domingo, 31 de maio de 2026
Prefácio e Introdução a Memórias de Manuel Braz - 80 Anos
PREFÁCIO
Este livro nasceu de uma necessidade que fui sentindo ao longo dos anos: a necessidade de guardar a memória.
Guardar a memória da minha vida, das pessoas que fizeram parte dela, dos lugares onde vivi, dos caminhos que percorri e, sobretudo, das minhas raízes.
Na capa deste livro estão quatro palavras que ajudam a definir grande parte do meu percurso: militar, professor, autarca e diplomata. São quatro dimensões diferentes de uma mesma vida. Quatro caminhos que percorri com responsabilidades distintas, mas sempre orientado pelos mesmos valores: o trabalho, o sentido do dever, a dedicação aos outros e o compromisso com Portug
Antes do militar, do professor, do autarca e do diplomata, existiu o rapaz de Bucos. O filho de uma família de agricultores da Casa da Pereira. O jovem que cresceu entre a terra, a família, o trabalho e as tradições de uma aldeia serrana de Cabeceiras de Basto.
Foi nessa realidade simples que aprendi algumas das lições mais importantes da minha vida. Aprendi que nada se consegue sem esforço, que a palavra dada tem valor, que a família é um lugar de responsabilidade e afeto e que a terra, quando é trabalhada com dedicação, recompensa quem dela cuida.
A vida levou-me depois para longe.
Fui estudante, conheci a experiência militar e guerrilha em Angola uma das etapas mais marcantes e exigentes da minha juventude.
Mais tarde, encontrei na educação uma nova forma de servir.
Fui professor, formador e coordenador Concelhio da Educação de Adultos no Ministério da Educação. Trabalhei com crianças e adultos e compreendi que ensinar não significa apenas transmitir conhecimentos. Significa também acreditar nas pessoas e ajudá-las a descobrir novas possibilidades para as suas vidas.
O caminho profissional levou-me depois para fora de Portugal. Como professor do Instituto Camões, ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, trabalhei em França, no Luxemburgo e na Suíça. Acompanhei comunidades portuguesas, ensinei a nossa língua e participei na divulgação da cultura portuguesa.
Na vida autárquica, tive a oportunidade de servir diretamente a minha terra, como vereador da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Foi uma experiência que me permitiu conhecer ainda melhor os problemas, as necessidades e as esperanças das populações.
Mais tarde, na Suíça, exerci funções de Conselheiro Social na Embaixada de Portugal em Berna. E, em 2012, tive a honra de participar como Embaixador de Guimarães na concretização do projeto Guimarães Capital Europeia da Cultura.
Foram muitos lugares, muitas responsabilidades e muitas experiências.
Mas nunca deixei de levar Bucos comigo.
Onde quer que estivesse, havia sempre uma parte de mim que regressava à aldeia onde nasci. Regressava à família, às paisagens da infância, às casas, aos caminhos, às terras e às memórias que o tempo nunca conseguiu apagar.
É por isso que a Casa de Sanoane de Cima ocupa um lugar tão especial neste livro.
Esta casa não é apenas uma construção de pedra. É uma casa de memória. É um testemunho de gerações. É parte da história da minha família e da história de Bucos. Entre as suas paredes estão histórias de trabalho, de família, de dificuldades, de alegrias e de esperança.
Ao olhar para esta casa, vejo também uma parte da minha própria história.
A Casa de Sanoane de Cima representa, para mim, o ponto de encontro entre o passado e o futuro. É memória, mas também é responsabilidade. Se recebemos uma herança, temos o dever de a preservar e, se possível, de a transmitir às gerações seguintes com ainda maior significado.
Foi dessa vontade que nasceu a ideia do Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima.
Mais do que preservar uma casa, queremos preservar uma memória coletiva. Queremos que as novas gerações possam conhecer como se vivia, como se trabalhava, como se organizava uma família rural e como se construíram, ao longo dos séculos, as comunidades de Bucos.
Este livro pretende fazer parte desse projeto.
As minhas memórias pessoais cruzam-se inevitavelmente com a memória da terra. A minha história não pode ser separada das minhas origens. Por isso, estas páginas não são apenas sobre mim. São também sobre as pessoas que encontrei, sobre os lugares que conheci, sobre Portugal e sobre a comunidade onde nasci.
Quando hoje recordo o caminho percorrido, percebo que as quatro palavras da capa — militar, professor, autarca, diplomata — representam apenas os diferentes capítulos de uma mesma história.
Em todos eles procurei servir.
Servi no Exército.
Servi através da Educação.
Servi a minha terra na vida autárquica.
Servi Portugal no estrangeiro.
E, em todos esses caminhos, mantive comigo aquilo que aprendi em Bucos.
É essa continuidade que desejo deixar registada.
Este livro é, portanto, uma viagem entre mundos aparentemente diferentes: entre a aldeia e a cidade, entre Portugal e África, entre a escola e a diplomacia, entre a vida pública e a vida familiar, entre o passado e o presente.
Mas, no fundo, é uma viagem com um ponto de partida e um ponto de regresso.
A Casa de Sanoane de Cima.
Bucos.
As minhas raízes.
Dedico estas memórias à minha família, às pessoas que caminharam comigo, aos amigos que encontrei ao longo da vida e, de modo muito especial, às gerações futuras.
Que aqueles que um dia abrirem este livro possam compreender que nenhuma caminhada começa verdadeiramente no momento em que partimos.
Começa muito antes.
Começa na família.
Começa na terra.
Começa na casa onde aprendemos as primeiras palavras, os primeiros valores e os primeiros sonhos.
A minha caminhada começou em Bucos.
E é a Bucos, através da Casa de Sanoane de Cima, que volto agora para deixar estas memórias.
Manuel Braz
INTRODUÇÃO
Uma vida feita de caminhos, serviço e memórias
Escrever estas memórias é, antes de mais, regressar às minhas raízes.
Nasci em Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, numa família humilde de agricultores, onde a terra, o trabalho e a entreajuda faziam parte da vida de todos os dias. Foi nesse ambiente simples, mas rico em valores, que aprendi as primeiras lições da vida. A minha infância ficou marcada pela família, pela aldeia, pelo trabalho do campo e por uma forma de viver em que nada se desperdiçava e em que cada conquista era fruto de esforço, persistência e sacrifício.
Foi em Bucos que nasceram as minhas raízes e onde comecei a construir aquilo que viria a ser a minha identidade. A terra ensinou-me a respeitar o trabalho; a família ensinou-me o sentido da responsabilidade; a aldeia ensinou-me o valor da comunidade. Muito do homem que sou hoje começou a formar-se nesses primeiros anos.
Mas a vida levou-me por caminhos que nunca poderia imaginar quando era criança.
Deixei Bucos ainda jovem para continuar os meus estudos. A formação abriu-me portas e colocou-me perante novos desafios. Em 1969, fui chamado para cumprir o serviço militar e iniciei uma etapa que viria a marcar profundamente a minha vida. Passei pela Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde fiz a minha formação militar como oficial miliciano de Artilharia.
A vida militar ensinou-me a disciplina, o sentido do dever, a responsabilidade e a capacidade de enfrentar situações difíceis. Como oficial, vivi a experiência da guerra e passei por Angola, uma realidade que deixou marcas profundas na minha geração e também na minha própria história. Foram anos de aprendizagem, de camaradagem, de responsabilidade e de contacto com uma realidade muito diferente daquela em que tinha crescido.
Terminada essa etapa, a minha vida tomou um novo rumo: a educação.
Em 1975, iniciei a minha atividade como professor do ensino primário e, paralelamente, envolvi-me no trabalho de alfabetização e educação de adultos. Era um período de profundas transformações em Portugal, e participar na educação de quem não tinha tido oportunidade de aprender a ler e a escrever foi, para mim, muito mais do que uma profissão. Foi uma missão.
Mais tarde, desempenhei funções de formador e de coordenador da Educação de Adultos no Ministério da Educação. Percorri diferentes lugares, conheci muitas pessoas e compreendi, cada vez mais, que educar é também acreditar nas capacidades de cada ser humano.
A minha ligação à educação levou-me depois para outro caminho, desta vez ligado à língua e à cultura portuguesas no estrangeiro. Como professor do Instituto Camões, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tive a oportunidade de trabalhar em França, no Luxemburgo e na Suíça. Foram anos de contacto com as comunidades portuguesas emigrantes, de divulgação da língua e da cultura portuguesas e de aproximação entre Portugal e os portugueses que viviam fora do país.
Essa experiência permitiu-me compreender melhor o que significa ser português longe de Portugal. Encontrei homens e mulheres que, apesar da distância, mantinham vivas as suas raízes, as suas tradições, a sua língua e a ligação à terra onde nasceram.
O serviço público conduziu-me também à vida autárquica. Exerci funções como vereador da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, regressando, de certa forma, à terra que nunca deixei de trazer comigo. Servir o meu concelho foi uma experiência particularmente importante, porque me permitiu olhar para Bucos, para Cabeceiras e para as suas gentes com a responsabilidade de quem conhecia por dentro as dificuldades, as aspirações e os sonhos das populações.
Mais tarde, o meu percurso levou-me novamente para o estrangeiro, desta vez no âmbito diplomático. Exerci funções de Conselheiro Social na Embaixada de Portugal em Berna, na Suíça. Foi uma etapa de grande responsabilidade, ligada ao acompanhamento das comunidades portuguesas e às relações entre Portugal e os seus cidadãos residentes naquele país.
Em 2012, tive ainda a honra de desempenhar as funções de Embaixador de Guimarães – Capital Europeia da Cultura. Foi uma experiência singular, que me permitiu participar num momento de grande significado para Guimarães, para o Minho e para Portugal, contribuindo para a divulgação da cultura portuguesa além-fronteiras.
Quando olho para trás, vejo uma vida feita de muitos caminhos.
O rapaz que nasceu numa família de agricultores em Bucos tornou-se estudante, militar, oficial de Artilharia, professor, formador, coordenador da Educação de Adultos, professor do Instituto Camões, autarca e diplomata. Passei por diferentes instituições, países, profissões e responsabilidades. Conheci realidades muito diferentes e encontrei ao longo do caminho pessoas que deixaram marcas na minha vida.
Mas, apesar de todos esses caminhos, nunca deixei de ser o homem de Bucos.
As minhas raízes acompanharam-me sempre. Levei comigo a memória da casa, da família, da terra, dos campos, das pessoas da aldeia e dos valores que aprendi na infância. Mesmo quando estava longe, Portugal estava presente em mim. E, dentro de Portugal, Bucos permaneceu sempre como o lugar das minhas origens, aquele ponto de partida ao qual a memória regressa tantas vezes.
Este livro nasce precisamente desse desejo de regressar.
Não pretendo contar apenas uma sucessão de acontecimentos ou apresentar um currículo de funções desempenhadas. Quero contar uma vida vivida. Quero recordar pessoas, lugares, momentos, alegrias, dificuldades, escolhas e aprendizagens. Quero deixar registado aquilo que o tempo poderia apagar.
Estas páginas são, por isso, uma conversa com a memória.
São memórias de uma infância simples, de uma família de agricultores, de uma juventude marcada pelo estudo, de uma experiência militar vivida em Angola, de muitos anos dedicados à educação, de uma vida profissional ligada à língua e à cultura portuguesas, da participação na vida autárquica e de uma etapa diplomática ao serviço de Portugal.
Mas são também memórias de pessoas.
Porque nenhuma vida se constrói sozinha. Ao longo do meu caminho encontrei professores, colegas, militares, alunos, emigrantes, autarcas, diplomatas, amigos e familiares. Cada um, à sua maneira, contribuiu para aquilo que sou.
Hoje, olhando para o caminho percorrido, compreendo que uma vida não se mede apenas pelos cargos que ocupámos ou pelos lugares onde estivemos. Mede-se também pelas pessoas que ajudámos, pelas amizades que construímos, pelos valores que preservámos e pela marca que deixámos nos lugares por onde passámos.
Foi essa a minha procura ao longo da vida: servir.
Servir no Exército, cumprir o dever que me foi confiado.
Servir na educação, ajudando a abrir portas através do conhecimento.
Servir as comunidades portuguesas, levando a língua e a cultura de Portugal além-fronteiras.
Servir a minha terra através da ação autárquica.
Servir Portugal através da representação diplomática.
Hoje, já com a distância que os anos permitem, sinto que todos esses caminhos, aparentemente diferentes, fizeram parte de uma mesma caminhada.
A caminhada de um homem que nunca esqueceu de onde veio.
Nasci em Bucos. Foi ali que começou a minha história. Tudo o que veio depois — o Exército, Angola, a Educação, o Instituto Camões, a autarquia, a Suíça e a diplomacia — foram capítulos dessa mesma vida.
É essa história que agora quero partilhar.
Não como quem pretende deixar uma biografia perfeita, mas como quem abre um álbum de recordações e convida o leitor a percorrer consigo os caminhos de uma vida.
Uma vida feita de trabalho, serviço, encontros, partidas e regressos.
Uma vida com muitas geografias, mas com uma única raiz.
Bucos.
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