terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

História de uma viagem - Mafra

Três meses em Mafra 

Três meses difíceis. 


Nunca fui jovem de desistir. Mas o aborrecimento constante, ao longo do tempo, marcou a minha estadia naquela Unidade.  A instrução militar foi sofrida, mas conseguida. 

A passagem da vida civil para a militar foi uma mudança radical. Apesar dos tempos difíceis que se viviam na altura, tinha os meus amigos, enfim poderei dizer que tinha uma vida estabilizada. A tropa tirou-me um pouco tudo. Deixei de ter nome, passei a ser tratado por um número, a alimentação era péssima, as provas físicas muito exigentes e desgastantes e as provas psicológicas arrasadoras.
Recordo-me das instruções noturnas, em que nos obrigavam a caminhar dentro da Tapada de Mafra,onde o o mato era da nossa altura, passar de gatas por meio de túneis com pouco mais de um metro de altura, com água a dar-nos pelo pescoço. 
Recordo-me, ainda, das instruções noturnas que começavam às dez da noite e quando por volta da meia noite chegávamos exaustos ao quartel o instrutor dizia vamos dar mais uma voltinha. Foram dias muito difíceis aqueles.
Sempre que vou a Mafra, sinto um arrepio percorrer-me as costas. Isto acontece-me porque o tempo de tropa que passei em Mafra foi bastante traumatizante, em consequência dos  feridos que houve entre os meus camaradas de companhia, fruto da brutalidade da instrução militar que nos foi ministrada naquela Escola.
Ainda fui indicado, pelo Comandante de Pelotão, para fazer provas para a tropa especial Comandos, mas recusei por motivos pessoais. Depois, quando pensava na Força Aérea, fui preterido por represália. Só contratempos.
 Durante a instrução do primeiro ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, houve entre os soldados-cadetes da minha incorporação  dez feridos do meu pelotão de instrução, diversos feridos   no 4º pelotão num outro incidente. e outros iam morrendo afogados na travessia de rio Lizandro, que foram salvos pelos companheiros.

O problema era sentido na desumanidade do comando sobre aqueles, que não podiam, principalmente. 

Era aterrorizador ver atitudes desumanas, ouvir impropérios e ver atos impensáveis, como rebentar uma granada ofensiva no meio do pelotão e enviar 10 homens para a enfermaria. 
 Como uma areia me partiu os óculos, fui enviado pelo médico da unidade para o Hospital Militar da Estrela, Lisboa, por precaução e para ser examinado. Foram os melhores três dias da minha recruta. Depois da consulta, estávamos livres para passear e conhecer Lisboa. Foi uma ótima terapia e estadia.

A terapia utilizada na instrução militar me fez lembrar o filme "Tratamento de choque", em que os normais tinham de ficar decididos, intolerantes. 

Na última operação militar, travessia do rio Lizandro, com o cansaço no corpo e as armas na mão, aconteceu a revolta esperada de uma Companhia, que pretendia libertar-se das desumanidades ou atrocidades cometidas. Valeu a intervenção do Comando da Escola, do Médico, dos Enfermeiros, porque os Comandantes de Pelotão fugiram como cobardes. Foi fixe! A revolta é um ato de coragem, de afirmação contra a intolerância, a estupidez. Tudo aconteceu como no filme, os desafoitos ficaram na sua, mais tolerantes e os normais, a grande maioria, ficaram intolerantes, decididos para enfrentar os perigos. 

Como terapia, será que valeu?  Mas foi demasiado estúpida e intolerante. Nos dias de hoje, os Comandantes seriam incomodados para justificar tanta estupidez, como aconteceu nos exercícios das Tropas "COMANDOS".

JURAMENTO DE BANDEIRA 

 MAFRA

5 companhias de COM, 25 pelotões, 1.115 soldados - cadetes


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