sábado, 5 de setembro de 2026
Memórias do Jogo do Pau de Manuel Braz, Militar, Professor, Diplomata, Bucos, Cabeceiras de Basto
Nasci na aldeia serrana de Bucos, no ano de 1947. Foi ali que cresci e guardei as páginas mais bonitas da minha infância. Entre 1954 e 1959, enquanto a minha vida se dividia entre os quadros e os livros da escola primária de Bucos, descobri outra sala de aula, mas esta ao ar livre: a escola do Jogo do Pau.Durante quatro anos, a minha formação fez-se também com o varapau na mão.
Fui aluno do estimado Mestre Ernesto dos Santos, uma figura profundamente marcante. Era um homem generoso e brincalhão, que sabia como ninguém cativar a atenção dos miúdos, mas que não abria mão do rigor quando o assunto era a aprendizagem daquela arte. Para os treinos, usávamos paus feitos de madeira de "lodo" (lódão), o material ideal por ser forte e flexível, o que impedia que os paus partissem tão facilmente com a força dos impactos.
Como a escola não era obrigatória, as manhãs de domingo ganhavam uma dinâmica muito própria. À medida que chegávamos ao largo da Rechada, íamos aguardando pelos restantes colegas e alunos. Enquanto o grupo não estava completo, começávamos logo a aquecer com o jogo da cruz.Assim que reuníamos um bom número de alunos, o Mestre Ernesto dava início formal aos trabalhos mais exigentes.
Começávamos pelos jogos de pancadas da cabeça, praticando no confronto direto de um contra um. Depois, a fasquia subia e passávamos para os exigentes jogos do meio. Era aí que a agilidade e a técnica eram postas à prova, em combates de um contra dois, um contra três e até um contra quatro. No limite do treino, fazíamos o jogo do meio puro: vários jogadores ao mesmo tempo contra um único homem, que se defendia de todas as direções.
Dediquei-me a esta aprendizagem com orgulho, pois sabia perfeitamente que estava a guardar algo precioso. Fazer parte daquela escola era honrar uma prática cultural única e profundamente original da nossa freguesia.
Aqueles domingos de sol ou de frio no largo da Rechada moldaram o meu caráter e deixaram-me uma herança que o tempo nunca vai apagar: o orgulho de pertencer a Bucos e às suas tradições.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário