segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A MINHA JORNADA COMO PROFESSOR

PARTE III – A MINHA JORNADA COMO PROFESSOR Capítulo 6 – O meu início na educação O meu começo como professor do ensino primário O ano de 1975 marcou uma nova etapa na minha vida. Depois do percurso militar e de todas as experiências que essa fase me proporcionou, encontrei na educação um novo caminho de serviço à comunidade. Foi nesse ano que iniciei a minha atividade como professor do ensino primário, uma profissão que viria a ocupar um lugar muito especial na minha vida e a definir grande parte do meu percurso profissional e humano. Comecei a ensinar num período particularmente importante da história de Portugal. O país vivia profundas transformações sociais e políticas, e a educação era chamada a desempenhar um papel essencial na construção de uma sociedade mais esclarecida, mais participativa e mais justa. Foi nesse contexto que abracei a missão de ensinar. Mais do que transmitir conhecimentos, compreendi desde cedo que ser professor significava estar próximo das pessoas, conhecer as suas dificuldades, compreender as suas esperanças e acreditar nas capacidades de cada aluno. A escola não podia ser apenas um lugar onde se aprendia a ler, a escrever e a contar. Tinha de ser também um espaço de descoberta, de dignidade, de formação humana e de preparação para a vida. O meu compromisso com a alfabetização Uma das experiências que mais profundamente marcou os primeiros anos da minha carreira foi o trabalho desenvolvido no domínio da alfabetização. Entre 1975 e 1976, no Porto, tive contacto com homens e mulheres que, por diferentes razões, não tinham tido oportunidade de aprender a ler e a escrever na infância. Eram pessoas trabalhadoras, muitas delas com uma vida inteira de esforço, mas que carregavam consigo a limitação de não dominar uma competência que hoje consideramos fundamental. Ensinar um adulto a ler e a escrever era, para mim, muito mais do que ensinar letras e palavras. Era abrir uma porta. Recordo a emoção de ver alguém conseguir, pela primeira vez, ler uma frase sozinho, escrever o próprio nome ou compreender uma mensagem que antes não conseguia decifrar. Pequenas conquistas para quem já sabia ler, mas enormes vitórias para quem tinha vivido durante anos dependente dos outros. Foi aí que compreendi verdadeiramente que a educação pode transformar uma vida. Cada aluno tinha a sua história, as suas dificuldades e o seu ritmo. Por isso, procurei sempre adaptar o ensino às pessoas e não obrigar as pessoas a adaptar-se a um modelo rígido de ensino. Aprendi que a paciência, a proximidade e a confiança eram tão importantes como os próprios métodos pedagógicos. A alfabetização ensinou-me também uma grande lição: ninguém deve ser considerado incapaz de aprender. Muitas vezes, aquilo que parecia falta de capacidade era apenas falta de oportunidade. Bastava alguém acreditar, incentivar e acompanhar. Ensinar era também aprender Os meus primeiros anos como professor ensinaram-me tanto como os meus alunos. Aprendi a ouvir, a observar e a compreender. Aprendi que cada pessoa traz consigo uma experiência de vida que merece ser respeitada. Aprendi que o professor não está acima do aluno, mas ao seu lado, ajudando-o a descobrir aquilo de que é capaz. A minha passagem pelo ensino primário foi, por isso, o início de uma longa relação com a educação. Uma relação que ultrapassaria a sala de aula e me levaria, posteriormente, a assumir responsabilidades de coordenação, orientação e formação de adultos. Olho hoje para esse período com particular carinho. Eu estava a começar uma nova etapa da minha vida, mas talvez ainda não tivesse consciência de quanto a educação viria a marcar o meu caminho. O professor que comecei a ser em 1975 foi-se construindo através das pessoas que encontrei, das dificuldades que enfrentei e das pequenas vitórias que fui testemunhando. Foi também nesse primeiro contacto com a escola que consolidei uma convicção que me acompanharia durante toda a minha vida profissional: educar é servir, é acreditar no outro e é ajudar cada pessoa a descobrir que pode ir mais longe. Foi com esse espírito que iniciei a minha jornada como professor.

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