histórias da Casa de Sanoane de Cima afirma-se, assim, como um compromisso com a preservação da memória, com a valorização do património familiar e comunitário e com a transmissão consciente de uma herança cultural enraizada no tempo, na terra e nas pessoas.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Casa de Sanoane de Cima - Identificação e Enquadramento

1. Identificação do Imóvel Designação: Casa de Sanoane de Cima Localização: Lugar da Portela, aldeia de Bucos Tipologia: Habitação rural tradicional Natureza: Património edificado de carácter histórico e etnográfico Propriedade: Privada A Casa de Sanoane de Cima é um imóvel de habitação rural tradicional, localizado no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos. Trata-se de uma propriedade privada, de carácter histórico, cuja origem remonta ao século XVII. O edifício integra um conjunto patrimonial rural que conserva valores arquitetónicos, históricos, etnográficos e simbólicos relevantes para a memória coletiva local. 2. Enquadramento Geográfico e Paisagístico A Casa de Sanoane de Cima insere-se num contexto rural tradicional, implantada numa cota elevada da aldeia de Bucos, o que lhe confere uma posição de destaque e uma relação privilegiada com a paisagem envolvente. A sua implantação na rechã de Sanoane, numa zona de afloramentos rochosos, evidencia uma adaptação harmoniosa à morfologia natural do terreno. O conjunto estabelece uma ligação direta e funcional com os campos agrícolas circundantes, os caminhos antigos e os elementos estruturantes da vida comunitária, permitindo uma leitura clara da organização tradicional do território. Esta proximidade entre a habitação, os espaços de cultivo e os percursos rurais reflete um modelo de ocupação do solo baseado no equilíbrio entre a vivência humana e o uso da terra.O enquadramento paisagístico é marcado pela presença de campos de cultivo, muros de pedra, caminhos ancestrais e elementos naturais e construídos que moldam a paisagem rural. Estes fatores conferem à Casa de Sanoane de Cima uma forte identidade territorial e visual, reforçando o seu valor enquanto testemunho da relação histórica entre arquitetura, território e comunidade. 3. Enquadramento Histórico Fundada em 1677 por Simão Delgado e Margarida Francisca, a Casa de Sanoane de Cima constitui um testemunho singularEnquadramento Geográfico e PaisagísticoA Casa de Sanoane de Cima insere-se num contexto rural tradicional, implantada numa cota elevada da aldeia de Bucos, o que lhe confere uma posição de destaque e uma relação privilegiada com a paisagem envolvente. A sua implantação na rechã de Sanoane, numa zona de afloramentos rochosos, evidencia uma adaptação harmoniosa à morfologia natural do terreno.O conjunto estabelece uma ligação direta e funcional com os campos agrícolas circundantes, os caminhos antigos e os elementos estruturantes da vida comunitária, permitindo uma leitura clara da organização tradicional do território. Esta proximidade entre a habitação, os espaços de cultivo e os percursos rurais reflete um modelo de ocupação do solo baseado no equilíbrio entre a vivência humana e o uso da terra.O enquadramento paisagístico é marcado pela presença de campos de cultivo, muros de pedra, caminhos ancestrais e elementos naturais e construídos que moldam a paisagem rural. Estes fatores conferem à Casa de Sanoane de Cima uma forte identidade territorial e visual, reforçando o seu valor enquanto testemunho da relação histórica entre arquitetura, território e comunidade. e contínuo da ocupação humana e da vivência familiar na aldeia de Bucos ao longo de mais de três séculos. A sua história está profundamente ligada à organização social, económica e agrícola da comunidade local, refletindo o modelo tradicional de vida rural que marcou a região. Desde a sua origem, a casa desempenhou simultaneamente funções residenciais e agrícolas, integrando-se de forma plena no quotidiano camponês. Ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, manteve-se como uma unidade familiar ativa, acompanhando as transformações históricas e sociais sem perder a sua identidade estrutural, funcional e simbólica. No século XX, a transmissão hereditária assegurou a continuidade das vivências, dos usos e das memórias associadas ao imóvel, reforçando o seu valor enquanto espaço de pertença familiar e comunitária. No século XXI, a Casa de Sanoane de Cima permanece na posse da família, sendo atualmente pertença de Manuel de Oliveira Henriques Braz, afirmando-se como um lugar vivo de memória, identidade e valorização do património rural. 4. Descrição Arquitetónica A edificação apresenta características da arquitetura vernacular, com volumes simples, paredes em alvenaria de pedra e soluções construtivas adaptadas ao clima e aos recursos locais. A organização espacial reflete a funcionalidade típica das casas rurais antigas, distinguindo claramente os espaços habitacionais dos espaços de apoio agrícola e doméstico. 5. Organização Funcional dos Espaços A Casa de Sanoane de Cima articula áreas de habitação com espaços de trabalho e armazenamento, evidenciando um modo de vida autossuficiente. A relação entre interior e exterior é reforçada pela proximidade da eira e dos anexos agrícolas, essenciais à economia doméstica tradicional. 6. Elementos PatrimoniaisAssociados O valor do conjunto é reforçado pela presença de elementos estruturantes da paisagem cultural envolvente, nomeadamente:Eira, associada às práticas agrícolas tradicionais;Cruzeiro, elemento simbólico e identitário da comunidade;Canastro, testemunho das técnicas tradicionais de armazenamento de cereais;Árvores centenárias, marcadoras do tempo longo e da continuidade da ocupação humana. 7. Materiais e Técnicas Construtivas Foram utilizados materiais locais, como a pedra e a madeira, recorrendo a técnicas construtivas tradicionais transmitidas entre gerações. Estas soluções refletem saberes empíricos adaptados ao meio, contribuindo para a durabilidade e integração paisagística do edifício. 8. Valor Patrimonial e Significado CulturalA Casa de Sanoane de Cima apresenta valor histórico, arquitetónico, etnográfico e simbólico, constituindo um importante referencial identitário para a aldeia de Bucos. Representa um exemplo preservado de habitação rural tradicional, associada a práticas culturais, sociais e económicas que marcaram a vida comunitária ao longo dos séculos. 9. Estado de Conservação O imóvel mantém uma leitura coerente da sua estrutura original, conservando elementos autênticos que permitem compreender a sua evolução histórica. A continuidade de uso familiar tem contribuído para a preservação da sua integridade material e imaterial. 10. Potrncial de salvaguarda e valorização A Casa de Sanoane de Cima apresenta elevado potencial para ações de salvaguarda, valorização e transmissão patrimonial, nomeadamente através de iniciativas culturais, educativas e de interpretação do património, promovendo o conhecimento da história local e das tradições rurais. 1. Identificação do Imóvel A Casa de Sanoane de Cima é um imóvel de habitação rural tradicional, localizado no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos. Trata-se de uma propriedade privada, de carácter histórico, cuja origem remonta ao século XVII. O edifício integra um conjunto patrimonial rural que conserva valores arquitetónicos, históricos, etnográficos e simbólicos relevantes para a memória coletiva local. 2. Enquadramento Geográfico e Paisagístico A Casa de Sanoane de Cima implanta-se numa zona elevada da aldeia de Bucos, estabelecendo uma relação direta com a paisagem rural envolvente. A sua localização permite uma leitura clara da organização tradicional do território, marcada pela proximidade entre a habitação, os espaços agrícolas e os elementos comunitários.O enquadramento paisagístico é caracterizado por campos de cultivo, caminhos antigos e pela presença de elementos naturais e construídos que estruturam a vivência rural, conferindo ao conjunto uma forte identidade territorial e visual. 3. Enquadramento Histórico Fundada em 1677 por Simão Delgado e Margarida Francisca, a Casa de Sanoane de Cima constitui um testemunho contínuo da ocupação humana e da organização social da aldeia de Bucos ao longo de mais de três séculos. Desde a sua origem, a casa desempenhou funções residenciais e agrícolas, integrando-se plenamente no modo de vida rural tradicional.Ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, a casa manteve-se como unidade familiar ativa, acompanhando a evolução histórica sem perder a sua identidade estrutural e funcional. No século XX, a transmissão hereditária assegurou a continuidade das vivências, usos e memórias associadas ao imóvel. Atualmente, no século XXI, a casa permanece na posse da família, sendo pertença de Manuel de Oliveira Henriques Braz, mantendo-se viva enquanto espaço de memória, identidade e valorização patrimonial. 4. Descrição Arquitetónica A Casa de Sanoane de Cima apresenta uma arquitetura vernacular, característica das habitações rurais tradicionais da região. O edifício é constituído por volumes simples e compactos, com paredes em alvenaria de pedra, evidenciando soluções construtivas adaptadas aos recursos locais e às condições climáticas.A composição arquitetónica privilegia a funcionalidade, sem elementos decorativos excessivos, refletindo uma construção orientada para a durabilidade e o uso quotidiano. A leitura do conjunto permite identificar as sucessivas adaptações realizadas ao longo do tempo, sempre respeitando a estrutura original. 5. Organização Funcional dos EspaçosA organização interna da casa reflete o modo de vida rural tradicional, articulando espaços de habitação com áreas de apoio agrícola e doméstico. Os compartimentos destinavam-se às funções essenciais da vida familiar, enquanto os espaços anexos permitiam o armazenamento de produtos agrícolas e o apoio às atividades do campo.A relação entre o interior da casa e os espaços exteriores, nomeadamente a eira e os terrenos agrícolas, evidencia um sistema funcional integrado, onde habitação e trabalho coexistiam de forma complementar. 6. Elementos Patrimoniais Associados O valor patrimonial da Casa de Sanoane de Cima é reforçado pela presença de diversos elementos associados que integram o conjunto rural:Eira, espaço fundamental para as práticas agrícolas tradicionais, nomeadamente a secagem e debulha de cereais;Cruzeiro, elemento de forte valor simbólico e religioso, marcador da identidade comunitária e da espiritualidade local;Canastro, estrutura tradicional utilizada para o armazenamento e proteção de cereais, testemunhando saberes construtivos e agrícolas ancestrais;Árvores centenárias, que constituem marcos naturais da paisagem, representando a continuidade temporal e a relação duradoura entre o homem e a natureza. 7. Materiais e Técnicas Construtivas A construção da Casa de Sanoane de Cima recorreu maioritariamente a materiais locais, nomeadamente a pedra e a madeira, utilizando técnicas construtivas tradicionais transmitidas entre gerações. Estas técnicas refletem um conhecimento empírico profundo do território, assegurando a resistência do edifício e a sua integração harmoniosa na paisagem.A utilização de materiais naturais contribuiu para a durabilidade da construção e para a preservação das características originais do imóvel ao longo do tempo. 8. Valor Patrimonial e Significado Cultural A Casa de Sanoane de Cima possui elevado valor patrimonial, reunindo dimensões histórica, arquitetónica, etnográfica e simbólica. Constitui um exemplo representativo da habitação rural tradicional e da organização social associada ao mundo agrícola.Enquanto lugar de memória, a casa preserva práticas culturais, vivências familiares e saberes tradicionais, assumindo-se como elemento identitário da aldeia de Bucos e como testemunho material da história local. 9. Estado de Conservação O imóvel apresenta um estado de conservação que permite a leitura clara da sua estrutura original e da sua evolução histórica. Apesar das naturais transformações ao longo do tempo, mantém-se a autenticidade dos materiais, das técnicas construtivas e da organização funcional.A continuidade de uso familiar tem sido determinante para a preservação do imóvel, garantindo a manutenção da sua integridade física e do seu valor simbólico. 10. Potencial de Salvaguarda e Valorização A Casa de Sanoane de Cima apresenta elevado potencial para ações de salvaguarda e valorização patrimonial. A sua história, autenticidade e enquadramento paisagístico permitem a implementação de iniciativas de carácter cultural, educativo e interpretativo, promovendo a transmissão de saberes e a valorização do património rural.A preservação deste conjunto contribui para o reforço da identidade local e para a sensibilização das gerações futuras quanto à importância do património material e imaterial.

Enquadramento e Justificação da Casa de Sanoane de Cima

Localizada no Lugar da Portela, na aldeia de Bucos, a Casa de Sanoane de Cima constitui um significativo testemunho do património edificado rural, refletindo a história, a identidade e os modos de vida da comunidade local ao longo de várias gerações. A edificação apresenta características arquitetónicas tradicionais, preservando técnicas construtivas vernaculares e uma organização funcional associada à vivência agrícola e doméstica. O conjunto patrimonial é enriquecido pela presença de elementos estruturantes da paisagem rural, nomeadamente a eira, o cruzeiro, o canastro e as árvores centenárias, que, em conjunto, documentam práticas ancestrais, saberes transmitidos entre gerações e uma relação profunda e sustentável com o território. A Casa de Sanoane de Cima assume, assim, um valor histórico, arquitetónico, etnográfico e simbólico, constituindo um marco identitário da aldeia de Bucos e da sua memória coletiva. Mais do que um imóvel isolado, trata-se de um espaço de vivências humanas contínuas, onde se cruzam história, natureza e cultura, preservando valores patrimoniais que conferem significado ao passado e relevância ao presente, projetando-se como referência para a salvaguarda e valorização do património rural no futuro. Cronologia Histórica 1677 – Fundação da Casa de Sanoane de Cima, por Simão Delgado e Margarida Francisca, conforme registos históricos e memória local, integrando-se desde a sua origem na organização social, agrícola e familiar da aldeia de Bucos. Séculos XVII–XVIII – Consolidação da casa enquanto unidade de habitação rural e exploração agrícola, estruturada em torno da eira e dos espaços de apoio doméstico, refletindo os modelos tradicionais de ocupação do território. Século XIX – Continuidade da função residencial e agrícola, com manutenção das técnicas construtivas vernaculares e adaptação funcional às necessidades da época, preservando a identidade arquitetónica do conjunto. Século XX – Transmissão do imóvel por via familiar, assegurando a preservação da memória, dos usos e das tradições associadas à casa e ao seu enquadramento paisagístico, incluindo o cruzeiro, o canastro e a gestão das árvores centenárias. Século XXI – A Casa de Sanoane de Cima permanece na posse da família, sendo atualmente pertença de Manuel de Oliveira Henriques Braz, mantendo-se como espaço de vivência, memória e valorização do património material e imaterial, com crescente reconhecimento do seu valor histórico, cultural e identitário.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Miguel e o Lourenço na Casa de Sanoane de Cima

Na Casa de Sanoane de Cima, uma casa antiga de pedra, viviam muitos momentos felizes.Era ali que o menino Miguel e o menino Lourenço gostavam de passar o tempo juntos. No hall da casa, grande e fresco, os dois sentavam-se no tapete a brincar.Inventavam jogos, faziam corridas com carrinhos e riam alto, enchendo a casa de alegria.As paredes antigas pareciam gostar de ouvir as gargalhadas dos dois amigos. Depois, corriam para a eira.Ali, ao ar livre, fingiam que eram jogadores, agricultores ou cavaleiros. Saltavam, corriam e olhavam à volta, sentindo o vento no rosto. A eira era o lugar das grandes aventuras. Quando chegava a hora de comer, iam para a cozinha.A cozinha cheirava a comida boa e a casa quente.Sentavam-se à mesa, comiam juntos e conversavam sobre as brincadeiras do dia.Comer ali sabia sempre melhor, porque estavam juntos. Miguel e Lourenço eram bons amigos.Partilhavam brinquedos, risos e pequenas histórias. Na Casa de Sanoane de Cima aprenderam que a amizade é cuidar, brincar e estar presente. E assim, entre o hall, a eira e a cozinha,os dois meninos guardavam memórias felizes que ficariam para sempre no coração. Mesus netinhos: Cresçam com alegria, coragem e sonhos bonitos. Acreditem, sejam bondosos, caminhem felizes.O meu amor vai estar sempre junto.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Figueira Centenária da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Miguel

Na Casa de Sanoane de Cima vivia o menino Miguel, um menino curioso, de olhos castanhos e coração alegre. A casa rural era antiga, feita de pedra, cheia de histórias guardadas nas paredes. Mas o maior tesouro não estava dentro da casa — estava ao lado. Ali cresceu uma grande figueira centenária, tão velha que parecia ter visto passar por muitas gerações. Os seus ramos frondosos estendiam-se sobre a rechã de Sanoane, como se fossem braços abertos a proteger a casa, as pessoas e os caminhos. No tempo de São João, a figueira enchia-se de figos brancos, doces e macios. Miguel gostava de acordar cedo e correr para junto da figueira, onde os pássaros faziam festa. Pardais, melros e rolas vinham provar os figos maduros, cantando alegremente, como se agradecessem à árvore generosamente. Os pais de Miguel, António José e Luísa, observavam-no da porta da casa. Sorriam ao ver o filho subir com cuidado para os ramos mais baixos, sempre com respeito pela figueira, como o pai lhe ensinou. — Esta figueira é nossa amiga, disse António José. — E também é casa de muitos pássaros, acrescenta Luísa. À tarde, quando as pessoas passavam pelo caminho, paravam à sombra da figueira para descansar. Alguns colhiam figos, outros apenas admiravam a frescura e a beleza da árvore. A figueira parecia gostar de todos, oferecendo sombra, frutos e silêncio bom. Miguel acreditava que a figueira falava com o vento. Quando os ramos se mexiam lentamente, ele sentiu que a árvore contava histórias antigas da Casa de Sanoane de Cima, de crianças que ali brincaram e de famílias que ali viveram. E assim, entre a casa, os pais e a figueira centenária, Miguel cresceu feliz, aprendendo que a natureza é familiar, que as árvores guardam memórias e que os lugares simples podem ser mágicos.

**A Casa de Sanoane de Cima: Segredos do Cruzeiro**

Na pequena aldeia de Bucos, cercada por montanhas e árvores encantadas, havia uma casa antiga chamada A Casa de Sanoane de Cima. Com suas paredes de pedra que pareciam contar histórias antigas, a casa era o lar do menino Miguel e sua família. Nos fins de semana e nas férias, Miguel visitava seu avô Manuel e sua mãe Luisa na casa mágica. Ao cair da tarde, quando o sol começava a se esconder atrás das montanhas, Miguel sempre fazia uma visita ao cruzeiro que ficava em frente à casa. O cruzeiro era um guardião dos transeuntes e parecia ter vida própria; seus contornos dançavam com as sombras projetadas pela luz suave do entardecer. Miguel acreditava que ele guardava segredos especiais. Certa vez, enquanto explorava os arredores da casa com seu primo Lourenço — um coelho travesso que só ele podia ver — eles descobriram um mapa antigo escondido sob uma pedra no jardim. O mapa prometia levar a um tesouro perdido nos arvoredos próximos! Empolgado com a aventura, Miguel decidiu seguir as pistas junto com Lourenço. No caminho para encontrar o tesouro, eles enfrentaram desafios divertidos: resolveram enigmas deixados por criaturas mágicas da floresta e ajudaram animais falantes em apuros. Cada obstáculo ensinou a Miguel sobre amizade e coragem. Ele aprendeu que trabalhar em equipe é mais importante do que ser rápido ou forte. Enquanto isso, o avô Manuel observava tudo do alto da varanda da casa antiga. Ele sabia dos segredos do cruzeiro e como ele protegia aqueles que tinham corações puros como o de Miguel. Quando finalmente chegaram ao local indicado pelo mapa, encontraram não apenas ouro ou joias brilhantes, mas algo muito mais valioso: um baú cheio de memórias! Dentro dele estavam cartas antigas escritas por membros da família Sanoane ao longo das gerações — cada carta trazia conselhos sábios sobre amor e bondade. Miguel voltou para A Casa de Sanoane cheio de alegria não apenas pelo tesouro encontrado mas também pelas lições aprendidas durante sua jornada mágica. Ao olhar para o cruzeiro sob a luz suave da lua crescente naquela noite estrelada, ele percebeu que os verdadeiros segredos estão nas histórias compartilhadas entre amigos e familiares. E assim termina mais uma aventura na Casa Sanoane de Cima — onde cada visita promete novas descobertas!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

As Minhas Histórias Infantis

As minhas histórias infantis procuram conjugar a família, o património, as tradições e a natureza, mostrando às crianças que estes quatro elementos caminham juntos e se fortalecem mutuamente. A família surge como o primeiro lugar de afeto, aprendizagem e segurança, onde avós, pais e crianças partilham tempo, histórias e gestos simples do dia a dia. É no seio da família que nascem as memórias que ficam para a vida. O património — casas antigas, cruzeiros, fontes, árvores centenárias — é apresentado como algo vivo, que guarda histórias, valores e identidade. Estes elementos não são apenas cenários, mas verdadeiros personagens que ensinam respeito pelo passado e ligação à terra. As tradições, como o Dia de São Martinho, o Ano Novo ou as festas da aldeia, ajudam a transmitir costumes, saberes e momentos de encontro entre gerações, reforçando o sentido de pertença e comunidade. A natureza está sempre presente como fonte de vida, beleza e aprendizagem: árvores que dão fruto, água que une as pessoas, pássaros que anunciam o dia, estações que se transformam. Através dela, as crianças aprendem a cuidar, respeitar e agradecer. Desta forma, as minhas histórias infantis pretendem ser simples e afetivas, mas também educativas, ajudando as crianças a crescer com valores de memória, respeito, partilha e amor pela terra.

A Cruz que Unia Histórias

Era uma vez, na pequena aldeia de Bucos, no alto da rechã, havia uma casa antiga de pedra chamada Casa de Sanoane de Cima. Era uma casa forte e silenciosa, que parecia guardar segredos de muitos e muitos anos. Nessa casa vivia, nas férias e nos fins de semana, o menino Lourenço.Lourenço era curioso, gostava de ouvir histórias e adorava futebol. O clube do coração de seu avô era o Vasco da Gama, e ele vestia a camisola com muito orgulho. Um dia, sentado nas escadas da casa, Lourenço reparou num símbolo gravado numa pedra antiga:uma cruz simples e bonita. — Avô, que cruz é esta? — perguntou ele. O avô sorriu, sentou-se ao seu lado e começou a contar: — Essa é a cruz da Ordem de São João, também conhecida como a cruz que os antigos cavaleiros usavam. Há muitos séculos, homens da Ordem de São João passaram por estas terras, ajudaram pessoas, cuidaram de viajantes e deixaram marcas por onde andaram. Lourenço arregalou os olhos.— Avô essa cruz é parecida com a do Vasco da Gama! — É verdade, meu neto — respondeu o avô. — O Vasco da Gama também usa uma cruz parecida, inspirada nos antigos navegadores e cavaleiros que levavam coragem, fé e esperança pelo mundo. Lourenço ficou em silêncio por um momento.Olhou para a casa, para a cruz na pedra e para a camisola que vestia.— Então esta cruz liga a casa, os cavaleiros e o teu clube? — Liga tudo — disse o avô. — Liga o passado ao presente, as histórias antigas aos sonhos das crianças. Nessa noite, Lourenço sonhou que a Casa de Sanoane de Cima ganhava vida.As paredes brilhavam, a cruz iluminava-se e antigos cavaleiros da Ordem de São João caminhavam ao lado de jogadores do Vasco da Gama, todos protegendo a aldeia. Ao acordar, Lourenço sorriu.Sabia que aquela casa não era só de pedra.Era feita de histórias, símbolos e memórias, que continuavam vivas enquanto alguém as escutasse. E assim, na Casa de Sanoane de Cima, a cruz continuou a unir tempos diferentese o menino Lourenço cresceu sabendo que cada símbolo guarda uma história para contar.

O Castanheiro de São Martinho da Casa de Sanoane de Cima

Era uma vez, na pequena aldeia de Bucos, a Casa de Sanoane de Cima. Era uma casa antiga, feita de pedra, forte e acolhedora, que guardava muitas histórias do passado. Nessa casa passava férias o menino Lourenço, com os seus pais, Daniel e Elisa, sempre que podiam. Nela vivia o avô, que gostava de contar histórias e ensinar coisas importantes da vida. Mesmo ao lado da casa havia um grande castanheiro.Era muito antigo, de tronco largo e ramos fortes, e todos diziam que ele já ali estava há muitas gerações. Chegou o Dia de São Martinho.O ar estava fresco, as folhas caíam no chão e o castanheiro estava cheio de ouriços de castanhas. — Hoje é dia de São Martinho, Lourenço — disse o avô, sorrindo. — É dia de apanhar castanhas e agradecer o que a terra nos dá. Lourenço ficou muito contente.Vestiu o casaco, pegou num cesto pequeno e foi com os pais e o avô até ao castanheiro.No chão havia muitos ouriços abertos. Com cuidado, o avô mostrava como tirar as castanhas sem se magoar. — Estas castanhas cresceram com o sol, a chuva e o tempo — explicou o avô. — O castanheiro é nosso amigo. O cesto ficou cheio de castanhas brilhantes e castanhas boas.Lourenço achava que eram como pequenos tesouros da natureza. À tarde, na lareira da Casa de Sanoane de Cima, acenderam um pequeno lume.As castanhas começaram a assar, estalando e saltando, como se estivessem a brincar. — São Martinho é dia de partilha — disse a mãe Elisa. — E de estarmos juntos. Todos comeram castanhas quentinhas, riram e ouviram o avô contar histórias antigas da aldeia e do castanheiro.Lourenço olhou para a casa, para o avô, para os pais e para o castanheiro.Sentiu o coração quentinho, como as castanhas nas mãos. E assim, todos os anos, no Dia de São Martinho, a Casa de Sanoane de Cima lembrava que as coisas simples — a família, a natureza e a tradição — são os maiores presentes.