terça-feira, 28 de julho de 2026
A Voz da Cabreira e a Migração das Andorinhas
Na manhã de 28 de julho, pelas sete horas, a Casa de Sanoane de Cima, em Bucos, despertou com um dos mais belos espetáculos que a natureza oferece. De forma silenciosa, mas perfeitamente organizada, dezenas de andorinhas começaram a reunir-se nos fios da eletricidade e do telefone que rodeiam a casa. Pareciam conversar entre si, trocando os últimos sinais antes da grande partida.
Durante alguns minutos permaneceram alinhadas, lado a lado, voltadas em diferentes direções, como se aguardassem um sinal invisível. Depois levantavam voo em pequenos grupos, descrevendo círculos sobre os campos e regressando novamente aos fios. Era um verdadeiro ensaio para uma das mais extraordinárias viagens do mundo animal.
Todos os anos, quando o verão começa a aproximar-se do fim, as andorinhas deixam a Serra da Cabreira e iniciam uma longa migração rumo ao sul, atravessando a Península Ibérica, o Mediterrâneo até chegarem à África, onde encontrarão alimento durante o inverno europeu. Algumas percorrem mais de 5 000 quilómetros, regressando, na primavera seguinte, precisamente aos mesmos lugares onde nasceram ou fizeram o seu ninho.
Durante séculos, esta capacidade intrigou agricultores, pastores e estudiosos. Como conseguem encontrar o caminho sem mapas nem bússolas? A ciência tem vindo a desvendar parte deste mistério. As andorinhas orientam-se pela posição do Sol durante o dia e das estrelas durante a noite. Conseguem também detetar o campo magnético da Terra, funcionando como se possuíssem uma bússola natural. Além disso, utilizam referências da paisagem, rios, montanhas e até memórias adquiridas nas viagens anteriores.
Mas o principal motivo da partida é simples e essencial: a sobrevivência. As andorinhas alimentam-se quase exclusivamente de insetos capturados em voo. Com a aproximação do outono, a temperatura desce e os insetos tornam-se escassos. Permanecer na Europa significaria enfrentar a fome. A migração permite-lhes encontrar alimento abundante em regiões mais quentes, regressando apenas quando a primavera volta a cobrir a Cabreira de flores e de vida.
Na Casa de Sanoane de Cima de Bucos, este encontro anual das andorinhas representa muito mais do que um fenómeno natural. É um sinal da passagem do tempo, da fidelidade da natureza aos seus ciclos e da ligação profunda entre a vida selvagem e a paisagem rural. Tal como os nossos antepassados observavam os céus para compreender as estações, também hoje podemos parar por alguns minutos para contemplar este espetáculo e reconhecer que ainda existem maravilhas que unem o mistério e a ciência.
Quando, naquela manhã de julho, as últimas andorinhas levantaram voo sobre os telhados de granito de Sanoane, ficou no ar a certeza de que voltarão. Porque, para elas, a Rechã de Sanoane de Cima e a Serra da Cabreira não são apenas um lugar de passagem: são um ponto de partida, um porto de abrigo e um destino gravado na memória da natureza.Manuel Braz
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