sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Enquadramento Patrimonial da Casa de Sanoane de Cima

Enquadramento Patrimonial da Casa de Sanoane de Cima A Casa de Sanoane de Cima constitui um notável exemplo de património rural vernacular, cujo valor ultrapassa a dimensão arquitetónica, afirmando-se sobretudo pela continuidade histórica e familiar documentada desde 1677. A permanência da casa no mesmo núcleo familiar ao longo de mais de três séculos confere-lhe um carácter patrimonial singular, onde o edificado, a paisagem e a memória social formam um todo indissociável. As memórias paroquiais de 18 de junho de 1677, que referem o casamento de Simão Delgado com Margarida Francisco (ou Francisca), atestam a existência da casa — então designada Casa de Sanhoane de Riba — já no século XVII. Este registo confirma que o núcleo edificado primitivo se encontrava plenamente integrado na organização agrícola e social do lugar de Bucos, servindo de habitação permanente e centro de exploração da terra. A sucessão das famílias Delgado/Francisco, Delgado/Oliveira e Delgado/Domingues, documentada entre os séculos XVII e XVIII, reflete um período de consolidação da casa enquanto unidade agrícola. A necessidade de armazenamento de cereais, transformação do vinho e apoio às tarefas do campo terá conduzido à progressiva definição dos espaços patrimoniais associados, como a eira, a adega, o lagar e o canastro, elementos estruturantes da arquitetura rural da região. Um momento patrimonialmente relevante ocorre com o casamento de Catarina Delgado com Manuel Henriques, sem data precisa, mas decisivo na história da casa. Esta união marca a transição do apelido Delgado para Henriques, sem interrupção da ocupação nem da função da casa, evidenciando a transmissão hereditária do património edificado. A partir deste momento, a Casa de Sanoane de Cima passa a estar associada à linhagem Henriques, que lhe imprime continuidade e identidade até à atualidade. Ao longo do século XVIII e início do século XIX, com a família Henriques/Alvarez, a casa mantém a sua função agrícola plena. O registo do batismo de José, em 5 de junho de 1803, filho desta casa, confirma a vitalidade demográfica e a permanência do núcleo familiar. A organização dos espaços revela uma clara adaptação às exigências da economia rural, mantendo-se a separação funcional entre habitação, armazenamento e transformação dos produtos agrícolas. No século XIX, com José Henriques Basto ou Bastos (nascido em 1812) e os sucessivos casamentos com famílias vizinhas — Henriques/Gomes e Henriques/Fernandes — a casa afirma-se como património estável e reconhecido no território. A introdução do apelido Basto/Bastos reflete práticas sociais de distinção familiar, mas não altera a continuidade da posse nem o uso tradicional do conjunto edificado. Já no início do século XX, com o casamento de José Henriques Basto ou Bastos com Maria Vieira, em 1900, a casa mantém-se como residência e espaço produtivo, embora comece a sentir-se a transformação progressiva dos modos de vida rurais. Apesar disso, os elementos patrimoniais fundamentais permanecem ativos e preservados, testemunhando uma longa adaptação funcional sem rutura estrutural. O falecimento de José Henriques, em 1953, e a passagem da casa para a família Henriques Braz, assinalam a fase mais recente da sua história. Esta transição garante a continuidade da casa enquanto património familiar, agora com uma valorização acrescida da sua dimensão histórica, arquitetónica e simbólica. Assim, a Casa de Sanoane de Cima não deve ser entendida apenas como um conjunto de construções antigas, mas como um património vivo, moldado por sucessivas gerações das famílias Delgado, Henriques, Henriques Basto/Bastos e Henriques Braz. Cada fase deixou marcas no edificado, nos espaços agrícolas e na paisagem envolvente, tornando a casa um testemunho material excecional da história rural de Bucos desde o século XVII.

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