segunda-feira, 27 de abril de 2026
História de Uma Viagem - Viagem de Manuel Braz - Serviço Militar
HISTÓRIA DE UMA VIAGEM
Há viagens que não se fazem por escolha, mas por dever. Ainda assim, acabam por ser as que mais nos transformam. Esta é a história de uma dessas viagens — construída em instantes, guardada em fotografias, e vivida intensamente no quotidiano do serviço militar obrigatório.
Tudo começou em 4 janeiro de 1969. Nesse mês frio, iniciou-se uma longa odisseia que só encontraria o seu fim a 5 de março de 1972, no regresso de Angola e na passagem à disponibilidade. Entre essas duas datas, ficou um tempo cheio — de aprendizagens, de desafios, de saudades e de crescimento.
Há datas que se inscrevem na memória como marcos incontornáveis. Não apenas pelo que nelas aconteceu, mas pelo que, a partir delas, deixámos de ser. Janeiro de 1969 foi uma dessas datas: o início de uma transformação silenciosa, feita de disciplina, de adaptação e de resistência. Março de 1972, por sua vez, representou o regresso — não ao ponto de partida, mas a uma nova versão de si próprio.
Se, noutros tempos, lutar pelo rei era um dever inerente à condição de súbdito, já na República o serviço militar assumia-se como expressão de cidadania — um compromisso do homem livre para com o Estado. E foi nesse espírito que se trilhou este caminho: não sem dúvidas ou receios, mas com a consciência de estar a cumprir uma missão.
Pelo meio, ficaram os dias comuns — aqueles que raramente entram nos livros de História, mas que moldam quem os vive. Os exercícios, as rotinas, as camaradagens improvisadas, as cartas escritas à distância, os silêncios partilhados. E também os momentos captados em fotografia: fragmentos de tempo que hoje contam, sem palavras, aquilo que a memória por vezes já não alcança.
Angola foi o cenário de uma parte decisiva desta viagem. Terra distante, de contrastes fortes, onde o tempo parecia correr de outra forma. Ali, entre o calor, a incerteza e a saudade, forjaram-se laços e consolidou-se uma forma de estar — mais firme, mais consciente, mais humana.
Esta não é apenas a narrativa de um percurso militar. É, acima de tudo, o testemunho de uma travessia interior. Uma história feita de momentos simples, de imagens guardadas e de experiências que deixaram marca para toda a vida.
Porque, no fim, há viagens que nunca terminam verdadeiramente — continuam a viver em nós, nas memórias que preservamos e nas histórias que escolhemos contar.
Bucos – Arco de Baúlhe
De Autocarro
A viagem começou em Bucos, no dia 4 de janeiro, na minha terra natal, num percurso curto mas carregado de significado. O destino era o Arco de Baúlhe, mais precisamente a sua estação ferroviária — o primeiro passo concreto rumo à integração no serviço militar.
Foi uma deslocação simples, feita de autocarro, tranquila e sem sobressaltos. A paisagem familiar acompanhava o caminho, como se quisesse suavizar a importância do momento. Cada curva, cada lugar por onde passávamos, fazia parte do meu universo de conhecimento, tornando a viagem quase íntima, próxima, segura.
Ao chegar ao Arco de Baúlhe, não havia surpresa nem estranheza — apenas a consciência de que algo maior estava prestes a começar. Aquela pequena viagem, tão comum em aparência, marcava na verdade a transição entre dois tempos: o da vida conhecida e o de uma nova etapa, feita de desafios, responsabilidades e descobertas.
Foi ali, nesse percurso breve e sereno, que dei o primeiro passo de uma longa jornada.
ESTAÇÃO DE EMBARQUE ARCO DE BAÚLHE, JANEIRO DE 1969, COM DESTINO A MAFRA.
Estação Ferroviária de Arco de Baúlhe
PEQUENA HISTÓRIA
"A construção da Linha do Tâmega iniciou-se em Março de 1905, tendo o primeiro troço, entre Livração e Amarante, sido inaugurado a 21 de Março de 1909.
O primeiro comboio chegou ao Arco de Baúlhe por volta das 15 horas de 15 de Novembro de 1948"
"Devido ao reduzido movimento, o troço entre Arco de Baúlhe e Amarante foi encerrado ao serviço em 1 de Janeiro de 1990".
BUCOS – ARCO DE BAÚLHE – MAFRA
Esta foi uma viagem longa, arrastada no tempo e exigente no corpo e no espírito. Um percurso feito em etapas, com mudanças sucessivas e a sensação constante de afastamento do ponto de partida. Para lá chegar, utilizei quatro meios de transporte: autocarro, comboio, comboio e, por fim, táxi.Saí de Bucos, passando por Cabeceiras de Basto e Arco de Baúlhe, rumo à estação ferroviária que me levaria mais longe.
Segui depois por Livração, Campanhã, no Porto, até alcançar Mafra, já noite dentro. Cada paragem era um pequeno marco, um avanço no mapa e, ao mesmo tempo, um distanciamento daquilo que me era familiar.A primeira mudança de comboio aconteceu na Livração, término da linha do Vale do Tâmega. Uma estação pequena, quase intimista, onde os comboios aguardavam uns pelos outros com uma paciência e humanidade difíceis de imaginar nos dias de hoje.
Havia ali uma simplicidade acolhedora, uma espécie de cumplicidade silenciosa entre viajantes e ferroviários.De seguida, embarquei num comboio da linha do Douro até Campanhã, no Porto. Foi, talvez, o trecho mais belo da viagem. As paisagens deslumbrantes sucediam-se pela janela, oferecendo um contraste sereno à inquietação interior.
Até esse momento, tudo corria pelo melhor.A segunda mudança deu-se no Porto. Ali, apanhei o comboio com destino a Mafra, numa viagem longa, que se prolongou por cerca de seis horas. O cansaço começava a instalar-se, e o tempo parecia ganhar outra dimensão — mais lento, mais pesado.Foi durante esse percurso que surgiram dois companheiros de carruagem, também eles a caminho de Mafra e da Escola Prática de Infantaria.
A conversa nasceu naturalmente, e com ela veio um alívio inesperado. A partilha de experiências, de expectativas e até de receios tornou o peso da viagem mais leve.Ficou então evidente a importância das pessoas junto das pessoas. Quando já me deixava vencer pelo incómodo e pela duração do trajeto, surgiram aquelas presenças que transformaram o momento.
O que parecia um dia difícil suavizou-se no diálogo e na identificação com quem vivia uma realidade semelhante.Cheguei à estação de Mafra já de noite. O último troço foi feito de táxi, num silêncio que contrastava com o movimento interior do dia vivido. Finalmente, alcancei o destino: o quartel da Escola Prática de Infantaria, em Mafra.
Ali terminava o primeiro dia de viagem. E, ao mesmo tempo, começava tudo o resto.
Escola Prática de Infantaria
MAFRA
Pequena História
"A Escola Prática de Infantaria (EPI) MHTE • MHA • MHL era um estabelecimento de ensino do exército português, cujo objetivo é a formação de tropas na arma de infantaria. Este estabelecimento estava instalado em parte lateral do edifício do Convento de Mafra, na vila de Mafra.
Foi criada em 1890 e desativada em 2013, passando as suas funções para a Escola das Armas.
A designação da EPI é alterada para "Escola de Tiro da Infantaria", em 1911. Em 1926, é reestabelecida a anterior designação de "Escola Prática de Infantaria".
A Escola Prática de Infantaria foi desativada a 1 de outubro de 2013, na sequência de unificar as diversas escolas práticas das armas do Exército numa única Escola das Armas"
Palácio Nacional de Mafra
História
"Por vontade real, o projecto inicial de um convento para 13 frades foi sucessivamente alargado para 40, 80 e finalmente 300 frades, uma Basílica e um Paço Real. No entanto, à data da sagração da Basílica, 22 de Outubro de 1730, apenas estavam abertos os alicerces do que viria a ser o Palácio, que apenas começou a ser construído nos anos seguintes, sendo dado como concluído perto de 1735.
A vida de Corte no Palácio de Mafra ao tempo de D. João V foi relativamente escassa, pois o Rei adoeceu gravemente em 1742 e morreu em 1750."
Aqui se instalou toda a Corte no ano de 1806/1807, na atribulada época que precedeu as Invasões Francesas.
Em Dezembro de 1807, as tropas francesas alojaram-se no Palácio sendo, alguns meses depois, substituídos por uma pequena fracção do exército inglês que aqui ficou até Março de 1828.
" O Palácio de Mafra está também associado ao fim da monarquia em Portugal, pois acolheu o rei D. Manuel II na última noite que passou no reino antes da sua partida para o exílio".
TRÊS MESES EM MAFRA, Como Cadete
Foram três meses difíceis. Muito difíceis.
Nunca fui pessoa de desistir. Sempre enfrentei os desafios com determinação.
Mas o aborrecimento constante, acumulado ao longo do tempo, marcou profundamente a minha passagem por aquela Unidade. A instrução militar foi dura, sofrida — mas foi cumprida.A transição da vida civil para a vida militar foi uma rutura total.
Até então, apesar das dificuldades próprias da época, tinha os meus amigos, a minha rotina, uma vida estável. A tropa levou-me isso tudo de forma abrupta. Deixei de ter nome — passei a ser um número. A alimentação era fraca, as provas físicas exigentes até à exaustão, e as provas psicológicas, muitas vezes, arrasadoras.
Recordo-me bem das instruções noturnas. Caminhávamos pela Tapada de Mafra, com o mato à altura do corpo, avançando às escuras, entre o cansaço e a tensão. Rastejávamos por túneis estreitos, com pouco mais de um metro de altura, mergulhados em água que nos chegava ao pescoço. Eram exercícios que punham à prova não só o corpo, mas também os limites da resistência mental.
Outras vezes, as instruções começavam às dez da noite. Por volta da meia-noite, quando regressávamos ao quartel completamente exaustos, ainda ouvíamos: “vamos dar mais uma voltinha”. Era um prolongar do esforço até ao limite. Foram dias duros — marcantes.Ainda hoje, sempre que volto a Mafra, sinto um arrepio.
A memória desse tempo não é leve. Foi uma fase traumatizante, em parte devido aos ferimentos sofridos por vários camaradas, consequência da dureza — por vezes excessiva — da instrução ministrada.Cheguei a ser indicado pelo Comandante de Pelotão para prestar provas para os Comandos, mas recusei por motivos pessoais. Mais tarde, quando considerei a Força Aérea, acabei por ser preterido — uma decisão que senti como injusta.Durante o primeiro ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, houve vários incidentes. No meu pelotão, dez soldados-cadetes ficaram feridos. Noutro pelotão, ocorreram também situações graves. Houve ainda episódios perigosos, como travessias de rio em que alguns quase se afogaram, sendo salvos pelos próprios companheiros.O problema maior estava na forma como muitos eram tratados — sobretudo os que tinham mais dificuldades. Havia momentos em que se assistia a atitudes desumanas, palavras duras, situações difíceis de compreender.
Lembro-me de episódios extremos que deixavam marcas profundas, físicas e emocionais.Num desses momentos, um incidente partiu-me os óculos. Por precaução, o médico da unidade enviou-me para o Hospital Militar da Estrela, em Lisboa. Foram três dias diferentes — talvez os melhores de toda a recruta. Depois da consulta, tínhamos liberdade para passear pela cidade. Foi um breve alívio, uma espécie de pausa necessária.
A dureza da instrução fazia-me, por vezes, lembrar cenários quase irreais, onde a pressão constante parecia querer transformar as pessoas à força. Na última operação, durante a travessia do rio Lizandro, já com o cansaço acumulado e o desgaste no limite, surgiu uma reação coletiva. Uma revolta silenciosa que ganhou forma — não por indisciplina, mas por saturação.Valeu a intervenção do comando superior, dos médicos e dos enfermeiros.
A situação acalmou, mas deixou marcas. Foi um momento de afirmação — uma resposta àquilo que muitos consideravam excessivo.
Fica a pergunta: terá valido a pena, como forma de “endurecimento”? Talvez. Mas a um custo demasiado elevado.Foram três meses que não se esquecem. Não pela glória, mas pela intensidade. Não pela facilidade, mas pela resistência. Uma etapa dura, que deixou cicatrizes — e também, inevitavelmente, alguma força.
JURAMENTO DE BANDEIRA
Mafra
O dia do Juramento de Bandeira ficou gravado na memória como um dos momentos mais marcantes da passagem por Mafra. Depois de semanas de instrução dura, exigente e muitas vezes levada ao limite, chegava finalmente o instante solene em que tudo ganhava um significado mais amplo.
No vasto espaço do quartel, formaram-se cinco companhias do Curso de Oficiais Milicianos, num total de vinte e cinco pelotões. Ao todo, 1.115 soldados-cadetes alinhados com rigor, compondo uma impressionante parada militar. A dimensão do conjunto, a precisão dos movimentos e a disciplina demonstrada criavam um cenário de grande impacto, difícil de esquecer.
Ali, já não éramos apenas indivíduos vindos de diferentes origens. Éramos parte de um corpo coletivo, moldado pela mesma exigência, pelo mesmo percurso, pelas mesmas dificuldades superadas. Cada posição, cada gesto, refletia o esforço acumulado ao longo da instrução.O juramento, proferido em uníssono, carregava um peso simbólico profundo. Representava o compromisso assumido, a responsabilidade aceite e a consciência de que, a partir daquele momento, o caminho militar deixava de ser apenas uma obrigação — passava a ser também um dever honrado.
Foi um instante de contraste: por um lado, a dureza dos meses vividos; por outro, a solenidade e o orgulho daquele momento. Entre o cansaço e a disciplina, entre a memória das dificuldades e a força do coletivo, emergia uma sensação clara — a de ter chegado até ali.Uma parada imponente.
Um juramento marcante. Um momento que ficou para sempre.
Nova VIAGEM DE COMBOIO
Mafra – Vendas Novas
No final de março de 1969, concluída a Instrução Militar e já depois de ter jurado bandeira, chegou o momento de seguir para uma nova etapa.
Na mão, a guia de marcha indicava o próximo destino: a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas.Era mais uma partida.
Desta vez, já com o peso da experiência vivida em Mafra e com uma nova consciência do caminho que estava a percorrer.
A viagem fez-se novamente de comboio. Deixei Mafra para trás e segui em direção a Lisboa, ponto de passagem obrigatório, onde a azáfama da cidade contrastava com o ambiente fechado e rigoroso do quartel que acabara de deixar. Depois, o percurso continuou rumo a Vendas Novas.
Desta vez, a viagem foi diferente. Já não levava apenas incerteza — levava também aprendizagem, resistência e uma noção mais clara do que me esperava. O desconhecido continuava presente, mas já não tinha o mesmo peso.
Entre estações e paisagens, avançava mais um capítulo. Uma nova unidade, novos desafios, e a continuação de um percurso que estava longe de terminar.
Escola Prática de Artilharia,
VENDAS NOVAS
HISTÓRIA
"A Escola Prática de Artilharia (EPA) GOC • MHA • MHL era um estabelecimento de ensino do exército português cujo objectivo principal é a formação na arma de artilharia. As instalações da EPA ficavam em Vendas Novas, no distrito de Évora, no Palácio Real de Vendas Novas..
A Escola Prática de Artilharia tem a sua origem em meados do século XIX (1853) quando o Palácio Real de Vendas Novas, construído no reinado de D. João V, em 1729, para celebrar os casamentos do D. José com a Infanta de Espanha, D. Maria Ana Vitória de Bourbon e do Príncipe das Astúrias Fernando VI de Espanha com a Infanta de Portugal, D. Maria Bárbara, é entregue ao Ministério da Guerra por D. Maria II.
A Escola Prática de Artilharia foi desativada a 1 de outubro de 2013, na sequência da decisão de se unificar as diversas escolas práticas das armas do Exército numa única Escola das Armas"
TRÊS MESES EM VENDAS NOVAS
Em abril de 1969, apresentei-me na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, para iniciar a minha especialidade como atirador de artilharia. Era mais uma etapa no percurso militar, agora com um carácter mais técnico e direcionado. No entanto, na prática, a especialidade acabaria por resumir-se, em grande parte, à espingarda G3 — arma que viria a ser a minha companheira constante durante mais de dois anos em Angola.
O meu instrutor era o Tenente Rodrigo Sousa e Castro, mais tarde Capitão de Abril, hoje Coronel na Reserva. Homem de postura firme, mas com sentido de medida, marcou positivamente a instrução. A seu lado, também o Tenente Freixo se destacou pelo equilíbrio, pela forma de estar e pela relação que estabelecia com os cadetes — havia ali um “savoir faire” que contrastava com experiências anteriores.
Durante este período, fomos sendo preparados não só fisicamente, mas também psicologicamente para a realidade da guerra do ultramar. Ao mesmo tempo, alimentava-se uma expectativa: dizia-se que os melhores classificados poderiam ficar a dar instrução e, assim, evitar a mobilização. Era, talvez, uma forma de incentivo — e também uma esperança a que muitos de nós nos agarrávamos.
A instrução começava, geralmente, com aulas teóricas. Falava-se de guerra subversiva, emboscadas, minas, golpes de mão, assaltos a objetivos, orientação na mata, cuidados nas deslocações e comportamentos a adotar com as populações locais. Era um ensino sistemático, orientado para um cenário real que se aproximava a cada dia.
Apesar da exigência, a vida em Vendas Novas foi mais suportável. Talvez porque já trazia a adaptação de Mafra, talvez pela postura dos instrutores. Ainda assim, não faltavam a ordem unida, a preparação física, as instruções noturnas e o ritmo intenso do quotidiano militar. Uma das maiores dificuldades foi, curiosamente, o frio — particularmente sentido durante as longas noites de treino no terreno.
Grande parte do tempo era passada no polígono de Vendas Novas, uma vasta área militar, com hectares de terreno, mato e instalações como o paiol da Escola. Ali, os instrutores procuravam recriar cenários de guerra, aproximando-nos o mais possível daquilo que poderíamos vir a enfrentar. Treinava-se com seriedade, mas também com uma consciência silenciosa do que estava em causa.
Embora a mobilização fosse, na prática, o destino da maioria, havia sempre exceções — raras, mas suficientes para manter viva a esperança. Ao longo do curso, essa ideia era reforçada: os melhores poderiam escapar. E eu, tendo ficado bem classificado, comecei a acreditar nessa possibilidade.
Mas a realidade impôs-se rapidamente.
No início de setembro de 1969, chegou a notícia que mais temia. Transmitida pelo Comandante da Unidade, não deixava margem para dúvidas: estava mobilizado para cumprir serviço na província de Angola. Iria integrar a CART 2671.
Nesse momento, terminou a esperança — e começou, verdadeiramente, a consciência do que estava por vir.
FINAL DE CURSO DNA ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA
Junho de 1969
Em junho de 1969, concluí a minha formação de Cadete na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, sendo promovido a Aspirante Miliciano. Era o culminar de meses de instrução exigente, de aprendizagem intensa e de adaptação a uma realidade completamente distinta daquela de onde tinha partido.
A saída da Escola não foi apenas o fim de uma etapa — foi, sobretudo, o início de uma nova responsabilidade. Já não era apenas um instruendo; passava a assumir funções com outro peso, com outra exigência, com uma consciência mais clara do papel que me caberia desempenhar.
Levava comigo os ensinamentos adquiridos, a disciplina interiorizada e a experiência acumulada ao longo daqueles meses. Mas levava também a incerteza do futuro, agora mais próxima e mais concreta.
O posto de Aspirante Miliciano representava mais do que uma graduação. Era um sinal de confiança, mas também um compromisso acrescido — comigo próprio, com os homens que viria a comandar e com a missão que me aguardava.
Saí de Vendas Novas diferente de como tinha chegado. Mais preparado, talvez. Mais consciente, certamente.
E com a sensação clara de que o caminho que se seguia seria ainda mais exigente.
NOVA VIAGEM
De Comboio
Vendas Novas – Vila Nova de Gaia – Penafiel
Seguiu-se mais uma etapa, mais uma viagem de comboio, desta vez com destino ao RASP, Vila Nova de Gaia. Recepcionado pelo Major Matos, fui informado, que não haveria lugar nesta unidade, no momento, porque o .quadro estaria completo. Mas iria consultar o Quartel General para transmitir nova informação. No dia seguinte, seguiria para Penafiel, RAl 5, por indicação superior
A viagem, feita sempre sobre carris, transportava não apenas o corpo, mas também uma nova condição: já não era apenas um formando — era agora Aspirante Miliciano, com responsabilidades acrescidas e um papel mais definido dentro da estrutura militar.
Em Penafiel, surgiu a minha primeira experiência profissional relevante: fui colocado como Chefe da Secretaria do Regimento. Um cargo que exigia organização, rigor e discrição. Coordenava a elaboração da ordem de serviço diária, organizava a agenda do Comandante da Unidade, levava a despacho os documentos produzidos, dava conhecimento do correio recebido e tratava da datilografia de documentação confidencial.
Para uma primeira experiência, foi um desafio interessante. Permitiu-me aplicar, na prática, conhecimentos adquiridos anteriormente, nomeadamente o curso de datilografia que havia frequentado na Escola Tecla. Foi uma fase de aprendizagem útil e estruturante.
Mas, como diz o ditado, “não há rosas sem espinhos”.
Alguns Oficiais Superiores mantinham um certo distanciamento. A relação era formal, por vezes fria, refletindo também a postura do próprio Comandante da Unidade — reservado e pouco presente no dia a dia, deslocando-se frequentemente para a Régua, sua terra natal. Nessas ausências, ficava muitas vezes a meu cargo a transmissão de orientações.
Essa situação nem sempre era bem recebida. Houve ocasiões em que escutei respostas claras: “não recebo ordens de si, mas sim do Comandante”. Eram momentos delicados, que exigiam equilíbrio, contenção e consciência da posição que ocupava.
Após o toque da ordem, o quartel esvaziava-se. Permaneciam apenas os oficiais residentes, já que não existiam instalações para todos. Instalava-se então um ambiente mais silencioso, quase introspectivo, diferente da agitação do dia.
Foi também em Penafiel que conheci o Major Corvacho, figura que mais tarde viria a assumir um papel relevante após o 25 de Abril, como Comandante da Região Militar do Norte.
Esta etapa, feita entre viagens e novas responsabilidades, marcou o início de um percurso mais ativo e interventivo dentro da vida militar — com desafios próprios, aprendizagens constantes e a consciência crescente do lugar que passava a ocupar.
Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5
"O Regimento de Artilharia N.º 5 (RA5) é um órgão de base da Componente Fixa do Sistema de Forças do Exército Português. O RA5 encontra-se sediado no antigo Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia.
O RA5 funciona como centro de instrução geral de praças para o Exército.
O Regimento de Artilharia N.º 6 (RA6) foi criado em Penafiel em 1889. Em 1901 o RA6 passa a ser uma unidade de artilharia montada, sendo transferido para a Serra do Pilar em 1911. Em 1926, o RA6 passa a designar-se "Regimento de Artilharia N.º 5" e em 1927 passa a ser "Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5 (RAL5)" voltando a aquartelar-se em Penafiel, até ser extinto em 1975."
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