sábado, 24 de janeiro de 2026
Valor Patrimonial Simbólico, Identitário e Construtivo
Para além da sua relevância histórica e genealógica, a Casa de Sanoane de Cima possui um valor patrimonial simbólico e identitário, representando um testemunho material da cultura rural tradicional de Bucos e da região envolvente.
A casa afirma-se como lugar de pertença, memória e continuidade, onde sucessivas gerações construíram não apenas um edifício, mas um modo de vida profundamente enraizado no território.O valor identitário do conjunto manifesta-se na utilização exclusiva de materiais locais e técnicas construtivas tradicionais.
A edificação é maioritariamente construída em alvenaria de pedra azul e amarela da região, cuja extração e aplicação refletem um conhecimento empírico transmitido ao longo do tempo. Estas pedras, abundantes no território, conferem à casa uma forte integração cromática e material na paisagem rural circundante, reforçando a sua autenticidade vernacular.
A madeira desempenha igualmente um papel estrutural e simbólico fundamental. O uso predominante de castanho nas estruturas interiores e elementos construtivos traduz a durabilidade e a resistência associadas às construções tradicionais. As traves em eucalipto e carvalho, empregues em pavimentos e coberturas, revelam uma adaptação pragmática aos recursos disponíveis, aliando funcionalidade, economia local e saber construtivo tradicional.
A cobertura em telha cerâmica completa o conjunto, garantindo proteção climática e continuidade formal com a arquitetura rural da região.Do ponto de vista patrimonial, a organização funcional da casa constitui um dos seus aspetos mais relevantes.
O conjunto preserva uma clara leitura da estrutura doméstica e agrícola tradicional, onde cada espaço responde a uma função específica no quotidiano rural.
A eira, a adega, o alpendre, o canastro e o tanque de água formam um sistema articulado de apoio às atividades agrícolas, desde a secagem e armazenamento dos cereais até à transformação e conservação dos produtos da terra.
No interior, a organização espacial reflete a lógica funcional antiga, com a distinção entre áreas de trabalho, armazenamento e habitação. A antiga sala, associada ao armazém das culturas da casa, evidencia a centralidade do espaço produtivo na vida familiar. A cozinha, espaço nuclear da vida doméstica, encontra-se claramente separada do hall e da zona dos quartos, garantindo privacidade e organização funcional. Esta separação entre espaços comuns e área íntima revela uma conceção espacial amadurecida, adaptada às necessidades de uma família rural numerosa e às dinâmicas do trabalho agrícola.
Este equilíbrio entre forma, função e materialidade confere à Casa de Sanoane de Cima um valor patrimonial excecional enquanto exemplo de património rural vernacular preservado. A casa não é apenas um objeto arquitetónico, mas um símbolo da permanência das práticas, dos saberes e da identidade rural de Bucos, constituindo um testemunho vivo da relação histórica entre o homem, a terra e a construção do espaço habitado.
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